quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O “caso” do postigo

Delano d’Ávila está impossível na sua produção de “casos”. Estou postando mais este que ele me enviou. Impagável, por sinal.

Zé Carlos era o meu melhor amigo. Andávamos juntos sempre, dentro e fora do colégio. De manhã, de tarde, de noite. Estudando, rindo, jogando bola, indo a bailes e cinemas. Minha amizade com ele foi assim, uma dupla de Zés que só não cantava junto porque meu amigo desafinava respirando. E ficava putíssimo quando eu dizia isso.

Nem a distância entre os endereços evitava estarmos juntos depois do colégio. Seu pai comprara uma nova padaria, a família saiu da 19 de fevereiro para a Senador Vergueiro e deixamos assim de estar, como antes, a 200 metros um do outro. Isso fez com que naquela noite, em seguida ao jantar, eu precisasse ligar pra casa e avisar à D.Ritinha que aceitaria o convite de dormir por lá, em frente ao cine Paissandú. O telefone da casa com defeito, não seria um grande problema ligar da padaria, ali pertinho, pouco depois da Rua Tucumã. Alguém conhece a Rua Tucumã? Pois é, de tão pequena e numa posição tão peculiar, poderia ser chamada de Cotovelo Tucumã já que simplesmente separa a Praia do Flamengo da Vergueiro onde esta se dobra num ângulo sutil.

Dado o telefonema voltávamos pra casa quando, naquele cotovelo, a velhinha esticou as canelas, A coitada levou uma trombada de algum veículo não identificado. Naquela época, às 10 e meia da noite pouca gente teria mesmo visto a cena. Mas vê-la ali daquele jeito produziu em poucos minutos uma roda de umas 30 pessoas em tôrno da mulher dos seus 75, 80 anos. Eu era uma dessas pessoas, o Zé Carlos não. Ficou na calçada esperando, evitando olhar e ter pesadelos depois. Encostei-me no paralama da rádio-patrulha preta que ali parada bloqueava parte da passagem dos carros. Morbidez acentuada a minha, fiquei ali contemplando por minutos, a 1 metro e pouco da cena, o corpo inerte que começava a ser coberto por jornais dos pés à cabeça. Antes de cobrirem a cabeça aconteceu o que guardo na memória intacto até hoje: a morta sorriu pra mim.

As explicações científicas diriam, e eu repasso aqui de forma coloquial, que aparentemente falecidos e com o sangue ainda quente ou coisa parecida, os animais podem se mexer em partes do corpo aleatoriamente, etc. etc.

A galinha degolada sái correndo, o rabo da lagartixa faz os ésses do pack-shot da Sadia, mas caramba, a velhinha bem poderia levanter uma perna, sei lá, mexer um braço, mas não, ela sorriu pra mim, mesmo. E o registro fixado na retina acentuou-se devido à sua dentadura visivelmente postiça, com aqueles dentinhos sem diferenças de intervalo e quase do mesmo tamanho. Artificialidade notória daqueles tempos assim como a brancura dos dentes da Daniele Winitz na novela das 8 de hoje.

A coincidência que relato a seguir pode parecer uma das que acontecem tanto nas próprias novelas, nos filmes ou nos roteiros de comerciais. Nestes últimos sempre evitei quando pudesse parecer mentira deslavada. A não ser quando a proposta criativa já contivesse o absurdo como estilo adotado, enfim. Voltando à história, naquela noite nem foi difícil dormir. Meu eterno amigo Zé Carlos amenizou meu trauma rindo muito da situaçåo e interrompemos o assunto conversando sobre um monte de outras coisas até o sono chegar de vez.

Dia seguinte em casa, tudo normal até quando meus pais saíram pro cinema. A famosa sessão das 10 faria com que chegassem bem depois da meia-noite. Minha irmã Letícia fôra dormir na casa de uma amiga e lá estava eu, sozinho, mas acompanhado da imagem sinistra da noite anterior. Tão acompanhado que ao me preparar pra deitar fazia, correndo como em desenho animado, os preparativos de antes da cama.

Ao apagar a luz da cozinha depois do copo de leite, disparava pro banheiro. Zoom na memória e o sorriso enorme, fixo. Dentes escovados, eu chispava pro quarto procedendo do mesmo jeito. E o sorriso lá na cabeça, intacto. Até apagar a televisão na sala, etapa final dos procedimentos, acelerar os passos e finalmente, ufa, enrolar nos pés o cobertor como se isso me protegesse do ataque final.

Por volta das 10 e pouco eu não conseguia pegar no sono. No enorme e pesado rádio que fazia as vezes de espaldar no sofá em que eu dormia, sintonizei um jogo de basquete, em São Paulo, animadíssimo: Mackenzie versus Ribeirão Preto! Seria uma forma apelativa de usar a chiadeira da transmissão como desconcentração no medo.

Luz apagada, jôgo correndo, o sorriso da velha no teto e a campainha da frente tocou. Tremi. Um arrepio disparou do calcanhar até a nuca. Quem seria? A velha? Mesmo numa hora como aquela e sem interfone, entrar no prédio era perfeitamente possível se fôssemos conhecidos cidadãos de bem das redondezas e, mais ainda, reconhecidos pelos porteiros como era o caso da Tia Gilda. Amiga mais velha e constante da D. Ritinha, ela saíra de outra visita próximo dali e aproveitava a passagem pelo nosso prédio para dar um pulinho lá em casa. Sabia que mamãe costumava dormir mais tarde. Pegou o elevador e chegando ao quadrado do pequeno hall do 11º andar, ‘as escuras, descobriu o botão da campainha antes do interruptor que acendia a luz do local.

Borrando o pijama de pânico fui atender. Nossa porta principal não tinha olho mágico. Descobrir quem era se fazia com a ação simultânea de acender a luz, fazer a pergunta tradicional “Quem é?” e o suspender da trava que segurava a lâmina do postigo. E não deu outra. O pequeno facho de luz foi direto na boca da visitante.

Oi, Delaaaaaaaaaaaano! A simpática saudação emoldurada pelo brilho da dentadura foi instantaneamente interrompida pelo maior grito que dei em toda vida. Algo que se fosse numa história em quadrinhos atravessaria de alto a baixo uma página dupla, com letras garrafais, tremidas e irregulares.
Algo como “Uaaawwwhhhhhhhhaaaiiiuuuuuhhhhhh!”

Tão surpreendida e assustada como eu, ela soltou um berro muito parecido e até talvez outros sons tenham sido encobertos pelos altos decibéis das gargantas. Muito provável.

Tia Gilda, que só era chamada assim por carinho, voltou a nos visitar semanas depois. Dessa vez durante o dia.

9 comentários:

isabella disse...

O Delano Dávila está mesmo uma fera. Já eó terceiro caso dele publicado em tão pouco tempo. Este caso é muito engraççado.

Jonga Olivieri disse...

Concordo.
Aliás, eu me recordo que era um dos casos engraçados que ele contava nos tempos em que trabalhamos na Salles.
E ele está, como eu disse mandando casos um atrás do outro, numa produção muito boa.

jr disse...

Ih, o Delano é um bom contador de histórias. Quem não teve medo alguma vez na vidsa de ficar só. Esse troço de ficar sozinho em casa quando adolescente é um probleam muito sério

Jonga Olivieri disse...

Eu morria de medo de filmes de apaches, quando os índios eram maus no cinema, geralmente os apaches eram os piores...
Mas, minha infância e juventude foi toda asssim.
Só vim encontrar índio "corretamente corretos" depois de adulto.
Antes eram tenebrosos.
Era difícil dormir depois de um filme "daqueles".

amigo oculto disse...

esse caso da velha, sai da frente é muito engraçado. continua assim delano, vale a pena contar estórias desse calado.

Jonga Olivieri disse...

E você, Amigo Oculto, merece ter um comentário assim ser publicado.
Afinal, algo melhor da sua parte...

isabella disse...

Caramba, Olivieri, você autorizou finalmente uma mensagem do A.O.
Estava com saudadrs

Jonga Olivieri disse...

Sabe, Bel, acho que vc tem um caso com o A.O. e não quer me dizer...
Afinal, como eu disse a ele mesmo, este é um comentário construtivo,

jr disse...

Chiii, Joanga, não liga pra isso não.