quarta-feira, janeiro 24, 2007

Ói nóis aqui travêiz!

Houve muita reclamação. Alguns as postaram no próprio blog, outros passaram e-mails. Até telefonemas eu recebi com queixas pela interrupção dos “casos” no blog.
Juro que este é apenas o primeiro. Muito embora a quantidade e freqüência certamente serão menores do que anteriormente, os leitores podem ficar tranqüilos porque eu prometo publicar mais casos.


O "caso" do unha de fome

A Sinal era um mini-paraíso encaixado em Botafogo. Pra começo de conversa ficava num casarão belíssimo na Marquês de Olinda, quase esquina da Bambina. Além disso, ficava lá no fundo, encostada à montanha e com um bosque atrás. Subindo esta mata, avistava-se a baía de Guanabara, o Pão de Açúcar. Putz, um visual invejável.

O curioso é que quando chegamos lá, e pediram uma lista do que precisávamos para trabalhar, esta lista começou pelos móveis.

Na frente, a casa maior era da Esquire. Um dos sócios da agência era o Fernando Barbosa Lima, que fundou aquela agência.

O Fernando estava mais ocupado com o seu programa de TV, na época o “Abertura”, e posteriormente o “Canal Livre”, que, sem dúvida marcaram profundamente a televisão brasileira no momento histórico que o país vivia. Ele vibrava com aquilo. Fernando, além de publicitário, tinha um excelente currículo de realizações em televisão.

A principal conta da Sinal era o Banco Nacional. As outras eram a Financeira, a Seguradora, a Poupança, etc e etc do mesmo banco. Uma grande campanha por ano, pequenas campanhas para os produtos, que incluía uma filial no Paraguai com anúncios em castelhano e muitos anúncios e folhetos. Ah, ainda tinha o Relatório Anual. E, claro, os balanços, porque ninguém pode ser perfeito!

Enxuta, a Sinal tinha uma dupla de criação, dois no estúdio, um produtor gráfico, um atendimento, um secretário, uma tráfego e um boy. Nove pessoas apenas. Tudo para ser um puta dum ambiente. E era.

Nosso principal passatempo nas horas vagas, era um jogo cujas regras foram inventadas por nós, e que chegava a ser uma verdadeira coqueluche. Foi batizado como paredol. O paredol, consistia no arremeço de quatro bolas em seqüência numa espécie de rede de basquete. Digo uma espécie porque foi confeccionada por nós, ou melhor dizendo pelo Mecias, o nosso artefinalista, dotado de um talento e habilidade muito grandes.

As bolas eram feitas de papel manteiga envolvidas em fita durex, de forma que ficassem sólidas. Estas, de vez em quando tinham que ser substituídas, pois iam se desmilingüindo à medida que eram arremessadas.

Havia um ponto fixo para jogá-las. Uma fita adesiva marcava o local préviamente determinado.
Tinha até tabela. E uma contagem de pontos geral, sabendo-se assim quem estava melhor situado no campeonato. As bolas não podiam tocar o teto, o que provocava uma perda de pontos, ou bolinha preta na tabela. Por outro lado, caso o jogador acertasse as quatro bolas seguidas sem que estas batessem na parede de trás, ganhava pontos extras e uma estrela.

O Mecias era o campeão absoluto. O vice-campeonato era disputado freneticamente pelo Perón (o nosso ilustrador), pelo Favilla e por mim.

A criação e o estúdio eram os habituées. Os outros departamentos participavam de vez em quando. Eram considerados por nós como amadores.

E o melhor é que isso não atrapalhava o nosso ritmo de trabalho. Quando tínhamos o que fazer, a gente até ficava se coçando de vontade de jogar, mas segurava a barra.

Outra coisa boa ali nas redondezas era o Olinda, um bar e restaurante de um espanhol (pra variar Manolo), que fica bem na esquina das ruas Marquês de Olinda com Bambina e que servia pratos deliciosos. Almoçávamos lá quase todos os dias.

Tinha uma senhora paella, não me lembro em que dia da semana. Fora outras iguarias como lula, polvo, peixes e outros frutos do mar, além de um filé bastante honesto. O Olinda existe até hoje, e mantém a fama de um boteco decente.

Mas um dos casos mais marcantes da Sinal, foi relativo a um aumento que o pessoal do estúdio nos pediu.

Inicialmente, Favilla e eu falamos com o Fernando, pois era o sócio que estava sempre lá. Afinal, estávamos dentro da Esquire, éramos um apêndice dela. O Fernando olhou meio que de lado, pensou um pouco e como bom artista saiu com aquela de que era melhor a gente falar com o Medeiros.

João Moacyr de Medeiros, pra quem não sabe, era o dono e as iniciais da JMM, agência que teve um papel importante na história da propaganda brasileira. E sócio do Fernando na Sinal. Potiguar de nascimento, era uma figura, com aquele seu sotaque nordestino carregado, apesar dos mais de quarenta anos de Rio de Janeiro.

Mas o Medeiros tinha outra característica. Era duro de negociar.

Favilla e eu resolvemos, até por não ter outra saída, falar com o “ômi”. A JMM era na cidade, no Largo da Carioca, e o Medeiros ia à Sinal de passagem e de vez em quando. Gostava de dar umas incertas. Aliás, quando estávamos jogando paredol, sempre tinha alguém vigiando o pátio do estacionamento que ficava bem em frente às nossas janelas. Quando o sentinela dava o sinal de alerta, era o Medeiros chegando. Rapidamente cada um de nós sentava à sua mesa e tocava algum trabalho, nem que tivesse que inventa-lo. Mesmo assim, ao entrar, Medeiros sempre olhava aquela rede de basquete pendurada na parede, dava um muxôxo, ou fazia qualquer outro gesto de desaprovação.

Num desses dias, falamos com ele que precisávamos conversar em particular. Mesmo sem adiantar o que seria, a raposa velha sacou logo de que se tratava. Talvez pensando que a reivindicação seria para nós dois. Marcou de almoçarmos na semana seguinte no Carretão, uma churrascaria que não existe mais e ficava em Ipanema, aliás, em plena Visconde de Pirajá. Um senhor restaurante, e naqueles tempos pré-Porcão, um dos melhores churrascos da cidade.

Chegado o dia, lá fomos nós. Tremendo de nervosos. Éramos marinheiros de primeira viagem nessas questões.

O fato é que chegamos a uma da tarde e saímos de lá, já eram mais de seis. Comemos e bebemos tudo o que desejamos. Foi um lauto repasto. E, no final das contas o Medeiros não quis dar aumento nenhum pra ninguém. A gente ainda insistiu, mostrou por A + B que a galera estava ganhando mal, mas não adiantou.

Claro que ele pagou o almoço, evidentemente de valor muito mais alto do que o aumento que seria dado pros meninos...

O duro foi a gente transmitir pra moçada o resultado da reunião. Ainda bem que eles entenderam. O Medeiros tinha mesmo uma fama de unha de fome.

15 comentários:

Anônimo disse...

Tem coisa mais chata do que pedir aumento? Em um mundo ideal aumento não deveria ser negociado, mas oferecido como reconhecimento pelo trabalho ou como divisão da prosperidade da empresa. Mas como eu também acho que a semana deveria ter apenas 4 dias úteis, fica claro que minha opinião é completamente desconectada da realidade.

Jonga Olivieri disse...

Concordo. As vezes que tive que pedir aumento foram muito constrangedoras.
Quanto à semana de quatro dias, você tem um apoio, caso queira começar algum movimento nesse sentido...

Anônimo disse...

Estarei atenta. Obrigada, Marise

Jonga Olivieri disse...

Obrigado, digo eu, querida amiga.
E feliz! Afinal, graças à web, o blog é mesmo internacional. E Portugal já respondeu.

roger disse...

E aí Oliva? Quanto hein, meu caro.
Fiquei feliz com a volta das suas crônicas. O Maurilo sempre me dá notícias suas. Um abraço grande.

Jonga Olivieri disse...

Grande Roger.
Também fiquei feliz com a sua ida para a Tom.
Quanto ao blog, estou escrevendo vários casos novos.
Grande abraço

jr disse...

Gostei. não só do caso como ter voltado a escrever causos no blog

Jonga Olivieri disse...

JR,
Ou será júnior?
Bom, não importa, fico satisfeito que você esteja aí e seja um leitor (atento), pois ainda hoje eu publiquei o novo caso e você já participou.
Grande abraço,
Jonga Olivieri

carlapacheco disse...

Seu sumido, que saudade de vc! Não pare de escrever no blog não, sempre q posso entro pra ler.
Carla

Jonga Olivieri disse...

Carlinha, minha dupla predileta. Fico super feliz que vc esteja sempre lendo o meu blog.
Ele fica mais valorizado pelo fato de isso acontecer.

Jonga Olivieri disse...

Olha, gentem !!!
Fiquei muito, mas muito feliz de fato porque somente ontem vieram cinco postagens de leitores.
Fora dois e-mails. Então, pelo menos sete leitores assíduos eu tenho.
Jonga Oliva

amigo oculto disse...

oito, amigo, oito comigo

Jonga Olivieri disse...

Pelo menos a galera está crescendo...

Anônimo disse...

Conheci o MEdeiroa, porrque trabalhei na JMM, e ele é fogo na roupa. Não abre a maõ nem pra jogar peteca.
voce conheceu o filho do Medeiros conhecido comoChefinho?

Jonga Olivieri disse...

Ora, ora. O filho do Medeiros, uma figura é folclórica no mercado carioca. Pelo menos para nós veteranos.
De vez em quando vinha com uma idéia "mirabolante" que, via de regra não tinha nada de original ou criativa.
Mas, até que na Sinal ele aparecia pouco. Creio que tinha pouca gente. Dessa forma não o atraia muito. Gostava de platéia.