sábado, dezembro 01, 2007

Novo link no pedaço

Amigo leitor.
Luiz Fernando Favilla, nosso parceiro está nos indicando uma nova publicação, o "Blog do Professor", cujo link está aí ao lado, e tem tudo a ver com comunicação e publicidade.
Bom proveito.

quarta-feira, novembro 21, 2007

O “caso” do Sandoval

Lindoval de Oliveira era um dos sócios da L&M. O “éle” da sociedade. O “eme” era de Mozart dos Santos Mello. Ambos ex-macanianos, fundaram a agência fazendo uma brincadeira com a marca de cigarros, à época importado, pois não era fabricado no Brasil. Nós, às vezes, de brincadeira o chamávamos de Lindoveira de Olival. Claro que sem ele saber.

Lindoval, uma figura curiosa, educada, bem humorada, e, entre outras coisas, membro da diretoria da Portela. Uma ocasião, a seu pedido, criei uma logomarca para o tema de um desfile do G.R.E.S. Portela. E a marca foi para a Avenida, desfilar no abre-alas. Eu vi na TV e fiquei feliz pelo fato. Antes disso, fui convidado a visitar a quadra da escola de samba e me ofereceram um camarote. Também, por mais de uma vez, Lindoval proporcionou à criação festas na sua casa, em que íamos com as esposas ou namoradas. Sempre regadas a um excelente uísque, e com uma pista de dança desmontável que ele armava na sua sala. E era excelente.

Mas, certa ocasião, Lindoval foi fazer uma apresentação de campanha a um novo cliente. Todo o aparato da época, quando no máximo o que existia eram retroprojetores ou charts feitos a mão. E um dos diretores começou a dirigir-se a ele como Sandoval. E, toma Sandoval pra cá, Sandoval pra lá. E pronto, virou Sandoval.

Lindoval ficou caladinho, apresentou a campanha, e no final virou-se para o camarada e disparou um Sílvio*, quando o nome do sujeito era Mílvio. E aí foi à forra. Sílvio pra cá, Sílvio pra lá... Até que o cliente o interpelou e disse: “O meu nome não é Sílvio, é Mílvio!”. Lindoval sorriu para ele e respondeu educadamente: “O meu, também não é Sandoval. É Lindoval!”. Quites, os dois se tornaram grandes amigos.

(*) Não me lembro do nome do cliente, portanto, Sívio e Mílvio são fictícios e apenas ilustrativos.

quinta-feira, novembro 08, 2007

O “caso” do shoppingtão

De Ipatinga para Beagá... e de Beagá para o mundo, mais um “caso” (rapidinho) do Maurilo Andréas e seu senso de humor, demais da conta.

Conta a lenda que uma renomada agência de publicidade mineira, atendendo a um renomado shopping center de Belo Horizonte, criava uma renomada campanha, quando um renomado Diretor de Arte berrou no meio da criação: “Alguém aí já sabe o slogan do shopping?”

Diante do silêncio dos colegas, resolveu marcar layout com um slogan de sua própria confecção que ostentava os seguintes e portentosos dizeres: “Shopping X. O shopping do seu cu.”

A campanha foi sendo criada naquele prazo exíguo que é comum ao nosso métier e ninguém mais atentou para o slogan fanfarrão que adornava as peças. Sendo assim, o atendimento recolhe a pasta com o material, sai correndo e, em plena reunião com o cliente, é alertado pelo qualquercoisademarketing que diz: “Ô, amigão, ‘o shopping do seu cu’ não é nosso slogan não, viu?”

domingo, novembro 04, 2007

O “caso” do mural

A L&M era mesmo uma agência muito criativa. E a criatividade estava implícita nas brincadeiras e no dia a dia, no próprio desenrolar dos trabalhos. Eu me lembro, por exemplo, de uma brincadeirinha do Bezerra, que era o nosso ilustrador, e que de vez em quando sentia frio, e como sua sala era uma subdivisão da minha, ele me entregava um cartoon muito bem feito, claro, com um bezerrinho tremendo de frio e um balão com a expressão: brrrrr!!! Era uma mensagem nada sutil para desligar o ar condicionado.

Aliás, neste blog, ao longo de seus mais de 15 meses de existência, já contei muitos e muitos “casos” daquela agência. Eu acho que sempre tive a sorte de ter trabalhado em agências divertidas. Pelo menos naquele período das “antigas”, em que o computador não havia aparecido. Curioso, mas de lá para cá a coisa foi reformatando, os ambientes foram ficando mais caretas e... aí danou. Nada contra computadores. Sou um sujeito que vivo pendurado num. Já amanheço manejando a engenhoca, quase sempre anoiteço em cima do mesmo.

Mas, voltando à “bezerra fria”, além do Bezerra, todos naquela agência tinham um senso de humor apurado. A cada momento surgia um apelido. Você tinha que “se lixar” para isso, pois era a melhor maneira dele não pegar. Parecia um jardim de infância, todo mundo brincando, todo mundo querendo bolar alguma forma melhor e mais divertida de passar o dia. E, tudo isso em meio a prazos loucos, campanhas enormes, para uma equipe até reduzida para a proporção de trabalhos existentes. E é óbvio que este ambiente, no fundo no fundo era para amenizar a pressão do trabalho.

Era raro o dia em que se conseguia sair no horário. Cheguei a um ponto em que não marcava mais compromissos do tipo jantar, cinema ou teatro durante a semana, tal era a minha incerteza quanto à hora em que ia sair. Preferia agendá-los para os fins de semana. E mesmo assim, vez por outra tinham viradas que incluíam idas à agência nos sábados e domingos. Coisa muito comum, principalmente naqueles tempos.

Mas, o estúdio era colado à criação. Apenas uma porta nos separava. Ali, um belo dia, alguém inventou o porta-press. Uma brincadeira que começou com um recorte de manchete de jornal em que havia, coincidentemente um nome de alguém da agência estampado. E aí, começou uma verdadeira febre de colocar naquela porta alguma manchete. Às vezes até recortada e montada a partir de várias. Cortava-se o nome de alguém e completava-se com o restante de uma outra. Mas sempre pertinente. E profundamente maldosa. Lembro-me de uma que era uma imagem de daguereótipo e o retratado era muito parecido com o Victor Kirowsky. Arranjaram letras para formar o apelido dele e colocaram: “Vic daguerreotipado em 1875 por...”. O Vic, que era o mais velho da criação ficou fulo da vida. Queria saber quem tinha feito a brincadeira. Queria porque queria vingar-se do autor, e começou a jogar na cega criando manchetes sobre fulano ou beltrano que seriam os seus principais suspeitos.

Mas a coisa rendeu de tal forma que o porta-press, em muito pouco tempo ocupava toda a parede que dividia o estúdio da criação. Uma brincadeira, como dizem os portugueses: “a não esquecer”. Aliás, jamais...

sexta-feira, outubro 26, 2007

O “caso” do sonho que foi atropelado

Existem vários tipos de agência de publicidade. As mais comuns são aquelas em que o atendimento tem um predomínio, e, de forma oposta a este modelo aquelas em que a criação dá as cartas. Não que não existam outras. Trabalhei em algumas nas quais havia um equilíbrio civilizado entre as duas partes.

Quando fui para Beagá, em 1985, primeira vez em que assumi a direção de criação de uma agência, fui para a ASA. Uma agência tipicamente inserida no caso daquelas em que o atendimento predomina. Apesar de seu histórico, porque foi fundada nos anos 60 por profissionais de criação que faziam frilas e necessitavam ter um local para trabalhar. ASA são as iniciais de After Six Agency*, e era o local para onde eles iam criar suas campanhas e trocar idéias que balançaram o mercado mineiro de então.

Desde que chegara em Belo Horizonte, uma agência em particular me chamou a atenção. A Livre Propaganda**, uma agência solta, criativa, de extremo bom humor em seus trabalhos. Aos poucos fui sabendo de sua história. Surgira proveniente do Grupo Quilombo – que aliás continuava existindo – e que fizera a campanha (vitoriosa) de Tancredo Neves ao governo do estado de Minas Gerais. O referido grupo resolveu continuar produzindo eventos musicais, principalmente para o pessoal do Clube da Esquina. E, paralelamente criaram a Livre para atender as contas de governo que acabaram vindo para suas mãos.

Por outro lado, seu diretor de criação era o Jackson Drummond Zuim, além de personagem de muitos casos neste blog, um dos profissionais mais criativos que conheci. Realmente, sem exageros, um poço de idéias fervilhantes numa cabeça culta e sensível. Bom, um dia o Zuim saiu de lá para outra agência. E não é que me chamaram? Para mim aquilo foi muito mais do que muitos prêmios que recebi em minha vida profissional. Foi uma honra (e um puta desafio) substituir o Zuim.

Não pensei muito. Apesar de gostar muito do Edgard Mello (Seu Mello para os íntimos), dono e fundador da ASA, de adorar o Carlos Areias, ex-colega da Salles no Rio e que me levara para aquela agência, pedi demissão e topei a empreitada. E não me arrependi. A Livre era de fato uma agência “dupirú”. O ambiente era descontraído. Ficava numa casa gostosíssima, tinha cachorro, papagaio e uma linda mangueira no pátio central. Ali também um fogão de lenha em que, todos os meses havia um rega-bofe com fartura de comida mineira, muita cerveja gelada e pinga de Salinas. Além da presença de alguns clientes amigos, e Milton Nascimento, Lô Borges, Fernando Brant. Pra começo de conversa.

A equipe era ótima. Além do Boca e do Wanderley (diretores de arte que haviam trabalhado comigo na ASA) e o Alvinho, redator, encontrei o Murilo Antunes, um dos sócios e também talentoso redator, que nas noites vagas ia recitar poesias nos bares de Belzonte, realizando performances inesquecíveis. Por intermédio dele, veio o Tonico Mercador, na verdade Antônio Augusto D’Aguiar, maranhense criado em Barbacena, onde por coincidência privou da amizade de Tobias Marcier, também amigo meu, pintor, escultor e filho do grande artista plástico Emeric Marcier. Tonico iniciou suas atividades em criação na Livre, sendo parceiro do Murilo em seus shows madrugada adentro. E como ele, excelente poeta e escritor.

Chegaram as eleições para o governo de Minas. Hélio Garcia, o governador de então, não apoiara inicialmente Newton Cardoso, mas este acabou sendo o escolhido pelo PMDB para ser o candidato. Seu principal oponente, nada mais nada menos do que Itamar Franco. A Livre, a Conexão e a Setembro, indicadas pelo Hélio, formaram o pool de agências para a campanha do Niltão. Fizemos. E ganhamos. Uma ousada estratégia final mudou o quadro geral que até então favorecia o Itamar, possibilitando uma grande virada na reta de chegada.

Bom, aí aconteceu... o “trator Niltão” resolveu atropelar as agências que o elegeram, segundo disseram à época, por divergências pessoais com o Hélio Garcia (o famoso “Dojão”, porque consumia um “combustível” que sai da frente). Simplesmente retirou as contas de governo das três agências que formavam o referido pool. A Livre Propaganda Brasileira (seu nome completo), que tinha 98,8% de contas de governo em sua carteira de clientes, faliu. Isso mesmo, simplesmente fechou as portas em menos de dois meses. Assim como num estalo, foi um sonho que acabou... para sempre.

(*) Ver o “caso” da after six, publicado neste blog em 21/11/2006

(**) Existem vários “casos” da Livre neste blog.

quinta-feira, outubro 18, 2007

O “caso” do monólogo

Conhecí Manolo Rodriguez quando trabalhava na L&M. Manolo, na época era funcionário da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (é, o Rio já teve dessas coisas!) e era editor da Revista Bolsa. Na ocasião eu atendia aquela conta e fomos, o Carlinhos Chagas (meu dupla) e eu, por várias vezes ao cliente por motivo de um concurso de capas que o Manolo teve a idéia de realizar em comum acordo com o nascente Clube de Criação, ainda sob a direção de Montserrat, seu primeiro presidente. Dele me ficou a impressão de que falava pelos cotovelos no seu “inconfundível” portunhol.

Naquela ocasião, o espanhol promoveu eventos interessantes. Num deles trouxe um dos maiores Type Directors* dos Estados Unidos ao Brasil. No auditório da Bolsa, o tal ianque falou muito e de forma esclarecedora sobre tipologia, capitulares e outros assuntos e macetes em relação a uma melhor aplicação de fontes tipográficas em anúncios, revistas, etc.

Passei muitos anos sem notícias do Manolo. Até que em 1988, voltando para o Rio, após três anos em Beagá, reencontrei o valenciano. Desta feita como diretor de arte na VS Escala, ainda nesta época na rua Maria Eugênia, em Botafogo. E quase não o reconheci. O ex-diretor da revista da Bolsa, que me acostumara a ver de terno e gravata, estava ali, de calça jeans e um vasto bigodão.

Ficava dias a desenvolver embalagens para uma linha de mostardas que iam ser lançadas pela Fleishman Royal. E desenhava que era uma beleza. Fazia dupla com a Irene Meinberg, enquanto eu voltei para reencontar o Bernardo Mariani, redator que formara uma parceria comigo na Contemporânea. Com o Bernardo, havia ganho alguns prêmios nos tempos daquela agência da Urca, principalmente com uma campanha para o Lápis Vermelho do BarraShopping, que, entre outra coisas, virou até notícia de jornal. Simplesmente porque pegamos uma carona no Plano Cruzado e criamos um desenho animado, realizado pelo Takeshi -- mestre nesta arte -- no qual tinha Lápis Vermelho Sarney, Lápis Vermelho Marcos Maciel, em suma toda a trupe de ministros travestidos de Lápis Vermelho, falando sobre a liquidação do shopping.

Além deles, a VS Escala tinha uma equipe dupirú. Fernando Farah, que está na Inglaterra desde 1989, ou Denise Motta, que casou-se com um israelense e mora desde 1990 em Israel, completavam o time de três duplas de criação, que eram assistidos por um excelente estúdio de mais de oito profissionais de primeiro time. Letristas como o Tião, ilustradores, como o Ronaldo Graça, que curiosamente também está em Paris desde 1991. Aliás, eu também fui para Portugal em 1990. Lá, até criei um periódico -- que xerocava e mandava para todo o pessoal da VS no Brasil e no exterior -- chamado “VS World News”, dada a quantidade de ex-veessianos que haviam saído do país.

Mas, voltando ao Manolo. Quando começava a falar, ninguém segurava. Uma tarde, cerca das sete da noite, já pronto para sair, ele me pegou no papo. Foram horas de um monólogo em que o Manolo contou toda a sua vida na Espanha. Falou muito de Gaudi, Miró e de sua vinda para o Brasil. Contou também (com detalhes) a sua visita à URSS, quando estudante. E, nunca me esqueço dele descrevendo o olhar satânico de Béria**, ao visitar o Kremlim. Saí da agência quase dez horas da noite, e não consegui completar uma frase sequer enquanto ele tecia seus intermináveis comentários.

Poucas vezes assisti a um monólogo tão interminável. Nem na excelente performance de Fernanda Montenegro no “Dona Doida” de Adélia Prado, que, aliás assisti num teatro em Portugal, nos tempos em que lá morei.

(*) Era uma função que existia nas agências estadunidenses, que, como diz o nome tratava-se de um especialista na escolha de tipos, combinações tipológicas e outros bichos.

(**) O chefe da KGB nos tempos de Stalin, ditador, a quem o Manolo também jura ter sido apresentado naquela sua visita à União Soviética.

quarta-feira, outubro 10, 2007

O “caso” do Homem Minister

Quando atendia a Souza Cruz na Salles, lá pros idos dos anos 80, fazíamos um bom trabalho para as sua marcas. O Eric Nice era o designer exclusivo de todas as embalagens do fabricante. Nos seus quase setenta anos, aquele mestre, em sua salinha na Salles de São Paulo elaborava meticulosamente mockups de novas caras para produtos antigos, ou caras inéditas para produtos idem. Era o bam-bam-bam da história. E, tiro o meu chapéu para reverenciar o seu trabalho e a sua memória.

Mas, voltando à vaca fria. À Salles Rio, que na época atendia produtos da Souza Cruz e Brahma, além claro de outras contas como a Sul América Seguros, a Texaco ou o Banco do Brasil, o DNER e a Embratur, isso somente para enumerar algumas das mais expressivas. Ali, fizemos bons trabalhos para diversas marcas da Souza Cruz. Lembro-me de um filme para Continental usando aquela música “Eu voltei... porque aqui é o meu lugar... e lá, la, la... lá, lá, lá...”, que emocionou o Brasil e decerto marcou presença na história da publicidade neste país.

Mas a Souza Cruz também tinha as suas pedrinhas no sapato. E uma delas era uma marca pioneira em cigarros com filtro, outrora um símbolo de status, e que de repente começava a despencar vertiginosamente em vendas. Lembro-me perfeitamente da primeira reunião que tivemos com o Domingos Logullo (à época o diretor nacional de criação da agência) em que ele falava da necessidade que teríamos de criar uma campanha, para alavancar e reerguer a marca, pois o fabricante não queria desativá-la. Paulistamente falando, uma dupla de criação de Sampa vinha nos “ajudar”. E veio. Prefiro nem citar nomes, pois eram sujeitos do cacête com quem nos demos otimamente, apesar do sentido paternal e intervencionista intrínsecos...

O certo é que de imediato começamos a fazer reuniões atrás de reuniões. Longos brainstorms a portas fechadas para achar uma solução. Foram dias, semanas de um esforço em que saíram as idéias mais estaparfúdias e as mais criativas quase que simultaneamente. Um exercício criativo de causar inveja a qualquer Jerry Della Femina* da vida.

Mas a coisa alongou-se por este período sem uma solução aparente. Examinando números e o mercado, suas novidades como produtos light e otras cositas más, ficava difícil reerguer a condenada e outrora gloriosa marca. Mas, um belo dia, alguém que não me lembro mais saiu com a idéia do “Homem Minister”. Um fator novo que balançou o coreto. Mas, quem seria este homem? Quais as características que fariam alguém ser o homem Minister?

Depois de muitos vais e vens, de se terem rifado “ene” alternativas, chegamos finalmente a um nome: Tarcísio Meira. Bonitão, ator de novela, comprovadamente macho, casado há anos com a Glória Menezes. Por quê não? E ficamos nele. Por unanimidade a agência inteira aplaudiu. Até que um “advogado do diabo”, que também não me lembro o nome, mas que certamente deve estar ardendo nas profundezas do inferno, levantou aquela lebre: “Mas, e se o cara morre? Afinal ele pode ter um acidente, vive na ponte aérea e blá, blá, blá...”

Assim acabou o “Homem Minister”. E algum tempo depois, a própria marca. Quanto ao Tarcísio Meira. Acho que a última vez que foi visto estava fazendo um papel na nova novela das oito, que já é das nove... há muito tempo!

(*) Jerry, considerado nos anos 60/70 dos mais criativos publicitários da época, foi um dos sócios da “Della Femina Travisano & Partners”, também uma das agências mais criativas dos Estados Unidos, e tinha uma característica ‘sui generis’ em sua forma de atuar, chegando uma ocasião a afirmar que sua agência não aprovaria nada com seus clientes. Estes veriam os anúncios publicados, os filmes no ar, etc. Porque ele acreditava que, por saber o que fazia, o cliente tinha que confiar nele e em sua equipe. E fim de papo...

terça-feira, outubro 02, 2007

O “caso” do ‘obrigado, igualmente’

Conheci o Paulo Antônio Magoulas nos bons tempos de L&M. Profissional de atendimento, atendia entre outras contas, a da Pantene (shampoos e outros produtos para o cabelo). O que lhe valeu a alcunha de Pantônio. Aquela turma não perdoava mesmo.

O Magoulas saiu um dia para almoçar com o Giancarlo Marchesini* e entornaram o caldo. O Gian era assim, bebia pra cacete. E chegaram na agência um pouco em cima da hora para uma reunião marcada com importante cliente. Reunião essa em que iriam com o Mozart dos Santos Mello, o “M” de L&M. Mozart já estava subindo pelas paredes quando avistou os dois a adentrar o corredor, sorridentes, soltinhos. Claro que nitidamente “alegres”. Imediatamente os chamou no canto. Mas um canto em que todas as pessoas que passavam podiam ouvir o que se falava. E no seu “discreto” tom de voz, Mozart começou a tecer uma ladainha de impropérios. Os dois escutando, e lá pras tantas o Magoulas pede a palavra e com a voz tropejante diz:

– Mozart, eu estou cônsxciooo daxxs miiinhaxs responsaaabilidadexs... cônsxciooo daxxs miiinhaxs responsaaabilidadexs...hiiic... cônsxciooo daxxs miiinhaxs...

Essencialmente, o Magoulas sempre foi um sujeito muito educado, chegando a ser formal no trato diário. Certa feita, logo depois do natal, eu o encontrei na fila do elevador no prédio em que ficava a referida (e saudosa) agência. Falta de assunto específico larguei a típica pergunta feita após a festa:

– E aí, Magoulas, como foi de natal?

Ele virou-se para trás, uma cara de ressaca e automaticamente respondeu:

– Obrigado... igualmente...

As pessoas na fila morreram de rir.

(*) O Giancarlo Marchesini faleceu já há alguns anos, segundo me contaram vítima de cirrose hepática, em outras palavras, de bebida mesmo. Mas, independente disso, foi um dos melhores contatos que conheci ao longo dos meus anos de praia. Às vezes, ele pegava o rough (inacabado) na prancheta, levava pro cliente e voltava com a idéia aprovada. A última vez que o vi, estava na Lintas, em São Paulo, fomos almoçar juntos. Comemos e bebemos pra dedéu numa cantina ali na Bela Cintra...

quinta-feira, setembro 27, 2007

Para quem gosta de cinema

Tem um novo link neste blog, particularmente para quem aprecia a 7ª arte. Trata-se do “Blog da Stela (cinema)”, que vem somar-se ao excelente “Cinema por André Setaro”, daquele que considero um dos maiores experts no assunto em todo o Brasil. Ambos da Bahía, que já nos dera Walter da Silveira, considerado e reconhecido como um dos grandes críticos e conhecedores de cinema deste país. Estão nos links aí ao lado. Divirtam-se. E certamente vão conhecer um pouco mais de cinema.

terça-feira, setembro 25, 2007

O “caso” do cravo que tira cheiro de goró

Nosso grande parceiro Felipe Monsanto rides again...

Mais uma vez estávamos eu e o Jonga (ilustre amigo e meu mestre da direção de arte e de derrubar saquê) no Yamamoto depois do trabalho. Eu sem namorada depois de trabalhar até as dez e pouco em plena sexta-feira. Ele com a patroa em casa já acostumada às viradas de trabalho.

Resolvemos então fechar a semana de ralação com um belo sushi e algumas doses de saquê. Se não me falha a memória eu bebi três ou quatro e o Jonga umas seis ou sete. Mas isso não é nada, pra quem certa vez tentou bater o recorde de Fernando Farah. Um sujeito de 149 kg que bebia 11 saquês. E conseguiu, bebeu 12. Só que na hora do almoço ele voltou para a agência, acabou dando uma encoxada bonita numa secretária boazuda que era Miss Iguaba, trupicou na escada e acabou sendo gentilmente conduzido de volta até sua residência, que por sorte era perto da agência. E por respeito ao ilustre recordista, sem ter seu dia de trabalho descontado em folha. Afinal de contas o patrão também era chegado num saquê e acho muita graça na saliência do Jonga com a tal secretária.

Não sei se por conta exatamente deste episódio ou deste e mais alguns juntos, a patroa do Jonga fica furiosa quando ele toma umas e outras que não seja em datas comemorativas e sob a vigilância dela que manda parar quando ele começa a contar piadas de papagaio. Até as de português a coisa vai, contou a primeira de papagaio a dona patroa arranca-lhe o copo da mão na frente das visitas e manda beber dois copos d'água imediatamente. E o Jonga atende, prontamente, sempre!! Rindo muito, claro, mas atende!!

Nesse dia pegamos um táxi depois do sushi e o Jonga foi contando que já sabia que ia ouvir esporro da patroa por causa de cheiro de goró. Eis que o motorista, sem ser chamado na conversa, diz ter a solução:

- Meu amigo vou resolver o seu problema.

E encostou a porra do táxi em frente à favela Santa Marta por volta da meia-noite e começou a vasculhar tudo dentro do maldito táxi, já explicando:

- Minha mulher também fica fula da vida quando eu bebo...

Depois de uns cinco minutos, acha um saquinho com cravos-da-índia e manda o Jonga mastigar logo três. O motorista devia ser um cachaceiro de primeira, afinal isso é coisa mesmo de pinguço!

Como eu estava sem namorada, fiquei livre desta. Enquanto o Jonga travava uma puta batalha com os cravos, o cheiro deles se espalhava pelo carro. Devo ter chegado em casa cheirando a cravo...

Na segunda-feira, encontro o Jonga e pergunto:

- E aí Jongão, o cravo funciona?

Ele abre um grande sorriso e diz:

- Funciona pra caraaaalhooooo, Felipão! E já tirando um recém-comprado saquinho de cravos do bolso, e sacodindo (o saquinho de cravos) com toda satisfação.

Diante de tanta alegria e do "funciona pra caralho" achei até que o cravo fazia mais coisas do que simplesmente tirar cheiro de goró, mas em respeito ao amigo achei melhor não perguntar. Ou teria sido o saquê?

Até hoje não sei a resposta...

quinta-feira, setembro 20, 2007

O "caso" do fax que não funcionava

Por Mariflor Rocha, a nossa parceira. Com todo o respeito...

Ser estagiário é realmente difícil. O universitário cai de pára-quedas no meio de um monte de cobra criada, se der sorte, sem saber do que se trata o trabalho, achando que o que ouviu na faculdade é o que funciona e querendo agradar todo mundo pra conseguir o sonhado emprego.

Ainda lembro, da época de jornal, da cara espantada dos estagiários diante da gargalhada do chefe dos gráficos quando ele dizia que alguém na redação tinha mandado que buscasse a calandra. Ou do riso à socapa do chefe do almoxarifado ao responder que o guache xadrez estava em falta...

Bom, esse se passou na Contemporânea há pouco tempo.

A menina acabara de começar o estágio na agência. Aquele velho esquema. Rodar todos os departamentos, para conhecer o trabalho e descobrir afinal o que queria fazer em publicidade.

O primeiro foi o de Operações. O velho tráfego da C.

A guria animada, cheia de boa vontade, mais perdida que cego em tiroteio. Todo mundo com a maior paciência, tentando explicar, na medida do possível, o inexplicável: como funciona a agência.

Beth Paixão, veterana, que com certeza alguns conhecem o jeito despachado e, diria até, informal demais com que trata todos vira para a Carla (vamos chamar assim) e pede: “Paixão, passa esse fax pro fornecedor pra mim?”

Dito isso, retorna ao telefone e computador e esquece.

Passado algum tempo, Beth se lembrou e estranhou não ter recebido a folha de volta.Olha em torno e vê a Carla parada em frente à impressora com um ar sofrido, pensativa e a folha na mão.

“Paixão, passou o fax?”

Carla começa quase a chorar e gaguejando responde: “Beth, eu estou tentando... Mas onde é que a gente enfia o papel aqui?”

segunda-feira, setembro 17, 2007

O “caso” do armarinho

Mais um “caso” de Maurilo Andréas. Desta feita contando uma historinha de um dos mais geniais criativos que jamais conheci...

Jackson Drummond Zuim foi um puta redator daqui das Minas Gerais. Dono de um talento imensurável, de um humor corrosivo e de uma voz de barítono engraçadíssima, Zuim é protagonista de algumas das tiradas mais divertidas que já se ouviu por estas plagas.

Pois trabalhando na Alcântara, agência de Mario e Rui Alcântara que não mais existe, Zuim atendia clientes importantes e acumulava prêmios. Certo dia, Rui adentra a criação e solicita meloso: “Ô, Zuim, to precisando de um nome pro armarinho da minha irmã, me dá uma força nisso aí.”

Assim que o chefe deixou a sala, nosso redator começou a reclamar com seu tom único “putaqueopariu, cidadão, eu cheio de trabalho aqui e o Rui vem me pedir nome pro armarinho da irmã dele!?” E nessa ficou por uns 15 minutos.

Um tempinho depois o Rui passa pela sala e Zuim grita para todo mundo ouvir: “Ô, Rui, arranjei um nome do caralho pro armarinho da sua irmã. Armarinho Seu Butão!” (com “u” mesmo pra enfatizar a sacanagem).

Nunca mais pediram favor nenhum pro Zuim.

quarta-feira, setembro 12, 2007

O “caso” do sutor

Existe uma grande diferença entre se ouvir uma piada de português, e viver uma delas. Olha, gente, adoro aquele povo d’além mar, mas eles têm coisas deveras engraçadas. Por exemplo: apesar de viverem dizendo que, nós brasileiros, temos o hábito de não traduzir determinados termos se outras línguas (do inglês em particular), eles também caem no mesmo vício. Daí, redator lá ser copywriter, contato ser account... e até em um “caso” que já contei aqui, estoque ser stock. Mas eles pronunciam sitoque.

Os lusos têm expressões muito curiosas, não somente em publicidade, mas em todas as áreas. Chegam a ser engraçadas. E por falar em engraçado, lá, alguém pode de repente falar que sua roupa está engraçada. Não, por favor, não se ofenda. Porque roupa engraçada por aquelas bandas não significa que você esteja vestido de palhaço. Mas, simplesmente ela tem graça... É que nem frescura. Frescura é aquilo que nós chamamos de frescor. “Hoje está tão gostoso, está uma frescura deliciosa!”. Há de dizer um lusitano, macho por sinal, a sorrir em sua direção. Não o confunda!

Registro é registo. Equipe é equipa. Goleiro é guarda-redes, soutien é porta-seios e cardápio é Ementa. Se você pedir um Menu, ou a Carta ao garçon, que lá é respeitosamente chamado de Senhor, o gajo vai ficar a olhar pra você com um ar estupefato. E parada de ônibus que é paragem? Fumante é fumador. Nunca peça por um durex, a não ser numa farmácia, porque é um preservativo. O nosso durex lá é fita-cola. E Isopor que é esferovite? Isso sem contar as mais conhecidas por aqui como a bicha que é simplesmente uma fila. “Peguei uma bicha hoje!”, dizem comumente... Cu não é chulo por lá. Se estiver com o traseiro encostado em algum balcão de loja, a distinta vendedora pode virar-se para você e dizer com a cara mais lavada do mundo: “Ó pá, desencosta o cu daí, se faz favor!”

Um dia, ia a uma reunião com meu patrão português, ele virou-se para mim e disse: “Caraças, hoje vamos nos reunir com o sutor engenheiro Motta, lá na Motta e Companhia.” Que diabos vinha a ser sutor? Não sabia, e, por outro lado não lhe perguntei. Antes de mais nada porque ele o disse com tanta espontaneidade e segurança que até fiquei sem jeito de questionar. Bom, é o sutor... é daí? Um sutor é um sutor e tá acabado...

Fomos, fizemos a reunião, correu tudo bem. Sutor pra lá, sutor pra cá. E eu sem saber. Tive vergonha de perguntar, e, juro fiquei dias sem sabê-lo. Uma noite, em casa, conversando com meu filho ele disse que a sutora diretora tinha falado alguma coisa no colégio. Imediatamente indaguei: “Mas afinal de contas, o quê é sutora? Tem algo a ver com sutor?” Aí caiu a ficha. Sutor, era nada mais nada menos do que Senhor Doutor. Fácil, não?

quinta-feira, setembro 06, 2007

A vez e a voz das mulheres

Conheci Mariflor Rocha na VS. Excelente profissional*, amiga e companheira de copo, algumas vezes fomos – principalmente com o Gil e o saudoso Bob Charles** – entornar muitos chopes na “Adega da Velha”, na rua Paulo Barreto. E sorvemos bons goles enquanto jogávamos conversa fora, relembrávamos as peripécias do dia e falávamos da vida alheia.

Este blog, que além de mim tem seis colaboradores, abre os braços para a Mariflor, nossa primeira colaboradora, que mandou o “caso” que estou postando abaixo. É a hora e a vez das mulheres, trazendo o toque que faltava. Benvinda Mari...

(*) Desculpe se há algum erro na escrita, Mariflor. Afinal, você é uma excelente revisora...

(*) Gilberto, nosso produtor gráfico (dublê de tráfego) e Roberto Carlos, um dos melhores diretores de arte que conheci, que infelizmente o computador jogou pra escanteio, e que outro dia ainda soube que havia falecido. Coisas da vida!

O “caso” da soneca produtiva

O primeiro caso (espero que de muitos) de Mariflor Rocha a primeira colaboradora deste blog.

Como revisora, me lembro de poucas vezes em que participei de reuniões com o pessoal da criação. Estava sempre com a turma na pizza da madrugada, nunca na hora do começo do trabalho.

Porém, a VS fervilhava, e um novo projeto, muito grande, envolvendo pesquisa, tinha sido encomendado. Lula resolveu reunir todo mundo, produtor gráfico, dupla, atendimento, e, pasmem, a revisora para desenvolver um plano de trabalho.

Já haviam me contado que nas reuniões de vez em quando ele dava umas cochiladas... (Isso também foi antes da cirurgia de redução do estômago.) Mas eu não estava preparada para o que vi.

A reunião rolando, muitas discussões sobre quem faria o que, o Lula dando palpites o tempo todo. De repente, olho pra cabeceira da mesa e ele está dormindo! Roncando e tudo! Pensei que a vaca tinha ido pro brejo, quando, tão de repente como tinha dormido, ele acorda e continua participando da reunião.

Detalhe: ele cochilou alguns minutos e retomou a reunião exatamente no ponto em que estava. Ou seja, parecia que ele tinha participado de tudo! Sempre gostei muito dele, mas, depois dessa, virei fã. O cara criava até dormindo!

P.S. Como as outras pessoas já estavam habituadas com esse costume do Lula, nem reagiram à "soneca"...

terça-feira, setembro 04, 2007

O “caso” da frase papada

Luiz Alberto Alves, além de ter sido uma figura de evidência no mundo do jornalismo esportivo, era, antes de mais nada o tio Luiz, pois era irmão da minha mãe. Começou a sua carreira no jornal “A Tarde” em Salvador. Veio para o Rio de Janeiro trabalhar na Rádio Mayrink e Veiga. Aqui, foi cronista no “Diário de Notícias” e, posteriormente fez parte do trio esportivo da Rádio Nacional, tendo como parceiros Antônio Cordeiro e Jorge Cury, no programa “No Mundo da Bola”. Uma turma que acompanhou entre outras coisas a vitoriosa campanha da seleção brasileira de Garrincha e Pelé em campos da Suécia.

Tio Luiz foi o grande responsável por transformar toda a turma lá de casa em cinco ardorosos torcedores do Fluminense. Meus pais, flamenguistas, nunca se conformaram com isso. Tinha uma casa deliciosa em Miguel Pereira. Durante muitos anos eu ia com a família passar feriados lá. Era divertido. Enquanto as mulheres conversavam e as crianças brincavam, degustávamos pingas da melhor qualidade e amarrávamos porres memoráveis. Num deles, fomos parar, não me lembro como, numa deliciosa “birosca” à beira-riacho (também não sei que riacho), saboreando peixinhos à doré e vertendo muitas cervejas. Tudo porque, em determinado momento, ele lembrou-se de um bar que servia jacaré, coisa que me deixou alucinado por experimentar, mas não encontramos. Luiz Alberto, além de tio, era uma agradável companhia.

Foi professor de comunicação na Gama Filho, onde também era o coordenador da cadeira de Jornalismo. Neste período foi chamado para organizar o mesmo curso na Universidade de Lisboa. Com ele, em 1969, fiz uma revista sobre a Copa do Mundo de 1970. Foi uma loucura, e o primeiro trabalho que eu criei, produzi e finalizei todo sozinho. Isso, numa época de títulos em Letraset, composições em linotipo, pastup e cola de borracha.

Luiz Alberto também gostava de criação publicitária. E levava jeito pra coisa, embora, até onde eu saiba, nunca tenha trabalhado em alguma agência, muito embora tenha feito frelances para algumas. Por ocasião da Copa do México de 1986, criou uma frase que ficou famosa: “Mexicoração”. Na época, trabalhava no Sistema Globo de Rádio, onde era produtor de programas e pesquisas*, e não teve o cuidado de registrar a sua autoria. Virou música temática da Copa na TV Globo, e diversas empresas usaram a frase em camisetas e outros materiais promocionais. Foi o maior “perrengue”. Correu atrás, tentando receber direitos autorais, mas, apesar de ainda ter conseguido o registro, este foi tardio, e a maioria dos processos não resultaram em nada. A Globo até lhe pagou alguma coisa, porque afinal ele trabalhava numa das empresas do grupo, e ia pegar mal...

Daí, veio a Copa da Itália em 1990. Luiz Alberto contou-me a frase que havia criado, mas já com a documentação em mãos. Devidamente registrada, tudo conforme os conformes. “Papa essa Brasil”, que também virou jingle na Rede Globo e foi amplamente usada em camisetas, faixas e bandeirolas por lojas e outros comerciantes. Desta feita, com tudo pago direitinho, tendo-lhe gerado uma boa fonte de renda.

Paparam “Mexicoração”, mas a do papa, ninguém conseguiu papar.

(*) Luiz Alberto trabalhou no Sistema Globo de Rádio até pouco tempo antes do seu falecimento, em 1992.

quinta-feira, agosto 30, 2007

O “caso” do barco de sushi

Trabalhei com Felipe Monsanto na VS. O que posso dizer dele, é que além do grande profissional que é, também é um grande amigo, um grande coração, uma grande companhia e um grande caráter. Aliás, grande é uma característica do Felipão. Como sugere a alcunha, não só um grande cara, mas um cara grande. E por falar em grande, segue aqui um grande “caso” contado por ele. Em grande estilo.

Não lembro bem o ano, devia ser 1993, trabalhava na VS Escala e isso significava trabalhar que nem um corno e, para os novatos como eu, também receber salário de corno.

Além disso, como operador de Mac, sobrava trabalho depois da hora quase todos os dias, onde a gente tinha que pagar o jantar e o táxi do próprio bolso e o caixa da agência levava, às vezes, 15 dias pra reembolsar. Eu vivia bem alimentado, porém duro que nem um coco.

Certo dia conversei com o Neri, diretor financeiro da casa e contei a ele o problema, que passou a me fornecer cheques da agência assinados e em branco pra pagar os jantares da galera. No dia seguinte eu só tinha que entregar a nota fiscal pra ele. Por incrível que pareça esse foi o pior negócio que já fiz na vida. Por ser o cara que conseguia os cheques, nunca mais me deixaram sair cedo, eu era convocado para todas as viradas de noite...

Certa vez fui chamado na sala do Aías, o VP financeiro pra explicar como eu e o Fred (Dabus) tínhamos comido 10 sobremesas em um único jantar. É que, por razões óbvias, não se podia pedir bebidas alcoólicas. Mas a gente sempre pedia e mandava não botar na nota. Dessa vez a moça do restaurante mudou a tática e botou as latinhas de cerveja como sobremesas... E pra explicar? Disse que eram os refrigerantes e as duas sobremesas juntas ou qualquer coisa parecida.

Até hoje não sei se colou, sei que passamos a tomar mais cuidado ao “instruir corretamente nossos fornecedores” no preenchimento de suas notas fiscais a partir desse dia.

Mas a melhor mesmo foi num sábado que fomos trabalhar na agência eu e o Jonga (este mesmo aqui do Blog). De posse do chequinho do Neri ligamos para o Yamamoto (restaurante japonês muito bom e que não cobrava tanto, afinal eram épocas de vacas gordas na propaganda, mas a gente tentava economizar o dinheiro da agência) e pedimos um barcão de sushi no capricho.

Feito o pedido, desci até o primeiro andar, onde ficava a cozinha, pra pegar um copo d'água e dei de cara com o Lula (o patrão).

Assustado com a minha presença na agência num sábado, perguntou: "Tá fazendo o que aqui garoto?"

Eu mais assustado ainda com a presença dele num sábado na agência (se fosse o Waldir era mais sério ainda) respondi: "Telerj." Poderia ter respondido Telergh, Telerda, Telemerda, mas tentei ser sério.

Nem peguei a água e voltei correndo pra sala do Mac e contei pro Jonga: "O Lula tá aí!" E ele me respondeu: “Puta que pariu, caralho, fudeu!!! Vamos morrer de fome, Felipão!”

“Calma Jonga, ele tá tendo dificuldades pra conseguir um táxi, vamos ajudar”, eu disse.

Cada um pegou um telefone e começamos a tentar achar um táxi a qualquer custo. Quando conseguimos, passamos então a rezar pro táxi chegar antes do barco (de sushi), o que, pra nossa sorte, aconteceu.

Dez minutos depois de ele ir embora, chegou nosso belo barco de sushi e algumas cervejas geladinhas, que comemos e bebemos com toda a calma do mundo. O problema é que se o Lula visse o sushi, ia se chegar pra comer, botando logo dois ou três na boca por vez e antes que a gente desse conta ele já teria comido tudo... E, o que é pior, ia deixar o pobre do taxista esperando por ele.

Devem estar pensando como ficou a campanha. Com a inspiração do sushi, acabou ficando ducaraaaaallllhhhhooooo!!

PS: O Neri (aquele que liberava o chequinho em branco) é nosso contador há 12 anos, amigo há 17 e cliente há uns 6.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O "caso" do orçamento

Segue mais um “caso” de Maurilo Andréas, o mais jovem, no entanto, o mais antigo colaborador deste blog.

Lembrei de mais um caso de um certo ex-patrão meu. Apresentávamos uma campanha para um cliente antigo da casa, mas com responsável novo pelo marketing e corria tudo bem. O conceito havia sido aprovado com louvor, o filme foi elogiadíssimo e entrávamos na sempre complicada parte dos orçamentos.

Os custos de mídia geraram algum debate e na hora dos orçamentos de produção os ânimos começaram a se alterar. De repente, bem no meio da apresentação dos orçamentos do filme o novo gerente de marketing do cliente exclama (valores fictícios obviamente):

“Cem mil reais!? Um filme desses eu faço por vinte mil fácil!”

No que o dono da agência responde de bate-pronto:

“Pois então a reunião está encerrada. Senhores, aí está o nosso novo fornecedor. Boa sorte!”.

Até a temperatura baixar foi um custo, mas terminou tudo bem e o filme acabou sendo rodado. Com nosso orçamento, claro.

quarta-feira, agosto 22, 2007

O “caso” da ‘hora do trem’

Tem aquela velha história de que mineiro nunca perde o trem. Bem, não sou mineiro de nascimento, mas o sou por estar casado com uma por mais de três décadas. E, independente de qualquer influência, o baiano aqui nunca foi de chegar atrasado em lugar nenhum. Tenho mesmo uma obsessão por horários. Desde a reunião de trabalho ao compromisso social mais bobinho. Costumo até sofrer com isso, pois chego às vezes tão antes da hora, que tenho que fazer alguma outra coisa para chegar no local somente no horário marcado.

Mas, aconteceu... tudo tem que ter uma primeira vez na vida. A tal que a gente nunca esquece. Fomos a Vitória a trabalho. Lula Vieira, Silvana Gontijo e eu. O vôo estava marcado para 20h10m. Quando cheguei no Aeroporto Tom Jobim, pra variar era muito cedo: cerca das dez para as sete. Dei uma olhadela, e não vi o casal. “Também -- pensei eu com os meus botões --, ainda é cedo demais". Mesmo assim, fiquei nas imediações da área do check-in da Gol. Nada do Lula... De repente toca o celular. Era ele. “Jonga... aonde você está?” Prontamente disse que o estava esperando no local combinado. Qual não foi a minha surpresa quando ele falou que estava na fila, a poucos metros do lugar em que me encontrava.

Olhei em torno. Estava cheio de gente, mas fui checando as filas e encontrei os dois. Verificamos ali mesmo que o vôo estava atrasado em trinta minutos. Atraso este que para o caos geral nos aeroportos é até insignificante. Umas três semanas antes, indo para a mesma cidade, atender o mesmo cliente, madrugamos no aeroporto, e o vôo simplesmente atrasou mais de três horas. O check-in foi rápido. Logo estávamos liberados.

Normalmente, apesar do atraso, o “mineiro” aqui, iria direto para o salão de embarque, compraria um jornal qualquer, e ali, seguro de que não ia “perder o trem”, ficaria mais tranqüilo. Mas o Lula -- filósofo da vida que é -- sugeriu que, em função do atraso do vôo, fossemos jantar. Eu, meio que sem jeito fui com eles. E até pensei que aquela seria a forma mais correta de encarar o contratempo do “apagão” aéreo.

Subimos um andar e fomos ao Demoiselle. Calmamente pedimos os pratos, e pusemo-nos ao sabor do delicioso passatempo. Papo pra lá, papo pra cá, o tempo foi passando mais leve e rapidamente. Tão rapidamente que quando nos lembramos de consultar a hora, faltavam dez minutos para o embarque. Apressadamente pedimos a conta. Também apressadamente descemos as escadas (ainda bem que rolantes) e nos dirigimos ao portão de embarque. Conseguimos furar a fila, alegando verdadeira e convincentemente que o nosso avião já havia anunciado a partida. Corremos pelo salão de embarque, e, lei de Murph, era o último, lá no fundo...

Quando chegamos, o portão já estava fechando. Apresentamos as passagens à recepcionista, que, correu pelo túnel de embarque para voltar logo em seguida, dizendo com uma expressão tristinha, que o avião já havia fechado a porta, e que aí, não tem jeito, não iria mais abrir. “Pronto! Perdemos o trem”, pensei de imediato. Mas logo com dois mineiros? Eu, por osmose e a Silvana, mineira mesmo. Única solução: voltar ao balcão da Gol e remarcar um outro vôo. E foi o que fizemos. Hora do próximo? Dez e trinta. Uma espera de quase duas horas.

Só nos restou esperar calmamente no salão, lendo o Estadão que o Lula, sabiamente trouxe consigo. Resumo da ópera, o embarque somente se efetivou às onze da noite.

sábado, agosto 18, 2007

O "caso" do Shakespeare

Líber Matteucci dispensa apresentações. Mas, para quem é novo no mercado, e já que ele seguiu para a Europa na década de 1980, é bom saber que o Líber é um dos mais premiados, competentes e conscientes profissionais de criação que passaram pela publicidade carioca. É uma honra tê-lo como o mais novo colaborador deste blog com o caso que segue abaixo.

Nos anos 80, a MPM-Rio tinha a conta institucional da Shell, enquanto a parte de produtos era atendida em São Paulo por outra agência. Entre as coisas que a multinacional fazia para tentar parecer brasileira, útil ao País e tal, figurava o patrocínio de peças de teatro.

Um dia passaram um anúncio urgente para a criação, que foi entregue para mim e o João Galhardo, uma das duplas da agência. Junto com o job ou pit ou briefing – ou que nome tenha, – vinha uma foto do Hamlet (já não me lembro do nome do ator) com a caveira na mão, na célebre cena do ‘ser ou não ser’, essa dúvida que todos temos.

Devo confessar, eu tinha mais dúvida que a média, porque além do lado existencial e filosófico da questão, vivia em conflito com a profissão. Sempre achei que a publicidade é coisa do demônio, para propagar uma ideologia espúria, que nos países do terceiro mundo, como o Brasil, atende pelo nome de “capitalismo selvagem”, enganando todo mundo.

Seja como for, mea culpa, a gente precisava do emprego e lá fomos eu e o João tentar fazer o anúncio. O título que me ocorreu foi este: Shellkespeare. Sim, um trocadilho (ou dalho, como queiram), com o nome do bardo. Achamos que ficou bem na foto e fiz um texto explicativo para dizer o óbvio, ou seja, que a Shell patrocinava bom teatro, a exemplo da famosa peça do nosso amigo William Shakespeare.

Enquanto o contato levava a idéia para o cliente, porém, entrei em crise de consciência e comecei a me recriminar por dentro. Logo eu, filho de Henrique Matteucci, um jornalista preso pelas suas idéias de esquerda, escritor que me ensinara a respeitar os artistas, logo eu pronunciar o santo nome do Shakespeare em vão? Usá-lo? Brincar com o nome de um gênio da humanidade, rebaixá-lo, aviltá-lo, transformá-lo em garoto-propaganda de uma multinacional?

Passei maus bocados comigo mesmo, envergonhado e triste, pensando em fazer outro anúncio que substituísse aquele, tentando encontrar uma saída honrosa, quando finalmente o contato chegou de volta. Ele entrou na sala, eu e o João olhamos para o colega, e quando achei que ia pedir para avançarmos com a arte-final, o contato disse:

– Olhem, tem de fazer outro título, este está reprovado.

Feliz com isto, já com alternativas na mão, resolvi perguntar:

– Por quê?

O homem de atendimento foi enfático:

– O cliente disse que a gente está louco, brincar com o nome da Shell...

quarta-feira, agosto 15, 2007

O “caso” do ronco

Criamos um filme para a marca de cigarros Shelton, um dos carros chefe da Philip Morris na época. Existiam duas versões do produto. Um long size em maço e outro em tamanho normal com caixinha Flip top.

A historinha girava em torno de um casal (que novidade!), e ficamos dias e dias discutindo o local para a filmagem. Inclusive, claro, com o cliente também. A Philip Morris, como todo cliente que se preze, era repleta de diretores e assessores cheios de “grandes” idéias próprias. Finalmente, bateu-se o martelo em Paraty. Belo lugar. Eu até a conhecia, pois já havia passado um feriado lá, alguns anos antes. E a encantadora cidade colonial deixou em mim, desde aquela ocasião, uma ótima impressão.

Normalmente o redator costumava acompanhar as filmagens e o diretor de arte as fotos. Era mais ou menos praxe. Mas, nesse caso, eu, o diretor de arte da dupla fui escalado para tal façanha. Nem preciso dizer que adorei o fato, tal a minha paixão por cinema.

Fui no meu fusquinha mesmo. Com toda as despesas pagas, obviamente. Sai numa madrugada, em dia que raiava lindo, e segui estrada afora, sozinho e os deuses, rumo à mágica Paraty, na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro*. No início, uma viagem normal. Saindo da Humaitá, atravessei o túnel Rebouças, peguei a avenida Brasil e entrei na recém-inaugurada Rio-Santos. Mas, aos poucos eu ia ficando deslumbrado, maravilhado com aquela estrada, que a cada curva, a cada lombada oferecia visuais de encantamentos indescritíveis. Eu chegava a exclamar um “oooohhh!” em voz alta. Naqueles dias, inclusive, o caminho passava por sítios que nunca alguém (a não ser índios ou piratas) haviam pisado antes. Foi uma viagem que eu jamais vou esquecer. Deslumbrante mesmo.

Depois de muitas horas de viagem, acrescidas de várias paradas (que fiz para admirar as paisagens), cheguei aos limites da cidade. Dali em diante não se podia ir mais de automóvel. Procurei a pousada em que ia ficar com toda a equipe da produtora que filmaria o comercial. Era a pousada da Maria Della Costa. Um encanto de lugar.

No mesmo dia, começamos as locações. Cada local mais bonito do que o outro. Cenários lindos. Fora o casario, as igrejas. O “romance” do casal Shelton ia ser muito bem emoldurado. À noite, íamos para um restaurante que ficava na praça, bem em frente a uma ponte. Comíamos, e, principalmente bebíamos até tarde da noite, trocando idéias sobre cenas e locações para as filmagens. Saíamos meio tontos, mas com as cenas do dia seguinte todas decupadas. E assim foi passando o tempo. O trabalho foi feito em três dias de tomadas. Rodamos muito filme. E os dias se passavam com muito trabalho de dia, muita birita à noite...

Houve uma noite em que, cansado e “tocado” desmaiei na cama. Lá pras tantas, o ator do comercial, um gringo, que dividia o quarto comigo, me acordou balançando loucamente e dizendo:

-- Pour favour, pour favóur... ruonca mienóus... pourque éu nóm consigou dourmier...

(*) A população local, escolheu em plebiscito ficar no estado do Rio de Janeiro, e não no de São Paulo, como era até então.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O “caso” do xará

Nilton Ramalho é uma figura sempre bem humorada e divertida. Quando estou com ele, solto boas risadas das suas narrativas e das situações que ele vive. Tem a veia do contador de piadas, reais ou imaginárias. E isto é um dom. O Lula Vieira o tem. O saudoso Flávio Colin também era assim, capaz de contar uma historinha qualquer em que eu me esbaldava de tanto rir. Quando eu o contava, juro que não tinha a mesma graça.

E o Ramalho sempre tem um comportamento engraçado na própria forma com que se comporta. Eu me lembro de quando entrava na agência para entregar os seus trabalhos de ilustração*, e, chegando na porta adentrava o corredor gritando: “Alôôô Putaaadaaaa!” Era um senhor rebú. Mas, ao mesmo tempo uma alegria geral, porque à sua chegada, quem estivesse triste podia esquecer aquela situação. O Nilton punha-se logo a conversar com todos, abraçar, rir. As pessoas que estavam em outras salas, saíam apressadamente para estar com ele, saudosos dos tempos em que ele trabalhou com elas. Em poucos instantes a agência virava um tumulto. No melhor sentido.

O Nilton conta um caso que eu acho do cacete. Havia um mendigo sempre parado na porta do prédio em que tem o seu estúdio. Todo dia, o Nilton (com o seu grande coração) levava um pão ou qualquer coisinha para abrandar a fome do coitado. O mendigo agradecia e o ele respondia: “Tudo bem, xará, é um presentinho pra você...”

E isto foi acontecendo com o passar do tempo, virando quase que uma rotina. Um belo dia, o mendigo o chamou e perguntou alguma coisa. Quando o Nilton ia saindo o sujeito agradeceu e disse: “Obrigado Antônio**, obrigado...”. O Ramalho parou, cofiou a barba e retrucou: “...mas, meu nome é Nilton...”. Ao que o Antônio repondeu: “Ué... você não me chama de xará?”.

(*) as ilustrações do Ramalho são tão boas que tinham clientes que só aceitavam story-boards marcados por ele.

(**) Não sei se o nome do mendigo era Antônio. Coloquei aqui apenas a título de ilustração.

quarta-feira, agosto 08, 2007

PROTESTO

Com um lacônico “Esta pastelaria fechou. Obrigado a quem a visitou e, para despedir, vai um Denis McHale sem tradução porca. Ciao ciao, amiguinhos”, meu amigo Maurilo Andréas, também conhecido como “Redatozim”, resolveu abruptamente interromper o seu blog “Pastelzinho”.

Meu caro Redatozim, não posso fazer nada para impedir uma decisão pessoal, e, muito embora não a compreenda, dado o sucesso e aceitação da publicação, creio que deve ter as suas razões para tal atitude.

Apesar de já haver publicado alguns comentários no dito blog tentando removê-lo da idéia, para além de ter enviado um e-mail pessoal, publico aqui no meu blog este post.

Ficamos sem pastel, sem o seu sempre rico e variado pensamento.

O “caso” da viagem a Nova Iorque

Outro dia eu contei um caso sobre medo de avião. É tragicômico porque eu já tive, e sei como é que é realmente uma coisa pavorosa. A gente passa vexames de verdade. Em publicidade eu conheci vários. O Paulinho Costa, por exemplo, uma vez caiu das escadas do avião e rasgou as calças, porque tinha que encher a cara para embarcar. O próprio Mauro Matos, me confessou que era freqüentemente acometido dessa neurose. O Vic, nem se fala...

No meu caso, houve ocasiões em que quase pedi demissão da agência em que trabalhava, pelo simples fato de ter que ir a São Paulo acompanhar uma foto. Acabava pegando um Cometa. Muitas vezes fui de carro. Mais tarde, quando trabalhei em Portugal ia freqüentemente a Lisboa para filmagens, pois a cidade do Porto só tinha uma produtora que que não era lá essas coisas. Eu ia de trem. Era realmente uma viagem confortável e rápida – de cerca de três horas – num excelente “comboio” que ironicamente até parecia um avião no serviço de bordo. Mas, via aérea, eram apenas 20 minutos. Tudo isso para não entrar no bendito aeroplano.

Uma ocasião, quando estava na DM9, em Salvador, tive que ir a Sampa para aprovar um fotolito urgente de uma campanha mais urgente ainda. Passei uns dois dias sem dormir direito. E o pior: teria que voltar no dia seguinte, o que me deixava mais endoidecido ainda, porque não teria tempo suficiente para me recuperar da ida e já teria que encarar a volta.

Mas um dos casos mais engraçados que eu ouvi, aconteceu com o Carlos Pedrosa e o Henrique Meyer. Ambos ganharam um prêmio que a McCann-Erickson dava a alguns funcionários, que era, nada mais nada menos do que uma viagem a Nova Iorque para visitar a agência nos Estados Unidos. E, claro aproveitar para passar uns dias em Manhattan. Fazendo compras, ou jantando em bons restaurantes, visitando o MoMA. Ou, quem sabe, até cruzando com o Wood Allen numa esquina qualquer.

Conta o Henrique que o Pedrosa tremia de “aerofobia”. Entrou no avião nervoso, cheio de medo. Na hora que o veículo ia levantar vôo, o Pedrosa agarrou a mão dele e não largou mais. Deve ter sido um escândalo a visão daquele “casal gay”, dois barbudos de mãozinhas dadas a viagem inteira. Numa época em que as "bichas" não costumavam sair do armário.

sexta-feira, agosto 03, 2007

O “caso”do ‘ó’ com o copo

Direto de Lisboa, Saulo Silveira (blog dele aí ao lado nos links) enviou este caso muito curioso e que tanto reflete a sua “mineiridade”.

Anos 70, ditadura militar e o Brasil na "Era do milagre econômico ", os milicos mandavam e desmandavam, como senhores feudais; o ministro da educação Coronel Jarbas Passarinho falava em acabar com o analfabetismo e criava o programa Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, grande projeto do momento; na rádio, tocava sem parar a música de Tom e Ravel, dois cantores populares:
"...Eu tenho as minhas mãos domáveis e uma sede de saber, então me ensina a escrever...",

Para grande comoção pública, e todo mundo ouvia com o coração piedoso, pronto para ensinar o be-a-bá.

A tarde caía, entrando pela boca da noite. Chico Duro, João Preto, Joaquim, Toizinho da Sá Jóve, Manuelão, João Roxo, Miquelino e eu estávamos reunidos na porta da casa do Mané Barrado, matuto curtido pela vida dura do campo, caboclo velho, encurvado, barba grisalha.

A conversa ia ganhando terrenom e eu, de repente, comecei a pensar como seria bom ensinar o pessoal a escrever ou pelo menos a assinar o nome, que dava direito ao título de eleitor, para poder votar (se bem que não para presidente, porque nessa matéria só votavam os militares)

E a conversa prosseguia em toada de boiada, aboiando os assuntos, Mané Barrado agachado pitando o cigarrinho de fumo goiano, coisa boa, coisa de bom gosto, cheirinho bom de fumo queimando no ar. Assentei bem o momento e comecei a conversa, falando pausadamente, explicando. Minha gente, temos que construir uma escola, levantamos uma casinha praquelas bandas, o governo está dando o material, não quer o povo analfabeto, quer o povão todo letrado, eu vou na cidade e falo com o prefeito e ele me dá o material, quadro negro, giz, livros, lápis, cadernos.

Então Mané Barrado se aproxima, olha nos meus olhos com jeito solene, e me fala:

-- Eu sei fazer um “ó” com o copo...

Olhei pro matuto e vi dignidade naqueles olhos, fiquei matutando, sentado no toco de jacarandá, e olhava Mané Barrado agachado na minha frente, esperando pelas minhas palavras. Então mirei o Mané Barrado nos olhos e disse:

-- Então, homem, faz o “ó” com o copo!

Mané Barrado virou a cara na direção da cozinha, espichou os lábios e, soprando forte, gritou pra filha:

-- Maria das Dores, traz o copo, minha filha.

Lá de dentro escuto a vozinha doce e infantil, “já vai pai...”

E lá vem Maria das Dores, linda caboclinha, aos pulinhos, contente, enxugando o copo na barra do vestidinho. Era o único copo daquela casa, copo pra Mané Barrado beber a Januária, pinga boa. Mané Barrado adorava espiar a luz refletida no copo, pegou o copo de vidro e olhou contra o restinho de sol da tarde, depois emborcou no chão, pegou um carvão na fogueira ao lado e, com sacrifício, começou a riscar em volta do copo, as mãos trêmulas, incertas, tateando, tentando segurar o carvão com imensa dificuldade, o seu "ó" tomando forma. A caboclada juntou em volta, espiando admirada. Após algum tempo, Mané Barrado retira o copo do chão, vê a letra "ó" de sua autoria e olha para mim com orgulho e triunfo.

Aquietei as minhas vistas no desenho daquele homem, na mensagem, e fiquei pensando: este caboclo nunca teve um lápis na mão, nunca teve uma folha de papel nem instrução. Levantei-me com solenidade, olhei-o de novo e disse-lhe:

-- Olha, Mané Barrado, tu sabe fazer um "ó" com o copo, é um patrimônio teu, ninguém te tira este direito. Tu quando morrer vai ser enterrado com este patrimônio...

Vi que ficou emocionado , vi o quanto ele se sentiu feliz. E como foi bom eu lhe ter falado dessa forma. O tempo passa, passam as nuvens, o carcará passa, o jaburu, passa a passarada pelas bandas do céu, como a minha vida também passa e assim, cumprindo a sina do destino, fui morar no Rio de Janeiro, depois de uma mão cheia de tempo, trabalhando em agências de publicidade.

Trabalhava duro e cada dia mais, querendo aprender; usava a ilustração da publicidade apenas para desenvolver a minha pintura e pintava com paixão; à medida que evoluía na pintura eu desprezava cada vez mais a ilustração publicitária; ia ganhando os meus cobres e torrava tudo em material de pintura e livros, guardando um pouco na poupança, para os dias de vacas magras.

Mas o novo governo civil do Brasil, em meio a uma crise econômica, tomou uma decisão inesperada e bloqueou a poupança dos cidadãos, na tradição autoritária, deixando-me sem o meu suado dinheirinho. Fiquei com um único patrimônio, eu mesmo, juntei as minhas coisas e vim para Lisboa como pude.

Cheguei trazendo apenas o meu “ó” com o copo, porque este patrimônio, o nosso saber, como disse daquela vez ao Mané Barrado, ninguém nos tira. Nada vale mais do que fazer um “ó” com o copo.

A arte é um eterno aprendizado e aperfeiçoamento espiritual.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Aniversário

Este blog completa um ano de existência neste mês de agosto. Parabéns para ele. E parabéns também para aqueles que tiveram saco de acompanhar essa quantidade toda de “casos” desse mundo mucho loco da publicidade.

Ao longo deste período, postei cerca de oitenta e recebi quinze “casos”, de meus colaboradores. Aproveito esta nota para agradecer imenso a participação deles nesta empreitada. Aquele abraço, Maurilo Andréas, um redator made in Ipatinga para o mundo. Delano D’Ávila, outro diretor de arte que gosta de escrever. Luiz (com zê) Fernando Favilla, meu dupla de tantos e tantos anos de estrada. E Saulo, o Silveira, um mineiro que conquistou Portugal com a explosão criativa de sua pintura*.

E, claro, tenho que deixar aqui o meu muito obrigado à meia dúzia de leitores fiéis e assíduos. Pois vamos em frente... agora em direção ao segundo ano.

(*) O Maurilo e o Saulo têm blogs cujos links estão aí ao lado. O do Saulo, linquei ainda ontem. Vale a pena conferir o trabalho dele.

segunda-feira, julho 30, 2007

O “caso” da viagem à Itália

A L&M pegou a conta da Alitália. Apesar de já atender a Philip Morris, o fato de estar com uma outra conta internacional era uma coisa boa para a agência. De imediato, assistimos vários filmes com cenas belíssimas de várias regiões e cidades da Itália, sempre aéreas, claro.

Antes de mais nada, a L&M colocou um anúncio, criado pelo Mauro Matos e por mim, anunciando a nova tripulação dos próximos anúncios da companhia aérea no Brasil. Entre eles estava lá o meu nome, o do pessoal de atendimento, produção gráfica, de RTVC, em suma, todos os que iriam participar da equipe na agência.

Chegou o momento de criar a campanha. O Mauro, que era o nosso diretor de criação começou a pensar nela. E me escalou, junto com o Victor Kirowsky para criarmos os layouts a quatro mãos. Gostei da idéia. O Vic é um senhor diretor de arte, e eu sempre o considerei um "professor", desde os tempos em que fiz estágio na McCann. Criamos uma campanha com anúncios graficamente soltos, tendo um casal como ponto principal e muitas fotos de locais da Itália – a Alitália tinha um grande arquivo delas – entremeando os textos que acompanhavam as fotografias. Produzimos as do casal aqui no Rio mesmo.

Em dado momento, e após o sucesso da campanha, a Alitália disponibilizou uma passagem de ida e volta a Roma, com hospedagem e outras mordomias. O Mauro ofereceu a viagem ao Vic. O gringo ficou uns dois dias numa angústia danada, fumando cachimbo pra lá e pra cá pelos corredores da agência*. Um belo dia ele saiu da sala do Mauro, feliz da vida. Eu lhe perguntei o motivo de tanta alegria, já que nos últimos dias ele estava aparentemente tão angustiado. E ele me respondeu que tirou um peso da consciência, porque tinha pavor de viajar de avião. Compreendi perfeitamente, pois na época, eu tinha medo de avião, e também, por incrível que pareça, não aceitei o convite**.

No dia seguinte, o Mauro Matos anunciou que ele, Mauro, iria à Itália. E merecia. Afinal, era o diretor de criação e redator da campanha...

(*) Bons tempos aqueles em que se fumava em qualquer lugar. Cigarros, cachimbos, charutos, etc.

(**) Ai, se arrependimento matasse!

quinta-feira, julho 26, 2007

O “caso” da sangria desatada*

Havia mais de dois meses que não publicava um “caso” neste blog. Durante muito tempo postei os que havia escrito com a intenção de um dia lançar um livro. Com o passar do tempo, fui escrevendo mais alguns. Mas, agora lembrei-me deste que segue abaixo.

Fui quase um fundador da Contemporânea. Entrei naquela agência no início de 1984. Certa vez, cheio de trabalho, fiquei até umas oito da noite. É certo que este horário para aquela agência era mais do que normal. Mas, fato curioso, foi um daqueles raros dias em que quase todos haviam saído lá pelas sete. Como tinha que acabar alguns trabalhos, não me foi possível acompanhar os demais, inclusive o Bernardo, redator que trabalhava comigo.

Terminadas as minhas tarefas, com a consciência tranqüila e a sensação do dever cumprido, reuni meus pincéis, marcadores e outros apetrechos comuns à época, e me arrumei para sair. Como o Mauro Matos não estava na sala, não me despedi dele. Desci as escadas da criação, cansado, e me encaminhei para o portão de saída daquela aprazível casa na Urca. Quando ia chegando no portão, deparei com o Armando Strozemberg de pé, com um ar pensativo na porta principal da agência, um tanto quanto preocupado.

-- Jooongaaa... meu querido... que bom que você está aquí... Exclamou

Pela reação, senti que vinha chumbo grosso. Chamou-me para entrar na sala de reunião que ficava bem ao lado da recepção. Entrando na sala, lá estava o Mauro, cheio de papéis rabiscados. Conclui que estavam em reunião. Rapidamente me colocaram a par da situação. O BarraShopping ia fazer uma expansão (aliás a primeira de uma série delas), e precisava de um folhetaço para divulgar o fato. Pequeno detalhe: o cliente precisava ver a peça na manhã seguinte, sem falta.

Ali mesmo comecei a trocar idéias com o Mauro e o Armando. Nesta altura, num estalo, lembrei-me que precisava de alguém do estúdio para me dar um suporte. Saí correndo e, por sorte, encontrei o Ricardo, ainda bem que um profissional tarimbado. Mas um apenas, num estúdio de muita gente. Expliquei a ele a situação e voltei para a reunião. Esta se prolongou até cerca das dez da noite. O Armando me explicou que eu podia recortar fotos de revistas e colar nas páginas, que não era preciso marcar as ilustrações. Devido à falta de tempo, o importante era passar o espírito da coisa com belas imagens.

Ainda saí dali e fomos, o Mauro e eu para a sala dele tecer alguns ajustes finais do trabalho, como títulos e outros detalhes. Enquanto isso, o Ricardo, coitado, lá em baixo esperando. Quando acabei a reunião, desci e conversei com ele para acertar um esquema de trabalho, já que éramos apenas dois para aquela tarefa hercúlea. Principalmente pelo prazo. A esta altura, já estávamos além das onze, e eu ainda tinha que rafear tudo. Nessas horas, sempre dá um friozinho na barriga. Mas, não resta outra coisa a não ser arregaçar as mangas e mandar pêra. Passei para o Ricardo a medida e o número de páginas (calculado rapidamente) para ele começar a montar o esqueleto do folheto. Noite adentro, fomos selecionando, recortando e colando fotos, marcando letras de títulos, colocando bodytipes nas áreas de texto, refilando as páginas. Enfim, eu também virava profissional de estúdio e letrista. Senão não dava tempo. Naquela época, isto era muito comum em boa parte das vezes.

Resumo da ópera. Varamos a noite nessa lenha. O dia já amanhecia quando terminamos o trabalho, e lá estava prontinho o folhetão** de mais de vinte páginas, bolsa para plantas e os cambáu. Deixei o trabalho na mesa do Mauro, conforme combinado e me mandei. Fui dormir. Acho que merecia.

Voltei na agência às cinco da tarde daquele dia. Meio ressaqueado, mas curioso em saber de resultados. E aí aconteceu o pior. Por questões de horário e disponibilidade do cliente, o trabalho ainda não havia sendo apresentado. Argh! Voltei pra casa na mesma hora. Muito puto da vida.

(*) Termo (muito usado em Minas) para dizer que uma coisa é urgentíssima.

(**) Até hoje, passados cerca de vinte e cinco anos, tenho este folheto guardado. Ele ainda é um belo trabalho,e, importante, na opinião das pessoas que o vêem.

quarta-feira, maio 16, 2007

O “caso” da moringa

A JMM de Belo Horizonte ficava num local super aprazível. Em pleno bairro da Cidade Jardim, numa rua bucólica, com árvores cuja sombra chegavam aos seus jardins. A criação, justamente ficava ao final do lindo gramado à frente da casa. E tinha como particularidade proporcionar a quem nela trabalhava, chegar à sala sem passar sequer pela recepção da agência. Era uma sensação maravilhosa. Estacionava-se o carro bem em frente, cruzava-se o jardim frontal e entrava-se pelo lado, no jardim de inverno do térreo da mansão.

Ali, formávamos uma comunidade integrada e agradável. Eram poucas pessoas. Duas duplas e o RTVC. O que incomodava um pouco eram duas janelas que davam para o referido jardim de inverno. Numa delas ficava o tráfego da agência, e na outra o diretor financeiro: o esporrento Renato Bergo. Digo esporrento porque o Renato era um tremendo de um gozador. Falava alto, cantarolava mais alto ainda. Um dia foi muito engraçado, porque o dito cujo estava cantando uma música de sucesso na época que dizia: “Calcinha... Exocet”, esta última palavra vinha a ser o nome de um míssil utilizada pelos ingleses durante a guerra das Malvinas. E o Alcino, o RTVC da agência ouviu o “calcinha” como sendo o nome dele. Saiu da porta de sua sala que ficava contígua ao jardim de inverno e chegando na janela perguntou se o Renato o havia chamado. Pra que? Foi uma gozação geral.

Ainda tinha a vantagem de ser próxima à avenida Prudente de Morais (a de Beagá, claro), o que nos propiciava excelentes happy hours, pois tinha bons bares. Um pouco mais adiante, ficava a pracinha do bairro Luxemburgo em que também os botecos eram gostosos. Quer dizer, ao sair da agência a gente não se apertava para tomar algumas e calibrar antes de chegar em casa.

O ambiente agradável e amizade reinante entre as pessoas que ali estavam proporcionava longos papos entre um trabalho e outro. Mas, às vezes também havia falta de assunto. Bom, acontece. Um dia, mês de janeiro, acho que lá para o dia sete ou oito. O Alcino entra na sala. Era daquelas tardes pachorrentas de verão que dá preguiça até de falar. Olhou pra mim, olhou para os lados, espreguiçou e saiu com a seguinte frase: “É... o ano está voando...”. Como nos rimos, segundos depois, quando a ficha caiu...

Mas tinha também um moringão com água fresca durante todo o dia. No verão então, com o calor reinante, e apesar do ar condicionado, era mesmo muito utilizada. Primeiro porque por ser uma moringa velha, a água tinha um senhor sabor. Segundo porque, pelo mesmo fato estava sempre muito fresca. Um belo dia, eu conversava com o Alcino segurando a dita moringa. E, papo vai, papo vem, a moringa na mão. De repente, ela partiu ao meio. Fiquei segurando o gargalo, estupefato. Foi um susto dos diabos. Fora a molhadeira geral e a sensação de ter perdido aquele manancial de água quase geladinha...

segunda-feira, maio 07, 2007

O “caso” do Traça

Delano D’Ávila rides again... com um caso do cacête..

Alfredo era uma figuraça. Não só por ser um cara baixinho, magrinho e narigudo, mas principalmente pela função exótica que exercia na agência:
recortar dos jornais do dia as notícias que tivessem a ver com os clientes. Comerciais ou políticas. Boas ou más. Diretas ou indiretas.
De manhã cedo já estava ele num canto de sala ao lado da pilha de matutinos, munido de tesoura, esquartejando suas páginas. Daí o genial apelido de Traça que não lembro quem deu, mas que deu uma inveja das boas isso deu.

Também ignoro de quem teria sido o primeiro comentário de que Alfredo mesmo assim, tão raquítico, era possuidor do maior pênis da propaganda carioca. Aí outra inveja. E evidentemente não era do comentário.

Aparentando uma tranqüilidade cínica diante das insinuações provocativas da turma, o esquálido rapaz confirmava os atributos. Pior, ia além, a partir disso Alfredo começou a ostentar o título. Mas limitava-se a sorrir quando o Lula, sarcástico, previa sua morte quando a ferramenta masculina lhe exigisse o sangue do corpinho inteiro para preenchê-la e torná-la completamente ereta. Todo santo dia havia insinuações dos colegas provocando nosso Long Dong Silver. Alfredo, que sequer tinha sinais de afrodescendência fazia por isso admitirmos um possível blefe ao alardear suas exageradas e desproporcionais medidas. Foi quando o Jorge Skinner, assistente de arte no estúdio, resolveu entrar na história.

Alto e forte, levava quem escutasse seus insistentes desafios a acreditar muito mais nele, lógico. Afirmava que o seu sim, o seu é que era um fenômeno. Jurava comprimentos e diâmetros nigerianos como se não tivesse
singelos traços europeus. Que o Traça não era páreo pra ele. Que a taça estava no papo. Tudo parecia não passar de brincadeira, passatempo da turma.
Como todos naquela área de criação e arte eram homens, sem qualquer constrangimento resolvi pegar uma folha de bloco das grandes e inventar um cartaz com dois falos cruzados convidando a moçada para a grande disputa que aconteceria poucos dias depois deste poster pintado, colado na parede bem na frente da porta principal. Arbitrei sexta-feira, final do expediente.
O duelo teria regras simples e definitivas; cada concorrente poderia se trancar no banheiro por no máximo 3 minutos, sair quando percebesse estar no auge de sua virilidade e se apresentar para um corpo de três jurados dentro da sala da criação pelo tempo mínimo de 10 segundos.
Dentre estes haveria um sorteado para a medição com régua, outro com um canudo de rolo de papel higiênico, pronto para a constatação da dita circunferência e o terceiro fiscalizaria a ambos.
E o cartaz ficou lá, exposto para o devido deleite de quem o lesse, e tudo não passaria de uma dessas costumeiras gozações entre pessoas de equipe.

Alfredo não sentiu assim.
Sexta-feira, 5 e meia da tarde, o pesquisador da tesoura empurrou a porta nem-te-ligo como um xerife num filme de faroeste, empunhando seu Colt 45 reluzente, colossal e disparando berros: Está duuuura! Está duuuuuuuuuura!
A cena, uma mistura de Nelson Rodrigues, Fellini, Plínio Marcos e Carlos Zéfiro provocou um silêncio instantâneo. Susto de alguns, admiração de outros. Em seguida diversas reações individuais como o tampar os olhos entreabrindo dedos, uma risada nervosa festejando estar sentado e o mais assumidamente sem-vergonha, o Amaury Nicolini, redator, deliciando-se com o ineditismo da coisa e procurando rápido por uma régua.

Tudo isso pode ter durado um minuto se tanto.
Um minutinho de loucura do Traça. A maior loucura que já vi um colega praticar dentro de uma agência de propaganda no quesito cara-de-pau. Cara e pau, para sermos ainda mais explícitos. Mas Alfredo, que em outro lugar menos liberal poderia ser preso por atentado ao pudor, provou à sua maneira que tinha razão. Uma espantosa razão. Tanto que seu adversário sequer esboçou outra atitude a não ser espremer os lábios, arregalar os olhos e balançar a cabeça afirmativamente. Jorge jogou a toalha antes mesmo de entrar no ringue.

Na segunda-feira os divertidos rumores da barbaridade épica (e bota épica nisso) ainda rolavam quando de repente o Cid Pacheco, diretor técnico da agência, brilhante professor e palestrante universitário entra pela tal porta, seguido por um grupo de alunas suas para apresentar o setor de criação e arte da JMM. Amarelamos. Prendemos o riso. O cartaz do duelo felliniano não fôra arrancado da parede. Naquele instante não daria pra fazer nada além de torcer calado para que não fosse visto. Se foi, nunca vou saber.

quarta-feira, maio 02, 2007

O "caso" do ouro ao bandido

Era uma época em que a gente saia do trabalho, e, principalmente às sextas-feiras era lei, a turma não só bebia como às vezes amarrava um puta dum porre. Dificilmente ia para casa direto. Sempre tinha um boteco à nossa espera, com o garçon ostentando aquele belo sorriso com cifrões brilhando nos olhos.

Os locais preferidos eram o Aurora, o Botequim e alguns no centro da cidade, perto do trabalho, como o Villarino. Mas, de vez em quando reunia-se uma galera maior e a gente acabava no Bar Lagoa.

Um dia, a galera toda enchendo a cara, eu estava visivelmente preocupado. Notando isso, o Favilla me perguntou qual a razão daquela preocupação. Eu respondi que era minha mulher, que detestava quando eu chegava em casa meio tocado. Ih, o tempo fechava mesmo! Ela nunca se incomodou com o fato de sair com a turma. Não, não era “ciuminho”. O fato é que bebedeira a incomodava mesmo.

O Favilla me escutou atentamente. E sugeriu que saindo dali, nós fossemos até a minha casa, e eu procurasse entrar com toda a naturalidade do mundo. Ele, inclusive me acompanharia para dar uma força.

E assim o fizemos. Coloquei a chave na porta, abri e dei de cara com ela. Soltei então a frase que faz o Favilla até hoje rolar de rir toda vez que se lembra:

- ESTOU BÊÊÊBADOOO!

Entreguei o ouro ao bandido sem razão nenhuma. E juro que nunca entendi o porque, depois de todo aquele papo. Ou será que tem que se entender um bêbado?

terça-feira, abril 24, 2007

O "caso" do frila

A última vez que trabalhei em Belo Horizonte, foi quando fui ser diretor de criação da Solution, em 1999, onde fiquei por um ano e meio.

Tínhamos uma boa equipe de criação, e contas nacionais, como a Localiza, além de outras locais, porém de peso, como a Patrimar, uma excelente construtora da cidade, shopping centers como o Jardim, uma nova proposta em shopping, entre outras.

Mas existiam aspectos na agência que eram extremamente sui generis. Por exemplo, seu diretor-presidente, o Fernando, nunca trabalhara em outras agências. Tinha um nome no mercado, a partir da direção de marketing da Localiza, e desempenhado um reconhecido papel em transformar aquela locadora tupiniquim na maior da América Latina, botando para escanteio a Hertz, a Avis e outras. O que, aliás, lhe proporcionou a abertura da agência e a posse da conta quando aquela locadora mudou sua equipe, em função de um alinhamento internacional.

Mas sua inexperiência em assuntos específicos de agência davam um toque peculiar às reações e interpretações quanto ao dia-a-dia da publicidade. No fundo no fundo, o Fernando via a própria agência do ponto de vista de um cliente.

Em determinada ocasião (ainda não tinham dois meses que eu estava lá), acabara de chegar em casa e tocou o telefone. Era o Fernando. Pedia que eu voltasse à Solution, pois o restante da diretoria já estava presente, e tínhamos um assunto importante a tratar. Eram umas nove da noite.

Voltei para a agência, e lá chegando, encontrei o Fernando e os outros diretores me esperando na sala de reunião. Todos com o semblante carregado. Sentia-se que o “astral” estava pesado.

Sentei-me à mesa, e começou a explicação do que ocorrera. Trocando em miúdos, era um caso de um determinado freelance envolvendo algumas pessoas da criação. Uma conhecida dele, Fernando, que não trabalhava na Solution mas estava ligada ao trabalho, havia resolvido contar tudo para ele.

A princípio, fiquei meio estupefato, porque realmente nada daquele frila havia transparecido para mim. A primeira coisa que posicionei foi isso. Ou seja, o trabalho podia existir, mas, primeiro, “aparentemente” não estava sendo desenvolvido dentro da agência, e segundo, não estava refletindo no trabalho da equipe. Ou seja, caso estivessem trabalhando no frila depois da hora, e, certamente fora da agência, ninguém estava atrasando seus jobs em função do referido freelance.

Mas, naquela agência havia uma tendência à “inquisição” em tudo o que acontecia, e essa não seria uma exceção. A coisa desandou a ficar mais estranha para mim quando se começou a falar em demissões. Nesse momento tive que dar um basta, e explicar que a equipe era minha jurisdição e responsabilidade, e que, por não notar nada de anormal, achava que a atitude seria descabida, precipitada, radical.

A discussão foi noite adentro, já nem sei precisar quanto tempo. Os argumentos eram os mais estapafúrdios, como:

– ... afinal de contas aqui eles aprendem muito acerca de marketing, fato que não acontece em outras agências... (?).

– E o que aqueles profissionais traziam de experiências das outras agências em que trabalharam? Não contava? Contra argumentava eu.

O meu principal ponto era de que ninguém tinha nada a ver com o que o funcionário faria depois que saísse do trabalho no fim do expediente, seja fazer um freelance, dar o rabo, cheirar, ou o que sua vida particular ditasse.

No final das contas, fiquei de reunir a turma no dia seguinte e conversar com eles. O que fiz. Mas, posicionando exatamente o meu raciocínio de que freelance é feito para ser desenvolvido fora da agência e que não o fizessem lá dentro.

Sem dúvida, um dos casos de maior nonsense em minha vida profissional.

quarta-feira, abril 18, 2007

O "caso" das pegadas

Ney D’Azambuja Ramos, conhecido como Azambuja (coisa que o confundia com um personagem homônimo do Chico Anísio), Azamba, ou simplesmente Ney. Eu achava que o Ney tinha um que do primo Altamirando, o famoso Mirinho, sobrinho da tia Zulmira, criação do Sergio Porto. Mais pelo lado das armações e confusões que este fazia.

O certo é que o Ney vivia criando situações, na maioria das vezes muito engraçadas e/ou oportunas.

Um dia o Marcio Murgel, diretor da agência reuniu a todos para dizer que ficou numa tremenda saia justa quando um diretor da Philip Morris lhe pediu um cigarro, e, simplesmente em toda a agência os cigarros eram de marcas da Souza Cruz. O Ney não titubeou. Comprou um maço de Minister, a marca que fumava, tirou todos os cigarros e os colocou num maço de Shelton. Apesar do filtro deste ser branco, ao contrário do Minister. Mas era uma forma de, caso o cliente estivesse na agência e abrisse sua porta, visse uma de suas marcas em cima da mesa dele.

Azamba adorava sacanear o Victor Kirowsky. Habitualmente colocava cola de borracha nos cachimbos do ianque, que ficava puto da vida. Soprando, tentando acendê-los sem resultado.

Mas tem o caso das pegadas. O Vic tinha algumas plantas na sala dele. E todo dia, ia ao banheiro, pegava água num regador e ia regá-las. Esse movimento fazia com que o corredor ficasse com o chão molhado. O pessoal da diretoria, principalmente o diretor financeiro, não gostavam nada daquilo. Mas, na verdade ninguém sabia quem era.

O Ney, um dia, pegou um sapato, molhou bastante a sua sola, acrescentou um pouco de guache, e colocou pegadas que iam até a sala do Vic.

Nem preciso contar o final da história, certo?

sexta-feira, abril 13, 2007

O “caso” do anúncio de oportunidade

Quando li a matéria do Vizeu na Tribuna da Imprensa, comentando o anúncio da Salles que faturou o prêmio de melhor do ano em 1981 (a peça com a cena de King-Kong, agarrado ao topo do Empire State, cercado de aviõezinhos e cujo título "A idéia está aprovada, mas tirem o macaco"), lembrei-me também de outro anúncio da Salles que eu acho memorável.

Como anúncio de oportunidade, realmente existem poucos que tenham sido tão felizes. No dia seguinte à renúncia de Nixon, a agência publicou um meia página horizontal com a foto de um Corcel (naquele tempo um puta carro) e o título: “Faça como os americanos. Troque por Ford”. Pra quem não sabe, Gerald Ford era o vice de Nixon, que, naturalmente assumiu no lugar deste.

Mas tem um caso que aconteceu nos bons tempos da JMM. Não consigo me lembrar o assunto do anúncio, mas isso não importa tanto. O que pesa aqui é o seu desfecho.

O Cid Pacheco, velho estrategista e conceituado profissional da propaganda, além de professor de comunicação, teve a idéia de colocar um anúncio de oportunidade sobre o tal assunto. O dito ficou pronto, só esperando o dia para ser estrategicamnte colocado na revista Manchete*.

Quando o fato aconteceu, imediatamente o Cid acionou a mídia da agência, e esta a expedição para que um boy fosse levar o original. O que foi feito com a maior precisão do mundo.

No dia da publicação, Cid acordou bem cedinho, vestiu-se e saiu correndo para a banca mais próxima para conferir o tal anúncio na revista. Comprou-a e começou a folhea-la cuidadosamente. Verificou que estava em página ímpar, o que significava uma boa colocação. Mas, eis que de repente um susto daqueles. Ao ler o título, tudo bem. Mas ao ir para o texto, Cid pode ler as palavras “no noni nono nonimono no no nonino nono...” e por aí adiante em todo o resto da peça.

Tacou a mão à testa (longa), dando-lhe um tapinha em gesto de decepção. E quase desmaia. Havia sido impresso o layout, a mancha. Linda por sinal, como eram muitos dos layouts bem marcados daquele tempo.

(*) A revista Manchete, antes do surgimento da Veja era o grande veículo da imprensa daquele tempo.

segunda-feira, abril 09, 2007

O “caso” do osso maior

Mais um “caso” do Delano D’Ávila, colaborador e quase sócio neste blog.

Fazia já um tempão que eu curtia aquele joguinho de palavras cruzadas.
A aparente inocência do brinquedo de pecinhas quadradas da Estrela foi transformada. Um releiaute que tornou o morno e sonolento joguinho das tardes no sítio em constantes desafios entre cabeças abastecidas de bom vocabulário e domínio de visualização espacial. O dicionário Aurélio funcionaria como juíz, não valendo assim colocar quaisquer palavras inventadas. Tempo de verbo sem sentido próprio também não valia.

Se as jogadas mais comuns somavam 10 pontos em média imagine-se quando conseguíssemos despejar as 7 letras juntas, numa só palavra. Esse tipo de lance valia 50 pontos de bônus! Mais ainda quando uma dessas letrinhas caísse no orgasmático tríplice valor da palavra! Vi alguns lances chegarem a 100 pontos ou mais. Sem desconfiança.

O primeiro dos quesitos, vocabulário farto, seria conferido no Aurélião toda vez que um dos oponentes discordasse da grafia de uma dessas palavras mortais adotada pelo outro jogador ao ser colocada no tabuleiro.
Tal checagem se comprovada inverteria os pontos, ou seja, tudo que seria a favor na soma seria subtraido na contagem. Assim, na grande maioria das vezes em que isso acontecesse o momento praticamente definiria a partida. Para um lado ou para o outro pois caso a palavra estivesse correta, a jogada dobraria os pontos do seu executor.

Muito divertidas as horas de almoço de todas as agências em que trabalhei. Tive grandes adversários. O companheiro Antonio Mário e principalmente o gaúcho Fraga, belos redatores e de ótima cultura, com certeza prejudicaram a hegemonia da minha estatística. Mas o que nunca me saiu da memória foi o Sergio Muñoz. Colega do pequeno escritório da JMM São Paulo, ele acumulava funções de tráfego, produtor gráfico e meu desafiante diário no joguinho antes inocente.

O grande problema dos convencidos, como era o meu caso, era achar que podia vencer partidas antes mesmo de disputá-las. Mais ainda se faltasse a humildade em admitir ignorância quanto às inúmeras e misteriosas sutilezas da nossa lingua.

A disputa naquele dia estava difícil pra mim, aliás, dificílima. Um emaranhado de palavrinhas curtas e dezenas de monossílabas truncava os espaços impedindo jogadas de muitas letras e atingir posições e pontuações mais compensadoras. A diferença a favor do Sérgio aumentava a cada jogada. A sorte também não ajudava quando a maioria das letrinhas eram consoantes daquelas mais usadas em alemão. Decidi então passar jogadas sem marcar pontos trocando no saquinho, quase vazio, 4 ou 5 daquelas consoantes travadoras por outras 4 ou 5, torcendo para aparecer uma vogalzinha salvadora.

Derrota iminente, só o milagre de botar as sete poderia àquelas alturas salvar o marrento aqui.
De repente veio um coringa, Com ele, talvez juntando as consoantes ao recente e único Azinho e também ao U (menos versátil das vogais) ao R, ao M, ao F, ao L e mexendo muito na sequência. Invertendo pra lá e pra cá e com um pouco de inspiração, quem sabe a palavra salvadora aparecesse. Ainda restava um espacinho aberto mas apertado. Sérgio não poderia entrar ali. Nele eu poderia anexando a última letra da sonhada palavra à primeira exposta naquele espaço, formar uma monossílaba dessas banais como o símbolo do alumínio (al) e vuuupt, subir ao tríplice valor da palavra.
Vibrei muito ao notar que meu adversário usara somente o cantinho do tabuleiro.
No mesmo instante a palavra estava lá, enfileirada no suporte de madeira. Este apetrecho facilitava o manuseio e escondia a intenção fulminante do narrador que exultava por dentro: FEMURAL. Significado previsto: relativo a fêmur. Lógico.
Botei. Botei e bati. A constatação do sucesso somava cento e tantos pontos. O saco vazio avisava o encerramento da partida. Antes disso Sérgio ainda deveria descontar do seu total o número de pontos das letrinhas que lhe sobraram. Coitado, nunca poderia imaginar tal desfecho. Final: 254 a 248. Pálido, Sergio disfarçava sua decepção com um tímido sorriso no canto da boca. Mas desconfiou.

Desesperada alternativa essa do Sérgio quando deve ter pensado: partida perdida por um, partida perdida por mil.
Era evidente a existência da palavra. Indubitável a perfeição da grafia.
Se compararmos com outras situações semelhantes e para ficarmos somente com palavras relativas a partes do corpo humano, teríamos por exemplo: labial - relativo a lábio, braçal - relativo a braço, peitoral - relativo a peito - e outras tantas a confirmar o raciocínio ortográfico básico de qualquer um. Até de intelectuais ortopedistas.
Eu mesmo abri o livro. Minha confiança era tanta que durante a procura, ironizando sua derrota, convidei-o para tomarmos juntos uma cervejinha ao final do expediente.

Estava lá: FEMORAL - do lat. femor, femoris – relativo a femur.
Fiquei mudo. Paralizado. Sem graça. Na hora, sem saber o que dizer, limitei-me a cumprimentá-lo e pedir para a Edith mandar comprar um vidrinho de Novalgina gotas.
Eu já sentia os primeiros sinais de uma monumental dor-de-cabeça. Daquelas que só passaria no dia seguinte depois de hibernar uma noite inteira.

Anos depois, estava na emergência do Hospital Miguel Couto acompanhando um amigo acidentado e deparei com uma radiografia do nosso osso maior. Pendurada contra a luz deixava aparecer na descrição do canto inferior a palavra femural. Nada mal para quem precisava recuperar um pouquinho da auto-estima.

sexta-feira, abril 06, 2007

“Casos” do Arco da Velha - II

Aconteceu na McCann-Erickson, na década de 60, e me foi contado com os personagens abaixo.

O "caso" da gravata italiana

Primeiro ato:

Sami Mattar era um diretor de arte da McCann, além de conceituado pintor, com o nome reconhecido no mercado de artes plásticas.

Um belo dia, chegou na agência de gravata nova*.

Gabava-se da beleza da peça do indumentário. Afinal, era italiana. E ele podia garantir isso, porque havia sido trazida por um parente que lá estivera. E ficou o dia inteiro a elogiar a tal gravata. E a exibi-la orgulhoso.

O dia passou assim, todos ouvindo, ou tendo que ouvir que a gravata era isso, era aquilo.

No final do expediente, Victor Kirowisky, chegou ao seu lado com as mãos para trás. E disse algo como:

- Sami, sua gravata é mesmo linda...

Não deu nem tempo para o cara responder, e, abruptamente o Vic estendeu as mãos. Com a esquerda segurou a peça e com a direita cortou-a com uma tesoura. De um golpe só, no meio.

Seguiu-se um instante de silêncio. Todos estupefatos a olhar aquela cena. E o Vic rindo às pamparras com a grotesca cena.

Segundo ato:

Dia seguinte. Todos trabalhando. Sami Mattar ainda mal humorado com a situação da tarde anterior, passou, contrariamente à véspera, um dia inteiro calado.

Quase hora da saída. O Sami aproxima-se da prancheta do Kirowsky. Todo mundo olhando apreensivo. Esperava-se até porrada a essa altura dos acontecimentos.

O Vic meio incomodado com a situação. O cara ali ao seu lado, em silêncio por cerca de dois longos minutos, certamente estava a tramar alguma. Sami pega um grande pote d’água sujo de restos de guache, ecoline e outras coisas. Dizem que o pote tinha até lodo no fundo. Vic tinha fama de nunca lavá-lo.

Em seguida, derrama o seu impoluto conteúdo na cabeça do Vic. O líquido escorre pelo corpo inteiro, respingando pra todo lado.

Seguiu-se um instante de silêncio. Todos estupefatos a olhar aquela cena. E o Sami, agora sim, rindo às pamparras com a patética cena.

Kirowsky ficou a olhar para a frente, para o infinito, puto da vida. Deve ter até saído fumacinha da cabeça. Mas, o que fazer? Toma lá, dá cá... Sujou a roupa**, molhou o cachimbo, o trabalho que estava sobre a prancheta, e até a mesa auxiliar.

Pano rápido.

(*) Esse é tão antigo que é do tempo que criativos iam para a agência de paletó e gravata.

(**) O vestuário do Vic incluía um colete. Aliás, quando o conheci ele ainda usava. E mais: andava de colete num Jeep Williams.

segunda-feira, abril 02, 2007

O “caso” do bestialógico

O Bestialógico era um sucesso na Salles. Lembrei ao Delano que ele, por estar na agência desde o início daquele anedotário, poderia escrever alguma coisa sobre o assunto. Como resultado deste papo, segue mais um “caso” de Delano D’Ávila para o nosso blog.

As equipes de criação sempre foram muito críticas. Nunca se perdoou a mínima mancada que escapasse de quem quer que fosse. Ferinos e radicais até mesmo com os colegas de convivência diária, inclusive os da mesma sala. E embora isso pudesse ser visto como um embate, nunca tirou sangue, nunca gerou brigas maiores. Prevalecia o sentimento de companheirismo, diversão e alguma aprendizagem. Mas qualquer vacilo verbal era impiedosamente registrado no Bestialógico, uma espécie de documento onde os escrivãos éramos nós mesmos, sempre espreitando, olhos e ouvidos aguçados.

Conseguir a pérola do dia do atendimento era como um troféu festejado com entusiamo por este grupo da Salles nos idos de 80. E por falar em troféu, e palavrinha foi traiçoeira com um contato recém chegado que mandou o pedido do cliente Brahma. E o que foi pior, lógico, veio por escrito:

“Favor criar dois troféis para homenagem aos 25 anos da empresa. Um trofel mais elaborado para os funcionários mais antigos e um trofel mais simples para outros destaques.
Grato,
Fulano de Tal”

Além da devida transcrição para o caderno, nosso “público-alvo” foi carinhosamente recebido na primeira visita sua à nossa sala quando o advertimos a ter cuidado com os degrais para que evitasse contusões ainda mais graves.

Como toda brincadeira, à medida que por uma ou outra razão os parceiros foram saindo esvaziou-se o nosso caderninho. E ele próprio acabou desaparecendo, provavelmente durante alguma faxina. Assim agora, só pela memória, fica impossível lembrar e resgatar com precisão as melhores mancadas registradas lá dentro. Mas não esqueço quando eu comentava com o Bernardo Vilhena sobre um simpático ilustrador já bem idoso que vivia falando de coisas e pessoas de muitos e muitos anos antes:

- Coitado. Ele não aprende mais, não sonha mais. Apenas recorda. É um recordista.

Essa também foi para o Bestialógico. Eu mesmo anotei.

quinta-feira, março 29, 2007

O “caso” do Anuário

Achei interessante continuar as peripécias no Clube de Criação de Minas. Pois segue a seqüência do “caso” do clube etílico:

Após um ano de presidência no Clube de Criação de Minas, finalmente eu estava saindo daquela árdua função, ufa! Mas, o relax durou pouco, juro. Chico Bastos, o novo candidato a presidente me chamou para ser vice-presidente na sua chapa. Tipo da situação difícil. Mal o conhecia e não dava para dizer um não taxativo. Acabei topando.

A idéia básica do Chico, aliás sua plataforma na candidatura foi a publicação de um Anuário do clube. Um sonho antigo do mercado. Daí a sua fácil vitória. Mas, a coisa era complicada. Numa época de pastups e cola de borracha, ainda era tudo mais complexo. Mas o certo é que já na primeira reunião da nova diretoria, foi abordada a questão. Como realizar a “hercúlea”tarefa? Isso tudo era um desafio. Para o Chico, no entanto tudo era “muito simples”. Iríamos conseguir anúncios de agências, produtoras e gráficas do mercado para financiar a empreitada. E era realmente engraçado, porque a cada empecilho que surgia, o Chico dizia: “... isto é muito simples...” e desandava a tecer teorias que nos deixavam tranqüilos quanto ao resultado final.

O primeiro grande problema que apareceu foi a questão de quem iria julgar os trabalhos. Havia uma tendência a não querer que o julgamento fosse feito por profissionais do mercado local devido a simpatias, antipatias e parcialidades. Surgiu uma idéia que caiu como uma luva. Seriam chamados profissionais de fora, preferencialmente do Rio e de São Paulo para fazer parte do júri. Coisa que daria uma isenção e neutralidade totais.

Na primeira leva, chamamos o Nizan Guanaes (ainda na WGGK*) e mais dois profissionais de São Paulo. Eu fiquei encarregado de chamar o Nizan, até pelo fato de o conhecer pessoalmente. E assim o foi. Combinamos tudo direitinho, e, num sábado estavam lá os três “paulistas” para julgar as peças. Primeiro fomos pegá-los no aeroporto. Depois nos dirigimos ao SSV** para assistir ao material de TV e ouvir os spots e jingles de rádio inscritos, pois este grupo iria julgar apenas as peças eletrônicas. Após isso, que levou um bom pedaço do dia, fomos almoçar com eles (tipo cinco da tarde) num restaurante de comida típica mineira. O que foi um sucesso.

Depois, viriam mais grupos para ser jurados das peças de mídia impressa de jornais, revistas e outdoors. Não cheguei a estar presente nessas ocasiões, pois uma proposta do Rio me afastou do mercado mineiro e tive que abandonar não somente a vice-presidência, como também a empreitada do Anuário. Mas valeu. A idéia estava plantada. Hoje, o CCMG já publicou várias edições, todas de um excelente nível. Sem dúvida, graças àquela primeira tentativa.

Dois anos depois, em 1989, estava eu novamente integrando um Clube de Criação. Desta feita o do Rio de Janeiro, durante a presidência do Mauro Matos, que me chamou para fazer parte da sua diretoria. Foi outra experiência muito interessante em que, inclusive participei da edição de um jornal que ficou muito bom. Aliás, já contei um pouco dessa história em o “caso” do leão, publicado neste blog em 24 de agosto de 2006.

(*) Naquele tempo a agência de Washington Olivetto era a WGGK, por estar associada à austríaca GGK, hoje Lowe GGK.

(**) SSV (Sistema Salesiano de Vídeo) era a maior produtora de vídeos de Beagá na época, e funcionava num prédio acoplado à PUC.