quarta-feira, outubro 11, 2006

Nota de esclarecimento

Mais de um leitor deste blog, já me perguntou o por que da grande maioria dos casos que conto não serem passados no presente, se estou até hoje no mercado.

Na realidade, são duas as razões. Primeiro porque comecei a escrever esses casos no início da década de noventa, e grande parte deles foi escrito nessa época. E, muito embora tenha redigido alguns mais recentemente, até com casos mais atuais, tem a segunda razão que tem um peso maior ainda.

Nos tempos da prancheta, do trabalho artesanal, da marcação de layout, o fluxo de trabalho em uma agência de publicidade era outro. Pra começar, tinha muito mais gente envolvida no processo. As tarefas, no seu todo, eram realizadas mais em equipe do que atualmente.

Hoje, o profissional fica muito em frente ao computador. Faz quase tudo ali mesmo. Um diretor de arte, cria no QuarkXPress, trata imagens no Photoshop, desenvolve suas logomarcas e desenhos no Illustrator, no Freehand ou no Corel. Sozinho, pode realizar todas essas incumbências, muitas vezes abstraindo-se do que se passa ao seu redor.

Naquele tempo, se criava, rafeava, às vezes até se fazia uma marcação ‘bacaninha’, dependendo das habilidades de cada um. Mas, na maioria das vezes, se dependia muito do estúdio. Neste departamento, uma equipe pegava os roughs de uma campanha, e o ilustrador fazia a mancha, o letrista marcava as letras a guache, nanquim, Pilot ou aqueles fantásticos marcadores importados. Em alguns casos, aplicava-se Letraset.

Essa equipe passava a limpo e dava forma a uma idéia. E ainda tinham os assistentes para colar bodytype, montar as peças para apresentação. Às vezes, um acetato era usado entre o layout e o passepartout para melhor protege-lo, já que tinha muito papel colado. Uf, coisa pra cacete.

No caso das finalizações, ainda entrava a produção gráfica e o finalista, composição, fotoletra, cola de borracha, benzina, pastup, overlay. Às vezes o texto tinha que ser recorrido. Na gilete, como se dizia. E o diretor de arte acompanhava tudo isso, se deslocava para o estúdio. Muitas vezes até dormia lá. Por isso mesmo as viradas eram mais constantes e violentas.

Em diversas ocasiões, mais de um diretor de arte estavam presentes, por estarem sendo executados diversos trabalhos em simultâneo.

Este envolvimento de pessoas é que tornava o processo mais divertido. Nas agências de porte médio, os estúdios tinham em torno de dez profissionais, nas maiores muito mais que isso. Em suma, por ter tanta gente, aconteciam mais acontecências.

Isso terminou com o fim daquela fase da publicidade. E também, pelo fato do trabalho ter ficado mais individualizado, aquela dinâmica de grupo acabou.

Daí o porque da maioria dos casos que eu lembre e mereçam registro, estarem situados naquela época. Não é que hoje em dia não aconteçam coisas curiosas, fatos e situações inusitadas. Mas, naquele tempo, era realmente muito, mas muito mais engraçado.

Quem viveu, viu.

Um comentário:

BrazilianGameDreamer disse...

Sinto até um ligeiro pesar por ter apenas 21 anos. Infelizmente me encontro nos finalmentes da academia de Publicidade e apenas estagiei com Jornalismo e RP. Para completar minha tristeza o fantasma dos tempos gloriosos da publicidade não virá me visitar e me permitir contar tantas histórias.