quarta-feira, dezembro 27, 2006

O "caso" do passepartout

Victor Kirowsky pediu ao Saulo Silveira - na época ainda um estagiário - para colocar um passepartout em um anúncio marcado por este. Naquele tempo, as apresentações de layouts podiam ser simples (somente num duplex) ou em cartão Paraná, com um passepartout (geralmente feitos em papel chrome-cout) para dar um acabamento melhor. É importante ressaltar que ainda não existia o cartão pluma, que surgiu bem mais recentemente.

Acontece que meu amigo Saulo é surdo. E entendeu que era para passar pro Artur. E foi o que ele fez, naturalmente.

Puto da vida, o Artur Denegri foi tomar satisfações ao Vic sobre aquela atitude. Afinal de contas, este havia passado um anúncio já marcado, obviamente para alguma tarefa de estúdio. E isso, para ele, um diretor de arte, era humilhante. Até porque, com relações cortadas com o ianque, qual seria a intenção deste?

Deu a maior das quizumbas. O Artur entrou na sala do Vic peito estufado, punhos serrados, pronto para o confronto final.

Havia pouco tempo, o mesmo Denegri rolara o pau nos corredores da agência com o Álvaro (o produtor gráfico), devido a uma divergência qualquer da qual não me lembro exatamente a origem. A coisa foi feia. Não fosse uma galera que imobilizou os dois e teria tomado proporções maiores do que os óculos que saíram rolando pelo chão ao primeiro embate.

Após uma discussão inicial, o Vic conseguiu convencer o oponente de que apenas havia pedido ao Saulo para mandar colocar um passepartout, e que este entendera passe pro Artur.

No final das contas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

O "caso" do bom dia... ou boa tarde

Não me lembro o que o Mauro Matos dizia quando chegava. Se era bom dia ou boa tarde. Só sei que sempre chegava depois do meio dia. Embora nunca foi de sair antes das 22 horas. A única coisa meio chata é que não queria que ninguém fosse embora no horário, e sempre que podia, ‘pegava’ alguém. Esquecia completamente que a gente chegava pela manhã. E ralava pra cacete. Tanto na L&M, quanto na Contemporânea; nas duas vezes em que trabalhei com ele.

Idem o Duda Mendonça quando voltava de seus passeios de escuna, lá pelo pôr do sol. Justiça seja feita, o Duda não chegava tarde todo dia. Tinha vezes que madrugava na agência. Mas, de vez em quando... aí mesmo é que, descansado, inspirado e bronzeado, convocava uma reunião com toda a criação que nunca acabava antes de três horas do momento que começara.

Houve uma época, na publicidade em que se entrava realmente muito tarde no trabalho. Eu, que tinha o costume de chegar lá pelas dez, dez e meia da matina, na maioria das vezes era o primeiro a adentrar o recinto. Mas, isso era hábito em função das viradas da noite anterior. O certo é que acabou virando rotina, mesmo que não houvesse existido a tal virada. Talvez uma reserva tática para a que poderia acontecer no dia seguinte.

Também, naquele tempo os almoços, às vezes chegavam a duas horas e meia ou três de duração. E como se bebia. Sexta feira, nem falar, era costume encher a cara em verdadeiras orgias gastroetílicas. Tinha gente que nem voltava pra agência.

Quando a Livre Propaganda Brasileira fechou*, eu fui trabalhar na JMM de Belo Horizonte. Fazia dupla com o Hermínio Naddeo, que me convidou para ir para aquela agência na qual ingressara, recém chegado do Rio.

A criação da JMM era privilegiada naquela casa da Cidade Jardim, bairro nobre da cidade. A casa tinha um belo gramado na frente, e a recepção era pela lateral direita. Nós entrávamos direto, atravessando o referido gramado e ficávamos num grande jardim de inverno em “L”, cuja única porta se comunicava com o RTVC.

Mas eu disse única porta. Porque havia uma janela em que ficava o Renato Bergo, o diretor financeiro, departamento pessoal, etc da agência. E que, naturalmente, via e ouvia tudo o que rolava por ali.

O Hermínio e eu ficávamos no lado de lá do “L”, ou seja, depois que entrávamos, uma porta de vidro até nos deixava um pouco mais isolados. Mas, a outra dupla era completamente vulnerável. Suas mesas ficavam embaixo da janela do diretor.

Para agravar, o redator, o Orlando era mestre em chegar tardíssimo devido às suas conhecidas e memoráveis noitadas. No entanto, adquiriu uma técnica de sorrateira e silenciosamente, meio que curvado aproximar-se, e de sopetão sentar-se em sua cadeira, sem que o Renato percebesse o momento exato. Desde que não notasse aquele seu semblante de ressaca braba.

Um belo dia, Orlando fez o seu percurso como de hábito. Ao sentar-se, seu dupla tacou um “Boa tarde Orlando” bem alto e firme. Foi uma gozação geral. Até o Renato Bergo se cagou de tanto rir.

(*) A Livre Propaganda Brasileira, uma das mais criativas agências que já existiu nas Gerais fechou porque, tendo sido indicada pelo Hélio Garcia, então governador de Minas, fez parte do pool de agências que elegeu Newton Cardoso. Acontece que o Newtão, não gostava do Hélio, até porque este não o apoiara na convenção do partido. Resumo da história: quando assumiu, o movo governador retirou as contas de governo de todas as agências que haviam sido indicadas pelo seu antecessor. A Livre não “güentou” o tranco. Até porque quase todas as suas contas eram de governo.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

O “caso” do Xeque-mate

Luiz Fernando Favilla foi meu dupla muito tempo. Trabalhamos em três agências cerca de cinco anos seguidos. Favilla escreveu este caso que foi publicado no jornal do CCRJ em 1998.

Meados de janeiro na L&M Propaganda. Mil novecentos e setenta e tantos. Jonga Olivieri e eu tínhamos acabado de entregar uma campanha para a Embratel e, finalmente, estávamos sem ter o que fazer. Sentávamos um em frente ao outro em nossa pequena sala de 3x3. Ao lado, Toninho Lima e Marquinhos Guedes davam retoques finais em mais um filme para a Casa Tavares. Para não incomodá-los, resolvemos jogar uma partida de xadrez. Só havia um problema: não tínhamos tabuleiro.

Jonga propôs jogarmos assim mesmo, em um tabuleiro imaginário onde as peças seriam vidros de guache, borrachas, marcadores e todos os apetrechos que usávamos no trabalho. Num exercício lúdico, visualizamos os quadradinhos pretos e brancos e iniciamos aquele jogo surrealista. Passado algum tempo, Mauro Matos entrou, comentou alguma coisa e saiu resmungando sincronizados tiques nervosos, pois não lhe demos a mínima. Em seguida foi a vez de Lindoval de Oliveira chegar. Olhou, soltou uma piada e saiu rindo sozinho. Trinta e poucos minutos depois, concentradíssimos, nem demos atenção ao Victor Kirovsky, que adentrou a nossa sala com seu inseparável cachimbo.

Ele ficou em silêncio durante alguns instantes, observando os movimentos de borrachas, marcadores, pincéis, esquadros, conta-fios etc.

Com aquele sotaque mesclado, de repente nos surpreendeu com a pergunta:

- Quem está com as peças brancas?

- Eu – responde Jonga, sem desgrudar os olhos do tabuleiro imaginário.

- Well – arremata Vic -, sinto muito, but você levará um cheque-mate em três lances – proferiu, retirando-se em seguida com o seu andar de Jacques Tati.

Fiquei abestalhado. Além de conseguir captar nossa louca partida, Vic ainda percebeu a estratégia do jogo. Jonga ficou em silêncio durante dois longos minutos. Depois baixou o Guache/Rei desistindo do jogo e continuou:

- Puxa, parceiro, você sacrificou seu Cigarro/Rainha e eu nem percebi que seu Pilot/Bispo desguarneceu toda a defesa. Aí, quando seu Isqueiro/Cavalo comeu meu Marcador/Peão do Rei, foi que vi a besteira que tinha feito. Que jogão, hem!
Conversa de loucos.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

O "caso" do soldado no quartel...

Era daqueles dias em que você acaba o trabalho e pensa: “Caramba, ter que enfrentar aquele trânsito pra chegar em casa...”. E, pensando bem resolve dar um tempinho, relaxar um pouco.
Por acaso, foi também um dia em que todo mundo se mandou na hora certa. Não eram sete da noite e a agência estava vazia. Um caso bem raro na L&M, agência que tinha uma vida noturna extensa, natural e diária.

Fiquei entretido na pesquisa de livros de propaganda, observando anúncios e outras peças premiadas. Comecei a me organizar para os trabalhos que teria no dia seguinte. O tempo passou. Lá pelas sete e meia lembrei de sair, finalmente. Pensei com os meus botões que o tráfego já estaria melhor e dava pra voltar pra casa.

Quando ia me levantar da cadeira, senti um movimento na porta da sala. Eis que de repente, surge a figura de Lindoval de Oliveira, o ‘L’ de L&M. Esboçava um sorriso no rosto. Um sorriso de alegria, mas também de alívio por me ver ali.

- Prezado... disse ele cordialmente ...ainda bem que tem alguém na casa! Exclamou.

Em seguida, me chamou à sua sala. Passamos os dois, sozinhos pela agência vazia, até chegarmos à sala dele, que ficava do outro lado do andar.

Foi então que ele explicou que, na manhã seguinte o presidente da Embratel, uma de nossas principais contas, tinha que apresentar umas transparências em retro-projetor.

Eu gelei. Juro que gelei mesmo. Primeiro porque naquele tempo não tinha computador, e as transparências tinham que ser todas desenhadas com marcador especial; uma trabalheira dos diabos. Uma coisa que, desde que planejada dava pra ser feita, mas daquele jeito era um puta dum rabo de foguete. E o pior, tinham algumas bem cabeludas, com mapinhas, setinhas e outros bichos. Em suma, uma bomba que caia de pára-quedas àquela hora da noite.

Normalmente era também um trabalho para ser executado por um arte-finalista, e eu, um diretor de arte, não estando habituado àquele tipo de tarefa penaria muito mais para executar a incumbência.

Bom, só tinha uma coisa a fazer naquela altura dos acontecimentos. Arregacei as mangas e puz-me a executar. Saí da agência no dia seguinte. Ainda me lembro que deixei um bilhete para o Carlinhos Chagas, meu dupla, explicando o que acontecera e a hora que estava saindo. Pois certamente que chegando em casa iria dormir por um bom tempo.

O sol já estava nascendo, e eu, no contra fluxo, pelo menos não peguei engarrafamento nenhum.
Mas, aprendi de uma vez por todas que soldado no quartel, quer é trabalho!

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O "caso" do telefonema anônimo

Aquele ano que passei inteiro na em Salvador - foi um ano em que aconteceram coisas ou ‘casos’ inesquecíveis.

Como aquele da campanha política. Duda estava fazendo a campanha para governador e senador dos candidatos da oposição. Mas, ao mesmo tempo, coisas da vida, meteu-se a fazer a campanha do candidato ao senado pelo partido da situação. Tudo foi correndo bem até que um belo dia calhou de haver uma visita dos dois candidatos com a diferença de poucas horas. Bom! Dá pra imaginar o corre-corre que foi. O ‘tira o retrato do homem, põe o do outro’ que se sucedeu. No fim, entre mortos e feridos salvaram-se todos, mas... ufff!!!

Tem também o caso da origem do nome DM9. Uma ocasião estava eu a conversar com Duda e perguntei o porque do nome. Seriam nove pessoas na época da abertura? Nove sócios? Ou talvez nove fosse o dia, ou mesmo o mês da inauguração da agência? O certo é que nada disso estava certo. O nome DM9 veio simplesmente de uma inversão da letra ‘d’ minúscula e a necessidade de alguma coisa além do DM, que são as iniciais de Duda Mendonça.

Agora, o melhor mesmo foi o dia em que Duda entrou na agência pagando esporro em todo mundo por uma simples razão: ligou da rua, disfarçou a voz e não conseguiu falar com ele mesmo. Não conseguiu sequer chegar perto, tal a quantidade de perguntas e questionamentos.

Depois ele contou pra gente que fez isso porque um cliente havia reclamado de uma situação semelhante.

Não são uns casos porretas? Saravá!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

O "caso" do poeta

Quando o Favilla e eu fechamos a negociação com a Salles o nosso salário era tão alto, mas tão alto, que altas horas da noite, liguei pra casa dele e, griladíssimo, questionei se por acaso a gente não estava enganado. Será que aquele seria o salário da dupla, e não o de cada um de nós? Pau da vida, me mandou dormir ao invés de ficar com elocubrações fantasiosas. Na manhã seguinte ligou de volta dizendo: "Jonguinha, seu puto, você me tirou o sono o resto da noite!".

Mas, ainda bem que eu estava enganado. A verdade é que naquela ocasião, a gente estava mesmo triplicando o salário, e saindo da média para o topo do mercado.

E foi mesmo um período de ouro pra nós. Primeiro, fomos integrar um time de primeira. Ao lado disso, um dos melhores estúdios do Rio de Janeiro. Enfim, tudo o que era indispensável para realizar um puta dum trabalho na era pré-McIntosh. Que aliás foi o que nós fizemos, com garra, tesão e resultados. Ficamos entre as duplas mais premiada do mercado. A nossa campanha dos oitenta e cinco anos da Sul América foi um primor, até porque nós passamos um mês inteiro mergulhados em livros e outras publicações na biblioteca da companhia, cheirando poeira e colhendo dados que fizeram daquela campanha, um marco que culminou com os filmes do barco sendo atropelado por um lotação na praia do Flamengo e o do atirador de facas, que além de tudo foram cuidadosas produções e reconstruções de época.

Mas, voltando um pouquinho atrás, estávamos antes disso na Sinal. A Sinal, que por sinal não existe mais, foi uma agência criada pelo João Moacyr de Medeiros (o JMM), em parceria com o Fernando Barbosa Lima (leia-se Esquire), para atender o Banco Nacional. Funcionava no mesmo casarão da Esquire na rua Marquês de Olinda em Botafogo.

A Sinal era uma agência de piques. Fora as grandes campanhas do banco, a gente ficava ali, entre um folheto e um anúncio, jogando "paredol", uma espécie de basquetinho que nós inventamos e era uma coqueluche dos diabos. Uma agência enxuta, com uma dupla de criação, dois no estúdio, um produtor gráfico, um tráfego, uma secretária e um profissional de atendimento.

Quando o mercado ficou sabendo da nossa contratação, começaram a pintar telefonemas. Desemprego, naquele tempo não existia como hoje, mas por outro lado havia um rodízio muito grande. Quando alguém ia sair de um lugar começava a dança das cadeiras. Fulano ia praqui, Beltrano ia pralí, etc. Era um mexe-mexe dos diabos. Bons tempos!

Um belo dia. Uma dessas manhãs frias e chuvosas de outono, bate na porta o Bernardo Vilhena. O Bernardo, que por coincidência estivera na Salles durante algum tempo, era na época um dos mais badalados profissionais do mercado. Havia saído da Salles para a Esquire, e lá estava, era nosso vizinho de porta.

Bernardo adentrou a sala, sentou-se e começou a explicar que queria ir para o lugar do Favilla. O Favilla e eu começamos a explicar a ele que o Medeiros jamais ia pagar o salário que ele ganhava na Esquire. E aí é que veio a surpresa. O Bernardo falou algo mais ou menos assim:

- Gente, vou contar uma historinha pra vocês. Eu estava na Salles. Aí surgiu esta oportunidade de vir para a Esquire, uma agência mais tranqüila. Eu hoje estou envolvido num projeto de poesia, de letra de música, de parceria com o Ritchie, esse negócio da "Nuvem Cigana". Acontece que na Salles, não me sobrava muito tempo para me dedicar a isto tudo. Por isto topei vir para a Esquire. Acontece que depois da fusão com a Oliveira Murgel, a Esquire virou o mesmo inferno da Salles. Trocando em miúdos, não me sobra mais tempo, saio todo dia tarde. Eu topo, eu topo vir por menos, mas eu quero mesmo é tempo para me dedicar à poesia...

Eu sei que dias depois ele fechava com o Medeiros. Ganhando menos, mas feliz, muito feliz da vida.

segunda-feira, novembro 27, 2006

O "caso" do enjôo

O Marcos Vinícius fez dupla comigo na VS durante mais de um ano.

Começamos a parceria quando eu tinha pouco mais de um mês de casa, e ele já colocou os pés lá dentro com histórias curiosas.

A primeira delas, que não é tão engraçada assim, foi a do dia do pagamento, que coincidiu com o da festa que a agência fazia para comemorar os aniversários do mês. Ao chegar em casa e parar o carro na porta da garagem, o redator foi assaltado. Levaram o seu carro, e detalhe, um envelope. Dentro deste estava o seu salário.

Mas têm casos engraçados mesmo. Um deles por exemplo era o dos poemas e pensamentos que ele escrevia pelas paredes da nossa sala. Eu até delimitei o ponto até o qual ele poderia "grafitar" à vontade, e o meu limite. Coisa que ele sempre respeitou. Além da linha não havia pichação. No entanto, em pouco tempo, o Marquinhos já estava pichando até as paredes do estúdio.

Um belo dia, o Marcos Vinícius voltou do almoço com um puta dum enjôo. Passando mal mesmo! E o pior é que nós tinhamos uma reunião marcada com um cliente.

Enquanto esperávamos, eu comecei a gozar a situação:

- Pô, cara, já pensou você abrir a porta da sala, na hora da reunião, e vomitar na mesa?

E daí, começamos a viajar nesta brincadeira.

Concluindo, houve a reunião e tudo correu às mil maravilhas, não houve nada. Ficaram só umas boas risadas para trás.

Algum tempo depois ele mudou-se para São Paulo.

Um dia, encontrei o Marquinhos no Rio. E, conversa vai, conversa vem e ele me solta esta:

- Sabe, Jonga, eu tenho que lhe confessar uma coisa...

Parou por alguns instantes, o olhar cabisbaixo, envergonhado.

E prosseguiu:

- ...se lembra daquele caso da vomitada?... Bom, seguinte... eu tava com uma galera lá em Sampa... sabe né, eu contei a história como se tivesse realmente acontecido... (pausa maior)... só que eu contei como se houvesse sido com você.

terça-feira, novembro 21, 2006

O "caso" da after six

A história toda começou quando funcionários da McCann-Erickson de Belo Horizonte, entre outros Edgar Mello, Newton Silva, Hélio Faria, Paulo Venâncio, acharam que os seus freelances eram de tal volume, que valia a pena alugar uma sala, e, após o expediente, iniciar uma nova jornada de trabalho que certamente varava a noite e a madrugada. Mas que, sem dúvida, tinha lá suas compensações.

Assim, surgia a ASA (sigla que significava After Six Agency), que, alguns anos depois seria durante um bom tempo a maior agência mineira. E que até hoje é uma agência grande em Minas.

O trabalho que deu o start no desenvolvimento dela foi, sem dúvida a campanha do Pep’s. O Pep’s, para quem não conhece, era um grande magazine mineiro, muito bem localizado à época na rua da Bahia, bem no centro da cidade. Para se ter uma idéia do seu tamanho, hoje em dia, em seu lugar está um shopping center.

Bom, a tal campanha do Pep’s foi inovadora, revolucionária e chamou muita atenção. Deu o que falar na cidade toda, e tornou-se um ‘case’ no mundo da propaganda de varejo. Resumindo, projetou definitivamente a ASA como uma agência de sucesso.

Fui diretor de criação na ASA, algumas décadas após esses acontecimentos. Nesta época, “Seu” Mello já era um bem sucedido empresário, não só em publicidade, mas também no ramo da distribuição de cervejas, pois possuía uma das maiores revendedoras Brahma em terras mineiras. Além disso, por ser um gourmet, possuía também, em sociedade com seu amigo Targino vários restaurantes em Beagá. Um deles era ao lado do campo do Atlético, que nesta época ficava em região central, onde, aliás, hoje situa-se outro grande shopping da cidade. Neste, toda semana o mercado publicitário em peso ia experimentar a inconfundível cozinha mineira que servia, e começava com a famosa ‘Vaca Atolada’, e por aí afora, sempre com o toque pessoal e criativo dos mestres Edgar e Targino.

A própria ASA tinha uma cozinha profissional. Ali, Edgar Mello preparava excelentes banquetes para seus clientes. Como diretor de criação da agência eu participava deles. Dos quais, aliás, tenho até hoje excelentes recordações.

Mas, uma vez me contaram um caso que é digno de nota.

A ASA, nos seus dias pioneiros, foi apresentar uma campanha em Goiânia. E a verdade é que “Seu” Mello saiu de Belo Horizonte com a campanha toda marcada e montada e foi apresenta-la naquela cidade. Botou as peças na mala e foi, dirigindo o seu Gordini.

Tempos heróicos da propaganda.

sexta-feira, novembro 17, 2006

O “caso” do Maestro

Meu amigo Maurilo Andréas (cujo blog Pastelzinho está nos links aí ao lado), contou o caso abaixo em setembro. Eu não o reproduzi na ocasião, mas, ainda em tempo, segue a história.

Ray Conniff

João Carlos Olivieri foi Diretor de Criação da Solution, meu parceiro na campanha do Vicentinho em São Bernardo e é até hoje um grande amigo. Pois na época da Solution o Oliva, além dos cabelos brancos, usava uma barba (igualmente branca) e era bem gordinho (parece que perdeu 15kg, é isso Oliva?).

Durante certos momentos de tédio ou fúria no decorrer do dia, Olivieri puxava a franja pra frente, levantava-se de seu posto de Diretor de Criação e começava a reger o coro dos criativos que mandava um Besame Mucho bem bacana no melhor estilo Ray Conniff "parara-parararararaaaara". E nisso ficávamos por bons minutos.

Mas o bom mesmo era a cara do Nilo, Gerente Financeiro que, da sala ao lado e sem nunca ter trabalhado numa agência de publicidade, olhava incrédulo aquele concerto em pleno expediente. Bons tempos que, Graças a Deus, não voltam mais.

quinta-feira, novembro 16, 2006

O "caso" do grito primal

Carlos Reluz Bernaola. Um diretor de arte peruano radicado no Rio de Janeiro. Pouco mais de um metro e meio, cavanhaque. Típicamente um inca. Parecia mesmo um personagem saído de uma historinha do Tin Tin.

Quem o conheceu bem foi o Carlinhos Chagas, que na época fazia dupla comigo na L&M. Acontece que na hora do almoço o Carlinhos tinha um “frila” numa agência chamada Comark. Daí, o Carlinhos com aquele seu jeito inconfundívelmente elétrico, pegava sua pasta, e, tal e qual um colegial se mandava para a tal da Comark. Que aliás não ficava lá muito longe da L&M. Era tudo no centro do Rio.

Bom, na tal Comark, o Carlinhos fazia dupla com o Reluz. O Reluz era um senhor ilustrador. Daqueles de mão cheia mesmo. Acho até que na ocasião, o dito cujo labutava na SGB, à época uma das melhores agências do mercado. Tinha a conta do BNH e das Cadernetas de Poupança, por exemplo. Sem contar o Ponto Frio, e tantas outras.

Conta o Carlinhos muitos casos engraçados do referido inca. Um deles era o de quando o Reluz adrentava a agência (a tal da Comark), e, como a SGB era mais longe, lá pros lados de Botafogo, chegava meio cansado para o seu expediente da hora do almoço. Aí, então, o peruano virava pra ele e dizia em bom e castiço portunhol: “Voy a relatchar”. Deitava-se no chão, por uma fração de segundos, levantava-se e dizia que já estava pronto para o rojão. E enfrentava duas horas de prancheta, pois naquele pouco tempo, os dois tinham que botar em dia todos os pedidos em pauta.

Mas o melhor do Reluz era mesmo o tal do “grito primal”.

Às vezes, calhava dos dois saírem juntos. Nem sempre dava. Aí, eles passavam num boteco que o Carlinhos chamava de “Mil Moscas”, e comiam alguma coisa. Depois iam andando pelo centro do Rio, repleto de gente. O peruano quando os dois estavam numa esquina movimentada, virava-se pro Carlinhos e dizia: “Voy a dar um grito primal”. E soltava um grito de proporções cavernosas, altíssimo e bom som. Daqueles que todo mundo que estava por perto parava atônito e assustado.

Isso nos anos setenta, em plena repressão, no auge da ditadura. Um caso para não esquecer.

segunda-feira, novembro 13, 2006

O "caso" da janela

Fernando Lisboa foi um diretor de arte conhecido no mercado carioca. Além disso era também um excelente pintor. Especializado e apaixonado por temas indígenas, em determinada ocasião, sumiu e embrenhou-se mata adentro, em pleno Xingu, para pintar, pesquisar e aprofundar seus conhecimentos sobre os índios. Ficou algum tempo por lá, e quando voltou, reassumiu seu cargo na agência em que estava anteriormente. Bons tempos!

Lisboa faleceu prematuramente, mas deixou sua marca no mundo da publicidade como um profissional competente e dedicado.

Uma ocasião, um contato aproximou-se dele em alguma agência com um sapato a ser lançado por uma sapataria, cliente da casa. O sapato, feminino tinha um salto esférico transparente. O cara chegou todo entusiasmado ao seu lado com o produto. Entregou ao Fernando, que olhou aquilo, virou, observou, e prontamente mandou-o pela janela abaixo, demonstrando sua repulsa ao design. Detalhe: estavam no décimo oitavo andar.

Mas o Fernando contava uma história muito engraçado, e que refletia bem o retrato de uma época.

Logo que começou seus trabalhos em publicidade, no seu primeiro estágio, estava ele fazendo suas marcações de layout no estúdio, e doido para ter uma chance de virar um diretor de arte (era um excelente desenhista, o que aliás pesava muito naquela época) quando o diretor de criação pediu para que ele abrisse uma janela num determinado anúncio.

Pra que! Fernando Lisboa viu ali a chance de mostrar o seu talento. Prontamente começou a desenhar e ilustrar uma janela na área solicitada no layout. Com cortina, vaso de plantas e tudo a que tinha direito.

Quando estava tudo pronto, apressou-se a apresentar o resultado de sua obra.

Qual não foi o seu espanto quando o chefe olhou para o layout marcado e disse:

- Não é nada disso, Fernando. Janela é apenas uma área para serem colocadas ofertas de produtos... pode até ter uma tarja... algo assim...

Lisboa, completamente sem graça, entendeu naquele dia que nem tudo em publicidade era tão artístico quanto ele pensava.

segunda-feira, novembro 06, 2006

O "caso" do ilustrador free-lancer

Plena madrugada na VS. Ainda ali, na Maria Eugênia, em Botafogo. O ano de 1989. O dia nem o mês, não consigo lembrar.

Era alta madrugada e o trabalho corria solto, tal e qual fosse ainda luz do dia. A agência estava com todas a equipe produzindo a todo o vapor. O estúdio abarrotado de trabalho, aquela zorra.
Fernando Farah, um diretor de arte que está em Londres já tem muitos anos, onde é dono de sua própria agência, a Dancing-bee, estava desesperado. Tinha uma campanha inteira para entregar na manhã seguinte, e Ronaldo Graça, o ilustrador da casa não tinha como, sozinho, dar vazão a tantas tarefas. Daí eu sugerí à Lúcia - que era a chefe de estúdio - que chamasse um ilustrador free-lancer amigo meu. O Saulo Silveira, um profissional excelente e rápido, que poderia perfeitamente resolver o problema.

A verdade é que naquele período heróico da propaganda pré-Macintosh, um ilustrador era coisa muito importante, era o verdadeiro scanner da agência. E o Saulo - profissional competente e muito solicitado pelo mercado -, demorou a chegar. Chegou, mas já era muito tarde. Ou cedo, dependendo do ponto de vista. Lá pelas três da matina. O Fernando, já cambaleante pelos corredores e escadas da agência, já não agüentava mais de ansiedade. A campanha toda rafeada, faltando apenas um ilustrador para dar a cara final ao seu produto.

Lá pras tantas, chega finalmente a Lúcia com o Saulo ao seu lado. Fernando, bufante de fatigado olhou na direção dos dois esboçando um sorriso nos lábios. Um maior ainda no olhar. Lúcia falou:

- Fernando, aqui está o ilustrador...

Fernando ampliou o seu sorriso. E a Lúcia prontamente completou:

- ...mas, fala bem devagar, porque ele é surdo!

Fernando desfez o seu sorriso.

O importante é que na manhã seguinte a campanha estava toda marcadinha. Aliás, muito bem marcada pelo Saulo. Que pode até ser surdo, mas enxerga bem pra cacete.

Curiosamente, três dos personagens deste caso estão fora do Brasil.
O Fernando, conforme citado acima, está em Londres desde finais de 1989. O Saulo foi para Portugal em 1990. Hoje é um pintor de renome naquele país. E o Ronaldo Graça mudou-se para Paris em 1991. Além de desenhar histórias em quadrinhos é capista da Hachette, conhecida editora francesa.

quarta-feira, novembro 01, 2006

O "caso" do voltooooou

Quem conta esta é o Roberto Quintas, o famoso Boca, um dos melhores dublês de ilustrador/diretor de arte, maquintocheiro e hipocondriaco que eu já conheci em toda a minha vida.

O Boca, ao longo do meu primeiro período em Belzonte, trabalhou comigo duas vezes. Primeiro integrou a minha equipe quando eu era diretor de criação da Asa. Fazia dupla na época com o Sérgio Torres. Que formavam, aliás, uma dupla excelente. Aí ele foi para a Livre. Algum tempo depois, estávamos juntos novamente quando também fui ser diretor de criação daquela agência.
O Boca sempre tem um caso engraçado pra contar. Dotado que ele é de grande ironia, é extremamente observador e perpicaz.

Mas tem um caso que o Boca me contou que eu achei muito sugestivo.

Segundo ele, quando trabalhava na Hoje, um dos sócios da referida agência, o Hamilton Gangana, tinha um hábito quando voltava da rua com uma campanha recusada.

Como havia uma escada logo na entrada, que ia direto até a criação, dava para se ouvir deste departamento tudo o que rolava na recepção. O Hamilton parava no saguão, olhava para cima, e simplesmente gritava naquela direção: "Voltooooou!".

Bom, quem trabalha em propaganda sabe que a pior coisa que tem na vida é a chamada refação. E naquele momento a turma toda arrepiava.

segunda-feira, outubro 30, 2006

O "caso" do sushi de natal

Estava perto do natal. E natal é aquela época em que a gente relaxa. Um ex-dupla meu costumava dizer: “Bicho... estou em espírito de natal...” mais ou menos um mês antes, lá pra meados de novembro.

O que se passa de fato é que depois do dia dezoito de dezembro, fica até difícil a gente se concentrar. É festa aqui, amigo oculto alí, jantar não sei onde. Puf! Você engorda e cansa.

Foi assim que aconteceu no dia que o Geraldo Mello, um fotógrafo amigo meu ligou me convidando para um almoço. Como o Geraldo era um grande amigo e parceirão nos trabalhos - aquele fora o ano da primeira campanha da VS para o Citibank, com fotos dele -, aceitei de bom grado o convite.

Fomos pro Kampai. Aquele “japa” que ficava lá da praia de Botafogo, que aliás era muito bom de serviço. E começamos aquela loucura que é navegar por aqueles barcos de combinados de sushi e sashimi. Tudo, naturalmente muito bem regado a saquê. Um bom saquê nipônico, gelado e com aquele salzinho na borda do copo, pra ele descer mais redondo ainda.

Bom. A verdade é que eu tomei saquê demais. O Geraldo não estava aguentando muito a tal bebida e no final eu estava tomando os meus e os dele. No melhor espírito natalino. E assim foi, até sei lá eu que horas.

Sai de lá. Despedi-me do Geraldo, e aí começa a tal da amnésia alcoólica. Não me lembro como cheguei na VS. Mas cheguei. E o pior, dirigindo. Não me lembro também de muita coisa que aconteceu daí em diante, muitas das quais me contaram depois e eu até hoje não posso garantir se foi o fato, ou a versão do fato. Vamos a alguns deles.

Esse até eu me lembro mais ou menos. Estava eu na produção gráfica. Daí comecei a falar sobre as vantagens de se beber saquê. Entre elas, pasmem, a de que a dita bebida não deixava a gente de porre. Quando me levantei da cadeira, caí no chão.

Entre outras coisas, contam as más linguas que eu tirei o sapato da Silvana Grendene (secretária do Lula) e lhe beijei os pés. E por falar em beijo, taquei um beijo na Maída, um mulherão que trabalhava na mídia. Em plena escada, segundo me disseram.

A verdade é que de todas as histórias que contam deste dia, eu só me lembro do discurso na produção gráfica em defesa do saquê.

Só sei que eu cheguei em casa lá pelas cinco da tarde, apaguei, e acordei no dia seguinte com a maior ressaca que já tive em toda a minha vida. Não só a física, quanto, e principalmente a moral.

Depois disso, nunca mais bebi além de duas doses de saquê.

quinta-feira, outubro 26, 2006

O "caso" do casaco

A Doctor era uma agência muito louca. Às quatro da tarde, invariavelmente começava a rolar uísque, tequila, pinga...

Sexta-feira, o Serjão voltava do almoço na “Estrela do Sul” tão tocado que descarregava um ou mais extintores de incêndio pelas salas. Um dia, trocou o extintor e molhou vários computadores. Foi um estrago.

“Peidão”, “puf” e outras coisas, me remetiam aos tempos de colégio. No final das contas, que era divertido, lá isso era. Adolescente demais, mas, inegavelmente divertido.

Todo mês, o “Porcão”, uma das principais contas da agência, mandava pra lá um churrasqueiro e rolava aquele happyhour regado a muita cerveja, uísque, tequila... Na Copa de 98, todo jogo foi acompanhado dessas churrascadas memoráveis.

A agência possuía várias contas de varejo, principalmente as de revenda de automóveis. Por isso mesmo, nunca a gente conseguia sair para almoçar numa hora mais ou menos normal. Eu me lembro que queria marcar um almoço com amigos de outras agências e não era possível, porque geralmente meu horário de folga só acontecia lá pelas três, às vezes quatro da tarde.

Um belo dia, estava eu colado no meu Mac com trabalho demais. E a turma da minha sala começou a fazer uma guerrinha de fósforos. Era chama voando pra cá e pra lá num frenesí incandescente.

Senti um cheirinho de fogo mais forte. Sem muito tempo, olhei rapidamente em torno e não vi fumaça. “Deve ser o excesso de fósforos no ar”, concluí. Mas, eis que de repente, senti também um calorzinho no lado esquerdo. Quando olhei, meu casaco novinho estava pegando fogo bem no bolso. Foi um puta dum susto. Enquanto eu retirava o casaco do corpo apressadamente, a galera rolava no chão de tanto rir. Foram momentos terríveis, mas, admito que deve ter sido muito engraçado. Claro que pra quem não estava pegando fogo.

Pelo menos escapei com vida!

domingo, outubro 22, 2006

O "caso" do almoço com as estrelas

A coisa começou porque toda sexta feira a turma da criação da ASA e mais o Luis Márcio Vianna, que era o diretor de planejamento da agência, resolveram fazer um rega bofe daqueles.

Saiamos na hora do almoço, escolhíamos um restaurante em Beagá, e lá íamos nós. Geralmente, voltava todo mundo um pouquinho alto lá pelas três da tarde, nem que isso implicasse em que trabalhassemos um pouquinho mais naqueles dias. Em caso de necessidade, é claro.

O programa, não só tornou-se um hábito, como também, pelo fato de Belo Horizonte ser uma cidade rica em bons restaurantes, transformou-se numa farra gastro-etílica.

Somente para citar alguns, o Dona Lucinha, o Minas I e o Minas II (estes do clube do mesmo nome), o Alpino, o Chez Bastião, o saudoso Germânia, etc, etc.

Mas, o negócio é que a coisa foi se espalhando. No final de um certo tempo ia não somente a turma da ASA, como também da Livre, da Setembro, da DNA, da JMM e muitas outras agências. Tornou-se um encontro semanal de publicitários, um acontecimento.

O mais notável é que eu sai da ASA, fui para a Livre e a coisa continuou. Cada vez maior, cada vez mais repleta de gente. Até optamos em definitivo pelo Minas I, porque era um restaurante grande, tinha um excelente buffet, e dava para juntar diversas e grandes mesas.

Nessa ocasião, a Gláucia, que havia sido tráfego na ASA, foi para o Jornal de Domingo, um semanário de Belo Horizonte, onde escrevia a coluna publicitária. Ela, então, batizou o encontro de “Almoço com as estrelas”.

Saí de Belô e voltei para o Rio.

Mas, acontece que quando ia lá, de férias ou a trabalho, a gente dava um jeito de se encontrar novamente. Rapidamente o Luis Márcio, ou o Sérgio Torres acionavam a turma e lá estávamos nós. Desta feita em jantares.

Voltei para aquela cidade em 1999. Fizemos um primeiro (desta vez também um jantar), e foi gente pra dedéu. O Minas ficou repleto de publicitários.

Já no ano seguinte foram apenas cinco pessoas: Luis Márcio Vianna, Tonico Mercador, Paulo Giordano, Hermínio Naddeo e eu.

Pelo menos, bebemos todas, comemos bem pra cacete e nos divertimos. Até ver estrelas.

quarta-feira, outubro 18, 2006

O "caso" da primeira virada

A primeira virada, a gente nunca esquece. Foi na McCann Erickson, e já vai algum tempo que aconteceu. Mas, nunca realmente poderia esquecer aquela noite e madrugada.

Na época, a criação não era ainda como a conhecemos hoje. Havia então os departamentos de redação, e o de arte. Completamente separados. Neste último ficavam os diretores de arte, os ilustradores, letristas (naquele tempo ainda havia disso), e, claro os estagiários em direção de arte. Como eu.

A turma era boa. O diretor de criação, o Oscar Gosso. Diretores de arte, o Vic, o Glauco e o Melinho, um outro Mello - euro-asiático de Macau, que foi para o Canadá, e depois trabalhou nos estúdios de Hanna e Barbera em Los Angeles -, este especializado em linguagem de TV. O letrista era o Humberto "Tatu", os ilustradores: Vilmar Rodrigues e Flávio Colin. Gente da pesada!

A redação tinha o Mauro Matos, o Pedrosa, o Pedrinho Camargo, o Athayde.

Bom, ainda havia o estúdio que era separado. Romildo e Nilo estavam lá. No tráfego, a Carmem, o Renato na produção gráfica. E pra completar a equipe, o Henrique Meyer no RTVC. Bom. Só cobra! Na época, eu dizia em casa que eu fazia estágio no Butantã.

Os pedidos já chegavam na arte com o texto grampeado nos jobs; os blue sheets (que o pessoal apelidara de Bull shits). Coisa engraçada. Mas, até que um dia um diretor de arte e um redator resolveram romper essa barreira e bater uma bolinha, ainda durou algum tempo, mas aconteceu.

Por causa disto mesmo, a arte era muito unida. Não haviam baias, nada que dividisse o pessoal.
Pintou uma campanha para Tecidos Aurora. Ainda me lembro do logotipo. Tinha solzinho e tudo. Era uma concorrência.

E o prazo! Bom, nisso a propaganda mudou muito pouco daqueles tempos pra cá. E claro que deu virada.

Quando acabamos de montar a última peça em apresentação de luxo, com passe-partout e os escambau, já eram umas cinco e meia da matina. Daí o pessoal fechou a agência e foi para o elevador. Quando chegamos lá embaixo, após algumas rodadas pelas imediações da portaria, constatamos que não havia porteiro. Aquele que tem a chave do prédio. O guardião. Desespero geral. Olhares de desânimo.

De repente, Mello Menezes, magrinho e ágil, descobre que pela porta, ao abrir-se uma parte de vidro, dava para se passar pelas grades. Ou seja, alí cabia um corpo. Meio apertado, mas dava para passar. Ágil, nosso herói enfia então um braço, passa a cabeça e num jogo de cintura passa o resto do corpo, ficando prontamente do outro lado. A liberdade! Daí, em seguida, um por um de nós atravessou a porta, alguns com mais, outros com menos dificuldades. Até que o Oscar Gosso resolve ficar preso no meio da barriga. E não ia nem pra frente nem pra trás. Algo hilário. E com o seu sotaque portenho carregado, gritando para que o puxassem. Melinho às gargalhadas prum lado. Outros contendo o riso pro outro. Alguns tentando realmente puxar o argentino. Até que chega o porteiro, provavelmente tirado do seu canto pela algazarra reinante. Salvos pelo gongo!

Quando saí do carro de alguém que me deu uma carona, não me lembro mais quem, o dia já estava amanhecendo - e a campanha afinal era dos Tecidos Aurora -, mas eu ainda me ria da cena do portão.

segunda-feira, outubro 16, 2006

O "caso" da agência artística

Quando cheguei em Portugal para assumir a direção de criação (que lá é direcção criativa) da Opal Publicidade, eu não sabia que meu patrão ainda não havia comunicado ao seu Soares que ele não se encontrava mais naquele cargo. Uma situação extremamente delicada. Ora pois! De repente eu estava tomando posse de uma posição, e o meu antecessor ainda se achava o titular. Durma-se com um barulho desses.

Seu Soares era um diretor de arte (ou d’arte) das antigas. O gajo era um excelente ilustrador. Um artista mesmo. Trabalhava com guache e ecoline com extrema perícia. Marcava letras com exímia perfeição. Mas, em matéria de criação era um desastre. Não conceituava, não sabia avaliar um texto, nem tinha a menor idéia de como realizar um comercial para televisão. Adorava criar anúncios com tarjas cheias de rococós, no melhor estilo Manuelino. Ficava horas rebuscando aqueles traços com tira-linhas, compassos e bicos-de-pena.

Aos poucos, ele foi pressentindo o que acontecia. O que gerou um ambiente estranho. Fui criando coisas e passando para o seu Soares marcações de campanhas, anúncios, folders, etc. Ele fazia um ar um tanto quanto desconfiado, mas executava o trabalho.

Não tinha nada contra ele. Era uma pessoa distinta, educada. Tinha até um ar meio britânico, coisa típica do pessoal mais aristocrático da cidade do Porto. E a culpa daquela situação não era dele. Nem minha. Cabia ao seu Rente comunicar-lhe isso. Conversei com ele a respeito, mas, o diretor-presidente não o fazia. Dizia ele que era tudo um mal entendido do seu Soares, que ele não era director criativo coisa nenhuma. Um embróglio.

Fui pendurando pela minha sala, que era toda forrada de cortiça, provas dos novos anúncios, outdoors e outras peças criadas na nova fase da agência. E era realmente uma nova fase. O que a Opal fazia até então era marcado por um ar de “antigo”, um visual um tanto quanto “anos cinqüenta”. De repente, a gente estava, em questão de poucos dias dando um update na cara de tudo que era produzido. Até porque a produção era muito grande, isso logo ficou evidente.
Na verdade eu apenas fazia aquilo que sempre fiz. Criar, em parceria com um redator e dar uma face atual às peças. Cuidar de uma tipologia adequada, de uma boa ilustração ou foto. Nada de genial, apenas um trabalho bem cuidado e feito com carinho.

Logo que cheguei lá, ao constatar uma certa desorganização empresarial, havia sugerido uma série de medidas. Como pedidos de trabalho por escrito, nem que fossem a mão. Como não havia ninguém responsável pelo tráfego, criei envelopes aos quais grampeava os pedidos e colocava tudo o que fazia parte daquele job, separando por clientes num armário com prateleiras Algo meio elementar, mas que funcionava. Os trabalhos já não ficavam tão perdidos “no ar”, nem no disse me disse. Passavam a ter um mínimo de memória.

Também fiz aquele ‘velho quadro’ de fórmica com o nome do trabalho e a etapa em que se encontrava.

Sugeri e foi criada uma reunião que era realizada toda segunda feira bem cedo, antes de começarmos os trabalhos. Aberta a todos os funcionários, nela se fazia um balanço dos trabalhos que estavam na criação, produção, etc. Em suma um followup completo.

Foi numa dessas, que seu Soares pediu demissão. Na presença de todos, lavrou o seu protesto contra o fato de que a agência estava se tornando excessivamente comercial, referindo-se naturalmente aos últimos trabalhos realizados. “Que afinal de contas, a Opal, que eram as iniciais de Organização de Publicidade Artística Ltda (lá é Lda.), estava a abandonar a sua proposta artística e embrenhando-se por um caminho de vendas barato e vulgar” (sic).

Levantou e retirou-se para todo o sempre.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Nota de esclarecimento

Mais de um leitor deste blog, já me perguntou o por que da grande maioria dos casos que conto não serem passados no presente, se estou até hoje no mercado.

Na realidade, são duas as razões. Primeiro porque comecei a escrever esses casos no início da década de noventa, e grande parte deles foi escrito nessa época. E, muito embora tenha redigido alguns mais recentemente, até com casos mais atuais, tem a segunda razão que tem um peso maior ainda.

Nos tempos da prancheta, do trabalho artesanal, da marcação de layout, o fluxo de trabalho em uma agência de publicidade era outro. Pra começar, tinha muito mais gente envolvida no processo. As tarefas, no seu todo, eram realizadas mais em equipe do que atualmente.

Hoje, o profissional fica muito em frente ao computador. Faz quase tudo ali mesmo. Um diretor de arte, cria no QuarkXPress, trata imagens no Photoshop, desenvolve suas logomarcas e desenhos no Illustrator, no Freehand ou no Corel. Sozinho, pode realizar todas essas incumbências, muitas vezes abstraindo-se do que se passa ao seu redor.

Naquele tempo, se criava, rafeava, às vezes até se fazia uma marcação ‘bacaninha’, dependendo das habilidades de cada um. Mas, na maioria das vezes, se dependia muito do estúdio. Neste departamento, uma equipe pegava os roughs de uma campanha, e o ilustrador fazia a mancha, o letrista marcava as letras a guache, nanquim, Pilot ou aqueles fantásticos marcadores importados. Em alguns casos, aplicava-se Letraset.

Essa equipe passava a limpo e dava forma a uma idéia. E ainda tinham os assistentes para colar bodytype, montar as peças para apresentação. Às vezes, um acetato era usado entre o layout e o passepartout para melhor protege-lo, já que tinha muito papel colado. Uf, coisa pra cacete.

No caso das finalizações, ainda entrava a produção gráfica e o finalista, composição, fotoletra, cola de borracha, benzina, pastup, overlay. Às vezes o texto tinha que ser recorrido. Na gilete, como se dizia. E o diretor de arte acompanhava tudo isso, se deslocava para o estúdio. Muitas vezes até dormia lá. Por isso mesmo as viradas eram mais constantes e violentas.

Em diversas ocasiões, mais de um diretor de arte estavam presentes, por estarem sendo executados diversos trabalhos em simultâneo.

Este envolvimento de pessoas é que tornava o processo mais divertido. Nas agências de porte médio, os estúdios tinham em torno de dez profissionais, nas maiores muito mais que isso. Em suma, por ter tanta gente, aconteciam mais acontecências.

Isso terminou com o fim daquela fase da publicidade. E também, pelo fato do trabalho ter ficado mais individualizado, aquela dinâmica de grupo acabou.

Daí o porque da maioria dos casos que eu lembre e mereçam registro, estarem situados naquela época. Não é que hoje em dia não aconteçam coisas curiosas, fatos e situações inusitadas. Mas, naquele tempo, era realmente muito, mas muito mais engraçado.

Quem viveu, viu.

segunda-feira, outubro 09, 2006

O "caso" da mão quebrada

Este "caso" foi na L&M, logo depois de uma das viradas homéricas, tão comuns naquela agência. E aconteceu entre o Artur Denegri e o Mozart dos Santos Mello (o M de L&M). Artur Denegri, pra quem não conhece, é um diretor de arte. Trabalhei com ele na L&M e, depois, na DM9 lá em Salvador, cidade aliás em que ele se estabeleceu em definitivo.

Mas o negócio todo começou porque o Denegri, após a tal virada na agência, resolveu ir jantar com a turma do estúdio. Até aí tudo bem, porque afinal de contas isso era mais ou menos praxe. Afinal, a turma saia de madrugada, cheia de fome.

No dia seguinte, pela manhã, Mozart dos Santos Mello chama o Denegri na sala dele. E começam uma discussão por causa de pequenos detalhes acerca da nota do jantar. Do tipo: “...mas porque lagosta?”

O bate-boca começou a tomar ares exaltados e proporções agigantadas. Começou mesmo a provocar um reboliço na agência inteira tal o nível e a altura em que ele estava. O pessoal começou a se acotovelar nos corredores, nas proximidades das salas da diretoria. Um auê danado.

Em determinado momento, o Artur ergue o peito – ele fazia musculação, e além de tudo era invocadinho pra dedéu -, encara o patrão e diz: "... porque eu sou é homem!" Ah, pra quê! Mozart dos Santos Mello levantou também - até então estivera sentado - e, aceitando o desafio, ergueu o braço e respondeu de uma tacada só: "Eu também !!!", aos berros. Niqui desceu a mão sobre a mesa, com toda a força, a L&M em peso ouviu aquele grito de dor.

Moral da história: Santos Mello passou algumas semanas com a mão enfaixada.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O “caso” do nariz de palhaço

Transcrito do Blog Pastelzinho do Maurilo Andréas, cujo link está ao lado.

A Solution foi uma agência muito importante na minha carreira por vários motivos. Além de ter feito bons trabalhos lá, a empresa tinha uma estrutura bacana, contas legais e uma equipe de onde tirei grandes amigos. Infelizmente, houve épocas de clima pesado e grande insatisfação por motivos variados, alguns culpa nossa mesmo e outros culpa da agência. Aliás, como acontece em qualquer lugar. Sei que numa dessas crises me veio a idéia de comprar narizes de palhaço para toda a Criação. A partir daí, se o atendimento chegava dizendo, por exemplo, que o prazo foi reduzido em dois dias, a gente botava as bolotas vermelhas no nariz e respondia "Ah, é? Dois dias a menos? Claro, não tem problema nenhum". Não era raro chegar na sala e encontrar dois ou mais profissionais portando seu rubro símbolo de protesto. Tudo com o maior bom humor, é claro.

Um dia, em uma reunião com o Marcelo Martins (dono da Patrimar e um dos melhores e mais inteligentes clientes com quem já trabalhei), o Olivieri, nosso Diretor de Criação, resolve levar por precaução uma narizeta no bolso da calça. Tudo correndo bem até que alguém, não o Marcelo, diz algo desabonador sobre o trabalho. Nosso Diretor então tira a peça do bolso, posiciona sobre o nariz e calmamente declara "mas isso é uma palhaçada!"

O Marcelo, como era de se esperar, morreu de rir e a campanha foi aprovada. Com palhaçada ou não, entre mortos e feridos salvaram-se todos

O "caso" da árvore de natal

A Focus era uma agência média do mercado carioca. Tinha dois sócios. Um deles era o Alfredo Souto de Almeida. Muito bem relacionado em toda a sociedade carioca, isso lhe abria portas, tendo feito consolidar na agência contas como Roberto Simões, Lidador, Banco Denasa, Companhia Força e Luz Cataguazes Leopoldina, Companhia Siderúrgica Nacional, Ernani Leiloeiro, entre outras.

Alfredo, uma pessoa ligada às artes, era também um radialista conceituado e tinha um programa sobre arte na Rádio MEC. Havia também sido ator cinematográfico e participara de um filme de Humberto Mauro, o grande cineasta brasileiro. Para complementar, era padrinho da hoje atriz Fernanda Torres, filha do casal Fernando Torres e Fernanda Montenegro, que por seu turno eram padrinhos do seu filho Marcelo.

Na criação, tínhamos um grupo descontraído. Uma turma que estava sempre aprontando alguma. O trabalho era muito, a equipe enxuta. Então, restava-nos a diversão nos momentos entre um trabalho e outro, na pressão.

Havia, por exemplo, um torneio de dardo que era levado muito a sério. Um dia, a diretoria até pediu que diminuíssemos o ruído porque na sala deles que era ao lado da nossa, ficavam escutando aquele “tum... tum... tum...” e gritos exaltados. Arranjamos formas de abafar o som e diminuir a nossa vibração a cada jogada.

Outra coisa era a presença do filho do Alfredo. O Marcelo costumava, nas férias escolares, freqüentar a agência. Um dia, amarramos o garoto em uma cadeira no meio da sala da criação e fizemos um círculo com benzina. Ateamos fogo àquele círculo, e, grosseiramente fantasiados de índios ficamos rodopiando em torno. O garoto se divertia. E nós também. É importante ressaltar que isso não representava grande perigo, pois o fogo da benzina é de um tipo que não perdura. Se você colocar benzina na mão e acender um fósforo, nada vai lhe acontecer, garanto.

Mas, houve em determinada época o Pedro Porfírio. Intelectual e jornalista, posteriormente, foi secretário da Prefeitura do Rio de Janeiro (não me lembro em que governo). Hoje, é colunista do jornal Tribuna da Imprensa.

Sei que o Porfírio foi contratado para ser Relações Públicas da Agência.

Porfírio acabara de escrever “O Rei Leão”, uma peça de teatro infantil. E, por vezes, ficava vagando pelo meio da agência ensaiando trechos da mesma, pois estava para estreá-la. Fantasiado de Rei Leão, o gajo colocava uma coroa e uma manta vermelha e saia a declamar o texto. Uma cena hilariante.
O mais engraçado no Porfírio era o seu desligamento constante de tudo que o cercava. Muitas vezes criavam-se brincadeiras pesadas com ele. Um dia encheram os seus sapatos de cola de borracha. Outro, deixaram uma caixa com talco em cima de sua porta entreaberta. Quando ele a abriu, sujou-se todo, pois o talco despencou em cima dele.

Mas, a mais freqüente era mesmo a quantidade de rabinhos e outras coisas que penduravam nas suas costas sem que ele percebesse.

Um dia, por ter saído da agência sem que ninguém notasse, não deu tempo de se retirar os penduricalhos.

Quem viu, disse que na rua, Porfírio mais parecia uma árvore de natal.

segunda-feira, outubro 02, 2006

O "caso" do disco

Foi numa daquelas tantas e incontáveis viradas dos tempos de L&M. Carlinhos Chagas e eu jantando no Paisano (restaurante de massas que já não existe mais), em plena avenida Rio Branco. Aliás, muitas vezes íamos lá. Era um restaurante bom e barato.

Deviam ser umas nove e meia, mais ou menos. De repente, ao nosso lado, o Ivan Lins e o Mariozinho Rocha. A gente conhecia muito o Ivan por causa da Zurana, uma produtora de jingles que era dele com o Tavito e o Paulo Sérgio Vale. Um dia eu perguntei ao Tavito o porque de Zurana. E ele respondeu que a origem do nome era "um bando de zuretas a fim de grana".

Mas estavam os dois lá, e quando íamos sair, passando pela mesa deles, começamos a conversar. O assunto, claro, a esta altura era trabalho. Nós contando que estávamos numa virada doida, mas que o trabalho já estava alinhavado. Que, se de repente, a gente acabasse na manhã seguinte, tudo bem. Tínhamos adiantado bastante. Daí eles emendaram que também estavam numa virada, mas que era por causa do novo disco do Ivan. E ele, Ivan, se encontrava realmente entusiasmado com a história. O disco era uma guinada na carreira artística dele e por aí afora.
Convidaram a gente para ouvir o disco.

Seguinte: a Odeon, ou melhor os estúdios da Odeon, naquela ocasião eram no prédio bem em cima do Paisano. Nós acabamos optando por subir e ouvir o disco, deixando definitivamente o restante que tínhamos da campanha para a manhã seguinte.

Quando chegamos lá em cima, o Ivan ainda confessou para nós, que fora a equipe artística e técnica envolvida com o disco, nós seríamos os primeiros a ouvir a referida obra. E foi realmente do cacete e muito emocionante a gente ter ouvido em primeiríssima mão todas as faixas de "Somos todos iguais esta noite".

Aliás, até hoje quando escuto alguma música daquele disco, lembro-me daquele dia. Parece que foi ontem.

sexta-feira, setembro 29, 2006

O "caso" do pato laqueado

A VS Escala instituiu um prêmio de incentivo que consistia no seguinte: a pessoa que ganhasse o título de melhor, mais empenhado e os escambal funcionário do mês, tinha direito a um jantar em qualquer restaurante à sua escolha. Depois, o contemplado trazia a notinha fiscal e a contabilidade reembolsava. E tanto era uma idéia do caralho, que, em homenagem ao Lula, o prêmio foi batizado de "Prêmio Ducaralho", assim mesmo, do jeito que ele se expressava quando via um anúncio ou uma campanha da gente que o agradasse.

Bom. O prêmio ainda era conferido no final de uma festa mensal (cuja produção, a cargo da Léa Penteado era de fazer inveja a qualquer maitre de hotel da C’ôte D’azur) que tinha direito a tudo, inclusive show de sapateado do Fernando Farah e o famoso show de quem-come-quem de fim de festa de empresa.

A coisa era esperada por todo mundo com muita ansiedade, pois somente no último minuto da festa, no apagar das luzes, o Valdir, o Lula ou o Carlão anunciavam o grande vencedor. E o felizardo já ficava a imaginar onde iria jantar bem, mas bem "pra caralho" mesmo, como já dizia o nome do prêmio.

Eu me lembro que quando eu ganhei, fui com a Virgínia no L,’Argent, então o melhor restaurante francês do Rio, e degustamos em grande estilo um daqueles menus complets, com direito a sorvetinho entre um prato e outro, queijinhos no final, e outras coisas que a gente não encontra sempre no fast food mais próximo.

Daí, teve o mês que o Manolo ganhou. O espanhol ficou exultante. Pulava de alegria. E era alegria mesmo. A mais pura, porque o afinal de contas, o Manolo era um dos fundadores dos Alcoólicos Anônimos. Soltou uma das suas mais famosas frases em portunhol do tipo: "crejo que gané el dia honestamente", e se mandou.

Dois dias depois, uma daquelas polvorosas inesquecíveis. Gente xingando pra cá. O Aías Lopes espumando pelos corredores, o Lula, o Carlão se dirigindo para a sala de reunião. Um auê de proporções apavorantes. "Será que perdemos a conta do Citibank?". "Será que a Fleishmann Royal vai deixar a agência?", perguntei aos meus botões. Aquele ti-ti-ti danado na agência. Cada um dizia uma coisa. Cada um especulava alguma história mais escabrosa.

Finalmente. Convocação de toda a criação para reunião na sala do Lula.

"É, o bicho pegou", concluí com os meus botões. Enfim, fomos todos mais do que rápidamente para lá, saber o que afinal de contas estava se passando.

O Lula, com aquele jeitão calmo e irônico que lhe é peculiar, tomou a palavra e começou a explicar pra gente que a partir daquele momento, prêmio "Ducaralho", só para o casal. Que, decisão da diretoria, em hipótese alguma poder-se-ia levar mais que a esposa, companheira, namorada, a mãe, o pai, ou seja lá o nome que tenha a pessoa que o acompanharia.

E aí contou a história do "pato laqueado", que, garantia o Manolo, era caro daquele jeito porque tinha que ser encomendado de véspera, que é um prato especial, etc, etc. E, concluiu todo o mundo que o Manolo tinha levado a família, a vizinhança e o papagaio para o restaurante chinês.
Dois meses depois, o prêmio "Ducaralho" passou definitivamente para a história da VS e da propaganda.

terça-feira, setembro 26, 2006

O "caso" das quartas sem lei

A Livre Propaganda Brasileira é um caso muito especial na minha vida profissional. Era uma agência poética, solta, livre mesmo, como dizia o seu sugestivo nome.

O meu caso com a Livre estendeu-se por muitos meses de paquera, e depois um curto casamento. Bom, isto porque, característica do mercado mineiro, conta de governo é um negócio que sustentava naquela época cerca de 70% do mercado. No caso da Livre, era mesmo 99,9%. E acontece que a Livre, numa dessas desastrosas mudanças políticas, ficou com seu 0,01% de contas privadas e ela obviamente naufragou. O que não quer dizer que os oito meses que lá passei não tenham sido realmente inesquecíveis.

Começou quando eu estava na ASA. Com a saída do Zuim, o pessoal da Livre precisava de um novo diretor de criação. E começaram a me sondar. Foram alguns meses de papo, algumas negativas e, finalmente, aquela famosa "de uma boa cantada ninguém escapa".

Arrumei minhas malas e lá fui eu para a Livre. Uma agência sui generis, que tinha um boxer perambulando pelas suas dependências, um papagaio e um pátio interno que mais parecia uma miniatura do paraíso. Tinha fogão de lenha, muitas plantas e uma frondosa mangueira. Uma equipe que eu achava perfeita: o Boca, o Alvinho, o Wanderley. Depois ainda veio o Tonico Mercador para reforçar esse time. No RTVC o Juninho e sua assistente, a Claudinha, que além de competente era um colírio para os olhos.

A Livre era uma agência tão dupirú, que todo mês tinha lá um regabofe sortido e fartamente mineiro, repleto de chopp e cachaça da melhor em torno do seu fogão de lenha. E o melhor é que o pessoal que ia lá com freqüência, além dos clientes era nada mais nada menos do que a turma do "Clube da Esquina". Eles mesmos, Toninho Horta, Milton Nascimento e outros. Gente da pesada, porque a Livre tinha surgido como Quilombo, e depois desdobrou-se. O Marcinho, um dos seus sócios prematuramente desaparecido, continuava inclusive como produtor musical e a Quilombo continuava a existir numa casa próxima a ela, e que também tinha papagaio, cachorro, e um ambiente que mais parecia um quadro da Djanira.

A propósito, os outros sócios eram o Murilo Antunes, um poeta, um performático, um intelectual mineiro de primeiro time e o Pardal, pintor, uma figuraça.

Mas, embora da Livre eu tenha outros casos, que um dia sem dúvida eu conto, tem um que é marcante que é o das quartas sem lei. "Segunda sem lei" era o título de um programa da Bandeirantes que só passava faroestes e fazia sucesso. Pelo menos para os fãs do gênero.
Mas na Livre o negócio era um pouquinho diferente. Quando chegava o final das quartas-feiras, a turma já começava a ficar meio ouriçada esperando o que ia acontecer. E em geral o que acontecia mesmo era que um dos sócios poetas, pintores ou músicos pegar um extintor de incêndio e começar a disparar aquela geringonça numa guerra contra os outros sócios, que naturalmente respondiam na mesma moeda.

Era uma zorra, um corre-corre e uma gritaria geral. Uma das maiores loucuras coletivas de que já participei na minha vida. Algo realmente ducacete.

Vale aqui uma observação importante. A Livre Propaganda Brasileira era uma agência séria. O trabalho era tocado com muita, mas com muita responsabilidade. E a enorme quantidade de prêmios que ela acumulou nos breves anos de sua vida estão lá, nos anais da propaganda mineira.

É que criação é isso aí. Quanto mais livre, melhor.

sábado, setembro 23, 2006

O “caso” da contratação

Corria o ano de 1982, Toninho Lima estava em Salvador. Ele trabalhava na DM9, naquela cidade, e esta agência precisava de um diretor de arte. Daí, entrou em contato comigo e começamos a negociação.

Um dia ele me ligou. “Jonga, falei com Duda a seu respeito. Ele quer que você venha aqui à Bahia para conversar com ele”. Combinamos, então, que a agência mandaria uma passagem para mim.
Acertado o dia, voei pra Salvador.

Como era fim-de-semana, fiquei sabendo logo ao chegar, que Duda estava na sua casa de praia em Mar Grande, na ilha de Itaparica. Fiquei sabendo também, que nós o encontrariamos lá no dia seguinte, ou seja, no domingo, dia aliás em que eu voltaria para o Rio.

O sábado foi extremamente agradável. Passeamos pela cidade inteira, fizemos um passeio turístico completo, e, claro, não podiamos deixar de finalizar a saborear um bom acarajé na Pituba.

Apesar de soteropolitano (é assim que se chama quem nasce em Salvador), tinha uns bons anos que não ia naquela cidade. Assim, muita coisa era novidade para mim. Outras, claro, uma recordação dos bons tempos de adolescente em que passava férias naquela cidade.

Chegou o domingo. E de manhã cedinho nos aprontamos para ir a Itaparica. Conosco, “tio Clício”, o Clício Barroso, que também era diretor de arte na DM9, e Selma, sua esposa. Fomos para o ferry-boat que faz a travessia da baía de Todos-os-Santos.

Pensando nas longas filas de automóveis, que, pelo menos naquela época demandavam horas e horas de sofrimento na fila, Duda achou melhor que nós deixássemos o carro no estacionamento e fôssemos como passageiros, o que agilizaria muito a operação. Do outro lado, pegaríamos uma kombi de aluguel que nos levaria até a sua casa em Mar Grande.

Correu tudo às mil maravilhas. E realmente, lá pelas dez nós já estavamos na casa de Duda. Aliás, uma casa agradabilíssima. Ficava a poucos metros da praia, um paraíso repleto de coqueiros, um mar azul de águas cristalinas e calientes. E bem na frente, um deck maravilhoso cheio de confortáveis espreguiçadeiras. Foi ali aliás, que começamos a bebericar uma lourinha estupidamente gelada, devidamente acompanhada de estupendas patas de caranguejos gigantes. Uma coisa imperdível!

O resto da manhã transcorreu assim, no mais perfeito relaxamento, alternando patas de caranguejo e outras delícias, cervejas e mergulhos, ora na piscina, ora no mar. Uma vidinha daquelas que se pediu a deus.

Lá pras tantas, serviram o almoço. Depois do almoço, aquela pachorra, aquele relax. Redes por todo lado. Cada um procurando o seu canto.

Em determinado momento eu me lembrei que teria que voltar a Salvador e ainda por cima ao aeroporto. Mas cadê o Duda? É, cadê o Duda? Afinal, eu tinha ido até lá para acertar salário, condições de mudança e essas coisas todas que envolviam uma troca de emprego, acrescida da mudança de estado. E com família a tiracolo. Mas o Duda havia desaparecido.

Depois de algum tempo, alguém que não me lembro quem descobriu que ele havia ido dormir. Putz! Ferrou, pensei. Depois daquelas patas de caranguejo todas, de todas aquela cervejinhas... Bom, que fazer? Bobeira tinha sido a minha de não ter falado antes. Agora talvez fosse tarde demais. O Duda ia ferrar no sono, e eu ia ficar a ver navios. E foi o que eu fui fazer na varanda, de frente para o mar.

Resumo da história: quem me salvou mesmo foi o Clício, que conseguiu falar com Duda, que desceu uns quinze minutos depois com uma cara de sono danada.

Quando embarquei de volta para o Rio, já estava contratado pela DM9.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O "caso" da mijada

Acho que é um dos casos mais lembrados da propaganda mineira, por isto mesmo não poderia deixar de contar, muito embora não o tenha presenciado. Mas de fato, a historinha é tão famosa que já foi contada das mais diversas formas e até com pessoas trocadas. Talvez, quem sabe, a que vou contar também não seja a verdade verdadeira, mas, pelo menos a ouvi de fontes mais ou menos confiáveis.

Naqueles "bons tempos" da prancheta, cola de sapateiro e do pastup, o Ajuricaba Brasil, que então trabalhava no estúdio da Asa, preparava-se para varar uma daquelas memoráveis “madrugadas inesquecíveis” de anúncios de varejo, quando de repente surge o diretor de marketing da conta que mais uma vez estava provocando aquele habitual tumulto de sexta-feira.

O cliente começou naquela de dar um palpitezinho aqui, outro ali, em suma, cumprindo o papel de todo ‘cliente pentelho e incherido’. Lá pras tantas, o cliente vira-se para o nosso herói e comenta:

- É, cara, acho que se eu morresse, você iria dar uma mijadinha no meu túmulo, não é?

O Ajuricaba, olhou prum lado, olhou pro outro, e calmamente virou-se para o cliente arrematando:

- Que nada... eu detesto filas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

O "caso" da miss Caxambu

O Lula Vieira tinha uma dessas historinhas curiosas, que só ele consegue contar. Era um poeminha ou coisa no gênero, mas que no final das contas resumia que o grande lugar para se comer um cu, era Caxambú.

E vivia o Lula a repetir esta historinha, por ironia, por gozação. Quando ele podia, ele atacava com o tal poema. E todo mundo se divertia com a brincadeira, que, afinal era realmente (desde que contada por ele) muito engraçada mesmo. Na ocasião, ainda na inesquecível VS Escala da Maria Eugênia, eu fazia dupla com o Marcos Vinícius Ferraz.

Uma manhã, este, sabendo que naquela semana era aniversário do Lula, combinou com a Patrícia Aguiar (RTVC da agência) pregar-lhe uma peça. A idéia era abrir o jornal, contratar uma daquelas putas de classificados, vesti-la de miss - Caxambú é claro - e enviar de presente para o Lula, na sua sala, no final da tarde. E, obviamente, no dia do seu aniversário.

Chegada a véspera do tão esperado dia, os dois realmente começaram a procurar a tal rameira nos classificados dos jornais. Mas o negócio é que algumas eram muito caras. Daí surgiu o aprimoramento da idéia. Quanto mais escrota, melhor. Era pegar uma bem escrachada. E foi o que aconteceu. Chegou uma dessas “breguérrimas”. Varizes e celulites pelo corpo todo, falhas nos dentes. Levaram-na para um local da agência, trocaram a roupa dela, ou melhor tiraram, já que ela não tinha maiô, deixando a dita cuja de calcinha e sutiã. Penduraram na vagabunda uma faixa idem, dessas de papel de bloco de layout com as inscrições Miss Caxambú, e colocaram em sua cabeça uma coroa de papel duplex. Para arrematar, nas mãos um tosco cetro de cartão Paraná.

Feito isto, se dirigiram para a sala do Lula.

Tchan-tchan-tchan-tchan!! Quando abriram a porta da sala com ‘miss’ Caxambu a tiracolo, o dito cujo estava com uma visita. Daí, pintou um clima. Foi um mal-estar geral. O Lula, ficou sem graça dum jeito que nunca se havia visto.

Foram momentos de suspense, um ambiente pesado. Até que, relaxando houve aquela risadaria geral. Toda a criação, o estúdio, e a esta altura quase a agência inteira empoleirada pelas escadas, tentando saber o que se passava na sala do Lula. Com puta e tudo, que, claro, não poderia ter deixado de dar um beijinho no aniversariante antes de se retirar, porque afinal, isto fazia parte do contrato.

sábado, setembro 16, 2006

O "caso" da modelo estreante

Quando eu trabalhava na Provarejo (leia-se Grupo Mesbla), fui dirigir uma foto para a chamada Linha Branca.

Na verdade, o anúncio ‘Linha Branca’ era um página dupla veiculado todos os anos pelo Magazine Mesbla na primeira contra capa e na página ao lado da revista Veja. Uma senhora colocação. Também um senhor problema, porque a contra capa era impressa em processo diferente da primeira página, além do que em papéis também diferentes. Isso sempre dava uma diferença brutal nas cores, na textura. Detalhes de uma profissão cheia deles.

O anúncio tinha esta denominação porque era composto de várias modelos – quase sempre eram só mulheres – todas vestidas de branco. A veiculação era na última edição do ano da revista, e, portanto as modelos sugeriam um clima de passagem de ano.

O layout que eu apresentara e fora aprovado tinha umas seis modelos, todas com taça de champanhe na mão. As cores ficavam por conta de serpentinas e confetes caindo, compondo um ambiente, cujo fundo de um azulado mais escuro realçava a cor branca das roupas. Essas, o produto. A razão de ser do anúncio.

Cheguei mais cedo no estúdio, que era em Santa Teresa. E, com o fotógrafo, começamos a adiantar o cenário e outros detalhes, como luz, angulação e outros detalhes. Além de acomodar a maquiadora, a produtora.

Sempre pensei o quanto as pessoas não sabem o trabalho que dá produzir uma foto, por mais simples que possa parecer.

Lá para as tantas, começaram a chegar as modelos. Conhecia algumas, como a Elzinha, que na época era casada com o filho do Clício Barroso, por acaso também Clício, e era então uma super badalada modelo. Haviam outras que eu conhecia de fotos ou de catálogos de agências. Porém, algumas nem isso. Era gente nova mesmo.

Uma dessas me chamou uma atenção especial. Era linda. Devia ter uns vinte aninhos, se tanto. Um rostinho vivo. E um corpo que sai da frente. Estava mais para uma ilustração do Benício do que para algo real. Um sonho de menina. Além do mais, a roupa que ‘caiu’ para ela era extremamente sensual.

Durante os preparativos a gente vai conversando, descontraindo, trocando idéias. Normalmente o diretor de arte tem que passar para as modelos o que quer delas, o clima da foto, etc. E tentar deixa-las bem à vontade para poderem render o máximo na hora do clic.
Em determinado momento estava eu conversando com a tal lindézima criatura descrita acima. Perguntei o nome dela. Antes de qualquer coisa ela disse:

- Eu sou irmã da Ísis de Oliveira... conhece?

Claro que eu conhecia. Naquela época, a Ísis era atriz da Globo, e estava na crista da onda.
- Estou começando agora nesta profissão... Acrescentou timidamente, desviando o olhar para os lados. Ai, que coisa mais linda! E continuou:

- ... o meu nome é Luma.

Não sei se foi aquela a sua estréia como modelo, mas, tenho certeza de que foi uma das primeiras vezes que pousou.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O "caso" sem rodeios

Meu amigo e brilhante redator Maurilo Andreas tem um blog: http://pastelzinho.blogspot.com/
Neste, ele conta um caso do também amigo e brilhante redator Jackson Drumond Zuim. Um caso que vale a pena reproduzir.

Que grussuuuuuuuuuuura

O Zuim, além de um dos maiores redatores que já passaram por estas Minas Gerais, era famoso por suas tiradas. Pois um dia, num acesso de grossura sem precedentes, o Zuim chega pra uma colega de trabalho cujo nome eu sempre esqueço e manda, na maior tranquilidade, com aquela sua voz de baixo profundo:

"Ô, Fulana, pelo tempo que a gente trabalha junto já era pra eu ter comido você, não era não?"
Fecha o pano rapidinho.

quarta-feira, setembro 13, 2006

O "caso" do Capitão Aza

O Capitão Aza (assim com zê mesmo), era aquele cara que na TV Tupi concorria com o Capitão Furacão da TV Globo. Costumava aparecer na televisão num suposto avião, com capacete, nuvenzinhas e tudo a que tinha direito. Além do que, como seu principal rival, apresentava os principais desenhos animados e demais entretenimentos para a garotada de então.

Eram figuras folclóricas naquela época. E tinham, ambos, casos muito estranhos. Conta-se, que o Capitão Furacão num determinado dia sorteou alguns dos seus ‘grumetes’ para navegar numa escuna pelos mares da vida. O Capitão Furacão era caracterizado como um velho ‘lobo do mar’, e tinha como sua principal ajudante uma garotinha, a Elisangela. Sim, aquela mesma!

Pois bem. Começada a tal viagem, o tal do ‘comandante’, começou a enjoar, passar mal, e no final foi resgatado por um helicóptero em alto mar. Um puta dum vexame!

Mas, voltando ao Capitão Aza. Era uma figura. Fazia propaganda da FAB. Enaltecia a ‘gloriosa força aérea’, era um estardalhaço. E, até dava o maior dos ibopes.

Bom. Um determinado dia, nosso colega Victor Kirowsky trafegava em sua inconfundível Variant de cor vinho, quando esbarrou num Puma. Esbarrou é o modo de se dizer. Bateu mesmo. Abriu-se a porta e sai de lá o comandante in self. Começa então uma discussão de quem era ou não o culpado do incidente. Dizem que o capitão era meio violento. Até contavam as más línguas que ele era membro do SNI. O Vic, certamente, com o seu cachimbo à boca, no melhor estilo Jacques Tati, ouviu a presopopéia toda do apresentador televisivo, que no final, virou-se para ele e falou em altos brados:

- Sabe com quem está falando? Com o Capitão Aza!!!.

Victor Kirovisky baforou seu cachimbinho, olhou para o cara e respondeu:

- Prazer... Capitão Marvel.

Fechou a porta da Variant e arrancou sem dizer mais nada.

segunda-feira, setembro 11, 2006

O "caso" da mãe galinha

Ah! As particularidades desta nossa língua! Realmente são muito sutís. Mas, eu sempre me batia com os portugueses que a maior questão é que eles não falam a sua própria língua tão bem quanto deveriam falar. Ou, pelo menos não a escutam como deveriam escutar. E, obtive a prova máxima disto, no período em que ainda morava lá. Um dia, estava eu a ver “tulvisão”*, quando surge uma reportagem sobre a explosão de uma fábrica de fogos de artifício em Braga. Ora pois, lá pras tantas aparece um cartaz escrito a mão, ao lado do vigia. E o que dizia o cartaz? Nada mais nada menos que: “Prigo, explosivos”. Óbviamente que o gajo escreveu do jeito que saiu-lhe aos ouvidos.

E as diferenças? Tipo registro que é registo, equipe que é equipa. Um dia entrei no estúdio procurando um durex, e foi aquele ti-ti-ti. A Ana, que era uma semi-virgem lusitana, enrusbeceu-se toda. Depois vim a saber que durex lá é camisinha. E que o que eu procurava vinha a ser a tal da fita-cola. Tão natural gentem! Indo mais adiante, toca-fitas é leitor de cassetes. Isopor é esferovite, e faquinha olfa é chisato (que vem da marca x-ato, também japonesa, e que foi a primeira a aportar por aquelas bandas).

A criação na nossa lusagência tripeira**, era brasileira. Mas, em determinado momento contratamos uma dupla júnior portuguesa. Afinal, nada melhor do que quem fale o dialeto local para que as coisas possam ficar mais claras.

Um dos primeiros anúncios que eles fizeram foi para uma franquia de roupas de bebê (lá é bebé). Era um anúncio para vender a coleção (ou colecção) de inverno da referida loja. Passado o briefing, e dada aquela margem necessária a uma dupla júnior iniciante na agência, lá fui eu à sala deles saber como iam as coisas. E, para minha surpresa já estavam com o rough prontinho. Quando batí o olho no título, juro que levei um susto ao deparar de supetão com um “Neste inverno as mães galinhas...”. Cara! Pensei eu, “quequiéisso?” E depois de muito papo pra lá e papo prá cá, eles me convenceram que “mãe galinha”, do lado de lá do Atlântico, é nada mais nada menos que uma mãe coruja. Sem galinhagem alguma.

* É assim que eles falam televisão.

** Tripeiro é quem nasce na cidade do Porto.

O "caso" do grito de carnaval

Foi numa reunião de pré-produção que o Cyll Farney, o velho galã da chanchada nacional, revelou-me que não conseguia decorar textos maiores que vinte palavras. “Você pode reparar...”- dizia-me ele - “...em filmes, eu sempre que falava um texto grande, tinha um vaso de plantas na frente... ou alguma coisa do gênero”. De fato, dias depois assisti “Carnaval Atlândida”, na TV, e lá estava o Cyll, com uma tapadeira na frente, e, sem dúvida o texto alí, de cola. E naquele tempo nem existia teleprompter. Era duro mesmo.

Nesta mesma reunião, em que também estava presente o Carlos Manga, surgiram assuntos memoráveis. O Manga a falar das suas experiências e inovações nos tempos de TV Excelsior, no Rio de Janeiro. Coisas do arco da velha. Coisas que hoje são até comuns, mas naqueles idos de setenta eram mesmo audazes e inovadoras, como os finais de noite sexy que ele lançou e marcou época.

Mas, voltando ao Cyll, ele contou casos de quando fez uma série na antiga TV Tupi, ali na Urca. O nome da referida série era “O jovem dr. Ricardo”. Olha gente, eu juro que, apesar de na época ser garoto, ainda me lembro da série. Começava com uma ambulância subindo a rua Alice, fazendo aquelas curvas todas. E depois finalmente, começava o capítulo, naquele improviso que era a televisão de então. A televisão dos tempos do “Falcão Negro” e dos “Patrulheiros Toddy”, do “Repórter Esso” e do “Teatrinho Trol”.

Vi um cenário da série “Falcão Negro” despencar quando o vilão da história esbarrou nele. E o pior: era a parede de ‘pedra’ de um castelo. Claro que pintada em compensado. Ainda trocaram de câmera, mas a gente ouviu aquele barulhão da coisa batendo no chão.

Mas, conta o Cyll Farney, que no primeiro capítulo da tal série, ele estava nervoso pra cacête (detalhe importante, naquela época não existia VT. O negócio era pra valer. Ali, no ato... e pimba!), e tinha que entrar em cena se apresentando. Então era só dizer: “Eu sou o dr. Ricardo!”. Não é que o nosso herói entra em cena, abre a porta e diz no ar, alto e bom som: “Eu sou o Cyll Farney!”. Coisas do futebol!

Um bom tempo depois desses acontecimentos, e eu estava na Provarejo, aquela agência que atendia o grupo Mesbla inteiro. Eu fui pra lá como supervisor de criação e era uma trabalheira dos diabos. Uma hiperagência, num tempo de hipernúmeros. Putz! A gente saia de lá hipermassacrado. Mas, juro que era divertido às pampas. Um dia, perto do carnaval, a gente inventou o “grito de carnaval”. Convidou a agência inteira para assistir às tantas horas um grito de carnaval na criação. Chegada a tal hora, todo mundo começou a chegar perto da criação, aquela expectativa toda. E, de repente, todas as duplas gritaram em coro: “CARNAVAAAAAAAAAAL!” Estava dado o tal grito.

Não tinha nada a ver com “Carnaval Atlântida”, mas é um caso que quem viveu não pode se esquecer.

sexta-feira, setembro 08, 2006

O "caso" do táxi

Conheci o Ney D’Azambuja Ramos, ou simplesmente Ney Azambuja nos bons tempos de L&M. Uma das características mais marcantes do Ney é o seu apurado senso de humor. E, neste particular, recordo-me de passagens memoráveis. Aquela de entupir os cachimbos do Victor Kirowisky com cola de borracha era uma delas.

Um dia ele sorrateiramente acendeu um fósforo no traseiro do Saulo, um ilustrador, na época ainda estagiário. A chama foi queimando devagarinho até que o Saulo deu um pulo de susto. Aos berros, queria até chegar às vias de fato. Teve que ser contido pela galera enquanto o Ney rolava no chão de tanto rir.

Coisas desse tipo me faziam o Ney lembrar o ‘primo Altamirando’, ou simplesmente ‘Mirinho’, famoso personagem do Stanislaw Ponte Preta.

Criativo, escreveu a letra de ‘Rua Ramalhete’, música do Tavito, sem nunca ter pisado os pés em Belo Horizonte. Tudo a partir de um briefing do parceiro. Nas horas vagas era piloto de teco-teco.

Mas entre os muitos casos do Ney, tem um que realmente pode ser considerado memorável.
Às vezes, quando saia do trabalho, pegava o seu fusquinha, e ali, bem ali onde tem um “Santo Antônio” para os caronas se segurarem em casos de freiadas bruscas, curvas fechadas, ou aceleradas mais audazes, ele ocasionalmente acendia uma lanterna dessas de mão. O fato é que ficava parecendo um taxímetro. Afinal, à noite todos os gatos são pardos mesmo. Além disso, naquele tempo, táxi não tinha cor definida, o que confundia mais ainda. Segundo o Ney, era divertido demais ver os menos avisados fazendo sinal para o carro. E ele não parando, claro.

Até que uma noite, uma velhinha acenou. E o Ney, pensou com os seus botões que ia fazer a boa ação do dia. Parou o carro, abriu a porta e ela entrou. Sentou no banco e pediu-lhe que fosse para o Bairro Peixoto. Bom, ele tacou ficha, como se um táxi fosse.

Chegando ao seu destino, a dona abriu a bolsa e perguntou quanto tinha sido a corrida. O Ney, esboçando um sorriso, disse que não era nada porque afinal de contas ele não era táxi e só queria mesmo ter dado uma “carona” para ela; fazer um obséquio.

A velha senhora não se conformou. Olhou para ele, olhos esbugalhados, atônita, não acreditando naquilo, e foi saindo desconfiada do que pensara ser um táxi. Deu a volta, olhou bem a placa do carro e realmente certificou-se de que aquele papo estranho era mesmo a pura verdade. Saiu correndo o mais depressa que pode. E deve ter passado um bom tempo conferindo placas antes de pegar outro táxi.

terça-feira, setembro 05, 2006

O "caso" da dedicatória

Outra história rapidinha.

Hélio Faria foi diretor de criação da Asa durante um longo tempo, antes de partir para sua própria agência, a L&F.Tem um "caso" muito engraçado que aconteceu com ele e um diretor de arte mineiro (que não me ocorre o nome).

A ASA tinha muitos livros de publicidade. Diversos deles eram do próprio Hélio, não da agência. Um belo dia ele descobriu que sua coleção particular estava diminuindo a cada dia que passava.
É que tal diretor de arte pegava os livros do Hélio, que já estavam devidamente assinados na primeira página, e colocava acima: "Para o fulano de tal, com um abraço do..." e aproveitava a sua assinatura.

O "caso" do mendigo

João Moacyr de Medeiros foi muito importante na história da propaganda. Não somente a carioca, como também a brasileira. Sem dúvida alguma, a sua JMM constituiu-se, já na década de cinqüenta, uma das agências pioneiras na reformulação da comunicação no Brasil, e também na procura de novos caminhos para o negócio da propaganda. Principalmente pelo trabalho desenvolvido para o Banco Nacional, que naqueles tempos respondia pelo nome de BNMG (sigla de Banco Nacional de Minas Gerais).

Existem pérolas da criatividade publicitária nos moldes de então. Como por exemplo o filme do personagem que vai envelhecendo, a barba crescendo, e criando teias de aranha nas mãos, como também no corpo todo por ficar esperando ser atendido em um banco qualquer. Depois, o filme terminava dizendo que no Nacional, não era nada disso, que num banco moderno você é atendido rapida e eficientemente, e por aí a fora. O que era verdade. O Nacional foi o primeiro banco a instituir o atendimento direto ao caixa.

E a campanha do José? José era o gerente do banco, de um banco que facilitava a vida de todo mundo. No final, o filme sempre terminava com a frase: “José, você é um santo!”. Surgia uma aureolazinha na cabeça do José, seguida de um “plim”, e este olhava para cima com aquele ar dócil. O José, era nada mais nada menos que o Zacarias (aquele mesmo dos Trapalhões), sem peruca. Um doce de campanha.

Anteriormente, a JMM já havia desenvolvido conceitos e campanhas bastante inovadores, como as da Real Aerovias, uma companhia aérea, ou das Casas Masson, uma joalheria do Rio.

Bom, é claro que o Medeiros estava escorado, e muito bem escorado pelo Cid Pacheco, um puta dum profissional de comunicação. Professor, o Cid fez escola na criação e no atendimento, pela sua cultura, pelo seu conhecimento da história da propaganda, pelo seu domínio do marketing.
Tive o prazer de conviver com o Cid, quando o Favilla e eu fomos para a Sinal, agência criada para atender o Banco Nacional em 1979. Os primeiros dias daquela agência foram na JMM, até ela mudar-se em definitivo para Botafogo, onde ocupou uma parte da Esquire, cujo espaço era muito maior, em um palacete de Botafogo; pois o Medeiros era sócio do Fernando Barbosa Lima, também um dos sócios da Esquire.

Mas, o fato é que têm coisas que ocorreram com o Cid, e quem para o conheceu, sabe que só podiam ter acontecido com o Cid. Tem por exemplo o caso da campanha “sob medida”. Ou da “campanha planejada”, ou seja o nome que seja dado a este caso.

Teria, na ocasião, combinado com o Lula Vieira, então diretor de criação da agência: “Vamos fazer como fazem os estadunidenses! Uma campanha com prazos, dentro de um cronograma perfeito. Nada de ‘correria’, nada de coisas feitas na última hora”. E começou a traçar uma estratégia. E, claro que a coisa correu às mil maravilhas. Uma semana antes da apresentação da referida campanha - que por sinal era uma concorrência -, estava tudo pronto. Tudo nos ‘trinques’. E o velho Cid, passava pelos corredores da agência, cumprimentando toda a equipe envolvida no trabalho, parabenizando o Lula e todos aqueles que realizaram uma tarefa impecável.

Chegou o dia da apresentação, que era em São Paulo. O Cid embarca com o embrulho das peças a serem apresentadas. A apresentação tinha hora marcada. Cada agência entraria a seu tempo. Mas, no íntimo, Cid Pacheco exibia um sorriso de confiança.

Perto da hora marcada, Cid começa a desembrulhar tranqüilamente o pacote, e eis que... um susto! Não estavam ali as peças da campanha, e sim as artes finais de outro trabalho, de outro cliente. Resultado: liga pro Rio, manda o boy embarcar rapidinho no aeroporto, não só para trazer o que teria que estar lá, como também para devolver o que não deveria estar. No final da história, a tão planejada apresentação aconteceu. Mas com mais de três horas de atraso. Uf!!!

Agora, de todas as histórias da JMM, a mais folclórica, a mais comentada, era a do mendigo que andava nas imediações da agência, ali no Largo da Carioca, e que adentrava a sala do Medeiros pedindo um dinheirinho, estivesse lá quem estivesse. E o mais interessante é que o Medeiros metia a mão no bolso, retirava alguns trocadas de sua polpuda carteira e o entregava ao esmolante, sabe-se lá porquê... caladinho.

Casos que a propaganda não contou.

sábado, setembro 02, 2006

O "caso" da apresentação à japonesa

Aconteceu na Salles em São Paulo, e eu não estava presente. Na época trabalhava na mesma agência aqui do Rio, mas o fato, de fato correu pelos quatro cantos, e todo o mundo ficou sabendo.

Foi uma apresentação para um prospect. Era um grupo nipônico. E havia um detalhe muito importante: os clientes não falavam bulhufas de português. Então, obviamente era necessária a presença de um intérprete. Um desses nisseis, que não faltam por aquelas bandas de Sampa.
Presente o alto comando da Salles. Naquela época, além do Mauro Salles, seu irmão Luis e o Domingos Logullo, este diretor nacional de criação da agência.

A apresentação foi toda feita na base do falava alguém em português, e o tal do tradutor repassava tudo em japonês. E assim a campanha foi toda apresentada. E os japas ali, atentos a tudo.

No final, o tal grupo de orientais se retirou e fechou-se numa sala ao lado. Aquele suspense. Suor frio nas mãos, todos se entreolhando. Um puta dum clima de expectativa.

Ao final de alguns minutos, que sabe-se lá quantos, os personagens saem da sala, a tal sala ao lado, e caem de aplausos em frente à equipe da Salles e do intérprete. E retiram-se abruptamente.

Instantes de alegria e exaltação. Mauro, Domingos, Luis, a galera toda vibrando com os aplausos, com o entusiasmo dos japas. De repente o intérprete toma a palavra e pede um aparte:
- Calma, gente, calma gente, né!?

O grupo, sem compreender exatamente o que, encara o nissei. E ele continua:

- Não é bem o que vocês estão pensando...

Todos, atônitos, continuam a encarar o intérprete.

- Na verdade, existe um velho hábito japonês que é o de aplaudir, por questão de respeito, aqueles que perdem, mas que pelo esforço e pelo empenho merecem solidariedade e muita consideração.

Ah, esses japoneses!

Este texto foi publicado no site do CCRJ

sexta-feira, setembro 01, 2006

O "caso" da paquera

A Zurana era uma produtora de jingles que fez muito sucesso no Rio de Janeiro nos finais dos anos 70 e início dos 80.

Seu staff era composto de, nada mais nada menos que Ivan Lins, Paulo Sérgio Vale, Tavito, todos alinhavados pelo talento coordenador de Mariozinho Rocha, um senhor produtor musical.
Era muito comum a turma de criação da L&M encontra-los no fim da tarde, ou mesmo almoçar no Amarelinho, pois a Zurana era na Alcindo Guanabara, quase ao lado do famoso boteco do centro do Rio.

Costumávamos ficar ali por infindáveis momentos e papos, piadas e casos da vida. Sempre, depois do chopp algumas – às vezes muitas - doses de licor. Cointreau de preferência.
O Tavito, após um desses almoços, num dia inspirado por aquelas diversas doses de Cointreau, contou um caso que se passou com ele:

- Gente, eu estava na rua outro dia, parado num sinal, e uma mulher linda, mas muito linda mesmo, deu bola pra mim... – rodou a cabeça em torno, encarando a todos, e continuou – ...e era pra mim mesmo! Juro! Sabem por que? Acreditem, mas não havia mais ninguém naquela direção...

O "caso" da bruxa

Quem me contou esta foi o saudoso Daniel de Freitas, um dos sócios da DNA, durante um jantar em Belo Horizonte, na última vez em que trabalhei naquela cidade entre abril de 1999 e setembro de 2000.

Estava ele uma noite, num bar, quando notou que seus charutos haviam acabado. Daniel que não passava sem um bom cubano, pegou o telefone, e ligou para a agência, que não estava muito longe. Atendeu o vigia. O Daniel pediu a ele que procurasse uma caixa de charutos que estava na gaveta de sua mesa, pegasse uns três ou quatro, e levasse para ele.

Continuou no papo, no uísque, e o tempo foi passando.

Após uma longa e “paciente” espera, voltou a ligar pro cara. Ele atendeu e o Daniel perguntou por que não havia chegado até aquele momento.

“Ih, Seu Daniel! Eu achei os seus charutos... eu peguei os seus charutos... eu desci com os seus charutos... mas acontece, que quando eu cheguei na rua... vinham duas bruxas andando na minha direção, e... eu... bom... eu voltei pra agência... e tô com medo até agora...” disse o zelador com a voz trêmula.

Era noite de Halloween.

quinta-feira, agosto 31, 2006

O "caso" da apresentação à galega

Desembarquei em Portugal. Chegava ali em pleno verão europeu. Sem dúvida, bem mais ameno que o nosso. Quer dizer, em alguns aspectos. Ao chegar lá, fui recebido no aeroporto pelo Orlando, o redator brasileiro e por um account* da agência.

No caminho para o trabalho, já fiquei sabendo que meu verão europeu seria tão quente quanto o nosso tropical. Enquanto me familiarizava com a paisagem da "mui leal, heróica e invicta" cidade do Porto, ia escutando um relato de alguns problemas que estavam acontecendo por aquelas plagas d’além-mar.Para início de conversa, a agência, por estar sem Director Criativo já havia algum tempo, estava uma bagunça. Ou seja, todo mundo criava um pouco. Afinal, "de ‘criativo’ e louco, todo mundo tem um pouco", como diz o ditado popular.

Trocando em miúdos, eu estava a entrar numa autêntica zorra.De imediato tínhamos dois problemas graves a serem sanados para um mesmo cliente, que era um fabricante de jeans. O primeiro deles era até meio insolúvel. Tinha uma campanha criada por alguém, que não me lembro mais, e que havia sido aprovada pelo cliente. O produto era o jeans "Mako". O drama é que o filme era uma sucessão de lugares-comuns. Aquela coisa meio antiga, no ritmo de "Um homem, uma mulher", realmente uma idéia cheia de clichês. Não tinha muito jeito. Era apenas uma questão de produção.

Fui informado de que, ao chegar na agência, já teria uma reunião com a produtora que realizaria o filme, e que estaria embarcando para Lisboa daí a dois dias, para tentar junto com a referida produtora, transformar aquela bosta de roteiro num filme “inesquecível”.

O segundo era um pouco menos pior. O cliente não havia aprovado a idéia do filme para o outro produto. "Big Wit" era o seu nome. Teríamos que criar uma nova campanha para este. Com um pequeno detalhe: a apresentação da campanha já estava marcada para o dia seguinte pela manhã, no cliente.Ao chegarmos na agência, juro que mal deu tempo de ir ao banheiro lavar o rosto e me recompor da viagem transatlântica, e lá estava eu na mesa de reunião junto com a produtora e o patrão que eu ainda não conhecia.

A produtora - Nova Imagem, era o seu nome, aliás, uma das melhores e maiores em Lisboa - estava representada pelo seu diretor e também realizador** do filme, o Norberto.
O papo foi muito profissional. O Norberto já tinha uma série de idéias para salvar o filme. Após tê-las exposto, e haver uma concordância geral, partimos para o outro problema. Aí, eu pedi um certo tempo. Precisava me reunir com o redator e criar uma nova campanha. Não tinha como sair uma nova proposta, naquele momento, sem nem conhecer o problema por completo.
Bom. Fui almoçar após uma breve apresentação a todos na agência. Comi um excelente bacalhau, no tipico bairro da Ribeira, bem alí ao pé da ponte Dom Luiz e à margem do rio D’Ouro, enquanto me inteirava melhor do briefing.

Voltamos para a agência e arregaçamos as mangas, rumo ao desafio. Tínhamos pouco tempo e sabíamos disso. A campanha constava de um outdoor, um anúncio de página de revista, algum material de ponto-de-venda e um filme. Sim, mas um filme de oito segundos. Uau! Era completamente estranho para mim filmes de oito segundos. Mas era uma coisa muito comum na mídia portuguesa. Pelo menos naquela época. O nosso produto era destinado ao público jovem, masculino e feminino, sendo que tinha uma linha infantil. Pensávamos o quanto seria difícil dizer tudo isso em oito segundos. Mas, depois de algumas idas e vindas surgiu uma idéia simples. O filme consistia num travelling. O cenário era feito de biombos em que viam-se pendurados jeans. O movimento do carrinho começava no homem, passava para a mulher e continuava num terceiro biombo que só tinha roupas penduradas. Quando chegava aí, saía um menino de seus oito anos. Detalhe: completamente pelado. O locutor em off dizia: “Descubra-se com Big Wit”.

Com a idéia na cabeça, vendemos para o nosso patrão e dono da agência. Fomos marcar a campanha toda. Esta campanha foi em 1990. O primeiro Mac da Opal foi comprado no ano seguinte, um IICi de saudosa memória para mim. Ela foi toda marcada a mão. Algo do tipo primeiro dia, primeira virada. Mas valeu. De madrugada estávamos admirando o fruto de nossa façanha

Fui dormir, porque afinal ninguém é de ferro, e na manhã seguinte eu ia sair com o Rente (o dono da agência) para apresentar a campanha.

E chegou o momento. Cedinho, tipo oito da manhã, estávamos todos a postos para ir ao cliente. Porque além de tudo não era bem na cidade, e sim em outra localidade, a cerca de 20 minutos dali.

Chegamos finalmente ao local da reunião e sede da Mako Jeans. Estava lá toda a diretoria da empresa numa sala de reunião até bastante bem montada. O combinado é que eu ia apresentar a campanha, mas o Rente faria uma introdução, até por ser ele o dono da agência e amigo do cliente. Ele, compenetradamente, tomou a palavra e disse:

- Senhores! Estamos cá com a nossa campanha.

Não sei se é o melhor que vocês já viram, mas é o melhor que pudemos fazer!

Olha, a vontade que eu tive foi de me enfiar debaixo da mesa e não sair mais. Nunca mais. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Ou seja, consegui apresentar e aprovar a idéia, com aplausos, aliás. Segui para Lisboa no dia seguinte, e o filme foi produzido, aliás com primor pelo Norberto e sua equipe. E foi ao ar. Apesar daquela inesquecível apresentação "à galega".

* Lá, quer dizer contato.
** Em Portugal, realizador é o diretor do filme.

quarta-feira, agosto 30, 2006

O "caso" do cliente teimoso

Este foi-me contado pelo meu amigo Sergio Torres, de Belo Horizonte. E os fatos ocorreram, mais ou menos do jeito que se segue, no transcorrer de uma reunião.

Estava sendo apresentada uma campanha a um cliente. Bom, a agência inteira acreditava, e muito, na referida proposta. Mas o cliente não gostou. Sim, o cliente era do tipo "não gostei". Coisa que aliás é um comportamento "secular" em propaganda. Se um médico dá uma opinião sobre a saúde de alguém, a coisa é levada a sério. Uma equipe de publicitários, grande parte das vezes, não tem a mesma sorte. Apesar de encarar com seriedade o problema passado para eles, existem clientes que quando não gostam, empacam. E, em muitos casos, é mesmo por questão de gosto pessoal. É como se a campanha fosse dirigida a ele, e não ao seu público alvo. É mais ou menos como se ele fosse o consumidor final de seu próprio produto ou serviço.

Em determinado momento, a agência, vendo que o cliente continuava não concordando com a campanha, sugeriu que se fizesse uma pesquisa.

- É, que tal pré-testar a campanha? Daria a todos nós muito mais confiança em seguir adiante. Além disto seria uma forma de sabermos se realmente estamos ou não atingindo o nosso target.

O cliente coçou o queixo, parou, pensou um pouco e soltou de lá a seguinte preciosidade:

-Seria um grande problema... Todos pararam. Atenções em cima do indivíduo que continuou:

-...e se todos gostassem, e eu continuasse não gostando?

O "caso" da paella

Era aniversário do Lula Vieira. O pessoal da então VS Escala, resolveu comemorar no Clube Espanhol. Era bem pertinho da agência, que nessa época ficava alí na Humaitá.

Daí, fizeram uma reserva para cinqüenta pessoas mais ou menos. E encomendaram paella para todos. Era comida pra dedéu.

Meio dia e meia. Aquele bando de gente deslocou-se a pé para o local escolhido. Muito papo, alegria, descontração geral. Subimos as amplas escadas e estavam lá as mesas formando um gigantesco retangulo. Praticamente fechamos o restaurante do clube. O maitre, feliz da vida com a casa cheia, anotando os pedidos de cervejas, caipiras, e, naturalmente generosas doses de uísque escocês. Uma festa! Papos descontraídos, risadas. O ambiente cada vez mais etílico.

Chegam os panelões de paellas. Hummm! Afinal era o Clube Espanhol! Não era uma paella qualquer, mas a autêntica. E por sinal maravilhosa mesmo. Óbviamente, comemos de nos entupir. Isso tudo, magistralmente regado, a essa altura, por um bom vinho e o impecável portunhol do Manolo a falar apaixonadamente de sua terra natal, justamente Valencia, o berço da mais famosa das paellas, e também de Barcelona, de Gaudi, da Sagrada Família, de Miró. Uma autêntica viagem pelas maravilhas da península.

Sobremesas mil. A turma já pesada... ufff!

Lá pras tantas, entra o garçon e dirige-se ao Aías, o diretor financeiro, o homem do dinheiro.

- Telefone pro senhor...

O Aías retirou-se para atender o telefone lá dentro.

Olha, eu juro que me pegaram de surpresa. Mas, instantaneamente fui brifado do que estava acontecendo. Alguém tinha combinado de chamar o Aías ao telefone só para que, durante a sua ausência, todo mundo saísse correndo e o deixasse sozinho para pagar a rechonchuda conta. É bom lembrar que naquele tempo ainda não tinha telefone celular.

Rapidamente levantou-se a imensa galera, que disparou, em velocidade estonteante (até porque o álcool ajudava neste aspecto) qual uma horda desvairada. Foi uma correria dos diabos. E eu me ria muito de ver toda aquela gente, em disparada, primeiro escadas abaixo, depois pela rua Maria Eugênia, e, em seguida entrando em algazarra, pelo portão de entrada da agência. Uma verdadeira loucura.Mas o melhor mesmo foi ver o Aías chegar, pau da vida, esbravejando, e até ameaçando descontar no final do mês, no contra-cheque de cada um dos participantes e, quem sabe até nos pró-labores dos sócios proprietários. Coisa que naturalmente não passou de ameaças.

Ficaram mesmo a recordação dos sabores de um momento hilariante, de uma autêntica paella valenciana, e, principalmente daquela inesquecível VS Escala.