quinta-feira, agosto 24, 2006

O "caso" do estoque

Uma comédia em três actos.

Os portugueses têm mania de dizer que nós brasileiros, usamos muitas palavras estrangeiras, que nós descaracterizamos a língua mater. A verdade não é bem essa. A verdade é que muitas vezes a coisa pode até soar como inversa. É o caso de redator, que lá é copywriter, ou contato que é account. E é o caso de estoque, que lá é... bom, vamos ao "caso" em questão.

Primeiro acto.

Foi logo que eu cheguei por aquelas terras lusitanas. Corria o ano da graça de 1990 por aqueles mares tão d’antes navegados. Nós havíamos feito um folder para uma campanha, um material de apoio para venda. Agora, acontece que o redator, ou copywriter, conforme queiram entender era brasileiro. Acontece também que por ser brasileiro o Orlando tacou lá a palavra estoque em determinado ponto do texto. A coisa passou. Até que chegou a prova de fotolito. Meu patrão português teve um acesso de fúria - ele era bastante explosivo, muito embora uma incrível figura humana - e mandou chamar imediatamente o Director Criativo. Lá fui eu, apressadamente descendo as escadas e irrompendo em sua sala, saber o que tinha acontecido. Ele mostrou-me a prova. Eu a olhei atentamente. O fotolito era de excelente qualidade. Examinei o cromo na mesinha de luz. As cores estavam super fiéis. Não tinha letra estourada. Estava aparentemente tudo perfeito. Li, reli e olhei em sua direção interrogativo. "Há um erro aí, não vês, senhoire directoire?" (eles lá são extremamente formais e ele sempre me tratava por "senhoire"). Eu continuava entre o estupefato e interrogativo olhando para ele. Até que resolveu apontar a palavra estoque e retrucar que o correto era "stock, como se fala cá". Bom, o jeito era mandar corrigir no fotolito. Acalmei o hômi. Fomos tomar um cafézinho na maquininha de café expresso que a agência possuia. Ele ligou o telefone e deu um esbregue danado no fornecedor. Tipo: será que vocês não fazem revisão aí. Não é estoque! É como se fala cá... e repetia stock no seu inglês portugálico várias vezes, apressadamente. Estava, a bem da verdade extremamente chateado com o descaso da gráfica quanto à questão ortográfica.

Segundo acto.

Day after, pela manhã, fui ao seu encontro perguntar quando viria a nova prova e ele foi categórico ao afirmar que não viria mais prova, mas sim o impresso, os não me lembro lá quantos mil impressos. Fiquei tranqüilo em termos, pois insistí com ele que deveríamos ver uma nova provinha; até pelas minhas preocupações típicas de diretor de arte em relação a emendas de fotolito e coisas afins.

Terceiro acto.

Na manhã seguinte chegaram os impressos. Quando abrimos o primeiro envelope e vimos o folheto correndo os olhos direto para a correção, estava lá (juro que não é piada) impresso em bom e claro português a palavra "sitoque".

Fecha o pano

Este texto foi publicado no site do CCRJ

Um comentário:

Rodrigo Rosman disse...

Essa é mesmo muito boa, Jonga. Tinha até me esquecido que você dela. Você me contou quando voltou para a VS, acho que em 1993 ou 1994.