segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O “caso” da eminência parda

Maurilo Andréas é o mais antigo (embora seja o mais jovem) colaborador deste blog. Foi na Solution em Beagá que o conheci. Um dos melhores e mais criativos redatores com quem tive o prazer de trabalhar, viemos a nos encontrar novamente em 2004 durante campanha política para a qual, aliás, o chamei.

Em BH tem um técnico de Macintosh chamado Popó, um morenão gordo e de voz incrivelmente fina para um homem daquele tamanho. Pois o Popó é tão mentiroso que deveria ter o apelido de Gogó.

Uma boa história sobre o papo furado do rapazinho remonta aos tempos em que eu trabalhava na Aliás, uma agência pequena onde ficava meio horário. Havia acabado de sair da vitoriosa e bem paga campanha do Itamar Franco para o Governo de Minas e fiquei na Aliás uns 3 meses até que fui chamado pela Solution (onde aliás conheci o Jonga).

Naquele clima festivo de despedida, entra o Popó na agência e pergunta o que está acontecendo. Alguém diz pra ele que eu estou saindo pra Solution e ele responde com um ar blasée: “Eu já sabia, o Fernando veio me perguntar sobre ele e eu dei o ok.”

Uma força indispensável, diga-se de passagem, apesar de eu já ter negociado com a Solution por duas vezes antes disso, ter sido indicado pelo Márcio Jorge (ex-diretor), pela Cristina Cortez (Diretora de Arte) e pelo próprio Pedrolli (também Diretor de Arte) que trabalhava lá.

Meu destino poderia ter sido realmente diferente se não fosse a alma piedosa de um grande expoente da propaganda mineira como o Popó.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O “caso” da Janela Indiscreta

Na primeira fase em que trabalhei na VS (1988 a 1990), criamos, o Marcos Vinícius e eu, em associação com a criação da SMP&B de Belo Horizonte (que dividia a conta conosco) uma campanha para o Procel, entidade governamental voltada para a economia de energia.

Eram dois filmes. Um deles, a meu ver meio bobinho, em que dois manequins de vitrine assumem uma vida real... o outro, baseado no filme “Janela Indiscreta” de Hitchcock.

A sinopse era: um sujeito, bem ao estilo do “Jimmy” Stewart, pé quebrado e os cambál, fotografava da sua janela os seus vizinhos. Todos desperdiçando energia elétrica. A locução ia pontuando as ações que levavam a essas atitudes, tipo deixar a geladeira aberta, sair do quarto e não apagar a luz. Depois apontava as soluções para cada caso.

Quem ganhou a concorrência para a produção foi a Tycoon, empresa do Carlos Manga e Cyll Farney.

A idéia era boa, mas, nós não sabíamos que ia ficar tão bem realizada. Graças à direção do Manga, que se apaixonou pelo roteiro, desde nossa primeira reunião de pré-produção, e talvez também tenha visto no comercial a oportunidade de homenagear um dos ícones do cinema: Alfred Hitchcock.

Ele produziu, ou até reproduziu um cenário, com as luzes e outros detalhes de tal forma semelhantes, que mais parecia um remake ou um trailer do filme original. Tinha até uma cena dele, Manga, passando em determinado lugar, tal e qual o fazia o mestre do suspense em todos os seus filmes.

Grande Manga, ele também um dos maiores diretores artesães que o Brasil já teve, da chanchada* ao comercial publicitário. Isto sem contar o período em que passou pela televisão**, quando foi responsável por inúmeras novidades e programas que ficaram na história deste veículo.

(*) Levado à Atlântida por Cyll Farney, dirigiu filmes como: Nem Sansão Nem Dalila (1954), Matar ou Correr (1954), De Vento em Popa (1957) e O Homem do Sputnik (1958), que são apenas algumas das dezenas de chanchadas com a sua assinatura e que deixou com eles o seu nome na história do cinema brasileiro.

(**) Passou pelas TV’s Rio, Excelsior e Record, dirigindo programas musicais, humorísticos e alguns até polêmicos, como
Quem tem medo da verdade. Na Rede Globo, foi realizador de mini-séries como Agosto e Engraçadinha, além de diversos programas cômicos.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O “caso” da velha richa

Um leitor do blog me pediu um “caso” sobre os velhos problemas entre atendimento e criação. Claro que de um ponto de vista engraçado. Não me ocorreu nenhum. Ou os meus últimos dois neurônios (o Tico e o Teco) estão realmente sucumbindo por excesso de trabalho ao longo de tantos anos. Lembrei-me de muitos casos tristes, tão tristes e obscuros, que, juro pelos deuses que um blog como esse não merece uma postagem assim.

Ademais, sempre me dei bem com o pessoal de atendimento que conheci. Tal e qual os meus dois neurônios, meia dúzia de contatos no máximo. Porque o resto é boy de luxo. É leva-e-trás recadinho de cliente.

Atendimento era o Giancarlo Marchesini. Quem o conheceu sabe disso. O Gian, pegava o rough inacabado em papel manteiga da prancheta, levava pro cliente, e voltava com o anúncio aprovado. Mas, como o que é bom dura pouco, a cirrose levou o nobre colega ainda muito moço, pois... como nada é perfeito, ele bebia pra caralho! A última vez que estive com ele foi na Lintas em São Paulo. Tomamos um porre num bar ali na Haddock Lobo, pertinho da Paulista.

Victor Kirowsky, o Vic tinha uma piadinha daquelas dele, em que dizia que quando chegava um estagiário na McCann, colocavam uma prancheta cheia de guaches, pincéis e papéis, de um lado. Do outro, um monte de feno. Se o cara fosse para o monte de feno, certamente faria estágio no atendimento.

Mas quando comecei em publicidade, haviam bons contatos. Sujeitos de formação acadêmica, advogados, arquitetos. Com o passar do tempo foi piorando cada vez mais.

- Não adianta, o cliente quer assim... Dizia uma “mimada” estagiária de uma agência em que trabalhei, e que só estava ali porque era parenta de um dos sócios da empresa.

Mas, não é só ela. O boy de luxo é reconhecido à distancia nos seus primeiros passos. Ou palavras. Têm os impertigados. Um deles, que eu não vou citar o nome aqui, o Fabinho, na Salles, apelidou de “Gardelão”. Como Gardel, tinha uma pose que só ele. Ternos de grife, abotoaduras de ouro. À primeira impressão, um misto de lorde inglês com galã hollywoodiano da época do Clark Gable. Talvez o próprio. Tinha até aquele leve levantar de sobrancelha. Uma só. E o olhar “433” que tentava demonstrar uma puta duma experiência.

Outro, numa agência em que trabalhei faz tempo, tinha mania de pedir à criação um layout no capricho. O diretor de criação, puto da vida respondia que aquilo ali não era botequim para se fazer um sanduíche de pernil caprichado.

Tem também aquele contato “boa praça”, que entra na criação, é amigo de todo mundo, mas que na hora agá, não aprova nada. Uma vez, fui com um desses numa apresentação. Logo de que? De um cartão de natal! Geralmente uma das peças mais complicadas para um cliente aprovar. Costumo pensar em sugerir cartões da Unicef, toda vez que um deles começa a ser feito e refeito, às vezes por meses. Mas, como ia contando, eu vi, juro que vi, o boy de luxo jogar o layout em cima da mesa e dizer algo no gênero de “Aqui está o seu cartão de natal”. Juro que gelei. E claro que... voltou.

Hoje em dia, como frila, sou o atendimento da maioria das peças que crio. Tem que ter aquela leve “esquentadinha”. Tem que preparar o cliente, criar um clima para poder vender o peixe. Principalmente se for cartão de natal, minha nossa!

Quando diretor de criação*, sempre tive muitos choques com o atendimento, devido à mania que os(as) caras têm de passar modificações propostas pelos clientes sem nada por escrito. Quando é passado de boca, fica somente o disse-não-me-disse.

Acabei tendo desavenças, e até criando inimizades por causa disso. Em Beagá, tem uma “contata” que nem pode ouvir o meu nome (a recíproca é verdadeiríssima) devido à situação ter ficado preta entre nós por causa de um simples papel...

E, certa ocasião pedi demissão de uma agência porque mandei o cara tomar naquele lugar. Como nesta agência tudo virava “inquisição”, antes que isso acontecesse, fui ao DP e entreguei a carta. Em caráter irrevogável. E assim o foi. O patrão me chamou e disse que se eu pedisse desculpas ao “pirralho”, poderia continuar. Quase que mandei ele também. Bom, na verdade o fiz, porque só voltei lá para acertar minhas contas.

É isso aí, caro leitor. Como você pode constatar fica fácil compreender porque eu não costumo contar casos sobre atendimento. Exceção feita a “O ‘caso’ do voltooou” (publicado neste blog em 01/11/006), que, aliás, envolve um dos seis bons profissionais de atendimento que conheço.

Como eu disse, tudo isso pode até parecer engraçado. Mas, que dá uma vontade de chorar, lá isso dá.

(*) Como diretor da arte a gente até se cala para não arranjar desentendimentos, mas quando se é responsável por toda a criação, a gente tem que assumir uma postura. Aí, acaba brigando.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Uma nota triste

Fiquei sabendo - com relativo atraso - do falecimento de um publicitário mineiro, a quem devo o maior respeito: Newton Silva.

Newton, com quem tive o prazer de trabalhar quando fui diretor de criação da ASA, era dos mais competentes criativos que conheci. Um dos fundadores daquela agência, voltou conduzido por seu dono Edgar Mello para apagar um grande incêndio com a conta de complicado cliente.

Bem mais velho do que o restante da equipe, provou a todos nós que a idade não está no físico, sim na cabeça, tal e qual já o haviam feito Picasso e Chaplin. Em pouco tempo Newton nos provou ser, talvez o mais jovem de todos nós. Pela sua ironia, pelo seu sense of humour.

Faço questão de deixar aqui o registro da minha dor, e a recordação de uma personalidade, cujo caráter me impressionou ao longo da convivência com ele.

Newton Silva não morreu. Apenas nos deixou, deixando a lembrança de uma companhia alegre. Pioneiro da propaganda mineira, crítico de cinema, dotado de uma cultura e conhecimento que devem ser registrados na memória da profissão nas Minas Gerais.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Epílogo ao “caso” do passepartout

“O caso” do passepartourt, foi publicado neste blog em 27 de dezembro passado. Meu amigo Saulo Silveira - hoje em Portugal – que aliás, é um dos personagens da históra, passou um e-mail lembrando um detalhe que, por ter esquecido, achei valer um epílogo.

(...)
Com todo aquele bate-boca causado pelo mal entendido, a situação ficou cada vez mais confusa. Artur Denegri, com os nervos à flor da pele, virou-se para o Vic e gritou com o nariz quase encostando ao seu rosto, os olhos esbugalhados, os punhos cerrados:

- Vic, eu dou uma porrada... vou dar porrada !!!

E o Vic, engolindo em seco respondia:

- Artur Denegri... Artur Denegri, se você encostar a mão em mim... eu lhe processo, entende... eu lhe processo.

No final das contas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O “caso” do postigo

Delano d’Ávila está impossível na sua produção de “casos”. Estou postando mais este que ele me enviou. Impagável, por sinal.

Zé Carlos era o meu melhor amigo. Andávamos juntos sempre, dentro e fora do colégio. De manhã, de tarde, de noite. Estudando, rindo, jogando bola, indo a bailes e cinemas. Minha amizade com ele foi assim, uma dupla de Zés que só não cantava junto porque meu amigo desafinava respirando. E ficava putíssimo quando eu dizia isso.

Nem a distância entre os endereços evitava estarmos juntos depois do colégio. Seu pai comprara uma nova padaria, a família saiu da 19 de fevereiro para a Senador Vergueiro e deixamos assim de estar, como antes, a 200 metros um do outro. Isso fez com que naquela noite, em seguida ao jantar, eu precisasse ligar pra casa e avisar à D.Ritinha que aceitaria o convite de dormir por lá, em frente ao cine Paissandú. O telefone da casa com defeito, não seria um grande problema ligar da padaria, ali pertinho, pouco depois da Rua Tucumã. Alguém conhece a Rua Tucumã? Pois é, de tão pequena e numa posição tão peculiar, poderia ser chamada de Cotovelo Tucumã já que simplesmente separa a Praia do Flamengo da Vergueiro onde esta se dobra num ângulo sutil.

Dado o telefonema voltávamos pra casa quando, naquele cotovelo, a velhinha esticou as canelas, A coitada levou uma trombada de algum veículo não identificado. Naquela época, às 10 e meia da noite pouca gente teria mesmo visto a cena. Mas vê-la ali daquele jeito produziu em poucos minutos uma roda de umas 30 pessoas em tôrno da mulher dos seus 75, 80 anos. Eu era uma dessas pessoas, o Zé Carlos não. Ficou na calçada esperando, evitando olhar e ter pesadelos depois. Encostei-me no paralama da rádio-patrulha preta que ali parada bloqueava parte da passagem dos carros. Morbidez acentuada a minha, fiquei ali contemplando por minutos, a 1 metro e pouco da cena, o corpo inerte que começava a ser coberto por jornais dos pés à cabeça. Antes de cobrirem a cabeça aconteceu o que guardo na memória intacto até hoje: a morta sorriu pra mim.

As explicações científicas diriam, e eu repasso aqui de forma coloquial, que aparentemente falecidos e com o sangue ainda quente ou coisa parecida, os animais podem se mexer em partes do corpo aleatoriamente, etc. etc.

A galinha degolada sái correndo, o rabo da lagartixa faz os ésses do pack-shot da Sadia, mas caramba, a velhinha bem poderia levanter uma perna, sei lá, mexer um braço, mas não, ela sorriu pra mim, mesmo. E o registro fixado na retina acentuou-se devido à sua dentadura visivelmente postiça, com aqueles dentinhos sem diferenças de intervalo e quase do mesmo tamanho. Artificialidade notória daqueles tempos assim como a brancura dos dentes da Daniele Winitz na novela das 8 de hoje.

A coincidência que relato a seguir pode parecer uma das que acontecem tanto nas próprias novelas, nos filmes ou nos roteiros de comerciais. Nestes últimos sempre evitei quando pudesse parecer mentira deslavada. A não ser quando a proposta criativa já contivesse o absurdo como estilo adotado, enfim. Voltando à história, naquela noite nem foi difícil dormir. Meu eterno amigo Zé Carlos amenizou meu trauma rindo muito da situaçåo e interrompemos o assunto conversando sobre um monte de outras coisas até o sono chegar de vez.

Dia seguinte em casa, tudo normal até quando meus pais saíram pro cinema. A famosa sessão das 10 faria com que chegassem bem depois da meia-noite. Minha irmã Letícia fôra dormir na casa de uma amiga e lá estava eu, sozinho, mas acompanhado da imagem sinistra da noite anterior. Tão acompanhado que ao me preparar pra deitar fazia, correndo como em desenho animado, os preparativos de antes da cama.

Ao apagar a luz da cozinha depois do copo de leite, disparava pro banheiro. Zoom na memória e o sorriso enorme, fixo. Dentes escovados, eu chispava pro quarto procedendo do mesmo jeito. E o sorriso lá na cabeça, intacto. Até apagar a televisão na sala, etapa final dos procedimentos, acelerar os passos e finalmente, ufa, enrolar nos pés o cobertor como se isso me protegesse do ataque final.

Por volta das 10 e pouco eu não conseguia pegar no sono. No enorme e pesado rádio que fazia as vezes de espaldar no sofá em que eu dormia, sintonizei um jogo de basquete, em São Paulo, animadíssimo: Mackenzie versus Ribeirão Preto! Seria uma forma apelativa de usar a chiadeira da transmissão como desconcentração no medo.

Luz apagada, jôgo correndo, o sorriso da velha no teto e a campainha da frente tocou. Tremi. Um arrepio disparou do calcanhar até a nuca. Quem seria? A velha? Mesmo numa hora como aquela e sem interfone, entrar no prédio era perfeitamente possível se fôssemos conhecidos cidadãos de bem das redondezas e, mais ainda, reconhecidos pelos porteiros como era o caso da Tia Gilda. Amiga mais velha e constante da D. Ritinha, ela saíra de outra visita próximo dali e aproveitava a passagem pelo nosso prédio para dar um pulinho lá em casa. Sabia que mamãe costumava dormir mais tarde. Pegou o elevador e chegando ao quadrado do pequeno hall do 11º andar, ‘as escuras, descobriu o botão da campainha antes do interruptor que acendia a luz do local.

Borrando o pijama de pânico fui atender. Nossa porta principal não tinha olho mágico. Descobrir quem era se fazia com a ação simultânea de acender a luz, fazer a pergunta tradicional “Quem é?” e o suspender da trava que segurava a lâmina do postigo. E não deu outra. O pequeno facho de luz foi direto na boca da visitante.

Oi, Delaaaaaaaaaaaano! A simpática saudação emoldurada pelo brilho da dentadura foi instantaneamente interrompida pelo maior grito que dei em toda vida. Algo que se fosse numa história em quadrinhos atravessaria de alto a baixo uma página dupla, com letras garrafais, tremidas e irregulares.
Algo como “Uaaawwwhhhhhhhhaaaiiiuuuuuhhhhhh!”

Tão surpreendida e assustada como eu, ela soltou um berro muito parecido e até talvez outros sons tenham sido encobertos pelos altos decibéis das gargantas. Muito provável.

Tia Gilda, que só era chamada assim por carinho, voltou a nos visitar semanas depois. Dessa vez durante o dia.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O “caso” do monstro

Comecei minhas atividades em publicidade com o pé direito. Na época em que entrei na McCann Erickson do Rio de Janeiro, em 1965, ela era uma agência escola.

Não é pra menos. Só a equipe. Na minha sala, que era colada à do diretor de criação, o argentino Oscar Gosso, ficavam o Mello Menezes, diretor de arte e ilustrador, o Vilmar desenhista, cartunista e ilustrador, o Humberto “Tatu”, letrista e o Antônio Celso, o Toninho, também diretor de arte, este ainda júnior.

Havia outra sala, também do departamento de arte. Nela ficavam o Victor Kirowsky, diretor de arte, o Mello (euro asiático nascido em Macau, e que depois mudou-se para o Canadá), diretor de arte especializado em TV e o Flávio Colin, ilustrador, que substituiu o Quiroga, argentino, que saiu dias depois que eu entrei para voltar à sua terra natal. O Benício - já conceituado ilustrador - acabara de mudar para a Denison (que era outra grande escola), junto com o Pêcego e o Waldo Mello, ambos diretores de arte. Só gente da pesada! Verdadeiros monstros!

O departamento de redação, naquele tempo era separado. Mas, pelo menos ficava no mesmo andar. O nono da rua México, 3. Ali ficavam o Pedrosa, o Mauro Matos... chega? Tinha mais. O Athayde, sobrinho do Austragésilo (ele mesmo, o presidente da ABI). E ainda o Pedro Camargo, que, além de redator publicitário, dava-se ao luxo de ser compositor. Compôs uma música que fazia sucesso: “A chuva”, tocada com muita bossa pelo conjunto “Os Gatos”.

Não é à toa que aquilo foi uma grande escola para mim. Em tempos de prancheta, guache e pincéis, um diretor de arte tinha muito o que ralar para adquirir a expertise da profissão. Era muito detalhe. Saber manchar (o nome que se usava para uma rápida ilustração do layout), marcar letras, calcular a área de texto, e por aí afora. Graças àqueles com quem tive a sorte de conviver e aprender tão de perto, ali eu me formei e até fiz mestrado nessas cositas. Sou-lhes, até hoje grato, pelo que fizeram por mim.

Mas tem um termo, que também comecei a falar, como todo mundo, que era “monstro”.

“Monstro”, vinha a ser um jingle mal tocado só para o cliente aprovar. Sim, porque naquele tempo, como não haviam esses sintetizadores musicais e os softwares de música que hoje existem às pamparras, um jingle, precisava de muitos músicos para ser realizado. O “monstro” era feito com simplicidade, um pianinho, ou um violão, só para dar o clima numa peça mais barata. Se o cliente não gostasse, não se gastava uma nota preta sem necessidade. Se gostasse, produzia-se o definitivo.

Mas o mais engraçado é como a gente fala as coisas, pensando em um lado, e esquecendo o mais elementar. Eu, e muita gente, achava que era “monstro” simplesmente por ser grotesco, primário, mal lapidado. Enfim, monstruoso.

Um belo dia, descobrí que a palavra era a tradução de demonster, que algum desavisado, um dia deve ter traduzido de the monster.

Ai, se o dr. Frankenstein soubesse disso.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O “caso” da etiqueta invertida

Mais um "caso" de Delano d’Avila.

Nasci em berço bom. Digamos que de bronze pelo menos era. Ter me criado nos bons tempos de Botafogo, num dos prédios mais bonitos da Voluntários e que existe até hoje para comprovar, avalisa este status quo.

Meu pai, na época o famoso fotógrafo Ávila que convivia nos meus tempos de criança, com gente da alta sociedade, do show business carioca e de publicidade, fazia questão de que nos portássemos, mesmo na intimidade da família, como nos ridículos jantares das mansões dos clientes milionários e famosos.

Daí cheguei às atividades publicitárias, onde não são raras as vezes de se pôr tais procedimentos à toda prova. Fui testemunha desde o início de um nível educacional gastronômico que, mesmo das figuras mais destacadas do meio, deixava a desejar e assim, diante da proporção, me coloquei no peito uma medalha de prata, elevando então o patamar de nascença.

Trabalhava aos vinte e poucos anos, numa agência chamada JMM, poderosa, grandes contas e muito divertida apesar do trabalho desmedido. O conhecido e brilhante Lula Vieira, sócio do Medeiros e meu diretor de criação na época, solidário com minha necessidade de descanso convidou-nos para um fim-de-semana em Mar del Plata. Assim, de repente. Numa quinta-feira. E lá fomos nós, Telma, eu, o Lula e sua esposa.

Aos 40 minutos de vôo, num 747 lotado, era servido um espetacular coquetel de camarão. Daqueles em que a taça tinha que ser bem alta para que os crustáceos não se arrastassem na mesinha. Delícia! A fome ajudou a trucidar os bichinhos em segundos.

A mudez dos passageiros deixava escutar os sons dos talheres e os passos da aeromoça que em poucos minutos retirava o material da refeição com seus resquícios de sauce golf. Em seguida veio oferecendo uma xícara para algo que parecia um chazinho bem quente. Aceitei feliz e compenetrado ajustando o finesse que a situação exigia. Segurei a alça da xícara sem o mindinho espetado para cima, dei uma sopradinha e slurp! Sorvi cuidadosamente para não queimar a língua o primeiro e último gole daquele líquido sem graça.

Lula com seu jeito estrepitoso não poupou seu companheiro de viagem: “Sua besta! Isto não é para beber, sua zebra, isto é lavanda, seu energumeno!” E foi desfilando, entre os dentes, seu vasto vocabulário de impropérios enquanto eu agradecia aos céus estarmos na última linha de poltronas, onde muito pouco ou quase nada poderia ser flagrado pelos vizinhos, mesmo pelos mais curiosos. Cabe dizer, para quem não o conhece, que Lula não foi grosseiro ou estúpido comigo. Seu jeito sempre foi assim e transformava supostas ofensas ou desacatos numa espécie de carinho aos mais chegados. Na época eu era um desses. Aprendi. Aprendi?

Mesmo contrariado, meses depois fui transferido para SP, uma de suas filiais. Transformaram o depósito nos fundos da casa da agência na rua Goitacás num quartinho mimoso e confortável. Era lá, nas manhãs de segunda que eu recuperava as noites mal dormidas nos ônibus da Cometa, da Única ou do Expresso Brasileiro. Mas isso é outra história.

Bem, numa conversa com a secretária do diretor geral cujo nome (desculpe) não lembro agora revelei minha paixão de comer polvo. Grelhado com batatas à doré, cozido e servido à portuguesa ou então ao Real Pote, môlho sofisticado e servido generosamente no extinto restaurante do calçadão do Leme. Dizendo-se parceira, ela instantaneamente prometeu me levar a um lugar misterioso, e fez disso tanto segredo que me despertou uma mistura de curiosidade e água na boca por duas longas semanas. O mistério foi mantido até a hora em que entrávamos, ela, eu e outra colega do atendimento, pelo corredor central ladeado por imensos aquários. O mar era ali, vivo. A comida quase isso, crua.

Hoje, convencido pelo sucesso dos japoneses da área e pela paixão dos meus filhos pelos sachimis até respeito, mas me recuso a voltar. E olha que sempre me considerei uma espécie de avestruz gastronômico, bem diferente da maioria que rejeita as iguarias mais extravagantes. Na hora do repasto, constrangido pelo contraste da expectativa, cedi gentilmente para uma delas minha tábua ainda cheinha depois que o polvo, cru e duro que nem pedaço de pneu, alternou os lados da minha mucosa bucal por dezenas de vezes.

Mesmo em jejum, ao final, disfarçando a fome, aceitei a lavanda, E mantendo um ar de conhecimento absoluto, refletindo a experiência recente, enfiei as duas mãos na “mesma xícara do 747” de poucos meses atrás. A entreolhada e o sorriso cúmplice das companheiras foi suficiente. A vontade de sumir do lugar lotado nem dá pra expressar. Me senti com um Japão inteiro a me cravar os olhos boquiaberto e ouvindo na consciência os mesmos impropérios do Lula, aí invertidos.

Pagar a conta foi o mais fácil, já longe do salão. Levei as companheiras em suas casas de táxi. Silêncio absoluto. No mesmo táxi, fui terminar a noite sozinho no Filet do Moraes. Delícia com agrião! E lá não tinha chá nem lavanda.

O "caso" do taxista por acaso

Um dia ao sair da agência, Lula Vieira pegou um táxi. Um fusquinha.

No meio do caminho para casa, o motorista passou mal e teve que parar o carro.
Imediatamente, o Lula trocou de lugar com ele e dirigindo o veículo adentrou a emergência do Hospital Miguel Couto.

No dia seguinte, o comentário na agência, era o que poderia ter pensado algum desavisado deste nosso mercado ao ver o Lula dirigindo um táxi altas horas da madrugada?

Certamente que a então nascente VS Escala, não andaria nada bem das pernas, e que o sócio e diretor de criação estava sendo obrigado a fazer alguns "biquinhos" nas horas vagas.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

O “caso” do braço saidinho

Delano d’Ávila é um dos mais sérios e competentes profissionais de criação que conhecí. Como diretor de arte é respeitado por todo o mercado. E como diretor de criação, na Provarejo, principalmente, marcou presença nos caminhos da comunicação de varejo. Delano é também dotado de um grande senso de humor. Rí muito de suas histórias, quando trabalhamos na Salles. Agora, ele mandou o primeiro de uma série de casos que pretende divulgar por intermédio deste blog.

Estávamos recém-casados. O apartamento na rua Paissandu, pequeno mas aconchegante, todo acarpetado, transformava tal aconchego num calor danado nas madrugadas cariocas de verão. Isso fazia da inutilidade do ar condicionado do nosso quarto um desafio constante.

Naquela noite especialmente eu buscava posição pra dormir e revirava meu corpinho nada atlético de minuto em minuto.

Quem é publicitário criativo sabe disso. O turbilhão de pensamentos se misturava ao suor, aos leiautes, textos e prazos como num liquidificador. E aí sruuuuuunchhhhhhht! Meu braço saiu.
Não foi a primeira vez. Pouco tempo antes, numa pelada em Pedro do Rio eu pisava literalmente na bola, rodando, e ao cair na terra urrando de dor a torcida já gritava bicha, bicha, bicha! Fui milagrosamente salvo por um adversário médico que, hábil e experiente, encaixava meu ombro no lugar. Horas depois, braço na tipóia, chegando ao Miguel Couto, entre fraturados, esfaqueados e drogados, os raios X nada mostraram. E assim me acomodei e nada fiz como prevenção, a não ser quando “acordado” evitar certos movimentos sutis mas perigosos. Naquela madrugada não tive como.

Braço saído, eu gritava a plenos pulmões. Minha mulher Telminha já de pé e com a luz acesa, ao olhar a coisa não suportou a imagem esquisita e tonteou. Talvez algum nó de marinheiro dos sofisticados pudesse ser comparado ao jeito que o ombro distorcido aparenta. Como alternativa para evitar um provável desmaio ou vômito, Telminha imediatamente se pôs de gatinhas e foi ao banheiro anexo ao quarto buscar a boca da privada para não sujar o carpete. E eu gritando desesperado: “Meu braço saiu! Meu braço saiu!”.

Telma, sempre de gatinhas e sem saber direito o que fazer, pôs-se pelos oito ou nove metros do corredor em direção ao quarto de empregada. A empregada Linda, muito feia, uma teenager baiana de Vitória da Conquista ainda tímida e silenciosa chegara de lá três dias antes mas já havia demonstrado seu raríssimo preparo ao fritar uma caixa de raviolis supondo serem pasteizinhos, dormia profundamente suas três horas finais de sono.

Talvez meus gritos tenham acelerado Telminha que como um bebê gigante atravessava a sala, a cozinha e, não titubeou. Continuando naquela posição bizarra bateu com força ao pé da porta de Linda.

Eu ainda gritava loucamente no outro extremo do apartamento. A essa altura a vizinhança já teria despertado com o barulho..
Linda girou a maçaneta e abriu tão rapidamente como fechou. Não viu ninguém,
E eu gritando. E muito.

Ainda sonelenta e confusa com o tumulto, D. Linda refletiu por segundos e jurou estar sonhando.
Telma insistiu, bateu de novo e desta vez. Linda esfregou os olhos incrédula ao deparar com sua patroa naquela posição estranha exclamando: “ O braço do Sr. Delano saiu. Faça alguma coisa por favor!!!”.

No exato momento eu, de tanto insistir, conseguia, num daqueles movimentos inexplicáveis, encaixar o ombro, simultaneaemente aos apelos da baianinha procurando o braço pelo quarto: “ Onde ele está?” perguntou. “Estou aqui, não está vendo?.” Respondi mal-humorado. “Eu tô veno. Tô buscano o danado do seu braço, dotô. Onde foi pará?”

Enquanto Telminha tomava um Plasil e eu esfregava o ombro com Gelol, D.Linda saía sorrateira e eternamente porta afora.

Nunca mais se soube dela.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

"Casos" do Arco da Velha - I

Inicio com este uma série de “casos” que eu não presenciei, mas que me foram contados por profissionais mais velhos que os testemunharam.

O “caso” da mangueirinha

Aconteceu na McCann aqui do Rio de Janeiro. Não sei nem quem foram os personagens da história, mas, juro que aconteceu. Pelo menos assim me contou o inesquecível Glauco Chaves*.

Entrou um cara novo no Departamento de Arte. Logo se descobriu que o cara detestava homossexuais.

Um desse indivíduos que não tem o que fazer na vida, bolou então uma sacanagem.
Primeiro, e aproveitando a deixa, o alertou que havia um veado no departamento.

Simultaneamente começou a falar com o outro diretor de arte (o tal que ele dissera que era veado) que o Fulano, que havia recém-entrado, tinha lutado na guerra, e... ficou... capado. Que, inclusive mijava por uma mangueirinha.

Isso aguçou a curiosidade do dito cujo. Na verdade o tal mau caráter previu que um dia eles iam se cruzar no banheiro. Na McCann o banheiro, como outros naquele tempo, era daqueles grandes com um enorme mictório. E banheiros, então, não tinham separação nos mijadores.

Um belo dia aconteceu, e eles foram ao banheiro simultaneamente.

O curioso não agüentou. Ao ver o cara do lado, esticou-se, e, com o rabo do olho deu uma sacadinha tentando ver a tal mangueira.

Pra que !!! Ao perceber a olhadela, o sujeito ficou possesso de raiva e avançou para cima do suposto “veadinho”, cobrindo-o de porrada.

* Conheci o Glauco quando fazia estágio na McCann. Era um diretor de arte, ilustrador e pintor. Ganhou o “Prêmio de Viagem a Paris” numa exposição do Museu Nacional de Belas-Artes. O Glauco era uma figura excessivament boa, dessas que é incapaz de matar uma mosca. Tanto que o Flávio Colin, com sua ironia perpicaz, o apelidou de “Malvadeza”.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Novo Blog na Rede

Você gostaria de saber alguma coisa sobre uma cidade “mui leal e invicta” em Portugal?

E que tal uma crítica ao maior fabricante de fumos para cachimbo no Brasil?

Ou ainda acompanhar a tragetória acidentada de um jovem em viagem pelo interior do Brasil?

Isto tudo e muito mais você encontra no novo blog “Pensatas”
de Jonga Olivieri.

NÃO PERCA !!!

O endereço na web é: http://jongas.blogspot.com/

O "caso" do melhor lugar para jogar

Favilla e eu realmente gostávamos de um joguinho de xadrez. Começamos dentro da agência com vidros de guache, ecoline e outros apetrechos, fartos na época.

Era uma distração nos raros momentos de folga que tínhamos na L&M. Ou que a gente forçava para relachar, no auge das ansiedades do processo criativo.

Um belo dia, Victor Kirowsky aproximou-se, deu uma sacada naquele jogo doido e apontou um cheque-mate*. Tudo no imaginário.

O que começou como uma brincadeira, aos poucos foi tomando forma. Desenhamos um tabuleiro de papelão e íamos desenvolvendo nossas estratégias enxadristas naquele improviso.

Mas, um belo dia, nos lembramos daquele xadrez dentro de uma embalagem de plástico duro, com uma tampa transparente e com pinos segurando as peças. Especial mesmo para quem se movimenta, e possibilitando que o jogo não se desarrume durante deslocamentos. Além de ser pequena. Cerca de 15x15cm, o que facilitava guardá-la facilmente.

Despencamos, hora do almoço afora e conseguimos comprá-lo em uma loja de brinquedos, das muitas existentes no centro da cidade.

Parecíamos duas crianças quando adentramos a agência para aproveitar o que nos restava do intervalo do almoço, para começarmos uma primeira partida com bispos e cavalos num tabuleiro também de verdade.

O fato é que a Lei de Murph nesses momentos funciona mesmo. Mal chegamos, ao notarem a nossa presença, fomos chamados para uma reunião urgente. Tivemos uma tarde repleta de tarefas, só para atrapalhar os nossos planos de lazer e paz com uma bela partida de xadrez. Sorte que naquele dia mesmo comprovamos a utilidade da caixa. Fechamo-la sem destruir as poucas jogadas iniciais que havíamos feito. Pelo menos isso nos deu uma sensação extrema de conforto.

Tínhamos por hábito dar uma passada no Aurora, aquele “velho boteco” da Humaitá, principalmente nesses dias de estresse, para uma relaxadinha antes de seguirmos para nossas casas, ambas naquele mesmo bairro.

E não é que ali chegando nos lembramos de nossa partida interrompida? Prontamente abrimos o joguinho e o continuamos entre ruídos de pratos, bandejas, vozes de garçons alucinados fazendo pedidos aos berros e aquele característico zum-zum-zum de um botequim repleto de gente.

Todo mundo que passava nos olhava. E nós... nem aí, envolvidos que ficamos naquele memorável jogo de xadrez. E aquilo, tornou-se um hábito freqüente, uma rotina, já que na agência não podíamos nos concentrar o suficiente para um jogo sério.

(*) Episódio contado pelo Favilla em “O caso do cheque-mate”, publicado neste blog em dezembro passado.