sexta-feira, abril 06, 2007

“Casos” do Arco da Velha - II

Aconteceu na McCann-Erickson, na década de 60, e me foi contado com os personagens abaixo.

O "caso" da gravata italiana

Primeiro ato:

Sami Mattar era um diretor de arte da McCann, além de conceituado pintor, com o nome reconhecido no mercado de artes plásticas.

Um belo dia, chegou na agência de gravata nova*.

Gabava-se da beleza da peça do indumentário. Afinal, era italiana. E ele podia garantir isso, porque havia sido trazida por um parente que lá estivera. E ficou o dia inteiro a elogiar a tal gravata. E a exibi-la orgulhoso.

O dia passou assim, todos ouvindo, ou tendo que ouvir que a gravata era isso, era aquilo.

No final do expediente, Victor Kirowisky, chegou ao seu lado com as mãos para trás. E disse algo como:

- Sami, sua gravata é mesmo linda...

Não deu nem tempo para o cara responder, e, abruptamente o Vic estendeu as mãos. Com a esquerda segurou a peça e com a direita cortou-a com uma tesoura. De um golpe só, no meio.

Seguiu-se um instante de silêncio. Todos estupefatos a olhar aquela cena. E o Vic rindo às pamparras com a grotesca cena.

Segundo ato:

Dia seguinte. Todos trabalhando. Sami Mattar ainda mal humorado com a situação da tarde anterior, passou, contrariamente à véspera, um dia inteiro calado.

Quase hora da saída. O Sami aproxima-se da prancheta do Kirowsky. Todo mundo olhando apreensivo. Esperava-se até porrada a essa altura dos acontecimentos.

O Vic meio incomodado com a situação. O cara ali ao seu lado, em silêncio por cerca de dois longos minutos, certamente estava a tramar alguma. Sami pega um grande pote d’água sujo de restos de guache, ecoline e outras coisas. Dizem que o pote tinha até lodo no fundo. Vic tinha fama de nunca lavá-lo.

Em seguida, derrama o seu impoluto conteúdo na cabeça do Vic. O líquido escorre pelo corpo inteiro, respingando pra todo lado.

Seguiu-se um instante de silêncio. Todos estupefatos a olhar aquela cena. E o Sami, agora sim, rindo às pamparras com a patética cena.

Kirowsky ficou a olhar para a frente, para o infinito, puto da vida. Deve ter até saído fumacinha da cabeça. Mas, o que fazer? Toma lá, dá cá... Sujou a roupa**, molhou o cachimbo, o trabalho que estava sobre a prancheta, e até a mesa auxiliar.

Pano rápido.

(*) Esse é tão antigo que é do tempo que criativos iam para a agência de paletó e gravata.

(**) O vestuário do Vic incluía um colete. Aliás, quando o conheci ele ainda usava. E mais: andava de colete num Jeep Williams.

7 comentários:

isabella disse...

Turminha da pesada essa.
Jonga, como é que fica se não forem estes os personagens da história?

Jonga Olivieri disse...

Bel, como eu disse na introdução do "caso", ele foi contado com esses personagens, um dos quais eu conheci muito bem: o Vic.
Mas, é aquele negócio, se não forem eles e houver alguém que prove o fato, faço uma retratação no blog.

jr disse...

Trabalhar na criação de paletó e gravata? Este caso é mesmo do tempo do onça.
Mas dee ter sido engraçado ver o cara todo molhado com água de pote sujo. Quem manda cortar a gravata italiana do outro.

Anônimo disse...

Carambolas.
Este deveria constar em "Casos" do Pinel. Que loucuuuuraaa!
O.

Jonga Olivieri disse...

Gostei do "tempo do onça". Lembra tamvbém do "tempo que os bichos falavam".
Quanto ao Pinel. Estamos nele, estamos nele mesmo. Só que aberto e com livre acesso... rs

Saulo Silveira disse...

Quando trabalhei com o Vic na L&M, ele fazia análise todos os dia depois do expediente, um dia o trabalho atrasou e o Vic, perdeu o hora da psicanálise...ficou puto da vida.

Jonga Olivieri disse...

O Vic fazia análise de grupo. E alguém perguntoua ele uma vez:
- Ô, Vic, vc faz análise de grupo?
Ele respondeu que sim e a pessoa retrucou:
- Você e quantos analistas?