segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O “caso” do monstro

Comecei minhas atividades em publicidade com o pé direito. Na época em que entrei na McCann Erickson do Rio de Janeiro, em 1965, ela era uma agência escola.

Não é pra menos. Só a equipe. Na minha sala, que era colada à do diretor de criação, o argentino Oscar Gosso, ficavam o Mello Menezes, diretor de arte e ilustrador, o Vilmar desenhista, cartunista e ilustrador, o Humberto “Tatu”, letrista e o Antônio Celso, o Toninho, também diretor de arte, este ainda júnior.

Havia outra sala, também do departamento de arte. Nela ficavam o Victor Kirowsky, diretor de arte, o Mello (euro asiático nascido em Macau, e que depois mudou-se para o Canadá), diretor de arte especializado em TV e o Flávio Colin, ilustrador, que substituiu o Quiroga, argentino, que saiu dias depois que eu entrei para voltar à sua terra natal. O Benício - já conceituado ilustrador - acabara de mudar para a Denison (que era outra grande escola), junto com o Pêcego e o Waldo Mello, ambos diretores de arte. Só gente da pesada! Verdadeiros monstros!

O departamento de redação, naquele tempo era separado. Mas, pelo menos ficava no mesmo andar. O nono da rua México, 3. Ali ficavam o Pedrosa, o Mauro Matos... chega? Tinha mais. O Athayde, sobrinho do Austragésilo (ele mesmo, o presidente da ABI). E ainda o Pedro Camargo, que, além de redator publicitário, dava-se ao luxo de ser compositor. Compôs uma música que fazia sucesso: “A chuva”, tocada com muita bossa pelo conjunto “Os Gatos”.

Não é à toa que aquilo foi uma grande escola para mim. Em tempos de prancheta, guache e pincéis, um diretor de arte tinha muito o que ralar para adquirir a expertise da profissão. Era muito detalhe. Saber manchar (o nome que se usava para uma rápida ilustração do layout), marcar letras, calcular a área de texto, e por aí afora. Graças àqueles com quem tive a sorte de conviver e aprender tão de perto, ali eu me formei e até fiz mestrado nessas cositas. Sou-lhes, até hoje grato, pelo que fizeram por mim.

Mas tem um termo, que também comecei a falar, como todo mundo, que era “monstro”.

“Monstro”, vinha a ser um jingle mal tocado só para o cliente aprovar. Sim, porque naquele tempo, como não haviam esses sintetizadores musicais e os softwares de música que hoje existem às pamparras, um jingle, precisava de muitos músicos para ser realizado. O “monstro” era feito com simplicidade, um pianinho, ou um violão, só para dar o clima numa peça mais barata. Se o cliente não gostasse, não se gastava uma nota preta sem necessidade. Se gostasse, produzia-se o definitivo.

Mas o mais engraçado é como a gente fala as coisas, pensando em um lado, e esquecendo o mais elementar. Eu, e muita gente, achava que era “monstro” simplesmente por ser grotesco, primário, mal lapidado. Enfim, monstruoso.

Um belo dia, descobrí que a palavra era a tradução de demonster, que algum desavisado, um dia deve ter traduzido de the monster.

Ai, se o dr. Frankenstein soubesse disso.

11 comentários:

Redatozim disse...

É que nem busdoor. Fizeram uma bagunça e o que era pra ser mídia em ônibus, virou "porta de ônibus" em inglês. Ai, ai, ai o meu saquinho.

Jonga Olivieri disse...

O pior é que até hoje tem quem fale "monstro".
O nome pegou.

Anônimo disse...

Oi, Jonga.
O "causo" que você contou é bem do tempo daquela foto que te mandei.Obrigado pela rememoração das boas lembranças daquela época . Que saudade do Eddie Moyna, do Glauco, do Wilmar, de tantos companheiros da nossa juventude...

Um abração do Benicio.

Jonga Olivieri disse...

Eram pessoas fantásticas mesmo, meu caro Benício.
Ficaram as boas recordações deles.
Ainda me lembro da última vez em que estive com o Vilmar.
Foi na casa do Ronaldo Graça. E lá estavam também o Fernando Girardó (é assim que se escreve"), o Gosso.
Menos de um ano depois, ele se foi.
E foi de cirrose, apesar de não beber, por causa de uma hepatite que teve quando adolescente.
Grandes figuras que nunca sairão da nossa memória pela riqueza espiritual que tinham.

isabella disse...

Puxa vida, Olivieri. Turminha cheia de monstros mesmo. Sao pessoas conhecidas atepara quem nao e do meio de publicidade. O Benicio e um deles. O Vilmar eu conhecias as caricaturas dele. eram muito comuns em livros.
Desculpe mais estou com problemas com os acentos.

Jonga Olivieri disse...

E eram divertidos. Como eu curtia as loucuras de lá.
Tinhamos um conjunto musical: "Os Filhos da Pauta". O Mello Menezes na bateria, que era aquela vassourinha de limpar prancheta, raspando em cima de um papel manteiga. O Humberto "Tatu" na caixinha de fósforos, eu no contra-bixo nasal (tcum, tchum, tchum), e o Antônio Celso mandava um afinado: "UIRAPURUUUUUUUUUU, UIRAPURUUUUUUUUUU..."

jr disse...

Ih, essa terminologia de publicidade tem dessas coisas. Cara, tem gente que pensa que ROUGH se escreve RÁFE. Chiiii.

Jonga Olivieri disse...

Mas é mesmo.
Têm termos que as pessoas confundem e aportuguesam. No caso do "ráfe" (ao invés de "rough"), até não altera o sentido. É como "caubói". Monstro é de faot um exemplo em que o sentido muda completamente.
Agora, engraçado é o tal "porta de ônibus" que o Maurilo comentou. Uma tradução ao pé da letra do tipo: "the cow go to swamp", que já originou até título de livro.

Anônimo disse...

Oi, Jonga

Alguns destes monstros com quem você conviveu
e aprendeu coisas, tive a felicidade de ser companheiro do Flávio Colin na Denison, bem meu no iniciozinho.
Generoso em todos os sentidos, Flávio não só me dava dicas como alegrava com seu humor especialíssimo aqueles tempos memoráveis.
Meu parceiro direto era o Salvador, letrista fantástico, mas que de tão hipocondríaco era sacaneado diariamente pelo Flávio, sarcástico e eterno gozador.
Viraria assim, se nosso exímio ilustrador quizesse,
um riquíssimo personagem de cartoon para o Flávio. Como ainda é (e como!), por exemplo, o Cascão para o Maurício de Souza.
Salvador e eu éramos tão companheiros que quando recebi uma proposta e me despedi deles, o Flávio me deu uma folha daqueles blocos brancos grandes com uma charge mostrando o seguinte:
horizonte de entardecer, numa trilha central eu de cowboy e minhas pernas tortas andando de costas
ladeado pelos cactos e ossadas de animais.
Em primeiro plano o Salvador, seu narigão, ‘as lágrimas, acenava inconformado.

Não dá pra esquecer.
Aliás, onde anda o Salvador, quem sabe?

Abraço,
Delano

Jonga Olivieri disse...

Olha, Delano, o Flávio era realmente um sujeito fora de série no tocante ao seu senso de humor.
Lembro-me que quando o conheci, ele residia em Botafogo, perto da casa dos meus pais. onde eu morava então.
Ia na casa dele e ficava me deliciando com os casos que contava.
Sempre na prancheta, que ficava no pátio internio de uma casa de vila na rua Humaitá (anos depois, morei na mesma vila, depois de casado) e contando aqueles "causos", fazendo as suas fantásticas ilustrações.
Foi uma personalidade inesquecível.

Carlos H. Moyna disse...

Oi Jonga, oi Benicio.
Eu sou filho do Eddie e nem sei como é que achei isso aqui. Sei sim, foi procurando pelo Mello Menezes.
Faz um tempo e eu encontrei o Benicio num workshop e bati um papo legal com ele.
Um abraço a todos!