terça-feira, março 20, 2007

O “caso”do vascaíno rubro-negro

Desta feita, Delano D’Ávila conta uma história que remonta ao início de sua carreira.

Agora pela manhã, no Sportv, apareceram juntos no Redação, o Armando Nogueira e o Rui Osterman.
Têm um estilo semelhante de abordar as coisas do futebol, com poesia, oportunismo sensível e toques de sarcasmo deliciosos. A vida acaba sendo uma cópia iminente do futebol quando não se enxerga apenas aquele monte de homens correndo atrás de uma bola. Eles sabem disso. E usam inteligência e sabedoria nessas horas.
Quando o Armando, sabedor da eterna indefinição do colega em torcer para Grêmio ou Inter, perguntou ao gaúcho se durante um clássico entre eles seu coração batia mais forte para um dos lados, me veio, irremediável, a história que poderia ter mudado meu destino. Tem propaganda e futebol. Tem paixão. Tem o início da minha vida profissional. Tem um pouco de tudo, até da admiração indecifrável do Rui.

Primeiros dias de estágio na Denison quando ficava na Rua Dona Mariana, em Botafogo. Esses dias foram como os de qualquer estagiário bem chegado. Conseguido por meu pai, fornecedor habitual de fotografias da agência, cercavam-me por isso de boas doses de atenção. Minha tendência artística bastou para ser colocado no estúdio onde conviviam ilustradores, letristas, arte-finalistas, tráfego e produção. O espaço era grande e agradável dentro da casa. O curioso é que este lounge ficava no segundo andar mas descíamos quatro ou cinco degraus para chegarmos a ele. Combinava com meus sonhos, começando de baixo.

Reservaram pra mim uma prancheta ao lado do Bilé. perpendicular à sua grande mesa, ou seja, de lado pra ele e seu variado universo de objetos. Tinha de tudo.
Um monte de papéis, fotocomposições, fotoletras, provas em couché dos anúncios de varejo, além de réguas, conta-fios, várias canetas, telephones (aqui exagerei), blocos de notas em quatro vias – a branca seguida de amarela, rosa e azul clarinho – e bandeirinhas do Flamengo. Em baixo do vidro inteiriço havia outras coisas: sêlos, escudos e fotos do time de vários campeonatos, Na parede também. Ali fotos maiores, grudadas com fita durex ou crepe dobrada. Foi assim. Eu, vascaíno franzino, começando o meu futuro, cercado pelo fanatismo corpulento e rubro-negro do Bilé.
Quietinho, fui rabiscando idéias à esmo esperando que alguém percebesse meu talento com bons olhos.

O Bilé era um sujeito interessante. Baiano gordão, sempre cantando um bolero de gôsto duvidoso, fã ardoroso do Nelson Gonçalves de quem tinha toda a coleção de discos. Personalidade forte, dominava sua área com notável destreza mesmo quando os jobs se empilhavam à sua frente. Eu havia esquecido desses envelopes pardos. Eram mais papéis sobre a mesa, coalhada deles.

Todos os dias, aos cinco pro meio-dia, o Adílson, seu boy assistente, cavava um espacinho na mesa para uma garrafa de Guaraná Brahma. O refrigerante que acompanharia os dois sanduíches que Bilé devorava já vinha destampado. A tampa era simplesmente pousada na boca do gargalo para evitar que o gás saísse. E ficava ali. Bem atrás do meu cotovelo esquerdo.

E não deu outra. Meio-dia, ao girar o corpo e levantar da minha prancheta, aconteceu o som abafado do vidro âmbar de encontro àquele oceano de papéis. O líquido alaranjado espalhou-se rapidamente pela mesa do produtor. Grande, rubro-negro e meu chefe por proximidade. A fórmula açucarada daquele guaraná melado funcionaria rapidamente como agente grudador das dezenas de trabalhos e documentos. Pânico. Ouvindo os primeiros e sonoros impropérios do Bilé fui correndo ao banheiro buscar a maior toalha possível e voltei assustadíssimo tentando minimizar a lambança.
Horas depois do almoço o Adílson ainda salvava pacientemente as vias de papel de sêda das notas fiscais descolando as brancas das amarelas das rosas das azuis. Lilás de medo eu rezava em silêncio ouvindo Bilé ofegante resmungar sem piedade pelo acontecimento imprevisível.

Parece que o destino nos obriga a ultrapassar desafios inimagináveis. Esse talvez fosse definitivo. De um lado o Bilé, imenso, poderoso, senhor de si e do seu espaço.
Do outro o herói aqui, no iniciozinho, buscando uma brecha na multidão. Magrinho do jeito que eu era, seria mais fácil àquelas alturas se essa brecha fosse um buraco de agulha. O espaço buscado nos sonhos não previa o apêrto do dia seguinte quando derrubei o guaraná outra vez. Na mesma hora. No mesmo lugar. Na mesma mesa.

Os FDP’s, PQP’s e VTC’s amenizados aqui pelo recurso ortográfico ecoaram pelo recinto. A fúria do baiano prometia naquele momento transformar meus ossinhos em biscoito para cachorro. Só para dar uma idéia, ainda que eu fizesse musculação específica para as coxas durante um bom tempo não as teria no diâmetro do seu braço. Um único uppercut seu e arrancaria a cabecinha sonhadora provocando uma chapada de deep scarlet red no piso de ladrilho importado do local. Corri. Correndo eu era mais eu.
E era correr ou morrer.

Metade do estúdio veio me buscar quase na rua evitando o que seria uma deserção definitiva. Solidária com meu desespêro a outra metade segurava lá dentro o produtor gráfico abrandando a cólera dos perdigotos dos seus berros. Resolvi só voltar dia seguinte. Precisava planejar uma forma de modificar minha reputação com o macaubense truculento.

Pensei nos contrastes. Eu, quase gaúcho, ele baiano do interior. Eu magrinho, ele gordão. Eu vascaíno moderado, ele flamenguista fanático. Eu gostando de rock’n’roll, ele apaixonado pelos boleros e sambas-canção do Nelson Gonçalves. O que fazer?

Bem, primeiro tinha que inverter a posição da prancheta. Mesmo que a direção da luz projetasse sombras nas minhas artes seria bem melhor pra saúde. Depois, puxar conversinhas elogiando as maravilhosas e memoráveis interpretações do “nosso ídolo” e finalmente admitir uma simpatia enrustida pelo preto e vermelho. E assim fiz. Comecei com a tentativa de um aperto de mão. Risco calculado após comentários positivos dos colegas que, no dia anterior o haviam convencido que o ocorrido, bem diferente de uma provocação suicida não passava de simples equívoco nos posicionamentos da prancheta e da garrafa de guaraná.

A relação mudou pra muito melhor quando já nos primeiros diálogos eu comentava que meu pai havia sido cantor de tangos e boleros. Que eu era ouvinte assíduo de Altemar Dutra, que fazia minhas serenatas junto aos bebuns da turma do Alfa nos bares das redondezas, quando até o famoso Wilson Simonal, impressionado com minhas “interpretações” quiz me levar para um teste no Teatro Casagrande ou na Grande Chance do Flavio Cavalcanti. Não fiz estes testes. Mas passei com louvor ao testar os sentimentos
do Bilé. O resultado foi um convite para um fim-de-semana no Maracanã.

Ficava no Maracanã o apartamento do nosso Manoel Bilé. O programa sugerido por ele consistia em ouvirmos toda a coleção do Nelson, beber no durante umas oito cervejas, depois almoçar frango assado com farofa e, ali pelas duas da tarde, caminharmos em direção ao estádio que ficava a poucos metros. Poucos metros?

As superstições do torcedor do Dida eram muitas. Daquelas inacreditáveis, contrariando a física, a matemática e a geometria, fizemos um trajeto que trocou os cinco minutinhos da linha reta por suados 40 minutos de tortuosas linhas gregas. O Botafogo, vencedor da grande maioria dos últimos jogos entre os dois times merecia, segundo Bilé, estratégias mandingüentas ainda mais surpreendentes e absurdas.
Na arquibancada ainda vazia foi mais fácil encontrar a rachadura do degrau onde ele costumava ficar, derradeira superstição da figura antes do confronto.
Fiquei praticamente calado durante toda a preliminar de aspirantes. Lances pouco interessantes me ajudaram a permanecer ali quietinho, apenas observando a entrada da multidão, das charangas e bandeiras, das fantasias de máscaras bizarras, tudo em vermelho e preto.
Lotou. Não há como negar que numa situação dessas meu coração vascaíno sentia um quê de traição junto ao medo de ser descoberto. Embora infinitamente aquém do medo de dias antes, estar ali, dentro das trincheiras adversárias, ao lado de um quase carrasco,
merecia precaução, absoluta mudez e um mimetismo cinza, a cor neutra do cimento do Maraca.

Fácil fácil. Afinal, pelo Botafogo eu só tinha o reconhecimento pela qualidade do time (um timaço) e a afinidade pelas cores coincidentes, tirando, é claro, o vermelho da cruz de Malta. Foi assim até surgir o lançamento de 40m do Gérson para o Quarentinha, o cruzamento para o Jairzinho, o seu passe para o Roberto e acender no placar: Botafogo 1 a 0. Por dentro eu sentia nessa hora algo muito confuso. Uma mistura complexa de sensações que nem Freud explicaria. Mas a que aflorou ao final do primeiro superou todas as outras. Me coloquei comparativamente do outro lado das cabines.
Numa situação daquelas como se portaria a torcida do Vasco? Perdendo, o que faria a torcida vascaína, também de massa e popular como a do Flamengo? E fiquei impressionado, boquiaberto. Poderia a postura de torcidas de massas semelhantes ser tão diferente quando o time perdia? Poderia.

Nos 15 minutos do intervalo a torcida ‘a minha volta não parou de cantar. Entusiasmo descabido para o fraco desempenho do time na primeira etapa, mais desproporcional ainda quando o domínio botafoguense anunciava uma provável goleada. Mas a torcida do Flamengo não cessou de batucar os sambas da Mangueira, da Império, da Portela.
Final de jogo: Flamengo 2 a 1.
Saí do Maracanã com duas certezas: a de testemunhar ao vivo, in loco, a força adicional e entusiasmadora da paixão rubro-negra coletiva, que me faria tremer sempre que a do Vascão decidisse com ela algum campeonato e a de haver executado, ainda que por linhas tortas, o plano salvador da integridade física e da vida profissional.

Semanas depois fui promovido a layoutman e botei na rua meu primeiro anúncio.
Ainda mais depois de tantas primeiras emoções, desta última a gente nunca esquece.

12 comentários:

Redatozim disse...

Mas, afinal de contas, o Delano virou flamenguista?

Jonga Olivieri disse...

Ë redaozim, ima boa pergunta...
Vou saber dele e depois lhe digo.

iisabella disse...

Gostei de mais este caso do Delano e acho que ele tem uma narrativa gostosa. Mas, tenho uma observação a fazer. Acho as histórias dele muito longas. Será que ele não poderia consensar um pouco mais?

Jonga Olivieri disse...

É, Bel, acho que cada um tem seu estilo. E o Delano tece minúcias em seus comentários.
Mas, de qualquer modo vou falar com ele a respeito.
Afinal, você é a nossa leitora mais ativa. Ou pelo menos a comentarista mais freqüente...

***Daniel disse...

Já no meio da narrativa eu sentia que esta história iria ultrapassar em muito o número de linhas, até mesmo, das que escrevi antes.
Como pela vida inteira nunca escrevi, admito que a falta de experiência acabou acentuando esta falha.
E a gente precisa saber usufrir com humildade quando reconhece uma crítica construtiva. E que pode colaborar com a minha evolução nessa nova demonstração de algum talento artístico.
Curioso é que o comentário me faz pensar em escrever uma história sobre o domínio do espaço que tinham algumas celebridades que conheci.
Já já ela aparece por aqui. Super consensada.
Te cuida Paulo Coelho!

Delano d'Avila

Jonga Olivieri disse...

Ia até lhe mandar um e-mail sobre isso e também a pergunta do redatozim acerca de seu time, quando ao entrar no outlook vi que você enviou este comentário, muito oportuno por sinal...

***Daniel disse...

Quando comecei a escrever a última história deixei subentendida a raríssima e paradoxal divisão no coração por duas das maiores potencias do futebol carioca.
Ambas ocupam o seu espaço de seu jeito. Pela primeira, naturalmente, desde os meus 7,8 anos, quando o Vascão era quase imbatível. Finalzinho dos anos 50, por aí.
Aí veio a tal demonstração, in loco, da pujança da torcida adversária, que me deixou assim com sérias dificuldades de explicação sobre o que acontece, de fato, nos meus sentimentos.
Depois surgiu o Eurico Miranda e suas façanhas truculentas, desabonáveis, vergonhosas...
O Zico, brilhante em todos os aspectos, superando
indiscutivelmente o nosso Dinamite, apesar de tantas glórias, do seu caráter admirável e daquele gol de lençol na zaga botafoguense...
O Petkovic fazendo dois gols de falta no Vasco, idênticos, quando as partidas pareciam decididas...
O Eurico insistindo em não largar as malas das arrecadações e a presidência em conluio com o falecido Caixa d'Agua...
Já no fim vem a última série de quase 10 confrontos entre os dois e sistematicamente dá Flamengo, dando a sensação que a camisa deste
joga sozinha...
Mesmo assim continuo o mesmo. Absolutamente dividido. Vibrando quando o Vasco faz um gol mas estranhamente resignado quando, contra o Flamengo, acontece o contrário.
Tenho certeza que se houvessem outros caras enxergando o nobre esporte bretão de forma parecida os estádios estariam cheios como antes, o mundo seria mais pacífico e não menos inteligente, vendo a coisa apenas como espetáculo e diversão.
Como o comentário já está parecendo outro caso e
corro o risco de ser criticado de novo, encerro com
os versos consagrados de um músico coincidentemente rubro-negro, muito apropriados na minha preocupação do momento: Mó num patropi abençoá por De e boni por naturê ma quibelê...

Abrá Delã.

Jonga Olivieri disse...

Grraaaaaaaaaaannnndeeeee Delano.
Sem dúvida um senhor texto explicativo.
Acho que o maurilo agora vai se dar por satisfeito.

Jonga Olivieri disse...

Mas por que ***Daniel?

Delano d'Avila disse...

É que além da pressa e da falta de atenção, tenho me comunicado muito com meu filho na W, através da internet, e é provável que a distração tenha se somado ‘a coincidência de aparecer Daniel como opção na escolha de identidade.
Foi isso. Agora corrigi.

jr disse...

Ih, Achei engraçada história essa história de Daniel. Mas, deixa pra lá, acho que já está meio que explicado pelo Dellano.

Redatozim disse...

Mais do que satisfeito com a explicação e com bastante inveja boa, já que nunca consegui torcer um segundo sequer pelo Cruzeiro risos