sexta-feira, dezembro 01, 2006

O "caso" do poeta

Quando o Favilla e eu fechamos a negociação com a Salles o nosso salário era tão alto, mas tão alto, que altas horas da noite, liguei pra casa dele e, griladíssimo, questionei se por acaso a gente não estava enganado. Será que aquele seria o salário da dupla, e não o de cada um de nós? Pau da vida, me mandou dormir ao invés de ficar com elocubrações fantasiosas. Na manhã seguinte ligou de volta dizendo: "Jonguinha, seu puto, você me tirou o sono o resto da noite!".

Mas, ainda bem que eu estava enganado. A verdade é que naquela ocasião, a gente estava mesmo triplicando o salário, e saindo da média para o topo do mercado.

E foi mesmo um período de ouro pra nós. Primeiro, fomos integrar um time de primeira. Ao lado disso, um dos melhores estúdios do Rio de Janeiro. Enfim, tudo o que era indispensável para realizar um puta dum trabalho na era pré-McIntosh. Que aliás foi o que nós fizemos, com garra, tesão e resultados. Ficamos entre as duplas mais premiada do mercado. A nossa campanha dos oitenta e cinco anos da Sul América foi um primor, até porque nós passamos um mês inteiro mergulhados em livros e outras publicações na biblioteca da companhia, cheirando poeira e colhendo dados que fizeram daquela campanha, um marco que culminou com os filmes do barco sendo atropelado por um lotação na praia do Flamengo e o do atirador de facas, que além de tudo foram cuidadosas produções e reconstruções de época.

Mas, voltando um pouquinho atrás, estávamos antes disso na Sinal. A Sinal, que por sinal não existe mais, foi uma agência criada pelo João Moacyr de Medeiros (o JMM), em parceria com o Fernando Barbosa Lima (leia-se Esquire), para atender o Banco Nacional. Funcionava no mesmo casarão da Esquire na rua Marquês de Olinda em Botafogo.

A Sinal era uma agência de piques. Fora as grandes campanhas do banco, a gente ficava ali, entre um folheto e um anúncio, jogando "paredol", uma espécie de basquetinho que nós inventamos e era uma coqueluche dos diabos. Uma agência enxuta, com uma dupla de criação, dois no estúdio, um produtor gráfico, um tráfego, uma secretária e um profissional de atendimento.

Quando o mercado ficou sabendo da nossa contratação, começaram a pintar telefonemas. Desemprego, naquele tempo não existia como hoje, mas por outro lado havia um rodízio muito grande. Quando alguém ia sair de um lugar começava a dança das cadeiras. Fulano ia praqui, Beltrano ia pralí, etc. Era um mexe-mexe dos diabos. Bons tempos!

Um belo dia. Uma dessas manhãs frias e chuvosas de outono, bate na porta o Bernardo Vilhena. O Bernardo, que por coincidência estivera na Salles durante algum tempo, era na época um dos mais badalados profissionais do mercado. Havia saído da Salles para a Esquire, e lá estava, era nosso vizinho de porta.

Bernardo adentrou a sala, sentou-se e começou a explicar que queria ir para o lugar do Favilla. O Favilla e eu começamos a explicar a ele que o Medeiros jamais ia pagar o salário que ele ganhava na Esquire. E aí é que veio a surpresa. O Bernardo falou algo mais ou menos assim:

- Gente, vou contar uma historinha pra vocês. Eu estava na Salles. Aí surgiu esta oportunidade de vir para a Esquire, uma agência mais tranqüila. Eu hoje estou envolvido num projeto de poesia, de letra de música, de parceria com o Ritchie, esse negócio da "Nuvem Cigana". Acontece que na Salles, não me sobrava muito tempo para me dedicar a isto tudo. Por isto topei vir para a Esquire. Acontece que depois da fusão com a Oliveira Murgel, a Esquire virou o mesmo inferno da Salles. Trocando em miúdos, não me sobra mais tempo, saio todo dia tarde. Eu topo, eu topo vir por menos, mas eu quero mesmo é tempo para me dedicar à poesia...

Eu sei que dias depois ele fechava com o Medeiros. Ganhando menos, mas feliz, muito feliz da vida.

7 comentários:

redatozim disse...

Cara, olha que eu já fiz isso algumas vezes (não pela poesia) e realmente trabalhar feliz é uma das melhores sensações que existem.

Jonga Olivieri disse...

Sem dúvida, amigo.
Como dizia o Barão de Itararé: "mais valem dois marimbondos voando do que um na mão". Ou seja, trabalhar em lugares cheios de problemas não tem dinheiro que pague.
O melhor é a felicidade mrsmo.

Sumire disse...

Pow, Oliva, sabe que sou adepta dessa idéia tb... Melhor ganhar um pouco menos, mas ter algum tempo certo pra família e amigos...
Mas qdo o bolso aperta, me pergunto se eu não devia virar uma mercenária, viu... rs...

Jonga Olivieri disse...

Você tem toda razão, Su.
É o tal do"se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".
Tem horas que é difícil a gente pensar somente no trabalho com algo lúdico e divertido... embora devesse ser sempre assim...

Anônimo disse...

Fred
Trabalhar feliz é tudo. Existem agências que trabalhamos juntos que nem recebendo um puta salário vale a pena.

JCelso disse...

Puxa, ler essas histórias agora em outubro de 2008, quando Moacir Medeiros acaba de fazer a viagem sem volta, dá emoção e saudade.

Jonga Olivieri disse...

O Medeiros era uma grande figura. Dessas que não se fabricam mais, saca, J. Celso?
Você trabalhou na JMM?