terça-feira, setembro 26, 2006

O "caso" das quartas sem lei

A Livre Propaganda Brasileira é um caso muito especial na minha vida profissional. Era uma agência poética, solta, livre mesmo, como dizia o seu sugestivo nome.

O meu caso com a Livre estendeu-se por muitos meses de paquera, e depois um curto casamento. Bom, isto porque, característica do mercado mineiro, conta de governo é um negócio que sustentava naquela época cerca de 70% do mercado. No caso da Livre, era mesmo 99,9%. E acontece que a Livre, numa dessas desastrosas mudanças políticas, ficou com seu 0,01% de contas privadas e ela obviamente naufragou. O que não quer dizer que os oito meses que lá passei não tenham sido realmente inesquecíveis.

Começou quando eu estava na ASA. Com a saída do Zuim, o pessoal da Livre precisava de um novo diretor de criação. E começaram a me sondar. Foram alguns meses de papo, algumas negativas e, finalmente, aquela famosa "de uma boa cantada ninguém escapa".

Arrumei minhas malas e lá fui eu para a Livre. Uma agência sui generis, que tinha um boxer perambulando pelas suas dependências, um papagaio e um pátio interno que mais parecia uma miniatura do paraíso. Tinha fogão de lenha, muitas plantas e uma frondosa mangueira. Uma equipe que eu achava perfeita: o Boca, o Alvinho, o Wanderley. Depois ainda veio o Tonico Mercador para reforçar esse time. No RTVC o Juninho e sua assistente, a Claudinha, que além de competente era um colírio para os olhos.

A Livre era uma agência tão dupirú, que todo mês tinha lá um regabofe sortido e fartamente mineiro, repleto de chopp e cachaça da melhor em torno do seu fogão de lenha. E o melhor é que o pessoal que ia lá com freqüência, além dos clientes era nada mais nada menos do que a turma do "Clube da Esquina". Eles mesmos, Toninho Horta, Milton Nascimento e outros. Gente da pesada, porque a Livre tinha surgido como Quilombo, e depois desdobrou-se. O Marcinho, um dos seus sócios prematuramente desaparecido, continuava inclusive como produtor musical e a Quilombo continuava a existir numa casa próxima a ela, e que também tinha papagaio, cachorro, e um ambiente que mais parecia um quadro da Djanira.

A propósito, os outros sócios eram o Murilo Antunes, um poeta, um performático, um intelectual mineiro de primeiro time e o Pardal, pintor, uma figuraça.

Mas, embora da Livre eu tenha outros casos, que um dia sem dúvida eu conto, tem um que é marcante que é o das quartas sem lei. "Segunda sem lei" era o título de um programa da Bandeirantes que só passava faroestes e fazia sucesso. Pelo menos para os fãs do gênero.
Mas na Livre o negócio era um pouquinho diferente. Quando chegava o final das quartas-feiras, a turma já começava a ficar meio ouriçada esperando o que ia acontecer. E em geral o que acontecia mesmo era que um dos sócios poetas, pintores ou músicos pegar um extintor de incêndio e começar a disparar aquela geringonça numa guerra contra os outros sócios, que naturalmente respondiam na mesma moeda.

Era uma zorra, um corre-corre e uma gritaria geral. Uma das maiores loucuras coletivas de que já participei na minha vida. Algo realmente ducacete.

Vale aqui uma observação importante. A Livre Propaganda Brasileira era uma agência séria. O trabalho era tocado com muita, mas com muita responsabilidade. E a enorme quantidade de prêmios que ela acumulou nos breves anos de sua vida estão lá, nos anais da propaganda mineira.

É que criação é isso aí. Quanto mais livre, melhor.

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