segunda-feira, novembro 06, 2006

O "caso" do ilustrador free-lancer

Plena madrugada na VS. Ainda ali, na Maria Eugênia, em Botafogo. O ano de 1989. O dia nem o mês, não consigo lembrar.

Era alta madrugada e o trabalho corria solto, tal e qual fosse ainda luz do dia. A agência estava com todas a equipe produzindo a todo o vapor. O estúdio abarrotado de trabalho, aquela zorra.
Fernando Farah, um diretor de arte que está em Londres já tem muitos anos, onde é dono de sua própria agência, a Dancing-bee, estava desesperado. Tinha uma campanha inteira para entregar na manhã seguinte, e Ronaldo Graça, o ilustrador da casa não tinha como, sozinho, dar vazão a tantas tarefas. Daí eu sugerí à Lúcia - que era a chefe de estúdio - que chamasse um ilustrador free-lancer amigo meu. O Saulo Silveira, um profissional excelente e rápido, que poderia perfeitamente resolver o problema.

A verdade é que naquele período heróico da propaganda pré-Macintosh, um ilustrador era coisa muito importante, era o verdadeiro scanner da agência. E o Saulo - profissional competente e muito solicitado pelo mercado -, demorou a chegar. Chegou, mas já era muito tarde. Ou cedo, dependendo do ponto de vista. Lá pelas três da matina. O Fernando, já cambaleante pelos corredores e escadas da agência, já não agüentava mais de ansiedade. A campanha toda rafeada, faltando apenas um ilustrador para dar a cara final ao seu produto.

Lá pras tantas, chega finalmente a Lúcia com o Saulo ao seu lado. Fernando, bufante de fatigado olhou na direção dos dois esboçando um sorriso nos lábios. Um maior ainda no olhar. Lúcia falou:

- Fernando, aqui está o ilustrador...

Fernando ampliou o seu sorriso. E a Lúcia prontamente completou:

- ...mas, fala bem devagar, porque ele é surdo!

Fernando desfez o seu sorriso.

O importante é que na manhã seguinte a campanha estava toda marcadinha. Aliás, muito bem marcada pelo Saulo. Que pode até ser surdo, mas enxerga bem pra cacete.

Curiosamente, três dos personagens deste caso estão fora do Brasil.
O Fernando, conforme citado acima, está em Londres desde finais de 1989. O Saulo foi para Portugal em 1990. Hoje é um pintor de renome naquele país. E o Ronaldo Graça mudou-se para Paris em 1991. Além de desenhar histórias em quadrinhos é capista da Hachette, conhecida editora francesa.

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