quarta-feira, dezembro 27, 2006

O "caso" do passepartout

Victor Kirowsky pediu ao Saulo Silveira - na época ainda um estagiário - para colocar um passepartout em um anúncio marcado por este. Naquele tempo, as apresentações de layouts podiam ser simples (somente num duplex) ou em cartão Paraná, com um passepartout (geralmente feitos em papel chrome-cout) para dar um acabamento melhor. É importante ressaltar que ainda não existia o cartão pluma, que surgiu bem mais recentemente.

Acontece que meu amigo Saulo é surdo. E entendeu que era para passar pro Artur. E foi o que ele fez, naturalmente.

Puto da vida, o Artur Denegri foi tomar satisfações ao Vic sobre aquela atitude. Afinal de contas, este havia passado um anúncio já marcado, obviamente para alguma tarefa de estúdio. E isso, para ele, um diretor de arte, era humilhante. Até porque, com relações cortadas com o ianque, qual seria a intenção deste?

Deu a maior das quizumbas. O Artur entrou na sala do Vic peito estufado, punhos serrados, pronto para o confronto final.

Havia pouco tempo, o mesmo Denegri rolara o pau nos corredores da agência com o Álvaro (o produtor gráfico), devido a uma divergência qualquer da qual não me lembro exatamente a origem. A coisa foi feia. Não fosse uma galera que imobilizou os dois e teria tomado proporções maiores do que os óculos que saíram rolando pelo chão ao primeiro embate.

Após uma discussão inicial, o Vic conseguiu convencer o oponente de que apenas havia pedido ao Saulo para mandar colocar um passepartout, e que este entendera passe pro Artur.

No final das contas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

O "caso" do bom dia... ou boa tarde

Não me lembro o que o Mauro Matos dizia quando chegava. Se era bom dia ou boa tarde. Só sei que sempre chegava depois do meio dia. Embora nunca foi de sair antes das 22 horas. A única coisa meio chata é que não queria que ninguém fosse embora no horário, e sempre que podia, ‘pegava’ alguém. Esquecia completamente que a gente chegava pela manhã. E ralava pra cacete. Tanto na L&M, quanto na Contemporânea; nas duas vezes em que trabalhei com ele.

Idem o Duda Mendonça quando voltava de seus passeios de escuna, lá pelo pôr do sol. Justiça seja feita, o Duda não chegava tarde todo dia. Tinha vezes que madrugava na agência. Mas, de vez em quando... aí mesmo é que, descansado, inspirado e bronzeado, convocava uma reunião com toda a criação que nunca acabava antes de três horas do momento que começara.

Houve uma época, na publicidade em que se entrava realmente muito tarde no trabalho. Eu, que tinha o costume de chegar lá pelas dez, dez e meia da matina, na maioria das vezes era o primeiro a adentrar o recinto. Mas, isso era hábito em função das viradas da noite anterior. O certo é que acabou virando rotina, mesmo que não houvesse existido a tal virada. Talvez uma reserva tática para a que poderia acontecer no dia seguinte.

Também, naquele tempo os almoços, às vezes chegavam a duas horas e meia ou três de duração. E como se bebia. Sexta feira, nem falar, era costume encher a cara em verdadeiras orgias gastroetílicas. Tinha gente que nem voltava pra agência.

Quando a Livre Propaganda Brasileira fechou*, eu fui trabalhar na JMM de Belo Horizonte. Fazia dupla com o Hermínio Naddeo, que me convidou para ir para aquela agência na qual ingressara, recém chegado do Rio.

A criação da JMM era privilegiada naquela casa da Cidade Jardim, bairro nobre da cidade. A casa tinha um belo gramado na frente, e a recepção era pela lateral direita. Nós entrávamos direto, atravessando o referido gramado e ficávamos num grande jardim de inverno em “L”, cuja única porta se comunicava com o RTVC.

Mas eu disse única porta. Porque havia uma janela em que ficava o Renato Bergo, o diretor financeiro, departamento pessoal, etc da agência. E que, naturalmente, via e ouvia tudo o que rolava por ali.

O Hermínio e eu ficávamos no lado de lá do “L”, ou seja, depois que entrávamos, uma porta de vidro até nos deixava um pouco mais isolados. Mas, a outra dupla era completamente vulnerável. Suas mesas ficavam embaixo da janela do diretor.

Para agravar, o redator, o Orlando era mestre em chegar tardíssimo devido às suas conhecidas e memoráveis noitadas. No entanto, adquiriu uma técnica de sorrateira e silenciosamente, meio que curvado aproximar-se, e de sopetão sentar-se em sua cadeira, sem que o Renato percebesse o momento exato. Desde que não notasse aquele seu semblante de ressaca braba.

Um belo dia, Orlando fez o seu percurso como de hábito. Ao sentar-se, seu dupla tacou um “Boa tarde Orlando” bem alto e firme. Foi uma gozação geral. Até o Renato Bergo se cagou de tanto rir.

(*) A Livre Propaganda Brasileira, uma das mais criativas agências que já existiu nas Gerais fechou porque, tendo sido indicada pelo Hélio Garcia, então governador de Minas, fez parte do pool de agências que elegeu Newton Cardoso. Acontece que o Newtão, não gostava do Hélio, até porque este não o apoiara na convenção do partido. Resumo da história: quando assumiu, o movo governador retirou as contas de governo de todas as agências que haviam sido indicadas pelo seu antecessor. A Livre não “güentou” o tranco. Até porque quase todas as suas contas eram de governo.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

O “caso” do Xeque-mate

Luiz Fernando Favilla foi meu dupla muito tempo. Trabalhamos em três agências cerca de cinco anos seguidos. Favilla escreveu este caso que foi publicado no jornal do CCRJ em 1998.

Meados de janeiro na L&M Propaganda. Mil novecentos e setenta e tantos. Jonga Olivieri e eu tínhamos acabado de entregar uma campanha para a Embratel e, finalmente, estávamos sem ter o que fazer. Sentávamos um em frente ao outro em nossa pequena sala de 3x3. Ao lado, Toninho Lima e Marquinhos Guedes davam retoques finais em mais um filme para a Casa Tavares. Para não incomodá-los, resolvemos jogar uma partida de xadrez. Só havia um problema: não tínhamos tabuleiro.

Jonga propôs jogarmos assim mesmo, em um tabuleiro imaginário onde as peças seriam vidros de guache, borrachas, marcadores e todos os apetrechos que usávamos no trabalho. Num exercício lúdico, visualizamos os quadradinhos pretos e brancos e iniciamos aquele jogo surrealista. Passado algum tempo, Mauro Matos entrou, comentou alguma coisa e saiu resmungando sincronizados tiques nervosos, pois não lhe demos a mínima. Em seguida foi a vez de Lindoval de Oliveira chegar. Olhou, soltou uma piada e saiu rindo sozinho. Trinta e poucos minutos depois, concentradíssimos, nem demos atenção ao Victor Kirovsky, que adentrou a nossa sala com seu inseparável cachimbo.

Ele ficou em silêncio durante alguns instantes, observando os movimentos de borrachas, marcadores, pincéis, esquadros, conta-fios etc.

Com aquele sotaque mesclado, de repente nos surpreendeu com a pergunta:

- Quem está com as peças brancas?

- Eu – responde Jonga, sem desgrudar os olhos do tabuleiro imaginário.

- Well – arremata Vic -, sinto muito, but você levará um cheque-mate em três lances – proferiu, retirando-se em seguida com o seu andar de Jacques Tati.

Fiquei abestalhado. Além de conseguir captar nossa louca partida, Vic ainda percebeu a estratégia do jogo. Jonga ficou em silêncio durante dois longos minutos. Depois baixou o Guache/Rei desistindo do jogo e continuou:

- Puxa, parceiro, você sacrificou seu Cigarro/Rainha e eu nem percebi que seu Pilot/Bispo desguarneceu toda a defesa. Aí, quando seu Isqueiro/Cavalo comeu meu Marcador/Peão do Rei, foi que vi a besteira que tinha feito. Que jogão, hem!
Conversa de loucos.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

O "caso" do soldado no quartel...

Era daqueles dias em que você acaba o trabalho e pensa: “Caramba, ter que enfrentar aquele trânsito pra chegar em casa...”. E, pensando bem resolve dar um tempinho, relaxar um pouco.
Por acaso, foi também um dia em que todo mundo se mandou na hora certa. Não eram sete da noite e a agência estava vazia. Um caso bem raro na L&M, agência que tinha uma vida noturna extensa, natural e diária.

Fiquei entretido na pesquisa de livros de propaganda, observando anúncios e outras peças premiadas. Comecei a me organizar para os trabalhos que teria no dia seguinte. O tempo passou. Lá pelas sete e meia lembrei de sair, finalmente. Pensei com os meus botões que o tráfego já estaria melhor e dava pra voltar pra casa.

Quando ia me levantar da cadeira, senti um movimento na porta da sala. Eis que de repente, surge a figura de Lindoval de Oliveira, o ‘L’ de L&M. Esboçava um sorriso no rosto. Um sorriso de alegria, mas também de alívio por me ver ali.

- Prezado... disse ele cordialmente ...ainda bem que tem alguém na casa! Exclamou.

Em seguida, me chamou à sua sala. Passamos os dois, sozinhos pela agência vazia, até chegarmos à sala dele, que ficava do outro lado do andar.

Foi então que ele explicou que, na manhã seguinte o presidente da Embratel, uma de nossas principais contas, tinha que apresentar umas transparências em retro-projetor.

Eu gelei. Juro que gelei mesmo. Primeiro porque naquele tempo não tinha computador, e as transparências tinham que ser todas desenhadas com marcador especial; uma trabalheira dos diabos. Uma coisa que, desde que planejada dava pra ser feita, mas daquele jeito era um puta dum rabo de foguete. E o pior, tinham algumas bem cabeludas, com mapinhas, setinhas e outros bichos. Em suma, uma bomba que caia de pára-quedas àquela hora da noite.

Normalmente era também um trabalho para ser executado por um arte-finalista, e eu, um diretor de arte, não estando habituado àquele tipo de tarefa penaria muito mais para executar a incumbência.

Bom, só tinha uma coisa a fazer naquela altura dos acontecimentos. Arregacei as mangas e puz-me a executar. Saí da agência no dia seguinte. Ainda me lembro que deixei um bilhete para o Carlinhos Chagas, meu dupla, explicando o que acontecera e a hora que estava saindo. Pois certamente que chegando em casa iria dormir por um bom tempo.

O sol já estava nascendo, e eu, no contra fluxo, pelo menos não peguei engarrafamento nenhum.
Mas, aprendi de uma vez por todas que soldado no quartel, quer é trabalho!

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O "caso" do telefonema anônimo

Aquele ano que passei inteiro na em Salvador - foi um ano em que aconteceram coisas ou ‘casos’ inesquecíveis.

Como aquele da campanha política. Duda estava fazendo a campanha para governador e senador dos candidatos da oposição. Mas, ao mesmo tempo, coisas da vida, meteu-se a fazer a campanha do candidato ao senado pelo partido da situação. Tudo foi correndo bem até que um belo dia calhou de haver uma visita dos dois candidatos com a diferença de poucas horas. Bom! Dá pra imaginar o corre-corre que foi. O ‘tira o retrato do homem, põe o do outro’ que se sucedeu. No fim, entre mortos e feridos salvaram-se todos, mas... ufff!!!

Tem também o caso da origem do nome DM9. Uma ocasião estava eu a conversar com Duda e perguntei o porque do nome. Seriam nove pessoas na época da abertura? Nove sócios? Ou talvez nove fosse o dia, ou mesmo o mês da inauguração da agência? O certo é que nada disso estava certo. O nome DM9 veio simplesmente de uma inversão da letra ‘d’ minúscula e a necessidade de alguma coisa além do DM, que são as iniciais de Duda Mendonça.

Agora, o melhor mesmo foi o dia em que Duda entrou na agência pagando esporro em todo mundo por uma simples razão: ligou da rua, disfarçou a voz e não conseguiu falar com ele mesmo. Não conseguiu sequer chegar perto, tal a quantidade de perguntas e questionamentos.

Depois ele contou pra gente que fez isso porque um cliente havia reclamado de uma situação semelhante.

Não são uns casos porretas? Saravá!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

O "caso" do poeta

Quando o Favilla e eu fechamos a negociação com a Salles o nosso salário era tão alto, mas tão alto, que altas horas da noite, liguei pra casa dele e, griladíssimo, questionei se por acaso a gente não estava enganado. Será que aquele seria o salário da dupla, e não o de cada um de nós? Pau da vida, me mandou dormir ao invés de ficar com elocubrações fantasiosas. Na manhã seguinte ligou de volta dizendo: "Jonguinha, seu puto, você me tirou o sono o resto da noite!".

Mas, ainda bem que eu estava enganado. A verdade é que naquela ocasião, a gente estava mesmo triplicando o salário, e saindo da média para o topo do mercado.

E foi mesmo um período de ouro pra nós. Primeiro, fomos integrar um time de primeira. Ao lado disso, um dos melhores estúdios do Rio de Janeiro. Enfim, tudo o que era indispensável para realizar um puta dum trabalho na era pré-McIntosh. Que aliás foi o que nós fizemos, com garra, tesão e resultados. Ficamos entre as duplas mais premiada do mercado. A nossa campanha dos oitenta e cinco anos da Sul América foi um primor, até porque nós passamos um mês inteiro mergulhados em livros e outras publicações na biblioteca da companhia, cheirando poeira e colhendo dados que fizeram daquela campanha, um marco que culminou com os filmes do barco sendo atropelado por um lotação na praia do Flamengo e o do atirador de facas, que além de tudo foram cuidadosas produções e reconstruções de época.

Mas, voltando um pouquinho atrás, estávamos antes disso na Sinal. A Sinal, que por sinal não existe mais, foi uma agência criada pelo João Moacyr de Medeiros (o JMM), em parceria com o Fernando Barbosa Lima (leia-se Esquire), para atender o Banco Nacional. Funcionava no mesmo casarão da Esquire na rua Marquês de Olinda em Botafogo.

A Sinal era uma agência de piques. Fora as grandes campanhas do banco, a gente ficava ali, entre um folheto e um anúncio, jogando "paredol", uma espécie de basquetinho que nós inventamos e era uma coqueluche dos diabos. Uma agência enxuta, com uma dupla de criação, dois no estúdio, um produtor gráfico, um tráfego, uma secretária e um profissional de atendimento.

Quando o mercado ficou sabendo da nossa contratação, começaram a pintar telefonemas. Desemprego, naquele tempo não existia como hoje, mas por outro lado havia um rodízio muito grande. Quando alguém ia sair de um lugar começava a dança das cadeiras. Fulano ia praqui, Beltrano ia pralí, etc. Era um mexe-mexe dos diabos. Bons tempos!

Um belo dia. Uma dessas manhãs frias e chuvosas de outono, bate na porta o Bernardo Vilhena. O Bernardo, que por coincidência estivera na Salles durante algum tempo, era na época um dos mais badalados profissionais do mercado. Havia saído da Salles para a Esquire, e lá estava, era nosso vizinho de porta.

Bernardo adentrou a sala, sentou-se e começou a explicar que queria ir para o lugar do Favilla. O Favilla e eu começamos a explicar a ele que o Medeiros jamais ia pagar o salário que ele ganhava na Esquire. E aí é que veio a surpresa. O Bernardo falou algo mais ou menos assim:

- Gente, vou contar uma historinha pra vocês. Eu estava na Salles. Aí surgiu esta oportunidade de vir para a Esquire, uma agência mais tranqüila. Eu hoje estou envolvido num projeto de poesia, de letra de música, de parceria com o Ritchie, esse negócio da "Nuvem Cigana". Acontece que na Salles, não me sobrava muito tempo para me dedicar a isto tudo. Por isto topei vir para a Esquire. Acontece que depois da fusão com a Oliveira Murgel, a Esquire virou o mesmo inferno da Salles. Trocando em miúdos, não me sobra mais tempo, saio todo dia tarde. Eu topo, eu topo vir por menos, mas eu quero mesmo é tempo para me dedicar à poesia...

Eu sei que dias depois ele fechava com o Medeiros. Ganhando menos, mas feliz, muito feliz da vida.