terça-feira, fevereiro 06, 2007

O “caso” do braço saidinho

Delano d’Ávila é um dos mais sérios e competentes profissionais de criação que conhecí. Como diretor de arte é respeitado por todo o mercado. E como diretor de criação, na Provarejo, principalmente, marcou presença nos caminhos da comunicação de varejo. Delano é também dotado de um grande senso de humor. Rí muito de suas histórias, quando trabalhamos na Salles. Agora, ele mandou o primeiro de uma série de casos que pretende divulgar por intermédio deste blog.

Estávamos recém-casados. O apartamento na rua Paissandu, pequeno mas aconchegante, todo acarpetado, transformava tal aconchego num calor danado nas madrugadas cariocas de verão. Isso fazia da inutilidade do ar condicionado do nosso quarto um desafio constante.

Naquela noite especialmente eu buscava posição pra dormir e revirava meu corpinho nada atlético de minuto em minuto.

Quem é publicitário criativo sabe disso. O turbilhão de pensamentos se misturava ao suor, aos leiautes, textos e prazos como num liquidificador. E aí sruuuuuunchhhhhhht! Meu braço saiu.
Não foi a primeira vez. Pouco tempo antes, numa pelada em Pedro do Rio eu pisava literalmente na bola, rodando, e ao cair na terra urrando de dor a torcida já gritava bicha, bicha, bicha! Fui milagrosamente salvo por um adversário médico que, hábil e experiente, encaixava meu ombro no lugar. Horas depois, braço na tipóia, chegando ao Miguel Couto, entre fraturados, esfaqueados e drogados, os raios X nada mostraram. E assim me acomodei e nada fiz como prevenção, a não ser quando “acordado” evitar certos movimentos sutis mas perigosos. Naquela madrugada não tive como.

Braço saído, eu gritava a plenos pulmões. Minha mulher Telminha já de pé e com a luz acesa, ao olhar a coisa não suportou a imagem esquisita e tonteou. Talvez algum nó de marinheiro dos sofisticados pudesse ser comparado ao jeito que o ombro distorcido aparenta. Como alternativa para evitar um provável desmaio ou vômito, Telminha imediatamente se pôs de gatinhas e foi ao banheiro anexo ao quarto buscar a boca da privada para não sujar o carpete. E eu gritando desesperado: “Meu braço saiu! Meu braço saiu!”.

Telma, sempre de gatinhas e sem saber direito o que fazer, pôs-se pelos oito ou nove metros do corredor em direção ao quarto de empregada. A empregada Linda, muito feia, uma teenager baiana de Vitória da Conquista ainda tímida e silenciosa chegara de lá três dias antes mas já havia demonstrado seu raríssimo preparo ao fritar uma caixa de raviolis supondo serem pasteizinhos, dormia profundamente suas três horas finais de sono.

Talvez meus gritos tenham acelerado Telminha que como um bebê gigante atravessava a sala, a cozinha e, não titubeou. Continuando naquela posição bizarra bateu com força ao pé da porta de Linda.

Eu ainda gritava loucamente no outro extremo do apartamento. A essa altura a vizinhança já teria despertado com o barulho..
Linda girou a maçaneta e abriu tão rapidamente como fechou. Não viu ninguém,
E eu gritando. E muito.

Ainda sonelenta e confusa com o tumulto, D. Linda refletiu por segundos e jurou estar sonhando.
Telma insistiu, bateu de novo e desta vez. Linda esfregou os olhos incrédula ao deparar com sua patroa naquela posição estranha exclamando: “ O braço do Sr. Delano saiu. Faça alguma coisa por favor!!!”.

No exato momento eu, de tanto insistir, conseguia, num daqueles movimentos inexplicáveis, encaixar o ombro, simultaneaemente aos apelos da baianinha procurando o braço pelo quarto: “ Onde ele está?” perguntou. “Estou aqui, não está vendo?.” Respondi mal-humorado. “Eu tô veno. Tô buscano o danado do seu braço, dotô. Onde foi pará?”

Enquanto Telminha tomava um Plasil e eu esfregava o ombro com Gelol, D.Linda saía sorrateira e eternamente porta afora.

Nunca mais se soube dela.

5 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Del,
Quero ser o primeiro a postar um comentário ao seu caso, muito embora seja até suspeito, pelo fato de tê-lo publicado.
Além de excelente diretor de arte e diretor de criação, você é um grande contador de histórias.
Parabéns!

amigo oculto disse...

Ótimo o caso do Delano.
Que continue a mandar mais.
A.O.

Jonga Olivieri disse...

Ele mandou dizendo que era o primeiro. Além disso havia me dito ao telefone que mandaria vários.
Aguarde, portanto.

Anônimo disse...

Delano "Borboleta" Dávila, bom saber que temos mais um contador de causos no pedaço.
Mande mais, mande mais!
Luiz Favilla

Jonga Olivieri disse...

Graaaande Favilla,
Você lembrou bem das borboletas, pois o Delano sempre foi colecionador e 'caçador' de libélulas.
Aliás, uma das grandes campanhas dele para a Mesbla se baseou numa borboleta que, parada, formava com as asas um 88. E assim saiu o filme de natal daquela rede de lojas naquele ano.
Fantástico!