quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O “caso” da velha richa

Um leitor do blog me pediu um “caso” sobre os velhos problemas entre atendimento e criação. Claro que de um ponto de vista engraçado. Não me ocorreu nenhum. Ou os meus últimos dois neurônios (o Tico e o Teco) estão realmente sucumbindo por excesso de trabalho ao longo de tantos anos. Lembrei-me de muitos casos tristes, tão tristes e obscuros, que, juro pelos deuses que um blog como esse não merece uma postagem assim.

Ademais, sempre me dei bem com o pessoal de atendimento que conheci. Tal e qual os meus dois neurônios, meia dúzia de contatos no máximo. Porque o resto é boy de luxo. É leva-e-trás recadinho de cliente.

Atendimento era o Giancarlo Marchesini. Quem o conheceu sabe disso. O Gian, pegava o rough inacabado em papel manteiga da prancheta, levava pro cliente, e voltava com o anúncio aprovado. Mas, como o que é bom dura pouco, a cirrose levou o nobre colega ainda muito moço, pois... como nada é perfeito, ele bebia pra caralho! A última vez que estive com ele foi na Lintas em São Paulo. Tomamos um porre num bar ali na Haddock Lobo, pertinho da Paulista.

Victor Kirowsky, o Vic tinha uma piadinha daquelas dele, em que dizia que quando chegava um estagiário na McCann, colocavam uma prancheta cheia de guaches, pincéis e papéis, de um lado. Do outro, um monte de feno. Se o cara fosse para o monte de feno, certamente faria estágio no atendimento.

Mas quando comecei em publicidade, haviam bons contatos. Sujeitos de formação acadêmica, advogados, arquitetos. Com o passar do tempo foi piorando cada vez mais.

- Não adianta, o cliente quer assim... Dizia uma “mimada” estagiária de uma agência em que trabalhei, e que só estava ali porque era parenta de um dos sócios da empresa.

Mas, não é só ela. O boy de luxo é reconhecido à distancia nos seus primeiros passos. Ou palavras. Têm os impertigados. Um deles, que eu não vou citar o nome aqui, o Fabinho, na Salles, apelidou de “Gardelão”. Como Gardel, tinha uma pose que só ele. Ternos de grife, abotoaduras de ouro. À primeira impressão, um misto de lorde inglês com galã hollywoodiano da época do Clark Gable. Talvez o próprio. Tinha até aquele leve levantar de sobrancelha. Uma só. E o olhar “433” que tentava demonstrar uma puta duma experiência.

Outro, numa agência em que trabalhei faz tempo, tinha mania de pedir à criação um layout no capricho. O diretor de criação, puto da vida respondia que aquilo ali não era botequim para se fazer um sanduíche de pernil caprichado.

Tem também aquele contato “boa praça”, que entra na criação, é amigo de todo mundo, mas que na hora agá, não aprova nada. Uma vez, fui com um desses numa apresentação. Logo de que? De um cartão de natal! Geralmente uma das peças mais complicadas para um cliente aprovar. Costumo pensar em sugerir cartões da Unicef, toda vez que um deles começa a ser feito e refeito, às vezes por meses. Mas, como ia contando, eu vi, juro que vi, o boy de luxo jogar o layout em cima da mesa e dizer algo no gênero de “Aqui está o seu cartão de natal”. Juro que gelei. E claro que... voltou.

Hoje em dia, como frila, sou o atendimento da maioria das peças que crio. Tem que ter aquela leve “esquentadinha”. Tem que preparar o cliente, criar um clima para poder vender o peixe. Principalmente se for cartão de natal, minha nossa!

Quando diretor de criação*, sempre tive muitos choques com o atendimento, devido à mania que os(as) caras têm de passar modificações propostas pelos clientes sem nada por escrito. Quando é passado de boca, fica somente o disse-não-me-disse.

Acabei tendo desavenças, e até criando inimizades por causa disso. Em Beagá, tem uma “contata” que nem pode ouvir o meu nome (a recíproca é verdadeiríssima) devido à situação ter ficado preta entre nós por causa de um simples papel...

E, certa ocasião pedi demissão de uma agência porque mandei o cara tomar naquele lugar. Como nesta agência tudo virava “inquisição”, antes que isso acontecesse, fui ao DP e entreguei a carta. Em caráter irrevogável. E assim o foi. O patrão me chamou e disse que se eu pedisse desculpas ao “pirralho”, poderia continuar. Quase que mandei ele também. Bom, na verdade o fiz, porque só voltei lá para acertar minhas contas.

É isso aí, caro leitor. Como você pode constatar fica fácil compreender porque eu não costumo contar casos sobre atendimento. Exceção feita a “O ‘caso’ do voltooou” (publicado neste blog em 01/11/006), que, aliás, envolve um dos seis bons profissionais de atendimento que conheço.

Como eu disse, tudo isso pode até parecer engraçado. Mas, que dá uma vontade de chorar, lá isso dá.

(*) Como diretor da arte a gente até se cala para não arranjar desentendimentos, mas quando se é responsável por toda a criação, a gente tem que assumir uma postura. Aí, acaba brigando.

6 comentários:

isabella disse...

Nem noitsdas de carnaval võa me fazer relazar tanto quanto este seu texto. Deve ser uma peleja mesmo. Do tipo Grêmio x Inter. Gostei demais do pedido de demissão. Valeu.

Jonga Olivieri disse...

Olha, essa disputa, ou peleja, como bem o disseste, gaúcha, é trilegal...
Já assiti casos incríveis sobre isso. O mais comum é mentirem sobre prazos de apresentação. Exemplo, pedem par ao dia seguinte e a peça fica uma semana mofando na sala do gajo.
Aí você manda o cara tomar... a;i mesmo e ainda perde a razão.

jr disse...

Olha, essa briga tem explicação, Como cliente sei disso. Sentimos quando um atendimento é bom ou não. Pior é que contas se perdem, agências fecham e não sabem bem porque. É isso mesmo. Poe exemplo, você falou em estagiários atendendo clientes. Éa te ofensivo para o cliente sentir-se attendido por um estagiário. A não ser que ele vá acompanhando o reponsável pela conta. Agora, é cada vez mais comum esse tipo de conduta.

Jonga Olivieri disse...

Vicê foi no cerne da questão.

Seré que algum cliente vai se sentir satisfeito em botarem um(a) pirralho(a) para atender sua conta?

Acho que nenhum. É até um despretígio, uma atitude de menospreso epla sua importância,

Sem dúvida alguma.

Redatozim disse...

Pois aqui na TOM nós criamos o "Cantinho do Feno", um quadro com as principais pérolas do atendimento. Quem tivesse a melhor ao final de um ano ganharia o troféu Arreio de Ouro e um suprimento vitalício de feno.

Jonga Olivieri disse...

Grande, Maurilão, grande...
Esse povo do "leva-e-trás", realmente é muito medíocre.
A idéia do prêmio tem que ser difundida.
Parabéns à TOM.