terça-feira, janeiro 13, 2015

Um exemplo de sabedoria


Corria o ano de 1970 e eu havia saído da Nova Proudon, que cerrara as portas devido às loucuras do seu dono, que jogou pela janela uma agência que havia crescido, tinha até filial em Belo Horizonte e, de lambuja, entre outras, a conta da Itambé. Fora as do Rio, como a Servenco (1), que à época já propiciava trabalhos bastante criativos e inovadores, a Chosil, a Crisauto ou a Adocyl, cujo lançamento nacional foi feito naquela agência.

Acabei indo trabalhar numa gráfica em São Paulo, a Sografe, que editava uma revista mensal chamada AB-Alimentos e Bebidas. Foi uma senhora experiência diagramar aquela revista, numa saleta ao lado das máquinas que a imprimiam. Isto porque pude aprender muito do processo gráfico, coisa que me foi muito útil numa época em que tudo era artesanal e o conhecimento dessas particularidades técnicas era dominado por poucos diretores de arte, limitando-se mais ao universo dos produtores gráficos.

Para se ter uma idéia, após criar e aprovar os leiautes de cada número, eu fazia a produção, determinava a fonte e calculava o corpo. Depois vinham tiras de celofane com o texto impresso. As cortava e colava com vasilina em grossas folhas de astralão (2), com um gabarito sobre uma mesa de luz, utilizando pinças para manuseá-las, além de réguas e esquadros para manter o esquadro. Uma tarefa precisa, que requeria uma atenção redobrada. As folhas saiam dali e ia-se fazer o fotolito, etapa que eu acompanhava por inteiro. Em seguida, chapas devidamente gravadas, entrava em máquina. Para mim, era só cruzar uma porta e ver duas Solnas (3) maravilhosas a trabalhar. Era emocionante ver tudo aquilo se transformar na revista impressa e tê-la em mãos.

Meses depois, recebi uma proposta e fui trabalhar numa agência, a De Mello & Leonardo, que funcionava no mesmo prédio e cujos donos eram amigos do pessoal da gráfica. Um dos sócios dela era o Zuza Homem de Mello, dos maiores experts do país em música, especialmente o jazz. Tínhamos ótimos papos sobre isso e muito aprendi sobre um gênero musical que sempre me interessou muito. A agência era pequena, no entanto fiz bons trabalhos ali, pois tinha contas como, por exemplo, a Champion Celulose, fabricante de papéis que propiciava a criação de peças criativas, desde embalagens a anúncios em revistas.

Mas, minha mãe tinha uma grande amiga – que eu até chamava de tia –, e conhecia muito a Teresa, casada com o Mauro Salles. E a Salles Interamericana era na época uma das mais promissoras agências que surgiam no Brasil. Com sede em São Paulo, começara seu vôo num quarto do Hotel Jabaquara, onde os profissionais que a fundaram criaram, na calada da noite e a “sete chaves”, a campanha para o “Modelo M” da Willys Overland do Brasil, o carro que viria a ser o Aero-Willys. Depois, com a conta na mão, Mauro fundou a agência.

Consegui agendar um encontro com ele, que me recebeu com muita atenção e boa vontade, tendo me mostrado todas as instalações da sua agência, inclusive me apresentado a outros profissionais. Ao final, disse que assim que tivesse alguma coisa me avisava. Eu saí dali radiante, mas, passou o tempo e não surgiu nada. Alguns anos depois, trabalhando na Salles, agência para qual fui por outros caminhos, os meus mesmos, a conversar com o Mauro, tocamos no assunto e ele me disse que eu estava ali pelo meu próprio mérito, fato que o deixava muito feliz.

Naquele dia eu compreendi muito da sabedoria de Mauro Salles (4)...

(1) A Imobiliária Servenco foi a conta que originou o surgimento da Estrutural Propaganda, que, sob a direção de Rogério Steinberg, foi uma das agências mais criativas do Rio de Janeiro, e porque não dizerdo Brasil em todos os tempos.

(2) Astralão é conhecido no Rio como acetato.

(3) Solna é uma marca de impressoras suecas de grande qualidade.

(4) Existem alguns casos em que o Mauro Salles é citado neste blogue, mas outro caso que vale a pena ser lido – até por um exemplo de sabedoria – foi publicado em 5 de março de 2007.

quinta-feira, janeiro 01, 2015

O “caso” do papo no Garden

Este caso foi publicado neste blogue em janeiro de 2007. E o estou republicando em homenagem a um dos personagens que deixou saudades neste pedaço...

Era dessas tardes de domingo, em que não se tem muito o que fazer. Aliás, existe coisa mais chata do que uma tarde de domingo? Bom, o certo é que às vezes, a gente sem querer acerta um desses programinhas, que ficam até agradáveis, apesar do dia. Foi o que aconteceu naquela tarde. Toninho Lima, eu, e respectivas famílias, traçando pizzas no Garden. O certo é que nós estavamos lá, papo vai, papo vem --o negócio em tardes de domingo é jogar papo fora pra ver se o dia consegue passar menos dolorosament- -, e, eis que surge o Pedrosa. Naquele tempo, o Garden tinha uma mureta aberta e um toldo.

O Pedrosa passou ali. Ele também nos viu e começamos a conversar. E a dita conversação estendeu-se por, sei lá eu, talvez uns cinco, seis minutos. A verdade é que estava agradável. O Pedrosa com aquele seu jeito desligado, encostado na mureta do Garden, a cinza despencando de seu cigarro. Ele acende o cigarro, e apaga algum tempo depois. De resto, deixa a cinza cair. De repente, incomodado pelo fato do Pedrosa estar de pé ali fora do bar, o Toninho virou-se para ele e disse:

-- Pô, bicho, entra e senta com a gente na mesa...

-- Ih, é mesmo. Quer dizer... eu estava aí dentro com o meu pessoal e fui comprar cigarro. Bom, deixa eu entrar e ficar com eles. Respondeu o Pedrosa esboçando um sorriso.

Grande Pedrosa...

terça-feira, dezembro 30, 2014

Êêêê... Megaceenaaa...


Um filme que parte de uma ideia simples: pega uma música conhecida e que tem uma fonética semelhante ao produto a ser vendido, pois a palavra “Macarena” e “Megasena” são muito semelhantes. 
Assista na postagem abaixo Mega da Virada” filme criado pela  Heads Propaganda  para a Caixa Econômica Federal.
 
Direção de Criação: Saulo Angelo e Fábio Miraglia
Redação: Saulo Angelo
Direção de Arte: Adolfo Palhares
RTV e Art Buyer: Fabiano de Proença
Produção Gráfica: Varlei Santos

 

Mega da Virada 2014

terça-feira, dezembro 23, 2014

Kirovisky Holmes, seu cachimbo e a agente laranja

ESTA FOTO FOI TROCADA A PEDIDO DO LEITOR CANTIDIO!

Victor Kirovsky com seu indefectível cachimbo, preocupado com a campanha de lançamento da Fanta Laranja em 1965...

Detalhe: nesta época, o Vic vestia terno com gravata, colete e dirigia um Jeep da Willys Overland, com capota de lona...

segunda-feira, dezembro 22, 2014

“Casos” que o Pedrosa contou – 2


O “caso” do nome errado

Uma ocasião escrevi para o Pedrosa acerca de um comentário (meio tolo) que lhe fizera um dia, quando estava fazendo um frila na Contemporânea, sobre o fato de que, ao invés de Carlos, seu nome ficaria mais “rimante” se fosse Pedro. E ele me respondeu o seguinte:

“Caro Jonga: então, a propósito, existe um bando de dinossauros que ainda me chama de Pedro até hoje. Pelo seguinte: houve uma prisca era em que eu tinha secretária e costumava fazer memos internos à mão, com caneta ou lápis. A secretária então datilografava e ia distruibuindo para os copiados.
Pois aconteceu de entrar uma nova secretária, coitada, que logicamente não estava habituada com a minha letra. Bateu o primeiro memorando direitinho, localizou todos os destinatários, menos o último.
  
Saiu então ligando para cada um dos departamentos, que eram muitos, e ninguém conseguia ajudá-la a achar aquele desconhecido funcionário, que era, claro, um certo Pedro Sá, que foi como a pobre moça entendeu os garranchos com que eu escrevera meu próprio último nome.
  
E assim, durante muitos e muitos anos após, eu fiquei sendo Pedro Sá, e depois, simplesmente Pedro.”
  

quinta-feira, dezembro 18, 2014

O "caso" da mijada


Acho que é um dos casos mais lembrados da propaganda mineira, por isto mesmo não poderia deixar de contar, muito embora não o tenha presenciado. Mas de fato, a historinha é tão famosa que já foi contada das mais diversas formas e até com pessoas trocadas. Talvez, quem sabe, a que vou contar também não seja a verdade verdadeira, mas, pelo menos a ouvi de fontes mais ou menos confiáveis.

Naqueles "bons tempos" da prancheta, cola de sapateiro e do pastup, o Ajuricaba Brasil, que então trabalhava no estúdio da Asa, preparava-se para varar uma daquelas memoráveis “madrugadas inesquecíveis” de anúncios de varejo, quando de repente surge o diretor de marketing da conta que mais uma vez estava provocando aquele habitual tumulto de sexta-feira.

O cliente começou naquela de dar um palpitezinho aqui, outro ali, em suma, cumprindo o papel de todo ‘cliente pentelho e incherido’. Lá pras tantas, este vira-se para o nosso herói e comenta:

- É, cara, acho que se eu morresse, você iria dar uma mijadinha no meu túmulo, não é?

O Ajuricaba, olhou prum lado, olhou pro outro, e calmamente virou-se para o cliente arrematando:

- Que nada... eu detesto filas.


quarta-feira, dezembro 17, 2014

“Casos” que o Pedrosa contou – 1


Este “Caso” foi originalmente postado em 25 de março de 2011. Pretendo republicar todos desta série, em homenagem a esta saudosa figura icônica da publicidade...

A imagem acima é meramente ilustrativa

Quem disse que eram “meias” trocadas?

Pedrosa é tido e havido como alguém muito desligado. Um dia, comentei em uma correspondência com ele, entre outros assuntos, um caso que sempre ouvira sobre uma suposta troca de meias que há tempos circula no mercado publicitário. Bom, ele me respondeu da seguinte forma:

“(...) O outro é a história das meias trocadas. Mero folclore. Nunca aconteceu, simplesmente porque eu detesto usar meias, e devo tê-lo feito ao longo da vida em umas cinco ocasiões: uns quatro casamentos e um funeral, com licença do Hugh Grant.
A história ocorreu sim, uma única vez, mas a troca foi de sapatos. Isso,no entanto, se deu há muitos e muitos anos e foi antes que eu fizesse terapia. Graças à terapia, nunca mais sai de casa com sapatos descasados.
Só fico remoendo o seguinte: como meu tratamento durou 15 anos e como cada sessão custava o equivalente a dois pares de sapato de primeira, eu poderia, em vez de fazer análise, ter acumulado cerca de 3.600 pares da mesma cor e ninguém ia notar quando trocasse.

Você há de convir, caro Jonga, que se eu tivesse hoje 3.600 pares de sapato, além de estar rico, colocaria a Imelda Marcos no chinelo.”