segunda-feira, setembro 11, 2006

O "caso" do grito de carnaval

Foi numa reunião de pré-produção que o Cyll Farney, o velho galã da chanchada nacional, revelou-me que não conseguia decorar textos maiores que vinte palavras. “Você pode reparar...”- dizia-me ele - “...em filmes, eu sempre que falava um texto grande, tinha um vaso de plantas na frente... ou alguma coisa do gênero”. De fato, dias depois assisti “Carnaval Atlândida”, na TV, e lá estava o Cyll, com uma tapadeira na frente, e, sem dúvida o texto alí, de cola. E naquele tempo nem existia teleprompter. Era duro mesmo.

Nesta mesma reunião, em que também estava presente o Carlos Manga, surgiram assuntos memoráveis. O Manga a falar das suas experiências e inovações nos tempos de TV Excelsior, no Rio de Janeiro. Coisas do arco da velha. Coisas que hoje são até comuns, mas naqueles idos de setenta eram mesmo audazes e inovadoras, como os finais de noite sexy que ele lançou e marcou época.

Mas, voltando ao Cyll, ele contou casos de quando fez uma série na antiga TV Tupi, ali na Urca. O nome da referida série era “O jovem dr. Ricardo”. Olha gente, eu juro que, apesar de na época ser garoto, ainda me lembro da série. Começava com uma ambulância subindo a rua Alice, fazendo aquelas curvas todas. E depois finalmente, começava o capítulo, naquele improviso que era a televisão de então. A televisão dos tempos do “Falcão Negro” e dos “Patrulheiros Toddy”, do “Repórter Esso” e do “Teatrinho Trol”.

Vi um cenário da série “Falcão Negro” despencar quando o vilão da história esbarrou nele. E o pior: era a parede de ‘pedra’ de um castelo. Claro que pintada em compensado. Ainda trocaram de câmera, mas a gente ouviu aquele barulhão da coisa batendo no chão.

Mas, conta o Cyll Farney, que no primeiro capítulo da tal série, ele estava nervoso pra cacête (detalhe importante, naquela época não existia VT. O negócio era pra valer. Ali, no ato... e pimba!), e tinha que entrar em cena se apresentando. Então era só dizer: “Eu sou o dr. Ricardo!”. Não é que o nosso herói entra em cena, abre a porta e diz no ar, alto e bom som: “Eu sou o Cyll Farney!”. Coisas do futebol!

Um bom tempo depois desses acontecimentos, e eu estava na Provarejo, aquela agência que atendia o grupo Mesbla inteiro. Eu fui pra lá como supervisor de criação e era uma trabalheira dos diabos. Uma hiperagência, num tempo de hipernúmeros. Putz! A gente saia de lá hipermassacrado. Mas, juro que era divertido às pampas. Um dia, perto do carnaval, a gente inventou o “grito de carnaval”. Convidou a agência inteira para assistir às tantas horas um grito de carnaval na criação. Chegada a tal hora, todo mundo começou a chegar perto da criação, aquela expectativa toda. E, de repente, todas as duplas gritaram em coro: “CARNAVAAAAAAAAAAL!” Estava dado o tal grito.

Não tinha nada a ver com “Carnaval Atlântida”, mas é um caso que quem viveu não pode se esquecer.

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