terça-feira, março 13, 2007

O “caso” da hipermegasena ao contrário

Mais um “caso” de Delano D’Ávila rememorando os tempos em que trabalhamos na Salles.

Precisava contar histórias de outras pessoas. Conheço figuraças no mundo da propaganda. Impagáveis. Com passagens idem.
Gostaria que mesmo sendo por enquanto casos próprios eles não contivéssem coincidências tão improváveis, parecendo inventados como o da velhinha sorridente. Continuo tentando.
Mas aí me vem na lembrança a que chamaria - segundo estudiosos de estatísticas de probabilidades - de uma hipermegasena ao contrário, uma falta de sorte cuja chance de acontecer seria de uma para uns 500.000.000. E deu.
O Olivieri, que gentilmente me hospeda aqui no jongaoliva, viveu como colega, se não me engano, parte do início da hipermegacoincidência. O Favilla idem. Além deles o Fabinho Siqueira, o Fred, o Matano. Discreto como eu era, evitei falar do fato na época e acentuar as fofocas. Agora, passado tanto tempo, não tem mais porque não contar.

Criação da Salles. O trabalho, com clientes de grande visibilidade era enorme, mas compensava com o prazer de muito reconhecimento em sucessivas e expressivas premiações. O Laerte Agnelli saiu. Por seu estilo parceiro e liberal não cruzou os bigodes com o Logullo. Em seguida pintou em nossa área outro diretor de criação. Perfil totalmente diferente, este era redator, parecia um monge franciscano mas provavelmente viera com a instrução de organizar a turma de um outro jeito, digamos, mais severo, Em todos os sentidos.
Questionando coisas quase subjetivas como entreletras e entrelinhas nos textos, obrigando usar arara em vez de papagaio quando o tema da campanha de uma empresa de telecomunicações era bate-papo, reclamando dos horários e das notas de refeição quando ficávamos até as 3 da madruga. E como ficávamos! Era isso, um pesadêlo diário.

Unanimidade nos sentimentos de todos, esse cara era visto como o diabo no dia-a-dia e nos sonhos da moçada.
Rimos muito quando num desses jantares de serão o assunto veio forte e um de nós falou ter sonhado com eles. É isso mesmo: eles. O João Matano viu centenas de diabinhos carecas munidos de tridentinhos o perseguindo ferozmente durante a noite anterior, antes de levantar da cama, apavorado, e vindo parar na agência às 8 da manhã.
Rimos muito. E o nervosismo pelo medo da situação nos fazia rir mais ainda.
A cobrança se prolongava. Todo dia. O dia todo. Parecia interminável. Provavelmente todos deviam estar desabafando em casa com seus pares ou com os amigos mais chegados. Não fui excessão.
Filhos pequenos, morando em apartamento alugado caro, muitas contas pra pagar, e o pânico dividido com minha mulher, principalmente. Isso se acentuou quando bati com o carro e o possante Corcel teria que passar uma temporada na oficina. Fora a despesa inesperada, a Semana Santa tinha tudo para ser um outro desastre. Monótona, melancólica e torturante. Monótona não foi.

Fui salvo pelo fotógrafo Avila, meu pai, que fissurado por automóveis sempre tinha um ou dois de reserva. Fazia disso um hobby simultâneo com negócios. Curtia mesmo.
Sobrou pra mim um veículo digno de baile à fantasia: um incrível Opala amarelo gema. Um horror. O bom-gosto do velho devia estar de férias.

Irmos à praia com crianças no Rio de Janeiro, domingo, final de feriadão, 45 graus à sombra, enfim, tudo isso merecia sairmos bem cedo para encontrar vaga em Ipanema.

9 horas e em Ipanema nada. Leblon nerusca. O jeito seria atravessarmos o túnel. São Conrado, cheinho de carros.
Já na Barra, me esgueirei pela Sernambetiba. Um mar de gente. Um inferno. O que aliás
se em nada combinava com a Semana Santa, lembrava irremediavelmente o nosso algoz de plantão. E o assunto acabava voltando ali no carro, em meio àquele mar de carros. Tudo lotado. Velocidade máxima: 2 km por hora. Suor mínimo: ½ litro por km.

Onde estaria a figura calva? Feriado prolongado, mineiro com saudades, poderia estar por lá, em BH ou nalguma cidadezinha de interior curtindo a família. Poderia estar em SP, de onde viera recomendado, aproveitando para resolver alguma questão qualquer na manhã de segunda. Poderia até mesmo ter saído do país. em Aruba, Miami, Buenos Aires, Montevidéo, sei lá, quem sabe estar em Ciudad del Este pra comprar as muambinhas em conta na época ou em Foz do Iguaçu, mais fresquinha.
Pensando numa temperatura mais coerente poderia estar numa praia, em qualquer ponto dos nossos 8.000 km.

Chegando ao Recreio, eu já desistia daquele programa olímpico, quando aconteceu num sincronismo perfeito, lembrando coisa do David Copperfield, a saída de um carro da vaga, o assobio junto com o aceno do flanelinha e vapt. Lá estava o Opala ovo, quase cozido, devidamente postado de frente “prareia” e os mares de água e gente.
Quase 11 da matina. Sol a pino. Estar com crianças pequenas deixava a dúvida entre comemorar a conquista da vaga ou lamentar a conquista da vaga.

A barraca certamente era o utensílio primordial naquela hora. Rapidamente comecei a cavar um buraco com os costumeiros movimentos circulares. Admitindo-se que o espacinho entre meus pés fossem o ponto zero da primeira girada, ao chegar aos 270 graus, ou seja, bem à minha direita, a uns 2 metros e meio, nosso diretor de criação se besuntava com um óleozinho protetor. E não deu outra. Me viu.

Seria um delirio?
Afinal, tamanha improbabilidade bem poderia ser o resultado fictício do pensamento fixo de meses. Não era. Tudo ali era real. Nem os óculos ele tirara. Sem eles, quem sabe, não me visse e eu, percebendo isso, poderia fugir dali. Com a praia lotada seria só carregar as tralhas para uns 5 metros no sentido contrário. Mas nada disso foi possível. Fiquei paralisado.

A conversa monossilábica foi inevitável.
Parecida com aquelas de elevador, quando a gente de depara com o síndico do prédio a quem se odeia, a sós, dentro do tal cubículo e comenta sem graça que o tempo está quente ou frio, diz se é tarde ou cedo pra isso ou aquilo e torce muito pro veículo chegar rapidinho e a porta pantográfica não enguiçar.
Nosso papo durou longos 2 minutos. Aproveitei quando as crianças começaram a disputar o baldinho de plástico e fui correndo pra água enchê-lo. Ao voltar não vi mais o Jacob Cajaíba. Custei pra dizer o nome dele muito mais por pudores do que pra fazer mistério.
Daí a poucos dias fui convidado para trabalhar noutra agencia, e ele, diferente do que eu supunha, mostrou-se gentil oferecendo-me outras condições e tudo mais, o que optei por recusar sem demonstrar rancores. Foi melhor assim.

Anos depois, importado por SP como DC da Grottera, encontrei o mineirinho integrando a equipe de lá. Gentilíssimo, me recomendou coisas facilitadoras no meu início de comando da agência e na vida nova pela cidade. Até caronas me deu.
Numa delas revelei a ele como acertara na hipermegasenaaocontrário de anos antes.
De tanto rir Jacob, que vinha pela Marginal Pinheiros, errou a entrada para os Jardins.
Fomos parar num daqueles inesquecíveis botequins da Avenida São João festejando nossos acertos.

Considerando que no Brasil o vermelho não é ofensivo, e sim um destaque, vamos voltar a grifar o nome do autor nesta cor.

9 comentários:

isabella disse...

Esse Delano. Acho que junto com o Maurilo já e'o maior colaborador do seu blog.
Mas ele tem um jeito todo especial de contar os casos E essa história de hiper-megasena ao contrário é o cúmulo do azar.

Jonga Olivieri disse...

O Delano está se revelando um bom escritor.
Mais um diretor de arte que podeira ter sido um redator sem o menor problema...

Jonga Olivieri disse...

Como me lembro desse tempo!
Depois disso, em Beagá, à época em que era diretor de criação da ASA, encontrei o Jacob mais de uma vez.
Uma vez nos vimos na “Feira” de comes & bebes da praça da Liberdade, que era todo sábado e tinham barraquinhas em que a gente ficava bebendo e bebendo... e bebendo... um passatempo tipicamente mineiro. Precisa ver como ele estava cordato. Bem diferente.
Acho que o problema é que ele entrou na agência como um “interventor”, colocado para “consertar” justo a nós!!!

angel disse...

É o cúmulo do azar. Meu Deus!

silvia disse...

Deve ser uma figura esquisita este tal de Jacob. Parece que amofinava todos com detalhezinhos. Ufa!

Jonga Olivieri disse...

E põe azar nisso, meu!

Jonga Olivieri disse...

O Jacob Cajaíba já faleceu, Silvia.
Mas, sem dúvida, e com todo o respeito, ele teve um período difícil na Salles (pelo menos para nós que lá estávamos).
Mas, como eu mesmo falei num comentário, a fera não era exatamente o que poderia se pensar que fosse. Acho que no fundo era um pouco mais branda. Pelo menos foi a impressão que me causou em momentos posteriores. E, acho que ao próprio Delano.
Qaundo ele entrou na agência, no entanto, parecia o Sheriff de Nothingham, ou algo no gênero.

Mariana Cajaiba disse...

Sou filha do Jacob e achei curiosa a historia. Dificil imaginar meu saudoso paizinho como um duro algoz, ainda mais quando o tempo transforma mesmo as pessoas mais proximas em lenda...
Abracos, Mariana

Jonga Olivieri disse...

Com todo o respeito à memória de seu pai, quando ele entrou na Salles, logo após a saída do Nelson (o diretor de criação anterior), foi recebido com certa antipatia. Bem como também tomou uma postura (até necessária) não muito cordata.
Como já disse em comentários anteriores, aos poucos -- pelo menos eu -- fui mudando bastante essa opinião.
Coisas que acontecem em circunstâncias delicadas na vida de todos nós, hoje tenho o maior respeito à sua imagem e à sua trajetória pela publicidade.