quinta-feira, dezembro 14, 2006

O “caso” do Xeque-mate

Luiz Fernando Favilla foi meu dupla muito tempo. Trabalhamos em três agências cerca de cinco anos seguidos. Favilla escreveu este caso que foi publicado no jornal do CCRJ em 1998.

Meados de janeiro na L&M Propaganda. Mil novecentos e setenta e tantos. Jonga Olivieri e eu tínhamos acabado de entregar uma campanha para a Embratel e, finalmente, estávamos sem ter o que fazer. Sentávamos um em frente ao outro em nossa pequena sala de 3x3. Ao lado, Toninho Lima e Marquinhos Guedes davam retoques finais em mais um filme para a Casa Tavares. Para não incomodá-los, resolvemos jogar uma partida de xadrez. Só havia um problema: não tínhamos tabuleiro.

Jonga propôs jogarmos assim mesmo, em um tabuleiro imaginário onde as peças seriam vidros de guache, borrachas, marcadores e todos os apetrechos que usávamos no trabalho. Num exercício lúdico, visualizamos os quadradinhos pretos e brancos e iniciamos aquele jogo surrealista. Passado algum tempo, Mauro Matos entrou, comentou alguma coisa e saiu resmungando sincronizados tiques nervosos, pois não lhe demos a mínima. Em seguida foi a vez de Lindoval de Oliveira chegar. Olhou, soltou uma piada e saiu rindo sozinho. Trinta e poucos minutos depois, concentradíssimos, nem demos atenção ao Victor Kirovsky, que adentrou a nossa sala com seu inseparável cachimbo.

Ele ficou em silêncio durante alguns instantes, observando os movimentos de borrachas, marcadores, pincéis, esquadros, conta-fios etc.

Com aquele sotaque mesclado, de repente nos surpreendeu com a pergunta:

- Quem está com as peças brancas?

- Eu – responde Jonga, sem desgrudar os olhos do tabuleiro imaginário.

- Well – arremata Vic -, sinto muito, but você levará um cheque-mate em três lances – proferiu, retirando-se em seguida com o seu andar de Jacques Tati.

Fiquei abestalhado. Além de conseguir captar nossa louca partida, Vic ainda percebeu a estratégia do jogo. Jonga ficou em silêncio durante dois longos minutos. Depois baixou o Guache/Rei desistindo do jogo e continuou:

- Puxa, parceiro, você sacrificou seu Cigarro/Rainha e eu nem percebi que seu Pilot/Bispo desguarneceu toda a defesa. Aí, quando seu Isqueiro/Cavalo comeu meu Marcador/Peão do Rei, foi que vi a besteira que tinha feito. Que jogão, hem!
Conversa de loucos.

3 comentários:

redatozim disse...

Genial, Oliva. Gamão imaginário você já tentou?

Jonga Olivieri disse...

Realmenteseria sensacional.
Só que, infelizmente nunca tentamos. O negócio é que xadrez era meio mania nossa. Depois disso, Favilla e eu compramos um daqueles mini-xadrez que tem as peças fixas por um pino.
Às vezes saíamos da agência e íamos para o Aurora (um boteco aqui do Rio) e jogávamos enquanto tomávamos uns chopps.

Jonga Olivieri disse...

E foi isso mesmo. Não tem exagero. Nós viajamos naquele dia...
Um desses momentos mais inesquecíveis da vida, principalmente porque o outro (Vic) chegou e viajou legal também.