quinta-feira, novembro 16, 2006

O "caso" do grito primal

Carlos Reluz Bernaola. Um diretor de arte peruano radicado no Rio de Janeiro. Pouco mais de um metro e meio, cavanhaque. Típicamente um inca. Parecia mesmo um personagem saído de uma historinha do Tin Tin.

Quem o conheceu bem foi o Carlinhos Chagas, que na época fazia dupla comigo na L&M. Acontece que na hora do almoço o Carlinhos tinha um “frila” numa agência chamada Comark. Daí, o Carlinhos com aquele seu jeito inconfundívelmente elétrico, pegava sua pasta, e, tal e qual um colegial se mandava para a tal da Comark. Que aliás não ficava lá muito longe da L&M. Era tudo no centro do Rio.

Bom, na tal Comark, o Carlinhos fazia dupla com o Reluz. O Reluz era um senhor ilustrador. Daqueles de mão cheia mesmo. Acho até que na ocasião, o dito cujo labutava na SGB, à época uma das melhores agências do mercado. Tinha a conta do BNH e das Cadernetas de Poupança, por exemplo. Sem contar o Ponto Frio, e tantas outras.

Conta o Carlinhos muitos casos engraçados do referido inca. Um deles era o de quando o Reluz adrentava a agência (a tal da Comark), e, como a SGB era mais longe, lá pros lados de Botafogo, chegava meio cansado para o seu expediente da hora do almoço. Aí, então, o peruano virava pra ele e dizia em bom e castiço portunhol: “Voy a relatchar”. Deitava-se no chão, por uma fração de segundos, levantava-se e dizia que já estava pronto para o rojão. E enfrentava duas horas de prancheta, pois naquele pouco tempo, os dois tinham que botar em dia todos os pedidos em pauta.

Mas o melhor do Reluz era mesmo o tal do “grito primal”.

Às vezes, calhava dos dois saírem juntos. Nem sempre dava. Aí, eles passavam num boteco que o Carlinhos chamava de “Mil Moscas”, e comiam alguma coisa. Depois iam andando pelo centro do Rio, repleto de gente. O peruano quando os dois estavam numa esquina movimentada, virava-se pro Carlinhos e dizia: “Voy a dar um grito primal”. E soltava um grito de proporções cavernosas, altíssimo e bom som. Daqueles que todo mundo que estava por perto parava atônito e assustado.

Isso nos anos setenta, em plena repressão, no auge da ditadura. Um caso para não esquecer.

7 comentários:

Jonga Olivieri disse...

O engraçado é que, muitos anos depois, eu passava uma dessas fases difíceis. Então, um amigo meu me deu um conselho: “cara, dá um puta grito todo dia que melhora”.
Eu pegava diariamente o túnel para chegar no trabalho, e quando eu entrava no referido buraco na pedra, soltava um grito longo e de proporções inacreditáveis. Fechado no carro, com o ruído em torno, a coisa funcionava que era uma delícia. E eu saia dali leve como uma pluma.

redatozim disse...

Cara, um grito primal no meio de certas reuniões deve resolver muita coisa.

Jonga Olivieri disse...

É mesmo, Maurilo. Ou então em momentos como agora em que espero que o cliente ande com o trabalho, que, já vi, vai fuder meu fim de semana.
O "grito primal" deve ter sido inventado por algum primata, que, certamente tentou fazer algum 'reclame'. Deve ter sido o primeiro publicitário, embora não o soubesse.

Anônimo disse...

Carlos Reluz Bernaola, por favor quem souber informações dele, rsponda, pois preciso saber como encontra-lo se ainda estiver vivo, ou saber realmente o que houve com ele !!

Jonga Olivieri disse...

È isso aí: "el bicho sumiu", A verdade é que eu tb nunca mais ouvi falar dele...

Anônimo disse...

Obrigado pela resposta! Infelizmente eu necessitava mesmo de alguma, (qqer que fosse), informação sobre o paradeiro dele, mas de qqer forma, deixo aqui meu agradecimento!

Eduardo

Jonga Olivieri disse...

Caro Eduardo, o seu apelo me comoveu de tal forma que resolvi colocar uma nota no blog. Afinal, onde andará o Reluz?