quinta-feira, agosto 24, 2006

O "caso" do japonês

Atlantis foi um dos primeiros clientes para quem eu trabalhei em Portugal. Já no primeiro folheto que nós fizemos para a agência lá, cujo título de capa era: "Melhor que acertar é persistir no acerto", constavam um anúncio e um filme do referido cliente. E, importante, todos dois com o japonês.

Mas, afinal o que era Atlantis e o porquê do japonês?

Bem. Atlantis era uma empresa que importava aqueles produtos dos “tigres asiáticos” e colocava o seu selinho em todos eles, desde ventiladores até aparelhos de som, passando por joguinhos de bolso a torradeiras de pão. O japonês surgiu por uma razão muito simples. Como praquelas bandas todo mundo tem mesmo olho puxado, a credibilidade maior estava no Japão. O tema da campanha era "quem conhece recomenda", com a cara do japonês estampada nos anúncios e o japa de garoto-propaganda dos produtos, no caso do primeiro filme que vendia antenas parabólicas.

Juro que foi difícil encontrar um japonês em Portugal. É coisa rara por lá. A produtora em Lisboa mandou duas fitas de teste com cerca de 14 orientais. Digo orientais porque a maioria deles era chinês ou coreano. Mas, no final, ficamos com um japonês. Detalhe: tinha até morado no Brasil. Tinha que ser. Mas era uma figura engraçada demais. Falava mal o português. Engasgava, mas no final ficava muito hilário.

No filme parabólicas ele tinha que dizer que tinham as antenas fixas e as que giram. E ele dizia isso de maneira tão curiosa e característica que ninguém poderia falar igual. A gente morreu de rir durante a gravação a edição e depois disso, cada vez que ele entrava no ar.

Foi um sucesso. Nunca a Atlantis vendeu tanta antena parabólica. Afinal, "palabólicas Atlantis... quem conhece lecomenda, né?", virou uma marca registrada. E estava tudo ali, qualidade, credibilidade, a imagem de uma tecnologia de ponta, que o Japão representava.
No meio disso, começaram a sair anúncios com o japonês, folhetinhos com o japonês, selinhos com o japonês. Era o Japão invadindo a mídia, invadindo Portugal.

Veio o segundo filme. Mais engraçado ainda. O japonês vendendo "n" produtos da Atlantis. Rádios, utensílios de cozinha, uma pá de coisa. A produção, bem mais rica que a do primeiro. Um primor de filme. Entrou no ar. Um estrondoso sucesso de vendas!

Até aí um conto de fadas. Um “fomos felizes para todo o sempre”. Um casamento perfeito do marketing com a criatividade. Mas, um belo dia o caldo entornou. Como? Bom, numa reunião com o cliente, ele levanta a seguinte questão: "ó pá, ieu já shtou por aqui de japonês. Auonde ieshté a criatibidade desta agência? É tudo japonês, só sabem criaire coisas com ieste japonês!". O cara tava puto de verdade, não pensem que é brincadeira não! Ele encasquetou que a agência tinha era preguiça de pensar. Tentamos argumentar de todo o jeito. Eu falei do Carlos Moreno da Bombril, que há anos fazia comerciais para aquele produto, que isso, muito pelo contrário, era excelente. Mas que nada. O cara não aceitou de jeito e maneira. Queria porque queria ver outras idéias. E sem o japonês. Que isto ficasse muitíssimo claro e transparente.

Daí, melou geral. Era aquela velha história do macaco que se repetia.

2 comentários:

Stela B. de Almeida disse...

Vou colocar aqui meu palpite de pouco entendedora de publicidade, não confie no que vou dizer, mas o japones já estava contaminado. Dizem que a repetição é a chave do aprendizado, tem teorias e mais teorias comprovando que repetir é sempre necessário. Principalmente se a dose é rara.

Jonga, adorei suas histórias de profissional que sabe que sabe muito. Em 2006 estava fora do país, mas em 2007 tive a sorte de lhe encontrar e vamuquivamu, posso repetir esse antigo verbete ou não?

Jonga Olivieri disse...

É Stela, "coisas da propaganda", como a gente costuma dizer, numa alusão ao famoso "coisas do futebol"...
A questão é que em venda, a repetição é uma fórmula vitoriosa há alguns milhares de anos.
Enquanto isso, VAMUQUIVAMUUUU!