terça-feira, setembro 05, 2006

O "caso" do mendigo

João Moacyr de Medeiros foi muito importante na história da propaganda. Não somente a carioca, como também a brasileira. Sem dúvida alguma, a sua JMM constituiu-se, já na década de cinqüenta, uma das agências pioneiras na reformulação da comunicação no Brasil, e também na procura de novos caminhos para o negócio da propaganda. Principalmente pelo trabalho desenvolvido para o Banco Nacional, que naqueles tempos respondia pelo nome de BNMG (sigla de Banco Nacional de Minas Gerais).

Existem pérolas da criatividade publicitária nos moldes de então. Como por exemplo o filme do personagem que vai envelhecendo, a barba crescendo, e criando teias de aranha nas mãos, como também no corpo todo por ficar esperando ser atendido em um banco qualquer. Depois, o filme terminava dizendo que no Nacional, não era nada disso, que num banco moderno você é atendido rapida e eficientemente, e por aí a fora. O que era verdade. O Nacional foi o primeiro banco a instituir o atendimento direto ao caixa.

E a campanha do José? José era o gerente do banco, de um banco que facilitava a vida de todo mundo. No final, o filme sempre terminava com a frase: “José, você é um santo!”. Surgia uma aureolazinha na cabeça do José, seguida de um “plim”, e este olhava para cima com aquele ar dócil. O José, era nada mais nada menos que o Zacarias (aquele mesmo dos Trapalhões), sem peruca. Um doce de campanha.

Anteriormente, a JMM já havia desenvolvido conceitos e campanhas bastante inovadores, como as da Real Aerovias, uma companhia aérea, ou das Casas Masson, uma joalheria do Rio.

Bom, é claro que o Medeiros estava escorado, e muito bem escorado pelo Cid Pacheco, um puta dum profissional de comunicação. Professor, o Cid fez escola na criação e no atendimento, pela sua cultura, pelo seu conhecimento da história da propaganda, pelo seu domínio do marketing.
Tive o prazer de conviver com o Cid, quando o Favilla e eu fomos para a Sinal, agência criada para atender o Banco Nacional em 1979. Os primeiros dias daquela agência foram na JMM, até ela mudar-se em definitivo para Botafogo, onde ocupou uma parte da Esquire, cujo espaço era muito maior, em um palacete de Botafogo; pois o Medeiros era sócio do Fernando Barbosa Lima, também um dos sócios da Esquire.

Mas, o fato é que têm coisas que ocorreram com o Cid, e quem para o conheceu, sabe que só podiam ter acontecido com o Cid. Tem por exemplo o caso da campanha “sob medida”. Ou da “campanha planejada”, ou seja o nome que seja dado a este caso.

Teria, na ocasião, combinado com o Lula Vieira, então diretor de criação da agência: “Vamos fazer como fazem os estadunidenses! Uma campanha com prazos, dentro de um cronograma perfeito. Nada de ‘correria’, nada de coisas feitas na última hora”. E começou a traçar uma estratégia. E, claro que a coisa correu às mil maravilhas. Uma semana antes da apresentação da referida campanha - que por sinal era uma concorrência -, estava tudo pronto. Tudo nos ‘trinques’. E o velho Cid, passava pelos corredores da agência, cumprimentando toda a equipe envolvida no trabalho, parabenizando o Lula e todos aqueles que realizaram uma tarefa impecável.

Chegou o dia da apresentação, que era em São Paulo. O Cid embarca com o embrulho das peças a serem apresentadas. A apresentação tinha hora marcada. Cada agência entraria a seu tempo. Mas, no íntimo, Cid Pacheco exibia um sorriso de confiança.

Perto da hora marcada, Cid começa a desembrulhar tranqüilamente o pacote, e eis que... um susto! Não estavam ali as peças da campanha, e sim as artes finais de outro trabalho, de outro cliente. Resultado: liga pro Rio, manda o boy embarcar rapidinho no aeroporto, não só para trazer o que teria que estar lá, como também para devolver o que não deveria estar. No final da história, a tão planejada apresentação aconteceu. Mas com mais de três horas de atraso. Uf!!!

Agora, de todas as histórias da JMM, a mais folclórica, a mais comentada, era a do mendigo que andava nas imediações da agência, ali no Largo da Carioca, e que adentrava a sala do Medeiros pedindo um dinheirinho, estivesse lá quem estivesse. E o mais interessante é que o Medeiros metia a mão no bolso, retirava alguns trocadas de sua polpuda carteira e o entregava ao esmolante, sabe-se lá porquê... caladinho.

Casos que a propaganda não contou.

8 comentários:

Anônimo disse...

Joao Moacir ( irmao da minha mae) era para todos os que lhe conheciam fora da agencia um homem extremamente generoso, estava mais para o caso do mendigo do que para o outro lado. Nao e a toa que ajudava tanta gente. Mesmo separado de sua segunda mulher (uma pessoa desorientada, como ele classificava), continuava lhe ajudando ate os ultimos meses que viveu, alem dela, muitas pessoas que ele nunca mencionou. Eu era a sobrinha querida, confidente e amiga.
Meu tio me ensinou a ser um melhor ser humano.

Jonga Olivieri disse...

Não sei o seu nome, mas senti muito a morte do Medeiros, uma das figuras que marcaram o cenário da publicidade carioca enquanto ela teve importância. Aliás, ele foi muito responsável por esta projeção.
Conheci o Medeiros e trabalhei com ele, tendo boas recordações de seu convívio. Certamente ele deve ter lhe ensinado muito, pois era dotado de grande experiência de vida.

Cinara disse...

Sou Cinara, a sobrinha do Medeiros como voces chamam.
Queria pedir sua gentileza em me contar (se houver algum tempo) algumas passagens interessantes do tio Moacir. Voces que tanto conviveram com ele devem ter coisas maravilhosas para contar. Estava organizando com ele algumas passagens da sua juventude, quando ainda nao tinha deixado o nordeste. Como eu ia e voltava muito (moro no Canada) a tente tinha sempre que atualizar nossas conversas, e o tempo foi passando e nao tenho material suficiente.
Ele era meu mestre, meu amigo, meu confidente e meu presente precioso. Tinhamos uma imensa afinidade. Meu coracao chora de saudades. Abracos.

Jonga Olivieri disse...

Ok,Cinara, mas preciso saber como estabelecer contato com você. Não sei se está no Brasil ou no Canadá, se nosso contato será via web ou pessoalmente.
Posso falar com você algumas coisa do "tio Moacir" (gostei disso) e também posso lhe passar alguns contatos de pessoas que certamente acrescentarão muito a isso.
Bom, envie um e-mail para: ja.olivieri@uol.com.br e diga a melhor maneira de estabelecermos este contato.

cinara disse...

Obrigada, amanha lhe escrevo.
Abracos.

Jonga Olivieri disse...

Ok, Cinara...

Anônimo disse...

O caso do mendigo.

Não é nada disso, O mendigo chama-se Napoleão, vulgo Nóia e foi colega de turma do Medeiros na Escola Nacional de Direito.

Ficou maluco, abandou a universidade e vagava pelas ruas de copacabana e centro.

Podia ser encotrado ouvido música clássica no edifício Piauí, onde fica a sede do PMDB no centro.

ok

Jonga Olivieri disse...

Caro anônimo. Gostei tanto de seu comentário que fiz uma nova postagem com ele.
Mas, se puder, diga quem é!