sexta-feira, março 23, 2007

O “caso” do tempo das réguas

Nunca publiquei dois casos seguidos de colaboradores deste blog, mas segue mais um “caso” do Delano D’Ávila, que está uma fera, escrevendo sem parar...

Estávamos produzindo um spot de radio de 30’’ para o Havoline XYZ etc, etc, da Texaco com o João Saldanha. O controvertido gaúcho de Alegrete, mesmo depois de protagonizar situações polêmicas com nossos craques de seleção, prosseguia idolatrado pela galera através de seus brilhantes comentários sobre futebol na popularíssima Rádio Globo, também líder de audiência.

Saldanha pegou o texto, sentou-se numa cadeira e pôs-se a ensaiá-lo. Antes disso solicitou que o saudoso Chico Vermelho se dispusesse a cronometrar suas tentativas de completar com exatidão os 27 segundos disponíveis antes da vinheta musical com o slogan da marca.
Diferente de todos os locutores com quem gravamos centenas de outros trabalhos, seu ensaio teve uma demonstração fantástica do que é o domínio de um profissional pelo espaço a ele determinado. Ele errou as primeiras vezes de leitura. Só que antes de o Chico confirmar o tempo de execução, o próprio João, numa precisão inacreditável, “adivinhava” o número de segundos gastos em cada ensaio: “Muito rápido, deu 25. Demorei, fiz em 29. Estourei de novo,28. Quase, 26.”
Impressionante. O Chico se limitava a travar o cronômetro, balançar afirmativamente a cabeça sorrindo pra mim e levar o aparelho na direção dos meus olhos para a devida comprovação do fenômeno.
Minutos depois a gravação acabava. Perfeita. Cravada.

Anos mais tarde, juntos na Provarejo, o Chico e eu nos preparávamos para filmar o Marcel Marceau em Paris, num daqueles inesquecíveis comerciais de Natal da Mesbla (o “inesquecíveis” aflora nesta memória ainda mais porque desde então não se vê nadinha na época de festas com o encantamento, a poesia e a originalidade daquelas mensagens). Bem, desculpem-me pela auto-citação. Mas aí o mímico francês, depois de elogiar a idéia entusiasmado, dispôs-se a iniciar, tantas vezes quanto necessárias, os ensaios da primeira tomada. Havia como de hábito uma câmera de VT acoplada à máquina adotada para a cena pelo diretor.
Esta cena previa que o artista, todo de branco. inclusive na pintura do rosto, fizesse sua movimentação da direita para a esquerda da tela, no fundo todo preto.
Nossos olhares voltaram-se para Marceau que rapidamente se colocou na posição inicial, atendeu ao grito de ação e com sua notável performance corporal percorreu o trajeto demarcado. “Corta!”
O grito veio em duas línguas, assim como numa tradução simultânea, a primeira delas em francês. Dirigindo-se do fundo para a equipe afirmava que sua mão saíra de quadro.
Como assim? Como poderia um ser humano, por mais experiente que fosse em suas apresentações, ser tão enfático ao afirmar tamanha minúcia, tão incrível sutileza?
Voltada a fita, todos de olho na telinha reveladora, estava lá a mãozinha branca ultrapassando a linha limite.
Os aplausos de todos os 25 presentes valeram como previsão da rapidez de conclusão
do trabalho. Deu até pra dar uma viajadinha de trem a Deauville, no extremo norte da França, curtir umas horas naquela cidadezinha linda, antes marcada como uma das portas da Segunda Guerra. Como na exatidão do Marceau, a volta, marcada para as 20:43 teve as portas do trem fechadas as 20:43. E voltamos.

Não pra contar vantagem, até porque isso pouco me adiantava e muito menos agora, vêm os roughs de página de revista.
As revistas mais freqüentadas, hoje um pouquinho maiores na altura, permaneceram por muitos anos com 21x28.
Se multiplicássemos esse número de anos pelo número de vezes que rabisquei este formato daria algo em torno de 5.000, por aí. E decorei. Nem sei se o verbo é esse mesmo, nem gosto do sentido da palavra, mas acho que me faço entender.

Numa daquelas pressões do atendimento, fungando no meu cangote, apareceu o querido Areias, apavorado com os prazos dizendo que o cliente estava ligando de 2 em 2 minutos, tendo na retaguarda o assistente puxa-saco e o tráfego de listinha na mão concordando e botando lenha na fogueira.
Quem de criação, acostumado com os ares de pastelaria do setor, não viveu coisa parecida? E quem, por mais santinho que fosse, não terá se aproveitado da chance para disfarçar o incômodo e transformá-lo numa comprovação da disparidade de talentos?
Talentos específicos. Que fique bem entendido.

O Areias, ainda que admirado por sua tenacidade de pé-de-boi e compenetrado na atividade mas duvidando da proeza mordeu a isca.

Puxei o bloco de papel manteiga para minha frente e em quatro rabiscos de caneta Futura
marquei o formato da página. Mesmo quando naquelas circunstâncias nossas sugestões fossem apresentadas em rough nosso Areias estrilou. Convicto na observação de que o cliente teria que ver as medidas certinhas, 21 por 28 cm exatos, destilou seu veneno provocando o DA aqui com ironias impublicáveis.
Risco calculado, como nas demonstrações de habilidade do Rui Chapéu numa mesa de sinuca, desafiador mas tremendo por dentro, ofereci a régua ao adorável português de plantão.
Areias tomou a régua, trouxe a luminária para cima do papel e mergulhou os olhos de lado a lado, de cima a baixo da marcação. Inconformado, repetiu a checagem invertendo os movimentos. Só faltou pedir uma lupa, daquelas grandes, numa tentativa desesperada de não ceder às evidências.

Cedeu. Grande coisa. Horas depois o anúncio alltype foi aprovado. Mas seria de qualquer jeito ainda que marcado com régua nos seus limites, direitinho. Importava sim o seu conteúdo. Importou também a brincadeira, que só aconteceu por sermos bons companheiros, pela dinâmica saudável da Salles na época.

De repente, vou dar umas tentadinhas de fazer um círculo à mão livre, onde não se veja a emenda do lápis. Desafio inútil entre colegas de arte que nunca teve vencedor e só servia mesmo como passatempo. Bobagem que hoje só ajuda a matar as saudades de tempos mais humanos, mais divertidos.
Que venham as saudades.

5 comentários:

isabella disse...

Gostei de ver como o Delano DÁvila conseguiu fazer um texto bem mais curto e passando muita informação.
Ih, mas que cometário mais idiota. Assim até pareço até uma professorinha de português.

Jonga Olivieri disse...

Muito "professorinha" de português, Bel...
Quanto ao seu "caso", Delano, você tem toda razão em relação ao Saldanha. O cara era um conômetro ambulante.
Aliás, eu faloo acerca disso no "caso" do Nelson Rodrigues, postado em agosto de 2006, quando conto as experiências de uma campanha para o Banco Nacional.

Redatozim disse...

Uma arte perdida no tempo, infelizmente esse talento do Delano. Era realmente um tempo mais romântico (que vivi pouco), mas do qual tenho saudades. Hoje a coisa é mais "profissional", em um sentido não tão lisonjeiro da palavra, se é que você me entende.

Jonga Olivieri disse...

Apesar de a pergunta ser para o Delano (mais meu parceiro do que colaborador), mas afirmo aqui que você tem toda razão, meu caro Redatozim. Naquele tempo, a coisa era mauito mais divertida.
E o "profissionalismo" de hoje afundou um pouco da poesia que então era muito maior.
Saudosismos à parte, foi um período que só quem viveu pode dizer o quanto era do cacête mesmo.

jr disse...

Anúncios do tempo da cola de sapateiro e do papel''schöeller". Não é assim que se escreve? Uma coisa que ficou enterrada no passado, mas que dava a vocês da criação um pouquinho mais de tempo para pensar. Hoje a coisa e vapt-vupt. As criações são feitas as pressas. O menor caminho passa a ser a melhor solução. E a criatividade, olha essa vai pelo ralo.