quinta-feira, março 29, 2007

O “caso” do Anuário

Achei interessante continuar as peripécias no Clube de Criação de Minas. Pois segue a seqüência do “caso” do clube etílico:

Após um ano de presidência no Clube de Criação de Minas, finalmente eu estava saindo daquela árdua função, ufa! Mas, o relax durou pouco, juro. Chico Bastos, o novo candidato a presidente me chamou para ser vice-presidente na sua chapa. Tipo da situação difícil. Mal o conhecia e não dava para dizer um não taxativo. Acabei topando.

A idéia básica do Chico, aliás sua plataforma na candidatura foi a publicação de um Anuário do clube. Um sonho antigo do mercado. Daí a sua fácil vitória. Mas, a coisa era complicada. Numa época de pastups e cola de borracha, ainda era tudo mais complexo. Mas o certo é que já na primeira reunião da nova diretoria, foi abordada a questão. Como realizar a “hercúlea”tarefa? Isso tudo era um desafio. Para o Chico, no entanto tudo era “muito simples”. Iríamos conseguir anúncios de agências, produtoras e gráficas do mercado para financiar a empreitada. E era realmente engraçado, porque a cada empecilho que surgia, o Chico dizia: “... isto é muito simples...” e desandava a tecer teorias que nos deixavam tranqüilos quanto ao resultado final.

O primeiro grande problema que apareceu foi a questão de quem iria julgar os trabalhos. Havia uma tendência a não querer que o julgamento fosse feito por profissionais do mercado local devido a simpatias, antipatias e parcialidades. Surgiu uma idéia que caiu como uma luva. Seriam chamados profissionais de fora, preferencialmente do Rio e de São Paulo para fazer parte do júri. Coisa que daria uma isenção e neutralidade totais.

Na primeira leva, chamamos o Nizan Guanaes (ainda na WGGK*) e mais dois profissionais de São Paulo. Eu fiquei encarregado de chamar o Nizan, até pelo fato de o conhecer pessoalmente. E assim o foi. Combinamos tudo direitinho, e, num sábado estavam lá os três “paulistas” para julgar as peças. Primeiro fomos pegá-los no aeroporto. Depois nos dirigimos ao SSV** para assistir ao material de TV e ouvir os spots e jingles de rádio inscritos, pois este grupo iria julgar apenas as peças eletrônicas. Após isso, que levou um bom pedaço do dia, fomos almoçar com eles (tipo cinco da tarde) num restaurante de comida típica mineira. O que foi um sucesso.

Depois, viriam mais grupos para ser jurados das peças de mídia impressa de jornais, revistas e outdoors. Não cheguei a estar presente nessas ocasiões, pois uma proposta do Rio me afastou do mercado mineiro e tive que abandonar não somente a vice-presidência, como também a empreitada do Anuário. Mas valeu. A idéia estava plantada. Hoje, o CCMG já publicou várias edições, todas de um excelente nível. Sem dúvida, graças àquela primeira tentativa.

Dois anos depois, em 1989, estava eu novamente integrando um Clube de Criação. Desta feita o do Rio de Janeiro, durante a presidência do Mauro Matos, que me chamou para fazer parte da sua diretoria. Foi outra experiência muito interessante em que, inclusive participei da edição de um jornal que ficou muito bom. Aliás, já contei um pouco dessa história em o “caso” do leão, publicado neste blog em 24 de agosto de 2006.

(*) Naquele tempo a agência de Washington Olivetto era a WGGK, por estar associada à austríaca GGK, hoje Lowe GGK.

(**) SSV (Sistema Salesiano de Vídeo) era a maior produtora de vídeos de Beagá na época, e funcionava num prédio acoplado à PUC.

segunda-feira, março 26, 2007

O “caso” do clube etílico

Quando cheguei a Beagá, em 1985 para assumir a direção de criação da ASA, estava com todo o gás. Afinal, era a primeira vez que eu alcançava este posto. Apesar de quase vinte anos de janela e exatos quarenta de vida, fiquei preocupado com a nova função e a responsabilidade nela inserida. Afinal, eram três duplas de criação, um estúdio (com nem me lembro quantos profissionais), além da produção gráfica, o tráfego e o RTVC sob o meu comando. E eu não conhecia ninguém, pois também nunca trabalhara no mercado mineiro.

Em determinada ocasião, algum tempo antes, fizera uma investida em Belo Horizonte, visitando a Setembro. Estive na época com o Almir Salles, por indicação do meu sogro, que o conhecia, e fui apresentado ao David Paiva, que era o diretor de criação. Na mesma ocasião rodei bolsinha pela L&F, ocasião em que conheci o Bosco e o Jura. Mas, minhas férias acabaram e eu não fechara nada de concreto. Daí, voltei para o Rio de Janeiro.

Mas, anos após, estava eu ali na ASA. Carlos Areias, com quem trabalhara na Salles, me chamou para lá. Fui, conversei com o Edgard Mello, e, quando voltei, pedi demissão da Contemporânea, explicando ao Mauro, que a minha saída era por um motivo justo. Eu ia ser diretor de criação. Em suma, uma nova oportunidade em minha carreira. Claro que o Mauro ficou chateado, mas isso são outros quinhentos*.

Alguns meses depois, já devidamente entrosado com minha equipe de criação, que incluía o Sérgio Torres, o Boca, e outros profissionais de primeiro time, tive o convite para me candidatar a presidente do Clube de Criação de Minas. O clube estava meio parado, segundo eles. O Daniel de Freitas, muito ocupado com as tarefas de sua nova agência, a DNA, não tinha muito tempo para se dedicar às tarefas e desafios constantes de um clube que precisava se firmar no cenário da publicidade mineira.

Acabei topando. Falou-se com o Daniel e me candidatei. Mas, fiz a proposta de dividir a presidência com dois profissionais. Seria um “triunvirato”. Entraram na jogada o Jackson Drummond Zuim, diretor de criação da Livre**, na época a agência mais criativa do mercado e o Marcus Vinícius um RTVC da SMP&B, outra agência que despontava no cenário.

Fomos eleitos. Pouco tempo depois, o Marquinhos voltou a Goiânia, sua terra natal, pois recebera uma proposta irrecusável. Na verdade nem chegou a assumir o cargo. No seu lugar, entrou o Jenner Leite, um jovem diretor de arte que estava na RC, outra agência crescendo em Belô. Criamos, o Zuim e eu, um anúncio gostosíssimo com a frase do Groucho Marx: “Eu não entro para um clube que me aceite como sócio”, e um texto brilhante do Zuim, o que não era novidade.

Mas, havia um problema seríssimo. O clube não tinha sede. De início sacamos a idéia de fazer as “Zorras de Criação”. As zorras eram eventos que aconteciam uma vez por mês, patrocinados pelas agências, que bancavam um churrasco, ou uns salgadinhos regados a muita cerveja e “golos” da boa pinga mineira. Porque, detalhe, o clube também não tinha reserva nem capital de giro. Começamos a organizar as associações, cobrar as mensalidades, emitir carteirinhas, em suma fazer com que aos poucos tivéssemos algum dinheiro em caixa.

Paralelamente realizávamos uma reunião de diretoria por semana. Em bares, e cada um pagando a sua despesa. E eram reuniões que começavam às oito da noite, e, às vezes acabavam com o raiar do dia. Ainda bem que geralmente eram feitas às sextas. Mas, até hoje não sei como não bati o carro, não me estoporei todo numa dessas, pois saia das reuniões pra lá de Bagdá. Muitas das vezes, começávamos num bar e íamos de um para o outro. Na maioria delas, conversas sobre o clube começavam e terminavam no primeiro bar. Daí em diante era papo de bêbado, piadas e risadas. Um clube etílico. Na acepção da palavra.

Mas, eu sei que deixamos uma caixa legal. No ano seguinte quando convocamos as eleições, confesso que estava cansado pra cacête. Doido para deixar o cargo, mas, apesar dos porres me sentia vitorioso. E a vitória era tão evidente que fui chamado pelo Chico Bastos, eleito o novo presidente, para ser o vice-presidente. Não pude recusar, mas... bom aí é outra história. Um dia desses eu conto.

(*) O Mauro Matos nunca gostou que profissionais saíssem da sua agência. No ano passado, em entrevista ao site do CCRJ ele confirmou isso.

(**) Depois da saída do Zuim da direção de criação da Livre, assumi o seu posto naquela agência.

sexta-feira, março 23, 2007

O “caso” do tempo das réguas

Nunca publiquei dois casos seguidos de colaboradores deste blog, mas segue mais um “caso” do Delano D’Ávila, que está uma fera, escrevendo sem parar...

Estávamos produzindo um spot de radio de 30’’ para o Havoline XYZ etc, etc, da Texaco com o João Saldanha. O controvertido gaúcho de Alegrete, mesmo depois de protagonizar situações polêmicas com nossos craques de seleção, prosseguia idolatrado pela galera através de seus brilhantes comentários sobre futebol na popularíssima Rádio Globo, também líder de audiência.

Saldanha pegou o texto, sentou-se numa cadeira e pôs-se a ensaiá-lo. Antes disso solicitou que o saudoso Chico Vermelho se dispusesse a cronometrar suas tentativas de completar com exatidão os 27 segundos disponíveis antes da vinheta musical com o slogan da marca.
Diferente de todos os locutores com quem gravamos centenas de outros trabalhos, seu ensaio teve uma demonstração fantástica do que é o domínio de um profissional pelo espaço a ele determinado. Ele errou as primeiras vezes de leitura. Só que antes de o Chico confirmar o tempo de execução, o próprio João, numa precisão inacreditável, “adivinhava” o número de segundos gastos em cada ensaio: “Muito rápido, deu 25. Demorei, fiz em 29. Estourei de novo,28. Quase, 26.”
Impressionante. O Chico se limitava a travar o cronômetro, balançar afirmativamente a cabeça sorrindo pra mim e levar o aparelho na direção dos meus olhos para a devida comprovação do fenômeno.
Minutos depois a gravação acabava. Perfeita. Cravada.

Anos mais tarde, juntos na Provarejo, o Chico e eu nos preparávamos para filmar o Marcel Marceau em Paris, num daqueles inesquecíveis comerciais de Natal da Mesbla (o “inesquecíveis” aflora nesta memória ainda mais porque desde então não se vê nadinha na época de festas com o encantamento, a poesia e a originalidade daquelas mensagens). Bem, desculpem-me pela auto-citação. Mas aí o mímico francês, depois de elogiar a idéia entusiasmado, dispôs-se a iniciar, tantas vezes quanto necessárias, os ensaios da primeira tomada. Havia como de hábito uma câmera de VT acoplada à máquina adotada para a cena pelo diretor.
Esta cena previa que o artista, todo de branco. inclusive na pintura do rosto, fizesse sua movimentação da direita para a esquerda da tela, no fundo todo preto.
Nossos olhares voltaram-se para Marceau que rapidamente se colocou na posição inicial, atendeu ao grito de ação e com sua notável performance corporal percorreu o trajeto demarcado. “Corta!”
O grito veio em duas línguas, assim como numa tradução simultânea, a primeira delas em francês. Dirigindo-se do fundo para a equipe afirmava que sua mão saíra de quadro.
Como assim? Como poderia um ser humano, por mais experiente que fosse em suas apresentações, ser tão enfático ao afirmar tamanha minúcia, tão incrível sutileza?
Voltada a fita, todos de olho na telinha reveladora, estava lá a mãozinha branca ultrapassando a linha limite.
Os aplausos de todos os 25 presentes valeram como previsão da rapidez de conclusão
do trabalho. Deu até pra dar uma viajadinha de trem a Deauville, no extremo norte da França, curtir umas horas naquela cidadezinha linda, antes marcada como uma das portas da Segunda Guerra. Como na exatidão do Marceau, a volta, marcada para as 20:43 teve as portas do trem fechadas as 20:43. E voltamos.

Não pra contar vantagem, até porque isso pouco me adiantava e muito menos agora, vêm os roughs de página de revista.
As revistas mais freqüentadas, hoje um pouquinho maiores na altura, permaneceram por muitos anos com 21x28.
Se multiplicássemos esse número de anos pelo número de vezes que rabisquei este formato daria algo em torno de 5.000, por aí. E decorei. Nem sei se o verbo é esse mesmo, nem gosto do sentido da palavra, mas acho que me faço entender.

Numa daquelas pressões do atendimento, fungando no meu cangote, apareceu o querido Areias, apavorado com os prazos dizendo que o cliente estava ligando de 2 em 2 minutos, tendo na retaguarda o assistente puxa-saco e o tráfego de listinha na mão concordando e botando lenha na fogueira.
Quem de criação, acostumado com os ares de pastelaria do setor, não viveu coisa parecida? E quem, por mais santinho que fosse, não terá se aproveitado da chance para disfarçar o incômodo e transformá-lo numa comprovação da disparidade de talentos?
Talentos específicos. Que fique bem entendido.

O Areias, ainda que admirado por sua tenacidade de pé-de-boi e compenetrado na atividade mas duvidando da proeza mordeu a isca.

Puxei o bloco de papel manteiga para minha frente e em quatro rabiscos de caneta Futura
marquei o formato da página. Mesmo quando naquelas circunstâncias nossas sugestões fossem apresentadas em rough nosso Areias estrilou. Convicto na observação de que o cliente teria que ver as medidas certinhas, 21 por 28 cm exatos, destilou seu veneno provocando o DA aqui com ironias impublicáveis.
Risco calculado, como nas demonstrações de habilidade do Rui Chapéu numa mesa de sinuca, desafiador mas tremendo por dentro, ofereci a régua ao adorável português de plantão.
Areias tomou a régua, trouxe a luminária para cima do papel e mergulhou os olhos de lado a lado, de cima a baixo da marcação. Inconformado, repetiu a checagem invertendo os movimentos. Só faltou pedir uma lupa, daquelas grandes, numa tentativa desesperada de não ceder às evidências.

Cedeu. Grande coisa. Horas depois o anúncio alltype foi aprovado. Mas seria de qualquer jeito ainda que marcado com régua nos seus limites, direitinho. Importava sim o seu conteúdo. Importou também a brincadeira, que só aconteceu por sermos bons companheiros, pela dinâmica saudável da Salles na época.

De repente, vou dar umas tentadinhas de fazer um círculo à mão livre, onde não se veja a emenda do lápis. Desafio inútil entre colegas de arte que nunca teve vencedor e só servia mesmo como passatempo. Bobagem que hoje só ajuda a matar as saudades de tempos mais humanos, mais divertidos.
Que venham as saudades.

terça-feira, março 20, 2007

O “caso”do vascaíno rubro-negro

Desta feita, Delano D’Ávila conta uma história que remonta ao início de sua carreira.

Agora pela manhã, no Sportv, apareceram juntos no Redação, o Armando Nogueira e o Rui Osterman.
Têm um estilo semelhante de abordar as coisas do futebol, com poesia, oportunismo sensível e toques de sarcasmo deliciosos. A vida acaba sendo uma cópia iminente do futebol quando não se enxerga apenas aquele monte de homens correndo atrás de uma bola. Eles sabem disso. E usam inteligência e sabedoria nessas horas.
Quando o Armando, sabedor da eterna indefinição do colega em torcer para Grêmio ou Inter, perguntou ao gaúcho se durante um clássico entre eles seu coração batia mais forte para um dos lados, me veio, irremediável, a história que poderia ter mudado meu destino. Tem propaganda e futebol. Tem paixão. Tem o início da minha vida profissional. Tem um pouco de tudo, até da admiração indecifrável do Rui.

Primeiros dias de estágio na Denison quando ficava na Rua Dona Mariana, em Botafogo. Esses dias foram como os de qualquer estagiário bem chegado. Conseguido por meu pai, fornecedor habitual de fotografias da agência, cercavam-me por isso de boas doses de atenção. Minha tendência artística bastou para ser colocado no estúdio onde conviviam ilustradores, letristas, arte-finalistas, tráfego e produção. O espaço era grande e agradável dentro da casa. O curioso é que este lounge ficava no segundo andar mas descíamos quatro ou cinco degraus para chegarmos a ele. Combinava com meus sonhos, começando de baixo.

Reservaram pra mim uma prancheta ao lado do Bilé. perpendicular à sua grande mesa, ou seja, de lado pra ele e seu variado universo de objetos. Tinha de tudo.
Um monte de papéis, fotocomposições, fotoletras, provas em couché dos anúncios de varejo, além de réguas, conta-fios, várias canetas, telephones (aqui exagerei), blocos de notas em quatro vias – a branca seguida de amarela, rosa e azul clarinho – e bandeirinhas do Flamengo. Em baixo do vidro inteiriço havia outras coisas: sêlos, escudos e fotos do time de vários campeonatos, Na parede também. Ali fotos maiores, grudadas com fita durex ou crepe dobrada. Foi assim. Eu, vascaíno franzino, começando o meu futuro, cercado pelo fanatismo corpulento e rubro-negro do Bilé.
Quietinho, fui rabiscando idéias à esmo esperando que alguém percebesse meu talento com bons olhos.

O Bilé era um sujeito interessante. Baiano gordão, sempre cantando um bolero de gôsto duvidoso, fã ardoroso do Nelson Gonçalves de quem tinha toda a coleção de discos. Personalidade forte, dominava sua área com notável destreza mesmo quando os jobs se empilhavam à sua frente. Eu havia esquecido desses envelopes pardos. Eram mais papéis sobre a mesa, coalhada deles.

Todos os dias, aos cinco pro meio-dia, o Adílson, seu boy assistente, cavava um espacinho na mesa para uma garrafa de Guaraná Brahma. O refrigerante que acompanharia os dois sanduíches que Bilé devorava já vinha destampado. A tampa era simplesmente pousada na boca do gargalo para evitar que o gás saísse. E ficava ali. Bem atrás do meu cotovelo esquerdo.

E não deu outra. Meio-dia, ao girar o corpo e levantar da minha prancheta, aconteceu o som abafado do vidro âmbar de encontro àquele oceano de papéis. O líquido alaranjado espalhou-se rapidamente pela mesa do produtor. Grande, rubro-negro e meu chefe por proximidade. A fórmula açucarada daquele guaraná melado funcionaria rapidamente como agente grudador das dezenas de trabalhos e documentos. Pânico. Ouvindo os primeiros e sonoros impropérios do Bilé fui correndo ao banheiro buscar a maior toalha possível e voltei assustadíssimo tentando minimizar a lambança.
Horas depois do almoço o Adílson ainda salvava pacientemente as vias de papel de sêda das notas fiscais descolando as brancas das amarelas das rosas das azuis. Lilás de medo eu rezava em silêncio ouvindo Bilé ofegante resmungar sem piedade pelo acontecimento imprevisível.

Parece que o destino nos obriga a ultrapassar desafios inimagináveis. Esse talvez fosse definitivo. De um lado o Bilé, imenso, poderoso, senhor de si e do seu espaço.
Do outro o herói aqui, no iniciozinho, buscando uma brecha na multidão. Magrinho do jeito que eu era, seria mais fácil àquelas alturas se essa brecha fosse um buraco de agulha. O espaço buscado nos sonhos não previa o apêrto do dia seguinte quando derrubei o guaraná outra vez. Na mesma hora. No mesmo lugar. Na mesma mesa.

Os FDP’s, PQP’s e VTC’s amenizados aqui pelo recurso ortográfico ecoaram pelo recinto. A fúria do baiano prometia naquele momento transformar meus ossinhos em biscoito para cachorro. Só para dar uma idéia, ainda que eu fizesse musculação específica para as coxas durante um bom tempo não as teria no diâmetro do seu braço. Um único uppercut seu e arrancaria a cabecinha sonhadora provocando uma chapada de deep scarlet red no piso de ladrilho importado do local. Corri. Correndo eu era mais eu.
E era correr ou morrer.

Metade do estúdio veio me buscar quase na rua evitando o que seria uma deserção definitiva. Solidária com meu desespêro a outra metade segurava lá dentro o produtor gráfico abrandando a cólera dos perdigotos dos seus berros. Resolvi só voltar dia seguinte. Precisava planejar uma forma de modificar minha reputação com o macaubense truculento.

Pensei nos contrastes. Eu, quase gaúcho, ele baiano do interior. Eu magrinho, ele gordão. Eu vascaíno moderado, ele flamenguista fanático. Eu gostando de rock’n’roll, ele apaixonado pelos boleros e sambas-canção do Nelson Gonçalves. O que fazer?

Bem, primeiro tinha que inverter a posição da prancheta. Mesmo que a direção da luz projetasse sombras nas minhas artes seria bem melhor pra saúde. Depois, puxar conversinhas elogiando as maravilhosas e memoráveis interpretações do “nosso ídolo” e finalmente admitir uma simpatia enrustida pelo preto e vermelho. E assim fiz. Comecei com a tentativa de um aperto de mão. Risco calculado após comentários positivos dos colegas que, no dia anterior o haviam convencido que o ocorrido, bem diferente de uma provocação suicida não passava de simples equívoco nos posicionamentos da prancheta e da garrafa de guaraná.

A relação mudou pra muito melhor quando já nos primeiros diálogos eu comentava que meu pai havia sido cantor de tangos e boleros. Que eu era ouvinte assíduo de Altemar Dutra, que fazia minhas serenatas junto aos bebuns da turma do Alfa nos bares das redondezas, quando até o famoso Wilson Simonal, impressionado com minhas “interpretações” quiz me levar para um teste no Teatro Casagrande ou na Grande Chance do Flavio Cavalcanti. Não fiz estes testes. Mas passei com louvor ao testar os sentimentos
do Bilé. O resultado foi um convite para um fim-de-semana no Maracanã.

Ficava no Maracanã o apartamento do nosso Manoel Bilé. O programa sugerido por ele consistia em ouvirmos toda a coleção do Nelson, beber no durante umas oito cervejas, depois almoçar frango assado com farofa e, ali pelas duas da tarde, caminharmos em direção ao estádio que ficava a poucos metros. Poucos metros?

As superstições do torcedor do Dida eram muitas. Daquelas inacreditáveis, contrariando a física, a matemática e a geometria, fizemos um trajeto que trocou os cinco minutinhos da linha reta por suados 40 minutos de tortuosas linhas gregas. O Botafogo, vencedor da grande maioria dos últimos jogos entre os dois times merecia, segundo Bilé, estratégias mandingüentas ainda mais surpreendentes e absurdas.
Na arquibancada ainda vazia foi mais fácil encontrar a rachadura do degrau onde ele costumava ficar, derradeira superstição da figura antes do confronto.
Fiquei praticamente calado durante toda a preliminar de aspirantes. Lances pouco interessantes me ajudaram a permanecer ali quietinho, apenas observando a entrada da multidão, das charangas e bandeiras, das fantasias de máscaras bizarras, tudo em vermelho e preto.
Lotou. Não há como negar que numa situação dessas meu coração vascaíno sentia um quê de traição junto ao medo de ser descoberto. Embora infinitamente aquém do medo de dias antes, estar ali, dentro das trincheiras adversárias, ao lado de um quase carrasco,
merecia precaução, absoluta mudez e um mimetismo cinza, a cor neutra do cimento do Maraca.

Fácil fácil. Afinal, pelo Botafogo eu só tinha o reconhecimento pela qualidade do time (um timaço) e a afinidade pelas cores coincidentes, tirando, é claro, o vermelho da cruz de Malta. Foi assim até surgir o lançamento de 40m do Gérson para o Quarentinha, o cruzamento para o Jairzinho, o seu passe para o Roberto e acender no placar: Botafogo 1 a 0. Por dentro eu sentia nessa hora algo muito confuso. Uma mistura complexa de sensações que nem Freud explicaria. Mas a que aflorou ao final do primeiro superou todas as outras. Me coloquei comparativamente do outro lado das cabines.
Numa situação daquelas como se portaria a torcida do Vasco? Perdendo, o que faria a torcida vascaína, também de massa e popular como a do Flamengo? E fiquei impressionado, boquiaberto. Poderia a postura de torcidas de massas semelhantes ser tão diferente quando o time perdia? Poderia.

Nos 15 minutos do intervalo a torcida ‘a minha volta não parou de cantar. Entusiasmo descabido para o fraco desempenho do time na primeira etapa, mais desproporcional ainda quando o domínio botafoguense anunciava uma provável goleada. Mas a torcida do Flamengo não cessou de batucar os sambas da Mangueira, da Império, da Portela.
Final de jogo: Flamengo 2 a 1.
Saí do Maracanã com duas certezas: a de testemunhar ao vivo, in loco, a força adicional e entusiasmadora da paixão rubro-negra coletiva, que me faria tremer sempre que a do Vascão decidisse com ela algum campeonato e a de haver executado, ainda que por linhas tortas, o plano salvador da integridade física e da vida profissional.

Semanas depois fui promovido a layoutman e botei na rua meu primeiro anúncio.
Ainda mais depois de tantas primeiras emoções, desta última a gente nunca esquece.

domingo, março 18, 2007

Já nas bancas. Não perca!

Carla Pacheco, além de brilhante redatora é a mais nova personagem do Maurício de Sousa.
Isso mesmo, minha querida amiga e ex-dupla tornou-se a “Caula”, amiga da Mônica, Cebolinha e sua turma na revista agora publicada pela Panini Comics: “Uma aventura no Parque da Mônica - Orkontro no Parque!”.
Meus palabéns Caula por mais esta empleitada de sucesso em sua vida.

sexta-feira, março 16, 2007

O "caso" do anúncio rasgado

Carlos Aragão era o diretor de criação da Nova Proudon, agência carioca, que chegou a ter uma filial em Belo Horizonte, e possuia contas como Servenco, Adocyl, Abolição Veículos e Itambé.

O Aragão, como ficou mais conhecido, era uma figura um tanto quanto formal, um tanto quanto “poeta”. Tinha mesmo uma pinta de poeta daquele início da década de setenta. Conta o Vitinho, que era finalista do estúdio, que uma vez viu em cima da sua mesa de trabalho uma anotação que dizia: “exertos para a confecção de um folheto de cunho publicitário”.

O fato é que toda a equipe estava numa virada muito louca para a apresentação de uma campanha de concorrência para a conta da Pelikan, fabricante de canetas, lápis de côr, guaches e outros materiais escolares.

E fôra uma dessas violentas. De noites e madrugadas rolando, rafeando e marcando peças. Detalhe: tudo com marcações do Nilton Ramalho, que eram simplesmente desbundantes.

Na última noite, Aragão já não resistia mais e pediu para ir em casa por algumas horas. Prometera que pela manhã estaria de volta. Inclusive para reunir todas as peças e colocá-las numa pasta, pois o dia seguinte era o prazo marcado para a entrega do material no cliente.

Durante sua ausência, Ramalho e Fernando Lisboa, o diretor de arte que estava a criar os layouts, começaram a questionar duas das peças que já estavam marcadas, e, inclusive aprovadas pelo Aragão.

Resolveram remarcá-las com algumas pequenas correções para melhor. Mas, combinaram que quando o Aragão chegasse iam fazer um teatrinho e no auge de uma discussão iriam destruir aqueles dois anúncios descartados.

Pela manhã, chega a figura. Cara de sono, como aliás todos os demais.

Aproxima-se da equipe que fazia os acabamentos de montagem finais das peças e, de repente, fica assustado com a gritaria atrás dele. Vira-se e vê o Fernando e o Ramalho em altas discussões.

De repente, o Fernando grita mais alto ainda, pega um anúncio montado e o rasga violentamente. Aragão, desesperado corre na direção dos dois, encabeçando a “turma-do-deixa-disso”. Mal chegava e outra peça já era transformada em frangalhos bem diante dele.

Aragão recostou-se em uma cadeira, seu coração disparado, uma sensação de que iria ter um piripaco logo em seguida. E deve ter dito algo gênero de:

- Pela madrugada (termo muito usado por ele). Vocês querem me matar?

De repente, não mais que de repente, risadaria geral. Ele não entendeu nada. Afinal, o que estava acontecendo?

Naquele instante, após o susto, foi-lhe revelado todo o plano. Aragão não sabia se relaxava ou se partia para a porrada. Afinal...

O certo é que se tomou um cafezinho, fumou-se um cigarrinho e a campanha seguiu intacta para a sua caminhada vitoriosa.

Pela madrugada!

Trabalhei na Nova Proudon, algum tempo após ter acontecido o “caso” acima, que me foi contado pelo Nilton Ramalho.

terça-feira, março 13, 2007

O “caso” da hipermegasena ao contrário

Mais um “caso” de Delano D’Ávila rememorando os tempos em que trabalhamos na Salles.

Precisava contar histórias de outras pessoas. Conheço figuraças no mundo da propaganda. Impagáveis. Com passagens idem.
Gostaria que mesmo sendo por enquanto casos próprios eles não contivéssem coincidências tão improváveis, parecendo inventados como o da velhinha sorridente. Continuo tentando.
Mas aí me vem na lembrança a que chamaria - segundo estudiosos de estatísticas de probabilidades - de uma hipermegasena ao contrário, uma falta de sorte cuja chance de acontecer seria de uma para uns 500.000.000. E deu.
O Olivieri, que gentilmente me hospeda aqui no jongaoliva, viveu como colega, se não me engano, parte do início da hipermegacoincidência. O Favilla idem. Além deles o Fabinho Siqueira, o Fred, o Matano. Discreto como eu era, evitei falar do fato na época e acentuar as fofocas. Agora, passado tanto tempo, não tem mais porque não contar.

Criação da Salles. O trabalho, com clientes de grande visibilidade era enorme, mas compensava com o prazer de muito reconhecimento em sucessivas e expressivas premiações. O Laerte Agnelli saiu. Por seu estilo parceiro e liberal não cruzou os bigodes com o Logullo. Em seguida pintou em nossa área outro diretor de criação. Perfil totalmente diferente, este era redator, parecia um monge franciscano mas provavelmente viera com a instrução de organizar a turma de um outro jeito, digamos, mais severo, Em todos os sentidos.
Questionando coisas quase subjetivas como entreletras e entrelinhas nos textos, obrigando usar arara em vez de papagaio quando o tema da campanha de uma empresa de telecomunicações era bate-papo, reclamando dos horários e das notas de refeição quando ficávamos até as 3 da madruga. E como ficávamos! Era isso, um pesadêlo diário.

Unanimidade nos sentimentos de todos, esse cara era visto como o diabo no dia-a-dia e nos sonhos da moçada.
Rimos muito quando num desses jantares de serão o assunto veio forte e um de nós falou ter sonhado com eles. É isso mesmo: eles. O João Matano viu centenas de diabinhos carecas munidos de tridentinhos o perseguindo ferozmente durante a noite anterior, antes de levantar da cama, apavorado, e vindo parar na agência às 8 da manhã.
Rimos muito. E o nervosismo pelo medo da situação nos fazia rir mais ainda.
A cobrança se prolongava. Todo dia. O dia todo. Parecia interminável. Provavelmente todos deviam estar desabafando em casa com seus pares ou com os amigos mais chegados. Não fui excessão.
Filhos pequenos, morando em apartamento alugado caro, muitas contas pra pagar, e o pânico dividido com minha mulher, principalmente. Isso se acentuou quando bati com o carro e o possante Corcel teria que passar uma temporada na oficina. Fora a despesa inesperada, a Semana Santa tinha tudo para ser um outro desastre. Monótona, melancólica e torturante. Monótona não foi.

Fui salvo pelo fotógrafo Avila, meu pai, que fissurado por automóveis sempre tinha um ou dois de reserva. Fazia disso um hobby simultâneo com negócios. Curtia mesmo.
Sobrou pra mim um veículo digno de baile à fantasia: um incrível Opala amarelo gema. Um horror. O bom-gosto do velho devia estar de férias.

Irmos à praia com crianças no Rio de Janeiro, domingo, final de feriadão, 45 graus à sombra, enfim, tudo isso merecia sairmos bem cedo para encontrar vaga em Ipanema.

9 horas e em Ipanema nada. Leblon nerusca. O jeito seria atravessarmos o túnel. São Conrado, cheinho de carros.
Já na Barra, me esgueirei pela Sernambetiba. Um mar de gente. Um inferno. O que aliás
se em nada combinava com a Semana Santa, lembrava irremediavelmente o nosso algoz de plantão. E o assunto acabava voltando ali no carro, em meio àquele mar de carros. Tudo lotado. Velocidade máxima: 2 km por hora. Suor mínimo: ½ litro por km.

Onde estaria a figura calva? Feriado prolongado, mineiro com saudades, poderia estar por lá, em BH ou nalguma cidadezinha de interior curtindo a família. Poderia estar em SP, de onde viera recomendado, aproveitando para resolver alguma questão qualquer na manhã de segunda. Poderia até mesmo ter saído do país. em Aruba, Miami, Buenos Aires, Montevidéo, sei lá, quem sabe estar em Ciudad del Este pra comprar as muambinhas em conta na época ou em Foz do Iguaçu, mais fresquinha.
Pensando numa temperatura mais coerente poderia estar numa praia, em qualquer ponto dos nossos 8.000 km.

Chegando ao Recreio, eu já desistia daquele programa olímpico, quando aconteceu num sincronismo perfeito, lembrando coisa do David Copperfield, a saída de um carro da vaga, o assobio junto com o aceno do flanelinha e vapt. Lá estava o Opala ovo, quase cozido, devidamente postado de frente “prareia” e os mares de água e gente.
Quase 11 da matina. Sol a pino. Estar com crianças pequenas deixava a dúvida entre comemorar a conquista da vaga ou lamentar a conquista da vaga.

A barraca certamente era o utensílio primordial naquela hora. Rapidamente comecei a cavar um buraco com os costumeiros movimentos circulares. Admitindo-se que o espacinho entre meus pés fossem o ponto zero da primeira girada, ao chegar aos 270 graus, ou seja, bem à minha direita, a uns 2 metros e meio, nosso diretor de criação se besuntava com um óleozinho protetor. E não deu outra. Me viu.

Seria um delirio?
Afinal, tamanha improbabilidade bem poderia ser o resultado fictício do pensamento fixo de meses. Não era. Tudo ali era real. Nem os óculos ele tirara. Sem eles, quem sabe, não me visse e eu, percebendo isso, poderia fugir dali. Com a praia lotada seria só carregar as tralhas para uns 5 metros no sentido contrário. Mas nada disso foi possível. Fiquei paralisado.

A conversa monossilábica foi inevitável.
Parecida com aquelas de elevador, quando a gente de depara com o síndico do prédio a quem se odeia, a sós, dentro do tal cubículo e comenta sem graça que o tempo está quente ou frio, diz se é tarde ou cedo pra isso ou aquilo e torce muito pro veículo chegar rapidinho e a porta pantográfica não enguiçar.
Nosso papo durou longos 2 minutos. Aproveitei quando as crianças começaram a disputar o baldinho de plástico e fui correndo pra água enchê-lo. Ao voltar não vi mais o Jacob Cajaíba. Custei pra dizer o nome dele muito mais por pudores do que pra fazer mistério.
Daí a poucos dias fui convidado para trabalhar noutra agencia, e ele, diferente do que eu supunha, mostrou-se gentil oferecendo-me outras condições e tudo mais, o que optei por recusar sem demonstrar rancores. Foi melhor assim.

Anos depois, importado por SP como DC da Grottera, encontrei o mineirinho integrando a equipe de lá. Gentilíssimo, me recomendou coisas facilitadoras no meu início de comando da agência e na vida nova pela cidade. Até caronas me deu.
Numa delas revelei a ele como acertara na hipermegasenaaocontrário de anos antes.
De tanto rir Jacob, que vinha pela Marginal Pinheiros, errou a entrada para os Jardins.
Fomos parar num daqueles inesquecíveis botequins da Avenida São João festejando nossos acertos.

Considerando que no Brasil o vermelho não é ofensivo, e sim um destaque, vamos voltar a grifar o nome do autor nesta cor.

segunda-feira, março 12, 2007

Origens da caneta vermelha...

Meu amigo Saulo Silveira de Portugal mandou um e-mail, com a carta-resposta de um amigo seu sobre as prováveis origens da ofensa em se escrever com caneta vermelha. Segue abaixo esta contribuição importante à pesquisa sobre o fato:

Meu Caro Saulo,
Querido e Bom Amigo,
Bom Dia, Bom Trabalho e Muita Criatividade!

Que bom suas novidades! Eu próprio, lhe ia escrever hoje, para se apalavrar ou agendar nossa ida à Galeria, ainda esta semana e combinar os demais pormenores.

Vamos, em primeiro lugar, responder ao seu Amigo do Brasil...

De facto, em Portugal, desde sempre que se regista nas velhas histórias e com origem perdida nos tempos, que não se deve escrever com tinta vermelha! Há quem fale da origem bíblica de se ter escrito a sangue nas portas dos judeus, para as proteger da chuva de fogo; há quem fale do período das perseguições da inquisição em que, com sangue, se marcavam as casas dos acusados de feitiçaria ou bruxedo; há quem fale, ainda, que a escrita a vermelho é "escrita do Diabo ou Lúcifer"; há quem, fale, também, do pormenor de as quantias em dívida serem escritas, tradicionalmente, a vermelho, logo ser sinal de falta de dinheiro ou sinónimo de devedores; assim, por se escrever a vermelho, há ainda quem o considere um ultraje, uma ofensa e uma forma de discriminação.

Sempre ouvi falar no assunto e eu próprio, do ponto de vista comportamental ou educacional, evito escrever a vermelho! Nos tempos mais modernos, em que muitas das vezes se perde a noção histórica dos motivos, dos porquês de alguns comportamentos, a malta mais jovem diz vulgarmente que escrever a vermelho é "mandar à merda!".

Por uns motivos ou por outros, a verdade é que, pelo menos, num relacionamento mais directo, pelas vias tradicionais ou mais modernas, seja pelo papel escrito ou impresso ou agora pela net, aqui em Portugal e em Espanha, seja de menos bom tom, o uso da escrita em vermelho!

Por sinal, ainda que reconheça que é uma verdade e um hábito enrraizado na nossa prática, nos nossos usos e costumes, não é menos verdade que, para mim, seja uma pena, pois o vermelho é minha côr preferida e muito ligada ao meu mundo plástico e estético, muito influenciado pela Festa de Toiros!

Eis o que se me oferece dizer sobre o assunto e, sem dizer nada em concreto, aponto pistas ou caminhos que poderão justificar uma pesquisa mais pormenorizada! Não sei se é suficiente, mas poderei ver mais em casa com literatura onde possa encontarar mais alguma coisa sobre o tema.

Quanto a se marcar uma ida à Galeria, deixo ao teu critério, poderes dizer quando te dá mais geito vir a Lisboa! E, aqui por mail, podemos ir marcando e vendo os outros pormenores da organização da mostra. Para já precisava de saber o nome da Exposição e de ter algumas fotos para começar a fazer a comunicação. Penso que a data que já estaria marcada para a inauguração seria a Quinta-Feira, dia 12 de Abril, a partir das 18.30 horas.

Poderei estar disponível no próximo Domingo, para ir aí à tua casa-atelier, na Serra de Azeitão, para ver as novas produções!

Um Abraço sempre Dedicado e Amigo do
Vítor

Por isso, o destaque à contribuição, excepcionalmente, desta vez vai em azul e não em vermelho como de costume.

domingo, março 11, 2007

Novo Link

Está aí ao lado nos "Links". É o caminho para o novo Blog de uma amiga que conheci em Sampa, mais precisamente em São Bernardo do Campo, durante campanha política no ano de 2004.
A Sumire Mulero que foi finalista em nossa equipe, e desempenhou de forma precisa e profissional as suas funções naquela ocasião.
Wellcome to the Club, Su (é assim que a chamamos) , e que o seu blog seja tão rico quanto você o é como ser humano.

quinta-feira, março 08, 2007

O “caso” da caneta vermelha

Estava eu na Opal publicidade, na cidade do Porto, a esperar o meu patrão, o sr. Alfredo Rente e ele não chegava.

Tinha uma foto das novas embalagens de leite da Agros, nosso maior cliente, e o segundo fabricante de leite e derivados em Portugal.

Eram fotos complicadas, porque, além do packshot, que seria mais simples, tinha uma outra de um copo sendo enchido a partir do pacote de leite. Minha preocupação era realizar aquela foto sem esparramar leite pra todo lado. E como conduzir um filete de leite certinho até o copo, com havia ilustrado no layout?

Tinha que sair rápido, pois o estúdio do fotógrafo era na Maia, uma cidade próxima que faz parte da região metropolitana do Porto. E o meu receio era o tráfego. Quanto mais tarde, mais difícil seria chegar na Quinta* em que morava o Pedro do Canto Brum, que era o nome do fotógrafo.

Pensei em deixar um bilhete para ele, dizendo que a nossa reunião ficaria para mais tarde, que eu voltaria na agência para fazê-la. Peguei a primeira caneta e escrevi algumas palavras para ele explicando a situação. Entreguei, dobrado à secretária, tendo porém explicado a ela a situação.

Fui fazer a foto. O Pedro Brum encontrou uma solução muito boa para a questão do leite derramando no copo. Simples, como toda boa idéia, o gajo propôs colocar um tubo de plástico mole transparente ligando a embalagem de leite ao copo. O líquido passava por dentro dessa canaleta e o efeito final seria de um fio de leite entrando no copo. A foto ficou excelente.

Finda essa etapa, voltei para a agência. Lá estava “seu” Rente me esperando ancioso. Mas, fizemos a tal reunião. No final, perguntei se havia recebido o meu bilhete. Ele respondeu que não, mas que dona Lucília, sua secretária, havia contado que eu saíra para a foto, mas voltaria.

Fiquei pensando porque dona Lucília não entregara o bilhete, mas me esqueci do fato.

No dia seguinte, sentei-me na minha mesa e toca o telefone. Era dona Lucília. Educada e timidamente tomou a palavra e disse com extremo cuidado:

- Sr. Olivieri, desculpe lá... ontem... bem, ontem acabei não entregando o seu bilhete, porque não deu para falar consigo, mas, na verdade... o senhor... o senhor deixou o bilhete escrito com caneta vermelha... acontece que... bem acontece que cá em Portugal, qualquer coisa escrita em vermelho é... ofensivo...

Durma-se com um barulho desses!

segunda-feira, março 05, 2007

O “caso” do assaltante ‘assaltanado’

Conheci o Mauro Salles em 1969. Uma “tia” postiça, que é grande amiga da minha mãe conhecia muito Teresa, esposa do empresário. Ela me abriu as portas para um primeiro contato com ele. Foi na sede da Salles, em São Paulo. Nessa época, eu trabalhava naquela cidade, em uma pequena (porém decente) agência chamada De Mello & Leonardo.

Conversamos muito, mas ficou por isso mesmo. Dez anos depois, já trabalhando naquela agência, aqui no Rio, ele me confessou que eu entrei na Salles pelos meus méritos pessoais e profissionais e não por um “pistolão”. Justo. Muito justo. Tanto quanto ele, um profissional também justo e sério, um excelente caráter.

Mas tem um caso, que me foi contado pelo seu filho, o Paulinho, no tempo em que ainda estava a engatinhar na expertise da publicidade, orientado (aliás muito bem) pelo próprio pai e seu tio, Luis Salles. De vez em quando, Paulinho vinha à filial do Rio de Janeiro, e passava dias convivendo com a equipe carioca.

Mas, voltando ao caso, ele, Paulinho, havia ido ao cinema. Ao voltar para casa, quando ia entrar na garagem, foi subitamente abordado por um grandalhão com uma arma apontada para o seu focinho. Apavorado, no escuro da noite, definitivamente rendido pelo meliante, não lhe restou alternativa a não ser entrar com o dito cujo, residência adentro.

Lá, aquele rebú danado e o Mauro acabou acordando. Aproximou-se com cara de sono, e encontrou aquela cena: um bandido dentro de casa com um baita dum trabuco e seu filho sem ação frente a toda aquela circunstância.

Calmamente, Mauro Salles aproximou-se do contraventor e começou a conversar com ele de forma pausada e tranqüila. Em seguida ofereceu-lhe um copo de leite com chocolate, abriu um pote de biscoitos e após tudo isso, sentaram-se juntos à mesa da copa enquanto tomavam um cafezinho e prosseguiam a longa conversa.

O resumo da ópera, é que o Mauro conseguiu convencer o assaltante de que estava realizando um ato ilegal, que poderia com isso parar na cadeia, etc, etc. E, como a coisa teria que ter um final feliz, ainda lhe ofereceu um emprego em sua empresa, coisa que deixou o grandalhão entre lágrimas e sorrisos de alegria.

Isso tudo me faz lembrar o filme dos irmãos Lumiére, nos primórdios do cinema que contava a história de um jardineiro atrapalhado, cujo título era “O jardineiro ajardinado”.
No caso, este foi o assaltante ‘assaltanado’, ou enrolado.

Ainda melhor - e para finalizar - de uma boa conversa ninguém escapa.

quinta-feira, março 01, 2007

O “caso” do óbvio ululante

Uma vez, já há alguns anos atrás, eu trabalhava na Contemporânea e aquela agência estava com a conta da Cultura Inglesa. Era tarde da noite, e no dia seguinte tínhamos que apresentar um anúncio para os 50 anos daquela entidade de ensino. Detalhe: a verba era uma “titica”, e só cabiam nela um anúncio e um spot de rádio. Televisão, nem pensar!

Caiu na minha mão um livreto. Era realmente um livreto tamanho pocket, com poucas páginas. Precisando relaxar, eu o devorei. E vibrei. Pouco depois saia a solução para o anúncio. Uma solução óbvia. Tão simples. Tão direta. O anúncio era a foto de um bolo inglês, aquele bolinho pequeno que vem com um invólucro de papel (tipo o de brigadeirro, só que maior), um palitinho espetado nele com a Union Jack, a bandeira da Grã Bretanha.

Além disso, o bolo seria distribuído nas unidades da Cultura, como brinde, no dia do aniversário. Olha, foi um sucesso! Choveu gente. Todo mundo querendo bolo inglês com bandeirinha espetada. Uma promoção barata, com uma verba que só dava para um anúncio de um quarto de página nos jornais e um spot de 30 segundos anunciando o evento.

Tudo graças ao Adams Óbvio*. As boas idéias geralmente são simples. Além do mais, podem ser também bastante óbvias.

(*) Minha amiga Sumire Mulero, de São Paulo me enviou o livro em PDF. Ao agradecer à sua remessa tão preciosa, mandei um texto muito parecido com o que está acima, agradecendo e contando a influência que este livro teve sobre um trabalho que eu desenvolvia. Ela sugeriu que eu deveria colocá-lo no blog. Obviamente o postei.