quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O “caso” da etiqueta invertida

Mais um "caso" de Delano d’Avila.

Nasci em berço bom. Digamos que de bronze pelo menos era. Ter me criado nos bons tempos de Botafogo, num dos prédios mais bonitos da Voluntários e que existe até hoje para comprovar, avalisa este status quo.

Meu pai, na época o famoso fotógrafo Ávila que convivia nos meus tempos de criança, com gente da alta sociedade, do show business carioca e de publicidade, fazia questão de que nos portássemos, mesmo na intimidade da família, como nos ridículos jantares das mansões dos clientes milionários e famosos.

Daí cheguei às atividades publicitárias, onde não são raras as vezes de se pôr tais procedimentos à toda prova. Fui testemunha desde o início de um nível educacional gastronômico que, mesmo das figuras mais destacadas do meio, deixava a desejar e assim, diante da proporção, me coloquei no peito uma medalha de prata, elevando então o patamar de nascença.

Trabalhava aos vinte e poucos anos, numa agência chamada JMM, poderosa, grandes contas e muito divertida apesar do trabalho desmedido. O conhecido e brilhante Lula Vieira, sócio do Medeiros e meu diretor de criação na época, solidário com minha necessidade de descanso convidou-nos para um fim-de-semana em Mar del Plata. Assim, de repente. Numa quinta-feira. E lá fomos nós, Telma, eu, o Lula e sua esposa.

Aos 40 minutos de vôo, num 747 lotado, era servido um espetacular coquetel de camarão. Daqueles em que a taça tinha que ser bem alta para que os crustáceos não se arrastassem na mesinha. Delícia! A fome ajudou a trucidar os bichinhos em segundos.

A mudez dos passageiros deixava escutar os sons dos talheres e os passos da aeromoça que em poucos minutos retirava o material da refeição com seus resquícios de sauce golf. Em seguida veio oferecendo uma xícara para algo que parecia um chazinho bem quente. Aceitei feliz e compenetrado ajustando o finesse que a situação exigia. Segurei a alça da xícara sem o mindinho espetado para cima, dei uma sopradinha e slurp! Sorvi cuidadosamente para não queimar a língua o primeiro e último gole daquele líquido sem graça.

Lula com seu jeito estrepitoso não poupou seu companheiro de viagem: “Sua besta! Isto não é para beber, sua zebra, isto é lavanda, seu energumeno!” E foi desfilando, entre os dentes, seu vasto vocabulário de impropérios enquanto eu agradecia aos céus estarmos na última linha de poltronas, onde muito pouco ou quase nada poderia ser flagrado pelos vizinhos, mesmo pelos mais curiosos. Cabe dizer, para quem não o conhece, que Lula não foi grosseiro ou estúpido comigo. Seu jeito sempre foi assim e transformava supostas ofensas ou desacatos numa espécie de carinho aos mais chegados. Na época eu era um desses. Aprendi. Aprendi?

Mesmo contrariado, meses depois fui transferido para SP, uma de suas filiais. Transformaram o depósito nos fundos da casa da agência na rua Goitacás num quartinho mimoso e confortável. Era lá, nas manhãs de segunda que eu recuperava as noites mal dormidas nos ônibus da Cometa, da Única ou do Expresso Brasileiro. Mas isso é outra história.

Bem, numa conversa com a secretária do diretor geral cujo nome (desculpe) não lembro agora revelei minha paixão de comer polvo. Grelhado com batatas à doré, cozido e servido à portuguesa ou então ao Real Pote, môlho sofisticado e servido generosamente no extinto restaurante do calçadão do Leme. Dizendo-se parceira, ela instantaneamente prometeu me levar a um lugar misterioso, e fez disso tanto segredo que me despertou uma mistura de curiosidade e água na boca por duas longas semanas. O mistério foi mantido até a hora em que entrávamos, ela, eu e outra colega do atendimento, pelo corredor central ladeado por imensos aquários. O mar era ali, vivo. A comida quase isso, crua.

Hoje, convencido pelo sucesso dos japoneses da área e pela paixão dos meus filhos pelos sachimis até respeito, mas me recuso a voltar. E olha que sempre me considerei uma espécie de avestruz gastronômico, bem diferente da maioria que rejeita as iguarias mais extravagantes. Na hora do repasto, constrangido pelo contraste da expectativa, cedi gentilmente para uma delas minha tábua ainda cheinha depois que o polvo, cru e duro que nem pedaço de pneu, alternou os lados da minha mucosa bucal por dezenas de vezes.

Mesmo em jejum, ao final, disfarçando a fome, aceitei a lavanda, E mantendo um ar de conhecimento absoluto, refletindo a experiência recente, enfiei as duas mãos na “mesma xícara do 747” de poucos meses atrás. A entreolhada e o sorriso cúmplice das companheiras foi suficiente. A vontade de sumir do lugar lotado nem dá pra expressar. Me senti com um Japão inteiro a me cravar os olhos boquiaberto e ouvindo na consciência os mesmos impropérios do Lula, aí invertidos.

Pagar a conta foi o mais fácil, já longe do salão. Levei as companheiras em suas casas de táxi. Silêncio absoluto. No mesmo táxi, fui terminar a noite sozinho no Filet do Moraes. Delícia com agrião! E lá não tinha chá nem lavanda.

5 comentários:

PC disse...

Muito bons os casos do Delano!
Eu também sou um avestruz gastronomico, mas comer polvo cru já é demais. O do Lula Vieira taxista também foi muito engraçado!

Caro Jonga, gostaria de sugerir um tema para um próximo caso seu, que tal tratar dos incidentes curiosos que ocorrem no relacionamento entre o atendimento e a criação?

Jonga Olivieri disse...

Meu caro PC, que ainda bem não é o Farias, mas continua tão misterios quanto o Amigo Oculto.
Aliás, como ele, ou é cliente, ou é de atendimento. pelo menos dsão pistas.
Acho que nunca escrevi um caso sobre essa velha seqüela que é a "briga" atendimento x criação.
Se for fuçar, vou encontrar. Se os dois neurônios que ainda tenho (o Tico e o Teco) o permitirem.
Vou tentar me lembrar, e o posto aqui neste blog, assim que o tiver.
Mas, falar em Delano, quem sabe ele tem algum?

isabella disse...

O Delano leva jeito. Quem conhece o Lula sabe que ele reproduziu direitinho a forma de falar dele. Um barato.
Bebel

Jonga Olivieri disse...

Realmente Bebel. O Lula fala deste jeito mesmo.
E o Delano foi de um grande realismo e fidelidade ao reproduzir o papo no avião.

Jonga Olivieri disse...

Agora, aguardem, amigos, v%em mais contadores de histórias por aí.
Eu vos prometo...