quinta-feira, agosto 31, 2006

O "caso" da apresentação à galega

Desembarquei em Portugal. Chegava ali em pleno verão europeu. Sem dúvida, bem mais ameno que o nosso. Quer dizer, em alguns aspectos. Ao chegar lá, fui recebido no aeroporto pelo Orlando, o redator brasileiro e por um account* da agência.

No caminho para o trabalho, já fiquei sabendo que meu verão europeu seria tão quente quanto o nosso tropical. Enquanto me familiarizava com a paisagem da "mui leal, heróica e invicta" cidade do Porto, ia escutando um relato de alguns problemas que estavam acontecendo por aquelas plagas d’além-mar.Para início de conversa, a agência, por estar sem Director Criativo já havia algum tempo, estava uma bagunça. Ou seja, todo mundo criava um pouco. Afinal, "de ‘criativo’ e louco, todo mundo tem um pouco", como diz o ditado popular.

Trocando em miúdos, eu estava a entrar numa autêntica zorra.De imediato tínhamos dois problemas graves a serem sanados para um mesmo cliente, que era um fabricante de jeans. O primeiro deles era até meio insolúvel. Tinha uma campanha criada por alguém, que não me lembro mais, e que havia sido aprovada pelo cliente. O produto era o jeans "Mako". O drama é que o filme era uma sucessão de lugares-comuns. Aquela coisa meio antiga, no ritmo de "Um homem, uma mulher", realmente uma idéia cheia de clichês. Não tinha muito jeito. Era apenas uma questão de produção.

Fui informado de que, ao chegar na agência, já teria uma reunião com a produtora que realizaria o filme, e que estaria embarcando para Lisboa daí a dois dias, para tentar junto com a referida produtora, transformar aquela bosta de roteiro num filme “inesquecível”.

O segundo era um pouco menos pior. O cliente não havia aprovado a idéia do filme para o outro produto. "Big Wit" era o seu nome. Teríamos que criar uma nova campanha para este. Com um pequeno detalhe: a apresentação da campanha já estava marcada para o dia seguinte pela manhã, no cliente.Ao chegarmos na agência, juro que mal deu tempo de ir ao banheiro lavar o rosto e me recompor da viagem transatlântica, e lá estava eu na mesa de reunião junto com a produtora e o patrão que eu ainda não conhecia.

A produtora - Nova Imagem, era o seu nome, aliás, uma das melhores e maiores em Lisboa - estava representada pelo seu diretor e também realizador** do filme, o Norberto.
O papo foi muito profissional. O Norberto já tinha uma série de idéias para salvar o filme. Após tê-las exposto, e haver uma concordância geral, partimos para o outro problema. Aí, eu pedi um certo tempo. Precisava me reunir com o redator e criar uma nova campanha. Não tinha como sair uma nova proposta, naquele momento, sem nem conhecer o problema por completo.
Bom. Fui almoçar após uma breve apresentação a todos na agência. Comi um excelente bacalhau, no tipico bairro da Ribeira, bem alí ao pé da ponte Dom Luiz e à margem do rio D’Ouro, enquanto me inteirava melhor do briefing.

Voltamos para a agência e arregaçamos as mangas, rumo ao desafio. Tínhamos pouco tempo e sabíamos disso. A campanha constava de um outdoor, um anúncio de página de revista, algum material de ponto-de-venda e um filme. Sim, mas um filme de oito segundos. Uau! Era completamente estranho para mim filmes de oito segundos. Mas era uma coisa muito comum na mídia portuguesa. Pelo menos naquela época. O nosso produto era destinado ao público jovem, masculino e feminino, sendo que tinha uma linha infantil. Pensávamos o quanto seria difícil dizer tudo isso em oito segundos. Mas, depois de algumas idas e vindas surgiu uma idéia simples. O filme consistia num travelling. O cenário era feito de biombos em que viam-se pendurados jeans. O movimento do carrinho começava no homem, passava para a mulher e continuava num terceiro biombo que só tinha roupas penduradas. Quando chegava aí, saía um menino de seus oito anos. Detalhe: completamente pelado. O locutor em off dizia: “Descubra-se com Big Wit”.

Com a idéia na cabeça, vendemos para o nosso patrão e dono da agência. Fomos marcar a campanha toda. Esta campanha foi em 1990. O primeiro Mac da Opal foi comprado no ano seguinte, um IICi de saudosa memória para mim. Ela foi toda marcada a mão. Algo do tipo primeiro dia, primeira virada. Mas valeu. De madrugada estávamos admirando o fruto de nossa façanha

Fui dormir, porque afinal ninguém é de ferro, e na manhã seguinte eu ia sair com o Rente (o dono da agência) para apresentar a campanha.

E chegou o momento. Cedinho, tipo oito da manhã, estávamos todos a postos para ir ao cliente. Porque além de tudo não era bem na cidade, e sim em outra localidade, a cerca de 20 minutos dali.

Chegamos finalmente ao local da reunião e sede da Mako Jeans. Estava lá toda a diretoria da empresa numa sala de reunião até bastante bem montada. O combinado é que eu ia apresentar a campanha, mas o Rente faria uma introdução, até por ser ele o dono da agência e amigo do cliente. Ele, compenetradamente, tomou a palavra e disse:

- Senhores! Estamos cá com a nossa campanha.

Não sei se é o melhor que vocês já viram, mas é o melhor que pudemos fazer!

Olha, a vontade que eu tive foi de me enfiar debaixo da mesa e não sair mais. Nunca mais. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Ou seja, consegui apresentar e aprovar a idéia, com aplausos, aliás. Segui para Lisboa no dia seguinte, e o filme foi produzido, aliás com primor pelo Norberto e sua equipe. E foi ao ar. Apesar daquela inesquecível apresentação "à galega".

* Lá, quer dizer contato.
** Em Portugal, realizador é o diretor do filme.

quarta-feira, agosto 30, 2006

O "caso" do cliente teimoso

Este foi-me contado pelo meu amigo Sergio Torres, de Belo Horizonte. E os fatos ocorreram, mais ou menos do jeito que se segue, no transcorrer de uma reunião.

Estava sendo apresentada uma campanha a um cliente. Bom, a agência inteira acreditava, e muito, na referida proposta. Mas o cliente não gostou. Sim, o cliente era do tipo "não gostei". Coisa que aliás é um comportamento "secular" em propaganda. Se um médico dá uma opinião sobre a saúde de alguém, a coisa é levada a sério. Uma equipe de publicitários, grande parte das vezes, não tem a mesma sorte. Apesar de encarar com seriedade o problema passado para eles, existem clientes que quando não gostam, empacam. E, em muitos casos, é mesmo por questão de gosto pessoal. É como se a campanha fosse dirigida a ele, e não ao seu público alvo. É mais ou menos como se ele fosse o consumidor final de seu próprio produto ou serviço.

Em determinado momento, a agência, vendo que o cliente continuava não concordando com a campanha, sugeriu que se fizesse uma pesquisa.

- É, que tal pré-testar a campanha? Daria a todos nós muito mais confiança em seguir adiante. Além disto seria uma forma de sabermos se realmente estamos ou não atingindo o nosso target.

O cliente coçou o queixo, parou, pensou um pouco e soltou de lá a seguinte preciosidade:

-Seria um grande problema... Todos pararam. Atenções em cima do indivíduo que continuou:

-...e se todos gostassem, e eu continuasse não gostando?

O "caso" da paella

Era aniversário do Lula Vieira. O pessoal da então VS Escala, resolveu comemorar no Clube Espanhol. Era bem pertinho da agência, que nessa época ficava alí na Humaitá.

Daí, fizeram uma reserva para cinqüenta pessoas mais ou menos. E encomendaram paella para todos. Era comida pra dedéu.

Meio dia e meia. Aquele bando de gente deslocou-se a pé para o local escolhido. Muito papo, alegria, descontração geral. Subimos as amplas escadas e estavam lá as mesas formando um gigantesco retangulo. Praticamente fechamos o restaurante do clube. O maitre, feliz da vida com a casa cheia, anotando os pedidos de cervejas, caipiras, e, naturalmente generosas doses de uísque escocês. Uma festa! Papos descontraídos, risadas. O ambiente cada vez mais etílico.

Chegam os panelões de paellas. Hummm! Afinal era o Clube Espanhol! Não era uma paella qualquer, mas a autêntica. E por sinal maravilhosa mesmo. Óbviamente, comemos de nos entupir. Isso tudo, magistralmente regado, a essa altura, por um bom vinho e o impecável portunhol do Manolo a falar apaixonadamente de sua terra natal, justamente Valencia, o berço da mais famosa das paellas, e também de Barcelona, de Gaudi, da Sagrada Família, de Miró. Uma autêntica viagem pelas maravilhas da península.

Sobremesas mil. A turma já pesada... ufff!

Lá pras tantas, entra o garçon e dirige-se ao Aías, o diretor financeiro, o homem do dinheiro.

- Telefone pro senhor...

O Aías retirou-se para atender o telefone lá dentro.

Olha, eu juro que me pegaram de surpresa. Mas, instantaneamente fui brifado do que estava acontecendo. Alguém tinha combinado de chamar o Aías ao telefone só para que, durante a sua ausência, todo mundo saísse correndo e o deixasse sozinho para pagar a rechonchuda conta. É bom lembrar que naquele tempo ainda não tinha telefone celular.

Rapidamente levantou-se a imensa galera, que disparou, em velocidade estonteante (até porque o álcool ajudava neste aspecto) qual uma horda desvairada. Foi uma correria dos diabos. E eu me ria muito de ver toda aquela gente, em disparada, primeiro escadas abaixo, depois pela rua Maria Eugênia, e, em seguida entrando em algazarra, pelo portão de entrada da agência. Uma verdadeira loucura.Mas o melhor mesmo foi ver o Aías chegar, pau da vida, esbravejando, e até ameaçando descontar no final do mês, no contra-cheque de cada um dos participantes e, quem sabe até nos pró-labores dos sócios proprietários. Coisa que naturalmente não passou de ameaças.

Ficaram mesmo a recordação dos sabores de um momento hilariante, de uma autêntica paella valenciana, e, principalmente daquela inesquecível VS Escala.

segunda-feira, agosto 28, 2006

O "caso" da malhação malhada

Naquele tempo, lá pelo final da década de 70, malhação era uma moda que ainda estava no começo. Não era ainda tão difundida como hoje em dia. E, justamente, por ser uma nova moda, era um negócio praticado nas esferas mais sofisticadas da sociedade. O preço de uma inscrição nas poucas academias existentes, sai da frente, uma nota preta.

O Delano D’Ávila, aquele jovem e promissor diretor de arte do mercado carioca, trabalhava então na Salles. Um belo dia, de tanto o Studart (outro diretor de arte da mesma agência) batucar na sua cabeça, foi convencido a fazer uma inscrição numa destas referidas academias. Afinal, dizia o Studart, combater uma barriguinha proveniente de umas boas e geladas cervejas nos fins de semana, não fazia mal a ninguém.

Lá se foi o Delano, talvez até porque além de tudo, o Studart tenha falado tanto do mulherio que tinha lá que ele se encantou com o fato.

No dia marcado, nosso herói aproveitou para fazer um lauto repasto à hora do almoço. Comeu pra cacête mesmo. À tarde, trabalho pra caramba, e lá pras tantas, Delano começou a sentir umas cólicas. tomou um remédio, mas a coisa não melhorou muito não. Tentou desistir, mas o Studadrt caiu de pau em cima dele. "Colé, mermão, a essa altura não dá pra desistir. Vamos lá que vai ser bom".E lá se foi o Delano. No final do expediente ele e o Studart adentraram a academia. E eis que o Delano confirmou que a coisa realmente era do outro mundo. Mulheres gostosíssimas, divinas, “dondocas” de primeiro time. Um negócio que por si só já era um colírio para os olhos. Trocando em miúdos, Delano entrou na dança. Trocou a roupa, produziu-se pro baile e mandou ver.Um... dois... direita... esquerda... pra cima... pra baixo...

De repente pintou a tontura, pintou o enjôo. Um mal-estar dos diabos. O negócio foi tão sério que a coisa parou. A instrutora, que parecia realmente entender da coisa, pediu que o Delano respirasse fundo e foi encaminhando ele para uma cadeira. Todo mundo em volta. Aquele vexame. Delano sentou-se na cadeira. Aí a mulher pediu que ele se curvasse e ficasse com a cabeça entre as pernas para melhorar.Bom, foi ai que aconteceu. O peido. um peido desses longos e extremamente barulhentos. Basta dizer que o Delano nunca mais voltou naquelas plagas. Perdeu a taxa de inscrição, a roupa que havia investido. Mas, enfim... aqueles roughs todos depois do almoço. Aquela campanha da Souza Cruz. Logo praquele dia!

O "caso" do ‘erro de revisão

A Embratel era uma conta fantástica. A gente fez coisas memoráveis para ela nos tempos de L&M.O meu primeiro prêmio no Clio, devo a um anúncio da Embratel. Na ocasião, o Carlinhos Chagas e eu estavamos começando na agência e nos passaram um job de classificados, destes que nenhuma das duplas mais antigas na casa queria fazer.

Nós pegamos o pedido e faturamos o prêmio. Era um anúncio que procurava técnicos em computação. Bom, nos idos de 1976, computação era realmente um bicho-de-sete-cabeças, uma coisa em que pouca gente trabalhava. Uma pequena aldeia mesmo. Daí, nós criamos um anúncio que era o seguinte: "OS, DOS, COBOL, TOTAL, ADABAS. Se você entendeu este anúncio até aqui, você é uma das 16 pessoas que estamos procurando".

Aliás, o anúncio foi premiado não somente no Clio, como também na coluna do Jomar, do jornal O Globo, na Janela Publicitária, no Colunistas. Foi prêmio pra dedéu.

Mas, prêmio era uma característica na L&M, e na conta da Embratel em particular, a coisa era rotina.

Algum tempo depois, eu já fazia dupla com o Ney Azambuja, e nos chegou o pedido de um anúncio para inauguração do DDI para a Alemanha. E o Neyzinho sacou um título excelente: "Meu mãe mora no Berlim. Eu gosta muito de falar com ele." O texto era todo escrito assim também, quer dizer, como se fosse um alemão falando português. Hi-lá-rio! Claro que no layout eu taquei lá o carão de uma alemãozão. Bom, o anúncio foi aprovado, produzido. Tem um detalhe engraçado: o modelo da foto não era uma alemão e sim um belga. Mas qualquer um juraria que o cara era um boche.

Bom, material produzido, tudo em cima, seguiu pra mídia. Ai é que foi o grande acontecimento do referido anúncio. Alguém pegou o dito cujo e saiu gritando pela agência em alto e bom som que o anúncio tinha passado cheio de erros de revisão.
É mole?

Este texto foi publicado no site do CCRJ

sexta-feira, agosto 25, 2006

O "caso" da virada do balanço

O que não falta na vida da gente é virada. Acho que desde que comecei em propaganda as noitadas acompanham a minha vida profissional. Eu me lembro da primeira. Eu ainda era estagiário na McCann, e pintou uma campanha de um prospect. Foi a minha primeira grande virada. Mas foi também uma festa para mim.

Daí em diante, a coisa virou meio rotina. Chegou a um ponto que uma viradinha qualquer nem era registrada. Para sê-lo, precisava ser uma coisa estupenda. Dessas de você contar e as pessoas exclamarem.

Hoje em dia, quando eu tento registrar quais foram as grandes viradas da minha vida, fora a primeira, porque esta a gente nunca esquece, eu me lembro de umas duas ou três. Teve aquela na DM9/Rio, que foi de cerca de quarenta e oito horas, e que no final era tanto pastup, tanto pedacinho de papel espalhado pra todo lado, que culminou com o acontecimento, sem dúvida marcante, da Lilian - a tráfego da agência - achando um retalho de composição às cinco da matina do último dia da esticada em meio a um intrincado emaranhado de recortes no chão. Isso, claro, depois de uma hora ou mais agachada no chão, e ciscando pedacinho de papel por pedacinho de papel, na sua persistência nipônica.

Teve também aquela do balanço do Credireal na Asa, em Belo Horizonte. Esta foi de setenta e tantas horas. E teve uma particularidade. Como foi o primeiro balanço realizado após o Plano Cruzado, além daquela confusão toda de composição pra lá, composição pra cá, ainda tinha dentro da agência o pessoal da "Boucinhas & Não Sei Que Lá Ltda", fazendo uma consultoria e convertendo toda a operação financeira. Era todo o estúdio da agência - que tinha mais de seis montadores -, e sabe deus quantos free-lancers envolvidos na operação. Um tumulto daqueles dignos de não se esquecer para o resto da vida. Uma intrincada operação de guerra que teve por trás, além de mim, o Carlos Areias, que foi incansável e heróico, e o Alexandre, o popular "Pé-de-milho", que era o chefe de estúdio.

Mas, houve uma que culminou com um fato muito engraçado. Aconteceu na Sinal, aquela quase house do Nacional.

Foi também um balanço. E, como todo balanço, aquela confusão de números, revisões e outros balacobacos. Não durou mais de vinte e quatro horas, mas foi exaustiva e desgastante, até porque nossa equipe era muito enxuta, e não se contratou fre-lance algum. O Zé Augusto, que era o nosso produtor gráfico, no final fazia também o papel de boy, saindo madrugada adentro pra ir buscar composição no fornecedor. Uma verdadeira loucura. E foi com o Zé que aconteceu o caso mais engraçado.

Quando terminamos, o dito produtor ainda foi cuidar do material para os veículos. Quer dizer, o trabalho da gente acabou no sábado tipo onze da manhã e o cara ainda teve que se mandar para a Quimigráfica. Bom, na segunda-feira, a gente na agência, rememorava o acontecimento (isso faz parte de qualquer boa virada), quando chega o Zé. "E aí, Zé, como é que foi o seu fim de semana?", perguntou um de nós. O Zé, virou-se pra gente e falou, com uma expressão um tanto quanto azêda: "Fim de semana? Olha, quando eu cheguei em casa já era sábado de noite. Aí desmontei na cama. Gente, o pior de tudo é que quando eu acordei, eu escutei aquela musiquinha ‘...é Fantástico...’, o programa estava acabando.

E o fim de semana dele também, claro!

O “caso” da secretária eletrônica

Esse é daqueles rapidinhos.
Era uma vez um fotógrafo em Portugal que ganhou uma secretária eletrônica de presente. Daí, a gente ligava pra lá e ouvia a seguinte mensagem:

- Tó! Aqui é do estúdio do fotógrafo Fulano de Tal. Ele não está. Favor ligaire mais tarde.

Foi bom, não foi?

O "caso" da mesa trocada

A L&M foi uma agência que deixou muitas saudades na gente. Bem, talvez alguns não saibam, mas a L&M foi uma agência muito importante para o mercado carioca. Mas, como ela acabou há uns 20 anos atrás... Basta dizer que por ali passaram o Pedrosa e o Mauro Mattos, só pra citar os diretores de criação. Mas, além disso, para falar apenas em criação, o Favilla, Toninho Lima, Victor Kirowsky, Carlinhos Chagas, Marquinhos Guedes, Zil, Ney Azambuja, Nilton Ramalho... basta? Não vai dar para enumerar todos. Desculpem-me aqueles que omiti nesta imcompleta relação. E as contas? Bem lembrado! As contas! Embratel, Philip Morris, Alitalia, Sisal Imobiliária, Óticas Fluminense, O Globo. Ah, a L&M foi uma das responsáveis pela grande virada dos classificados d’O Globo com a campanha "Pequeninos mas resolvem". Quanto aos prêmios, a agência tinha duas ou mais paredes só com diplomas do "Clio", algumas estatuetas. E, perguntem ao Márcio Erlich como nós estávamos na sua cotação da "Janela Publitária", disputa que, na época, era o must da propaganda carioca.

No primeiro final de ano após o seu encerramento*, resolvemos fazer um encontro. Agitamos um convite xerocado que imitava a marca da agência, com um copo de chopp no lugar do &, e mandamos para toda a gente. A festividade foi marcada para perto da época de Natal. Era uma forma de relembrarmos os encontros de fim-de-ano da agência. O comparecimento foi grande. Uma galera e tanto. Era dessas mesas quilométricas, dessas que fazem curva. E começou a bebelança.

Lá pelas tantas, já estava todo mundo calibradíssimo, o Mauro Mattos desaparece. O Giancarlo Marchesini, que havia sido contato lá (dos poucos que conhecí na vida que não eram boys de luxo) e estava perto de mim, olhou em torno preocupado, virou-se para alguns de nós e disse: "O Mauro, cadê o Mauro?" Também olhamos em torno, procurando. O bar cheio, um reboliço, um zum-zum-zum danado. "Já tem um bom tempo que ele saiu da mesa...", continuou o Gian, apreensivo. Bom, resumindo a história, levantamos o Gian, eu e mais alguém, trêbados, cambaleantes, e saímos à cata do Mauro. Fomos no banheiro, nada. Olhávamos em torno, e nada. A vontade que dava era subir em cima de uma mesa e gritarmos o seu nome para ver se ele aparecia.

Voltei pra mesa, sentei-me. Mauro não estava ali. Ninguém o via já há algum tempo. Daqui a pouco aparece o Gian, segurando o Mauro, aliás, a essa altura, os dois se segurando para não cair. Ambos às gargalhadas. Que houve? Afinal, onde estivera o Mauro todo este tempo? A explicação foi realmente hilariante. Mauro fora ao banheiro. Ao sair, encaminhando-se sei lá pra onde, encontrou um grupo de pessoas que conhecia e, um lugar na mesa. A esta altura, Mauro resolveu sentar-se naquela mesa julgando que ali estivera todo o tempo, segundo nos relatou posteriormente. Coisas do futebol! Ali mesmo ficou, até que o Gian o encontrou no meio daquele bar repleto - tinha até gente em pé naquele dia - e o trouxe de volta para nosso grupo.

O "caso" do elevador

A Fosfértil (que era um cliente da Asa) resolveu promover um concurso interno de decoração natalina. E chamou o Luis Márcio Viana e a mim, como representantes da agência no júri que escolheria o vencedor.

Combinado o dia, resolvemos nos encontrar bem cedo na agência, e dali, sair para a visita, visto que esta deveria ser prolongada. Primeiro porque o cliente estava localizado em dois prédios. Segundo, porque de fato, nós tínhamos que observar cada uma das seções para efetuar o julgamento. Seria, sem dúvida um processo demorado.

Começamos a operação pelo prédio situado na Avenida do Contorno. Correu tudo às mil maravilhas. Certo que demandou um certo tempo. Dirigimo-nos em seguida ao outro prédio, que não ficava muito distante dali, numa rua da Savassi, da qual não me recordo o nome.

Quando terminamos a inspeção, e pegamos o elevador para voltar ao térreo, e finalmente retornarmos à agência já era quase hora do almoço. Estávamos no quarto e último andar. O elevador, que era pequeno estava bem apertado. Só o amplo Luis Márcio já ocupava uma boa área do dito cujo. Ainda havia eu, e mais dois diretores da Fosfértil. Quando ele parou no terceiro andar e entraram mais três pessoas, eu pensei com os meus botões que aquilo estava ficando cheio demais. E estava mesmo.

Chegando ao seu destino, o maldito do ascensor, resolve passar um pouquinho do nível. A porta ensaiou um pequeno deslocamento e ficou por aí. "Pifou" - pensei. Um ligeiro entreolhar dos seus ocupantes, alguns segundos de silêncio, aquele pensamento relâmpago de "isto aqui está um pouco apertado... quente", quando alguém mais afoito - ou mais próximo - deu alguns murros na porta. A princípio nada. Um silêncio do cão lá fora. Algum tempo depois uma voz. Depois um barulho e uma barra de ferro surgindo na abertura central da porta. Uf! Um pouco de ar também.

O dia estava quente. E a coisa prolongou-se. Ninguém conseguia abrir a porta. Tinha travado mesmo.

- Já mandamos chamar o Corpo de Bombeiros. - disse a voz do outro lado. E nós lá dentro. Aquele aperto que mal dava para respirar direito.

E o tempo passando. Não sei quanto, mas passando mesmo. O suor escorrendo. O incômodo. A claustrofobia começando...

Lá pelas tantas, um odor estranho. Algum dos ocupantes grita que está sentindo um cheirinho de queimado. Eu gelei. Gente, eu gelei mesmo. Morrer queimado no térreo é demais! Até se concluir que o cheiro de queimado fora apenas um cigarro que alguém acendeu lá fora, e que chegou a nós pela fresta da porta, foi um deus-nos-acuda dos diabos.

O Corpo de Bombeiros chegou depois de decorridos uns vinte minutos naquela situação esquálida.

Quando saímos e atravessamos a rua, entramos num bar e pedimos uma cerveja. Sem dúvida a loura gelada mais gostosa da minha vida!

quinta-feira, agosto 24, 2006

O "caso" da sessão de cinema

Era um filme de suspense. Mozart dos Santos Mello e senhora entraram no cinema e o filme estava começando. Sentaram-se e ficaram atentos ao enredo que era daqueles de provocar arrepios na espinha.

Lá pras tantas, a senhora Santos Mello ouviu algum ruído e voltou-se para o seu lado. Um clarão no filme escuríssimo e ela identificou uma silhueta que lhe era familiar de alguma forma. Ficou a refletir por alguns instantes e sussurrou no ouvido do marido: "Acho que conheço a pessoa que está aqui ao lado..." Mozart inclinou-se discretamente para a frente. Outro clarão. Voltou-se para a esposa e sussurrou também: "Parece o Vic!" Ela olhou novamente na direção daquela figura que permanecia imóvel e profundamente atenta ao filme, e confirmou que realmente era o Vic, o Victor Kirowsky, diretor de arte da McCann. Santos Mello, por alguns instantes não sabia se falava ou não com o colega de trabalho, até que decidiu-se a dizer baixinho o seu nome para não atrapalhar o bom andamento da sessão.

Qual não foi o seu espanto, quando ao pronunciar o nome do Vic e colocar levemente a mão no seu ombro, ouviu-se aquele berro no cinema. Bom, dizem alguns que até as luzes se acenderam. Mas isto talvez seja apenas a versão do fato. O que é verdade verdadeira mesmo, é que houve o berro.

O "caso" do japonês

Atlantis foi um dos primeiros clientes para quem eu trabalhei em Portugal. Já no primeiro folheto que nós fizemos para a agência lá, cujo título de capa era: "Melhor que acertar é persistir no acerto", constavam um anúncio e um filme do referido cliente. E, importante, todos dois com o japonês.

Mas, afinal o que era Atlantis e o porquê do japonês?

Bem. Atlantis era uma empresa que importava aqueles produtos dos “tigres asiáticos” e colocava o seu selinho em todos eles, desde ventiladores até aparelhos de som, passando por joguinhos de bolso a torradeiras de pão. O japonês surgiu por uma razão muito simples. Como praquelas bandas todo mundo tem mesmo olho puxado, a credibilidade maior estava no Japão. O tema da campanha era "quem conhece recomenda", com a cara do japonês estampada nos anúncios e o japa de garoto-propaganda dos produtos, no caso do primeiro filme que vendia antenas parabólicas.

Juro que foi difícil encontrar um japonês em Portugal. É coisa rara por lá. A produtora em Lisboa mandou duas fitas de teste com cerca de 14 orientais. Digo orientais porque a maioria deles era chinês ou coreano. Mas, no final, ficamos com um japonês. Detalhe: tinha até morado no Brasil. Tinha que ser. Mas era uma figura engraçada demais. Falava mal o português. Engasgava, mas no final ficava muito hilário.

No filme parabólicas ele tinha que dizer que tinham as antenas fixas e as que giram. E ele dizia isso de maneira tão curiosa e característica que ninguém poderia falar igual. A gente morreu de rir durante a gravação a edição e depois disso, cada vez que ele entrava no ar.

Foi um sucesso. Nunca a Atlantis vendeu tanta antena parabólica. Afinal, "palabólicas Atlantis... quem conhece lecomenda, né?", virou uma marca registrada. E estava tudo ali, qualidade, credibilidade, a imagem de uma tecnologia de ponta, que o Japão representava.
No meio disso, começaram a sair anúncios com o japonês, folhetinhos com o japonês, selinhos com o japonês. Era o Japão invadindo a mídia, invadindo Portugal.

Veio o segundo filme. Mais engraçado ainda. O japonês vendendo "n" produtos da Atlantis. Rádios, utensílios de cozinha, uma pá de coisa. A produção, bem mais rica que a do primeiro. Um primor de filme. Entrou no ar. Um estrondoso sucesso de vendas!

Até aí um conto de fadas. Um “fomos felizes para todo o sempre”. Um casamento perfeito do marketing com a criatividade. Mas, um belo dia o caldo entornou. Como? Bom, numa reunião com o cliente, ele levanta a seguinte questão: "ó pá, ieu já shtou por aqui de japonês. Auonde ieshté a criatibidade desta agência? É tudo japonês, só sabem criaire coisas com ieste japonês!". O cara tava puto de verdade, não pensem que é brincadeira não! Ele encasquetou que a agência tinha era preguiça de pensar. Tentamos argumentar de todo o jeito. Eu falei do Carlos Moreno da Bombril, que há anos fazia comerciais para aquele produto, que isso, muito pelo contrário, era excelente. Mas que nada. O cara não aceitou de jeito e maneira. Queria porque queria ver outras idéias. E sem o japonês. Que isto ficasse muitíssimo claro e transparente.

Daí, melou geral. Era aquela velha história do macaco que se repetia.

O "caso" do Barão

Minas Gerais me abrigou por três anos*. Foram anos em que fiz grandes amigos, sem dúvida. Amigos como o Luis Márcio Viana, o Sérgio Torres, o Roberto (Boca) Quintas, o Tonico Mercador, a Lúcia Lobo, o Newton Silva, o Juninho e a Claudinha (RTV’s da Livre), o Cid e tantos, mas tantos outros. Até hoje, quando volto por aquelas montanhas encantadas, tenho que reunir a moçada toda num almoço festivo, geralmente no Minas I, ou no Dona Lucinha (putz, a comida do Dona Lucinha!) para poder matar a saudade de todos eles ao mesmo tempo. Senão, não dá tempo.

Mas tem um redator que eu conhecí nas Gerais, uma figura inesquecível, marcante mesmo, que é o Jackson Drummond Zuim. O Zuim, como é conhecido.

Zuim tem uma característica ímpar. É extremamente sincero. Claro, além de ser um dos melhores redatores que eu conheci, e de ser, como todo bom mineiro um senhor papo e um puta levantador de copos. Além disso, tem a particularidede de chamar todo mundo de barão. Você está num papo com ele, e ele vira pra você e diz: "ô barão, o negócio é o seguinte..." e vai por aí a fora.

Quando fui eleito presidente do Clube de Criação de Minas, dividi a presidência com o Zuim. Criamos a "Zorra da Criação", que eram encontros nas agências, bancados pelas agências. Detalhe: toda agência mineira que se preze tem que ter uma boa cozinha, algumas com fogão de lenha, outras com churrasqueira ou coisa similar, e muito, muito chopp.

As reuniões semanais da diretoria do Clube eram feitas nos bares da vida. Muitas vezes chegava em casa já amanhecendo. Por isso eram quase sempre feitas às sextas.

Mas tem uma conta em Minas que é dose. Chama-se Credireal. Porque é dose? Olha, é aquele banco estatal com cara de Ministério da Transilvânia. Tem até sua "momenklatura" interna. Formalidade, cerimônia. Paúra mesmo. Quando você anda nos corredores você sente o peso da atmosfera reinante. Dá arrepios. A diretoria tem uma idade limite: não aceita membros com menos de 80 anos. E eu sei disso porque atendi a conta. Quando era diretor de criação na ASA tive que apresentar uma campanha lá. O negócio foi todo ensaiado na agência. Quem falava e quando. Mesmo assim eu tremia.

Agora, tem um caso do Zuim que realmente deve passar pra história da propaganda. Não só da mineira, em que ela já está devidamente registrada, mas de toda a nossa propaganda. Vale ressaltar aqui que este caso eu não presenciei, até porque ele aconteceu antes da minha chegada em Minas. Mas é fato corrente. Conversa nos bares.

Conta a lenda que Zuim foi certa vez apresentar junto com a equipe da agência em que trabalhava na época uma campanha no Credireal. Ali, na mesa de reunião (daquelas longas que chegam a ter linha do horizonte) estava reunido todo o staff da agência e a dita "momenklatura" do politbureau do banco. E, conversa vai, conversa vem, lá pras tantas o presidente do banco pede a palavra. Todos se viram para ele, e o ancião começa a tecer comentários sobre a campanha. E começa a cair de pau, coisa que era aliás sempre comum por ali. E o Zuim, autor da idéia, quietinho no seu canto, caladinho, se mordendo. De repente, surge aquela cabeça que se projeta para a frente, levanta o dedo como que pedindo um aparte na sala de aula de um ginásio inglês. O presidente se cala. As atenções voltam-se para o Zuim, e ele pausadamente com sua voz de baixo diz: "ô barão... isso aí não é bem o que você está pensando não, tá!".

Dá para imaginar o reboliço que foi. Bom. Quem conheceu o Credireal sabe. E, sem dúvida, foi uma atitude ousada e memorável dessa personalidade histórica que é o Jackson Drummond Zuim. O "barão".

* Trabalhei em Minas nos períodos de 1985 a 1988 e 1999 a 2000. Este caso aconteceu no primeiro

O "caso" do estoque

Uma comédia em três actos.

Os portugueses têm mania de dizer que nós brasileiros, usamos muitas palavras estrangeiras, que nós descaracterizamos a língua mater. A verdade não é bem essa. A verdade é que muitas vezes a coisa pode até soar como inversa. É o caso de redator, que lá é copywriter, ou contato que é account. E é o caso de estoque, que lá é... bom, vamos ao "caso" em questão.

Primeiro acto.

Foi logo que eu cheguei por aquelas terras lusitanas. Corria o ano da graça de 1990 por aqueles mares tão d’antes navegados. Nós havíamos feito um folder para uma campanha, um material de apoio para venda. Agora, acontece que o redator, ou copywriter, conforme queiram entender era brasileiro. Acontece também que por ser brasileiro o Orlando tacou lá a palavra estoque em determinado ponto do texto. A coisa passou. Até que chegou a prova de fotolito. Meu patrão português teve um acesso de fúria - ele era bastante explosivo, muito embora uma incrível figura humana - e mandou chamar imediatamente o Director Criativo. Lá fui eu, apressadamente descendo as escadas e irrompendo em sua sala, saber o que tinha acontecido. Ele mostrou-me a prova. Eu a olhei atentamente. O fotolito era de excelente qualidade. Examinei o cromo na mesinha de luz. As cores estavam super fiéis. Não tinha letra estourada. Estava aparentemente tudo perfeito. Li, reli e olhei em sua direção interrogativo. "Há um erro aí, não vês, senhoire directoire?" (eles lá são extremamente formais e ele sempre me tratava por "senhoire"). Eu continuava entre o estupefato e interrogativo olhando para ele. Até que resolveu apontar a palavra estoque e retrucar que o correto era "stock, como se fala cá". Bom, o jeito era mandar corrigir no fotolito. Acalmei o hômi. Fomos tomar um cafézinho na maquininha de café expresso que a agência possuia. Ele ligou o telefone e deu um esbregue danado no fornecedor. Tipo: será que vocês não fazem revisão aí. Não é estoque! É como se fala cá... e repetia stock no seu inglês portugálico várias vezes, apressadamente. Estava, a bem da verdade extremamente chateado com o descaso da gráfica quanto à questão ortográfica.

Segundo acto.

Day after, pela manhã, fui ao seu encontro perguntar quando viria a nova prova e ele foi categórico ao afirmar que não viria mais prova, mas sim o impresso, os não me lembro lá quantos mil impressos. Fiquei tranqüilo em termos, pois insistí com ele que deveríamos ver uma nova provinha; até pelas minhas preocupações típicas de diretor de arte em relação a emendas de fotolito e coisas afins.

Terceiro acto.

Na manhã seguinte chegaram os impressos. Quando abrimos o primeiro envelope e vimos o folheto correndo os olhos direto para a correção, estava lá (juro que não é piada) impresso em bom e claro português a palavra "sitoque".

Fecha o pano

Este texto foi publicado no site do CCRJ

O "caso" do leão

Foi quando a gente ia publicar o Jornal do Clube, lá pelos idos de 89. Mauro Mattos era o presidente. O Cristóvão e eu tínhamos peitado a parte gráfica, junto com a Maria Célia. Era um corre-corre danado. Reuniões de pauta. Reuniões para diagramação. Naquele tempo ainda não tinha Macintosh pelas bandas do Rio de Janeiro. Toninho Lima, o Zé Gui, e tantos outros - se eu fosse citar um por um ia encher a página só com eles - todos envolvidos naquele desafio. "Vamos botar o jornal na rua. Ele tem que sair, ele tem que sair!" Bom, ele saiu. Aliás, pra quem não conheceu, um senhor número! Tamanhão tablóide, muita matéria, entrevistas polêmicas. E um trabalho do cão... ou do leão.

Um belo dia, me liga o Henrique Meyer. "Jonga. Pra fechar o jornal... tá quase tudo pronto... só falta fazer uma foto com o pessoal que foi a Cannes." Resumindo, a foto ia ser no Handam na noite daquele dia mesmo.

Lá pelas oito eu cheguei no estúdio do Handam. Aquela animação. "O jornal tá quase pronto, - era o comentário geral - vamos ver se na semana que vem a gente está estourando com ele nas agências." Um puta dum clima.

Começou a chegar o pessoal pra foto. Era a turma carioca que tinha ido a Cannes. Eduardo Martins, João Bosco, Fábio Fernandes. No meio, como figuração, a Luciana Vendramini. De repente o Henrique solta aquela: "Tá faltando o convidado mais importante da foto." Quem será o convidado mais importante? Pensei eu com meus botões. Mas, papo vai, papo vem a gente esqueceu isso. Comecei a conjecturar com o Handam, qual seria a melhor maneira para fazer o Anuário do Clube. Como viabilizar essa tarefa hercúlea e até então inédita. Foi um papo longo.

De repente o Henrique anuncia com um sorriso de um lado ao outro do rosto que o convidado mais importante acabara de chegar. Olhei na direção da porta e eis que vejo surgir um leão. Mas olha gentem, não era aquele leão brocha dos comerciais do Imposto de renda não! Não era aquele leão velho, pulguento, sonolento que a gente estava acostumado a ver por aí. Era um leão de verdade, em carne, osso e mandíbulas. Um leão jovem, cheio de tesão e babante. Olhar fixo, persistente. Um leão de arrepiar.

- Não se apavorem. Tudo bem - disse o Henrique firmemente - o leão tem um domador ao seu lado. Ele é obediente. Fiquem calmos.

A essa altura, sentia minhas pernas bambearem e pensava o que eu, que tinha medo de cachorro estava fazendo por aquelas bandas. É a mesma sensação de quando a gente está subindo na montanha russa, antes daquela primeira queda brusca.

Fiquei atrás do bar. Pelo menos tinha a ilusão de que ali havia uma parede divisória entre mim e aquela fera assassina. E olha que ela, a fera, no seu instinto realmente selvagem chegou a morder a calça de couro da Lúcia Ritto, segundo o seu domador porque ela era de couro de animal africano ou coisa que o valha. Fato que não aconteceu com a Karin que estava com uma de couro artificial.

- E quando começarem os flashes? Fiz esta pergunta ao Handam num determinado momento de lucidez. Meu medo era aquele bicho enlouquecer, desbundar numa overdose de luzes pipocantes.
No final da fita, entre mortos e feridos salvaram-se todos, suados, descabelados. Só respirei quando o leão finalmente cruzou a porta e eu ainda esperei um bom tempo pra colocar o pé no elevador e me mandar, para acabar uma história que, literalmente, foi dose pra leão.

Este texto foi publicado no Jornal do CCRJ em 1998

O “caso” do Nelson Rodrigues

A campanha de TV do Banco Nacional naquele ano de 1979 ficou inédita. Quer dizer, na verdade entrou no ar uma colcha de retalhos com cenas - nada inéditas, se bem que inesquecíveis - de filmes que marcaram época na história do banco. Até aí tudo bem. Afinal era uma campanha de aniversário e o que foi pro ar não deixou a gente envergonhado não. Mas é que a campanha original, a que o Favilla e eu tinhamos bolado era simplesmente do caralho. Tinha depoimentos de pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com um banco que sempre apoiou a cultura, os esportes, etc. Entre elas João Saldanha, Grande Otelo e Nelson Rodrigues. E com um detalhe: a gente produziu parte da campanha em vídeo para mostrar ao cliente.

A gravação do Grande Otelo por exemplo foi tão emocionante que deixou gente chorando e arrepiada. Foi desses momentos inesquecíveis. A do Saldanha teve uma característica marcante que foi o seu cronômetro mental. A gente dizia fala aí 10 segundos e ele falava 10 segundos. Depois a gente pedia para ele falar 35 segundos e ele falava os 35 segundos. Foi uma coisa fantástica.

Mas o melhor mesmo foi o dia em que nós fomos fazer o vídeo com o Nelson Rodrigues. Foi tudo marcado no apartamento dele lá no Leme. Chegamos pontualmente na hora marcada. Aquele clima de se estar na casa de um gênio era uma coisa emocionante. Entramos e lá estava o dito cujo sentadão numa poltrona, com aquela voz que ninguém igualou até hoje. Aquele falar compassado, aquele tom cavernoso. O pessoal da produtora montando toda a parafernália de som e luz. Um puta dum reboliço no ar.

De repente Nelson, o próprio, o dito cujo, himself, diz que queria ver o texto do comercial. E ele enfiou a cara no texto. Leu, releu, parou, olhou em todas as direções e perguntou: “De quem é esse texto?”. Favilla levantou-se e encaminhou-se à mesa da sala de jantar, onde o mestre estava sentado. Humildemente, tal qual fosse um aluno na sala de aula levantou o dedo e disse que era dele. Ele virou-se lentamente na sua direção e retrucou: “Esse texto tem um problema grave...”. - Todos gelaram atônitos. - “...Nelson Rodrigues não é um dos maiores autores de teatro do Brasil... Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro do Brasil!”. Finalizou, olhando em torno com ar desafiante. Foi um tal de conserta daqui, pigarreia dali, até que o silêncio instalou-se por alguns infindáveis segundos na sala.

O que se seguiu foi um tentar desfazer o que se tinha feito, um jogar panos quentes, uma sucessão de sorrisos amarelos, “não é nada disso” e por aí afora. E a gente vendo a hora do cara falar “não ga-ra-vo” no melhor estilo Alberto Roberto. O que afinal de contas e graças a Deus, ou sei lá o quê, acabou não acontecendo. Uf!

Bom, a verdade é que o comercial foi gravado e ficou supimpa. Como aliás ficou toda aquela campanha que acabou não saindo. Well, as a matter of fact eu sei lá quantas campanhas do cacete a gente cria e não vão para o ar. Faz parte da vida da gente. A Y&R tem até uma premiação interna em Nova Iorque para esse tipo de trabalho. Mas a verdade é que dói quando eu me lembro desta inédita na minha vida. E na do Favilla, do Eugênio e sua produtora. Enfim... coisas da propaganda.

Este texto foi publicado no Jornal do CCRJ em 1998