segunda-feira, janeiro 29, 2007

O “caso” da estagiária

Agência grande tem alguns probleminhas. Um deles é a quantidade de estagiários que pintam. Vá lá, quando o dito cujo tem talento, é bom. Quando não tem, é um saco só de ficar imaginando que aquela figura vai ficar pelo menos uma semana na sua sala, e você terá que aturar; porque afinal de contas, geralmente são filhinhos de clientes importantes.

Na Salles era assim. Os mais de dois anos que passei naquela agência, posso contar nos dedos os dias em que ficamos sem um estagiário na sala.

Haviam aqueles que somavam. O Valois foi um exemplo. Ganhamos até um prêmio com um anúncio para a Souza Cruz. Posteriormente chegamos a formar uma dupla.

A Bebel, sobrinha do Mauro Salles, foi outro exemplo de uma estagiária motivada. Tanto que anos depois, tive uma reunião na Mesbla Móveis e ela estava lá, como diretora de marketing.
Mas tinham as garotinhas vazias, que às vezes salvavam-se por serem pelo menos um colírio para os olhos. E pior, os garotinhos mimados, que nem isso eram.

Lembro-me de uma delas (não me recordo do nome), que era uma gracinha, menina linda. Mas quando falava tinha a língua presa, o que quebrava todo o seu encanto.

Um dia surgiu a Beth. Uma graça de estagiária. Ao mesmo tempo, revelou-se logo excelente. Participativa, curiosa, produtiva. Tudo na medida certa, sabendo o seu lugar na engrenagem.
Ficou uma semana conosco.

Lá pela metade de sua estadia, fiquei sabendo uma coisa sensacional. Ela era filha de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Isso mesmo: filha do Tom Jobim... vê se pode !?
Num desses dias em que passou na nossa sala, a Beth foi almoçar conosco. Eu não agüentei, virei pra ela e disse:

- Olha Beth... você está fazendo estágio com a gente... tudo bem... mas, na verdade eu vou lhe pedir uma coisa... será que você se importa?

Fiz uma breve pausa, respirei fundo e continuei:

-Posso colocar isso no meu currículo?

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Novo link no blog

Cuca Brazuka, do meu amigo e diretor de arte Fernando Farah, personagem de alguns dos "casos" contados aqui.

Direto de Londres para o mundo as melhores receitas em "comes e bebes" da culinária brasileira.

Really the best... Vale a pena.

É só clicar em Links aí ao lado ou acessar: http://www.cucabrazuca.com

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Ói nóis aqui travêiz!

Houve muita reclamação. Alguns as postaram no próprio blog, outros passaram e-mails. Até telefonemas eu recebi com queixas pela interrupção dos “casos” no blog.
Juro que este é apenas o primeiro. Muito embora a quantidade e freqüência certamente serão menores do que anteriormente, os leitores podem ficar tranqüilos porque eu prometo publicar mais casos.


O "caso" do unha de fome

A Sinal era um mini-paraíso encaixado em Botafogo. Pra começo de conversa ficava num casarão belíssimo na Marquês de Olinda, quase esquina da Bambina. Além disso, ficava lá no fundo, encostada à montanha e com um bosque atrás. Subindo esta mata, avistava-se a baía de Guanabara, o Pão de Açúcar. Putz, um visual invejável.

O curioso é que quando chegamos lá, e pediram uma lista do que precisávamos para trabalhar, esta lista começou pelos móveis.

Na frente, a casa maior era da Esquire. Um dos sócios da agência era o Fernando Barbosa Lima, que fundou aquela agência.

O Fernando estava mais ocupado com o seu programa de TV, na época o “Abertura”, e posteriormente o “Canal Livre”, que, sem dúvida marcaram profundamente a televisão brasileira no momento histórico que o país vivia. Ele vibrava com aquilo. Fernando, além de publicitário, tinha um excelente currículo de realizações em televisão.

A principal conta da Sinal era o Banco Nacional. As outras eram a Financeira, a Seguradora, a Poupança, etc e etc do mesmo banco. Uma grande campanha por ano, pequenas campanhas para os produtos, que incluía uma filial no Paraguai com anúncios em castelhano e muitos anúncios e folhetos. Ah, ainda tinha o Relatório Anual. E, claro, os balanços, porque ninguém pode ser perfeito!

Enxuta, a Sinal tinha uma dupla de criação, dois no estúdio, um produtor gráfico, um atendimento, um secretário, uma tráfego e um boy. Nove pessoas apenas. Tudo para ser um puta dum ambiente. E era.

Nosso principal passatempo nas horas vagas, era um jogo cujas regras foram inventadas por nós, e que chegava a ser uma verdadeira coqueluche. Foi batizado como paredol. O paredol, consistia no arremeço de quatro bolas em seqüência numa espécie de rede de basquete. Digo uma espécie porque foi confeccionada por nós, ou melhor dizendo pelo Mecias, o nosso artefinalista, dotado de um talento e habilidade muito grandes.

As bolas eram feitas de papel manteiga envolvidas em fita durex, de forma que ficassem sólidas. Estas, de vez em quando tinham que ser substituídas, pois iam se desmilingüindo à medida que eram arremessadas.

Havia um ponto fixo para jogá-las. Uma fita adesiva marcava o local préviamente determinado.
Tinha até tabela. E uma contagem de pontos geral, sabendo-se assim quem estava melhor situado no campeonato. As bolas não podiam tocar o teto, o que provocava uma perda de pontos, ou bolinha preta na tabela. Por outro lado, caso o jogador acertasse as quatro bolas seguidas sem que estas batessem na parede de trás, ganhava pontos extras e uma estrela.

O Mecias era o campeão absoluto. O vice-campeonato era disputado freneticamente pelo Perón (o nosso ilustrador), pelo Favilla e por mim.

A criação e o estúdio eram os habituées. Os outros departamentos participavam de vez em quando. Eram considerados por nós como amadores.

E o melhor é que isso não atrapalhava o nosso ritmo de trabalho. Quando tínhamos o que fazer, a gente até ficava se coçando de vontade de jogar, mas segurava a barra.

Outra coisa boa ali nas redondezas era o Olinda, um bar e restaurante de um espanhol (pra variar Manolo), que fica bem na esquina das ruas Marquês de Olinda com Bambina e que servia pratos deliciosos. Almoçávamos lá quase todos os dias.

Tinha uma senhora paella, não me lembro em que dia da semana. Fora outras iguarias como lula, polvo, peixes e outros frutos do mar, além de um filé bastante honesto. O Olinda existe até hoje, e mantém a fama de um boteco decente.

Mas um dos casos mais marcantes da Sinal, foi relativo a um aumento que o pessoal do estúdio nos pediu.

Inicialmente, Favilla e eu falamos com o Fernando, pois era o sócio que estava sempre lá. Afinal, estávamos dentro da Esquire, éramos um apêndice dela. O Fernando olhou meio que de lado, pensou um pouco e como bom artista saiu com aquela de que era melhor a gente falar com o Medeiros.

João Moacyr de Medeiros, pra quem não sabe, era o dono e as iniciais da JMM, agência que teve um papel importante na história da propaganda brasileira. E sócio do Fernando na Sinal. Potiguar de nascimento, era uma figura, com aquele seu sotaque nordestino carregado, apesar dos mais de quarenta anos de Rio de Janeiro.

Mas o Medeiros tinha outra característica. Era duro de negociar.

Favilla e eu resolvemos, até por não ter outra saída, falar com o “ômi”. A JMM era na cidade, no Largo da Carioca, e o Medeiros ia à Sinal de passagem e de vez em quando. Gostava de dar umas incertas. Aliás, quando estávamos jogando paredol, sempre tinha alguém vigiando o pátio do estacionamento que ficava bem em frente às nossas janelas. Quando o sentinela dava o sinal de alerta, era o Medeiros chegando. Rapidamente cada um de nós sentava à sua mesa e tocava algum trabalho, nem que tivesse que inventa-lo. Mesmo assim, ao entrar, Medeiros sempre olhava aquela rede de basquete pendurada na parede, dava um muxôxo, ou fazia qualquer outro gesto de desaprovação.

Num desses dias, falamos com ele que precisávamos conversar em particular. Mesmo sem adiantar o que seria, a raposa velha sacou logo de que se tratava. Talvez pensando que a reivindicação seria para nós dois. Marcou de almoçarmos na semana seguinte no Carretão, uma churrascaria que não existe mais e ficava em Ipanema, aliás, em plena Visconde de Pirajá. Um senhor restaurante, e naqueles tempos pré-Porcão, um dos melhores churrascos da cidade.

Chegado o dia, lá fomos nós. Tremendo de nervosos. Éramos marinheiros de primeira viagem nessas questões.

O fato é que chegamos a uma da tarde e saímos de lá, já eram mais de seis. Comemos e bebemos tudo o que desejamos. Foi um lauto repasto. E, no final das contas o Medeiros não quis dar aumento nenhum pra ninguém. A gente ainda insistiu, mostrou por A + B que a galera estava ganhando mal, mas não adiantou.

Claro que ele pagou o almoço, evidentemente de valor muito mais alto do que o aumento que seria dado pros meninos...

O duro foi a gente transmitir pra moçada o resultado da reunião. Ainda bem que eles entenderam. O Medeiros tinha mesmo uma fama de unha de fome.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Nota do autor

Cheguei ao fim dos “casos” que havia escrito para o livro que pretendia lançar, além de outros que escrevi ano passado, no embalo deste blog e mais alguns contados por amigos que aqui transcrevi. Bom, passaram dos cinqüenta, mas, que fazer? Acabaram. Se me ocorrerem mais, eu juro que escrevo e publico. De qualquer maneira, terei que dar uma pausa, após estes seis meses de convívio com estes três ou quatro leitores fiéis que possuo.

Tudo começou quando o BlueBus, antes de se transformar num dos melhores sites da propaganda brasileira, ainda era uma simples BBS, em 1995. Foi uma troca de correspondências interessante entre publicitários, que sempre resultava em algumas boas recordações.

Certa vez eu resolvi mandar um "caso". Lembrei-me do dia que o Favilla e eu, ainda nos tempos da Sinal - a agência que foi montada exclusivamente para atender o Banco Nacional -, fomos fazer uma filmagem na casa do Nelson Rodrigues e aconteceu um fato realmente impagável.

Escrevi e mandei para o BlueBus (caso também publicado neste blog, em agosto de 2006). No dia seguinte, meu arquivo de correspondências na BBS estava repleto de cartas do tipo “conta mais”. Resolvi continuar escrevendo. Uns que viví, outros que ouví, tendo sempre obtido um bom índice de audiência.

Quando o BlueBus acabou sua BBS, transformando-se em um site mais amplo, a coisa foi-se esvaindo. Não havia mais espaço para os “casos", que a esta altura tinham sido mais de vinte, num período de dois ou três meses. Mas, o fato é que eu continuei escrevendo outros, de 1996 a 2000, para completar a pauta e escrever os “casos” que eu ainda não havia terminado. Achei que seria o momento de reuni-los com a intenção de publicar um livro.

Convém lembrar que além dos que foram publicados no Bluebus, dois deles (o “caso” do Nelson Rodrigues e o “caso” do leão), também saíram numa edição de 1998 do jornal do Clube de Criação do Rio de Janeiro.

terça-feira, janeiro 02, 2007

O "caso" do papo no Garden

Era dessas tardes de domingo, em que não se tem muito o que fazer. Aliás, existe coisa mais chata do que uma tarde de domingo? Bom, o certo é que às vezes, a gente sem querer acerta um desses programinhas, que ficam até agradáveis, apesar do dia. Foi o que aconteceu naquela tarde. Toninho Lima, eu, e respectivas famílias, comendo pizza no Garden. O certo é que nós estavamos lá, papo vai, papo vem - o negócio em tardes de domingo é jogar papo fora pra ver se o dia consegue passar menos dolorosamente -, e, eis que surge o Pedrosa. Naquele tempo, o Garden tinha uma mureta aberta e um toldo.

O Pedrosa passou ali. Ele também nos viu e começamos a conversar. E a dita conversação estendeu-se por, sei lá eu, talvez uns cinco, seis minutos. A verdade é que estava agradável. O Pedrosa com aquele seu jeito desligado, encostado na mureta do Garden, a cinza despencando de seu cigarro. Ele acende o cigarro, e apaga algum tempo depois. De resto, deixa a cinza cair. De repente, incomodado pelo fato do Pedrosa estar de pé ali fora do bar, o Toninho virou-se para ele e disse:

- Pô, bicho, entra e senta com a gente na mesa...

- Ih, é mesmo. Quer dizer... eu estava aí dentro com o meu pessoal e fui comprar cigarro. Bom, deixa eu entrar e ficar com eles. Respondeu o Pedrosa esboçando um sorriso.

Grande Pedrosa...