segunda-feira, abril 09, 2007

O “caso” do osso maior

Mais um “caso” do Delano D’Ávila, colaborador e quase sócio neste blog.

Fazia já um tempão que eu curtia aquele joguinho de palavras cruzadas.
A aparente inocência do brinquedo de pecinhas quadradas da Estrela foi transformada. Um releiaute que tornou o morno e sonolento joguinho das tardes no sítio em constantes desafios entre cabeças abastecidas de bom vocabulário e domínio de visualização espacial. O dicionário Aurélio funcionaria como juíz, não valendo assim colocar quaisquer palavras inventadas. Tempo de verbo sem sentido próprio também não valia.

Se as jogadas mais comuns somavam 10 pontos em média imagine-se quando conseguíssemos despejar as 7 letras juntas, numa só palavra. Esse tipo de lance valia 50 pontos de bônus! Mais ainda quando uma dessas letrinhas caísse no orgasmático tríplice valor da palavra! Vi alguns lances chegarem a 100 pontos ou mais. Sem desconfiança.

O primeiro dos quesitos, vocabulário farto, seria conferido no Aurélião toda vez que um dos oponentes discordasse da grafia de uma dessas palavras mortais adotada pelo outro jogador ao ser colocada no tabuleiro.
Tal checagem se comprovada inverteria os pontos, ou seja, tudo que seria a favor na soma seria subtraido na contagem. Assim, na grande maioria das vezes em que isso acontecesse o momento praticamente definiria a partida. Para um lado ou para o outro pois caso a palavra estivesse correta, a jogada dobraria os pontos do seu executor.

Muito divertidas as horas de almoço de todas as agências em que trabalhei. Tive grandes adversários. O companheiro Antonio Mário e principalmente o gaúcho Fraga, belos redatores e de ótima cultura, com certeza prejudicaram a hegemonia da minha estatística. Mas o que nunca me saiu da memória foi o Sergio Muñoz. Colega do pequeno escritório da JMM São Paulo, ele acumulava funções de tráfego, produtor gráfico e meu desafiante diário no joguinho antes inocente.

O grande problema dos convencidos, como era o meu caso, era achar que podia vencer partidas antes mesmo de disputá-las. Mais ainda se faltasse a humildade em admitir ignorância quanto às inúmeras e misteriosas sutilezas da nossa lingua.

A disputa naquele dia estava difícil pra mim, aliás, dificílima. Um emaranhado de palavrinhas curtas e dezenas de monossílabas truncava os espaços impedindo jogadas de muitas letras e atingir posições e pontuações mais compensadoras. A diferença a favor do Sérgio aumentava a cada jogada. A sorte também não ajudava quando a maioria das letrinhas eram consoantes daquelas mais usadas em alemão. Decidi então passar jogadas sem marcar pontos trocando no saquinho, quase vazio, 4 ou 5 daquelas consoantes travadoras por outras 4 ou 5, torcendo para aparecer uma vogalzinha salvadora.

Derrota iminente, só o milagre de botar as sete poderia àquelas alturas salvar o marrento aqui.
De repente veio um coringa, Com ele, talvez juntando as consoantes ao recente e único Azinho e também ao U (menos versátil das vogais) ao R, ao M, ao F, ao L e mexendo muito na sequência. Invertendo pra lá e pra cá e com um pouco de inspiração, quem sabe a palavra salvadora aparecesse. Ainda restava um espacinho aberto mas apertado. Sérgio não poderia entrar ali. Nele eu poderia anexando a última letra da sonhada palavra à primeira exposta naquele espaço, formar uma monossílaba dessas banais como o símbolo do alumínio (al) e vuuupt, subir ao tríplice valor da palavra.
Vibrei muito ao notar que meu adversário usara somente o cantinho do tabuleiro.
No mesmo instante a palavra estava lá, enfileirada no suporte de madeira. Este apetrecho facilitava o manuseio e escondia a intenção fulminante do narrador que exultava por dentro: FEMURAL. Significado previsto: relativo a fêmur. Lógico.
Botei. Botei e bati. A constatação do sucesso somava cento e tantos pontos. O saco vazio avisava o encerramento da partida. Antes disso Sérgio ainda deveria descontar do seu total o número de pontos das letrinhas que lhe sobraram. Coitado, nunca poderia imaginar tal desfecho. Final: 254 a 248. Pálido, Sergio disfarçava sua decepção com um tímido sorriso no canto da boca. Mas desconfiou.

Desesperada alternativa essa do Sérgio quando deve ter pensado: partida perdida por um, partida perdida por mil.
Era evidente a existência da palavra. Indubitável a perfeição da grafia.
Se compararmos com outras situações semelhantes e para ficarmos somente com palavras relativas a partes do corpo humano, teríamos por exemplo: labial - relativo a lábio, braçal - relativo a braço, peitoral - relativo a peito - e outras tantas a confirmar o raciocínio ortográfico básico de qualquer um. Até de intelectuais ortopedistas.
Eu mesmo abri o livro. Minha confiança era tanta que durante a procura, ironizando sua derrota, convidei-o para tomarmos juntos uma cervejinha ao final do expediente.

Estava lá: FEMORAL - do lat. femor, femoris – relativo a femur.
Fiquei mudo. Paralizado. Sem graça. Na hora, sem saber o que dizer, limitei-me a cumprimentá-lo e pedir para a Edith mandar comprar um vidrinho de Novalgina gotas.
Eu já sentia os primeiros sinais de uma monumental dor-de-cabeça. Daquelas que só passaria no dia seguinte depois de hibernar uma noite inteira.

Anos depois, estava na emergência do Hospital Miguel Couto acompanhando um amigo acidentado e deparei com uma radiografia do nosso osso maior. Pendurada contra a luz deixava aparecer na descrição do canto inferior a palavra femural. Nada mal para quem precisava recuperar um pouquinho da auto-estima.

5 comentários:

isabella disse...

Quem não jogou Palavras Cruzdas? E Banco Imobiliário? Eu adorava esses joguinhos.
Quanto ao caso do Delanno é muito interessante porque justamente aborda este jogo tão gostoso que tem anos que eu não jogo.

Jonga Olivieri disse...

Chegou meio dia e eu disse pra mim mesmo: A Bel já mandou o comentário dela. Dito e feito.
E o jogo de Palavras Cruzadas. Quem não jogou?

Anônimo disse...

Uma historinha FENUMENAL,

jr disse...

Ih, rapaz, como eu joguei este joguinho. Era mesmo uma cachaça.
Mas o Aurélio era o grande terror da moçada.

Jonga Olivieri disse...

Anônimo, que trocadalho!\E, realmente JR, este jogo era uma cachaça. E de vez em quando ainda jogamos aqui em casa.