segunda-feira, outubro 16, 2006

O "caso" da agência artística

Quando cheguei em Portugal para assumir a direção de criação (que lá é direcção criativa) da Opal Publicidade, eu não sabia que meu patrão ainda não havia comunicado ao seu Soares que ele não se encontrava mais naquele cargo. Uma situação extremamente delicada. Ora pois! De repente eu estava tomando posse de uma posição, e o meu antecessor ainda se achava o titular. Durma-se com um barulho desses.

Seu Soares era um diretor de arte (ou d’arte) das antigas. O gajo era um excelente ilustrador. Um artista mesmo. Trabalhava com guache e ecoline com extrema perícia. Marcava letras com exímia perfeição. Mas, em matéria de criação era um desastre. Não conceituava, não sabia avaliar um texto, nem tinha a menor idéia de como realizar um comercial para televisão. Adorava criar anúncios com tarjas cheias de rococós, no melhor estilo Manuelino. Ficava horas rebuscando aqueles traços com tira-linhas, compassos e bicos-de-pena.

Aos poucos, ele foi pressentindo o que acontecia. O que gerou um ambiente estranho. Fui criando coisas e passando para o seu Soares marcações de campanhas, anúncios, folders, etc. Ele fazia um ar um tanto quanto desconfiado, mas executava o trabalho.

Não tinha nada contra ele. Era uma pessoa distinta, educada. Tinha até um ar meio britânico, coisa típica do pessoal mais aristocrático da cidade do Porto. E a culpa daquela situação não era dele. Nem minha. Cabia ao seu Rente comunicar-lhe isso. Conversei com ele a respeito, mas, o diretor-presidente não o fazia. Dizia ele que era tudo um mal entendido do seu Soares, que ele não era director criativo coisa nenhuma. Um embróglio.

Fui pendurando pela minha sala, que era toda forrada de cortiça, provas dos novos anúncios, outdoors e outras peças criadas na nova fase da agência. E era realmente uma nova fase. O que a Opal fazia até então era marcado por um ar de “antigo”, um visual um tanto quanto “anos cinqüenta”. De repente, a gente estava, em questão de poucos dias dando um update na cara de tudo que era produzido. Até porque a produção era muito grande, isso logo ficou evidente.
Na verdade eu apenas fazia aquilo que sempre fiz. Criar, em parceria com um redator e dar uma face atual às peças. Cuidar de uma tipologia adequada, de uma boa ilustração ou foto. Nada de genial, apenas um trabalho bem cuidado e feito com carinho.

Logo que cheguei lá, ao constatar uma certa desorganização empresarial, havia sugerido uma série de medidas. Como pedidos de trabalho por escrito, nem que fossem a mão. Como não havia ninguém responsável pelo tráfego, criei envelopes aos quais grampeava os pedidos e colocava tudo o que fazia parte daquele job, separando por clientes num armário com prateleiras Algo meio elementar, mas que funcionava. Os trabalhos já não ficavam tão perdidos “no ar”, nem no disse me disse. Passavam a ter um mínimo de memória.

Também fiz aquele ‘velho quadro’ de fórmica com o nome do trabalho e a etapa em que se encontrava.

Sugeri e foi criada uma reunião que era realizada toda segunda feira bem cedo, antes de começarmos os trabalhos. Aberta a todos os funcionários, nela se fazia um balanço dos trabalhos que estavam na criação, produção, etc. Em suma um followup completo.

Foi numa dessas, que seu Soares pediu demissão. Na presença de todos, lavrou o seu protesto contra o fato de que a agência estava se tornando excessivamente comercial, referindo-se naturalmente aos últimos trabalhos realizados. “Que afinal de contas, a Opal, que eram as iniciais de Organização de Publicidade Artística Ltda (lá é Lda.), estava a abandonar a sua proposta artística e embrenhando-se por um caminho de vendas barato e vulgar” (sic).

Levantou e retirou-se para todo o sempre.

2 comentários:

Rodrigo Franco disse...

Isso me lembra um cliente que entrou um dia, à tarde, na agência pra "dar uma olhada" no trabalho do pessoal. Quando cruzou o assistente de arte, puta ilustrador, fazendo uns rafis pra um material infantil, soltou: "Ah, é por isso que o meu serviço não anda. Ficam o dia inteiro fazendo desenhinho!". Pois o próximo desenhinho não foi uma caricatura toda bem tratada do nosso amigo cliente?, que, afinal, tinha toda razão.

abraços

Jonga Olivieri disse...

Isso é muito comum mesmo. Tem cliente que adora fazer piadinha sobre criação, menosprezando o nosso tão suado trabalho.
Se eles soubessem a metade do trabalho que dá fazer esses desenhinhos!