segunda-feira, maio 07, 2007

O “caso” do Traça

Delano D’Ávila rides again... com um caso do cacête..

Alfredo era uma figuraça. Não só por ser um cara baixinho, magrinho e narigudo, mas principalmente pela função exótica que exercia na agência:
recortar dos jornais do dia as notícias que tivessem a ver com os clientes. Comerciais ou políticas. Boas ou más. Diretas ou indiretas.
De manhã cedo já estava ele num canto de sala ao lado da pilha de matutinos, munido de tesoura, esquartejando suas páginas. Daí o genial apelido de Traça que não lembro quem deu, mas que deu uma inveja das boas isso deu.

Também ignoro de quem teria sido o primeiro comentário de que Alfredo mesmo assim, tão raquítico, era possuidor do maior pênis da propaganda carioca. Aí outra inveja. E evidentemente não era do comentário.

Aparentando uma tranqüilidade cínica diante das insinuações provocativas da turma, o esquálido rapaz confirmava os atributos. Pior, ia além, a partir disso Alfredo começou a ostentar o título. Mas limitava-se a sorrir quando o Lula, sarcástico, previa sua morte quando a ferramenta masculina lhe exigisse o sangue do corpinho inteiro para preenchê-la e torná-la completamente ereta. Todo santo dia havia insinuações dos colegas provocando nosso Long Dong Silver. Alfredo, que sequer tinha sinais de afrodescendência fazia por isso admitirmos um possível blefe ao alardear suas exageradas e desproporcionais medidas. Foi quando o Jorge Skinner, assistente de arte no estúdio, resolveu entrar na história.

Alto e forte, levava quem escutasse seus insistentes desafios a acreditar muito mais nele, lógico. Afirmava que o seu sim, o seu é que era um fenômeno. Jurava comprimentos e diâmetros nigerianos como se não tivesse
singelos traços europeus. Que o Traça não era páreo pra ele. Que a taça estava no papo. Tudo parecia não passar de brincadeira, passatempo da turma.
Como todos naquela área de criação e arte eram homens, sem qualquer constrangimento resolvi pegar uma folha de bloco das grandes e inventar um cartaz com dois falos cruzados convidando a moçada para a grande disputa que aconteceria poucos dias depois deste poster pintado, colado na parede bem na frente da porta principal. Arbitrei sexta-feira, final do expediente.
O duelo teria regras simples e definitivas; cada concorrente poderia se trancar no banheiro por no máximo 3 minutos, sair quando percebesse estar no auge de sua virilidade e se apresentar para um corpo de três jurados dentro da sala da criação pelo tempo mínimo de 10 segundos.
Dentre estes haveria um sorteado para a medição com régua, outro com um canudo de rolo de papel higiênico, pronto para a constatação da dita circunferência e o terceiro fiscalizaria a ambos.
E o cartaz ficou lá, exposto para o devido deleite de quem o lesse, e tudo não passaria de uma dessas costumeiras gozações entre pessoas de equipe.

Alfredo não sentiu assim.
Sexta-feira, 5 e meia da tarde, o pesquisador da tesoura empurrou a porta nem-te-ligo como um xerife num filme de faroeste, empunhando seu Colt 45 reluzente, colossal e disparando berros: Está duuuura! Está duuuuuuuuuura!
A cena, uma mistura de Nelson Rodrigues, Fellini, Plínio Marcos e Carlos Zéfiro provocou um silêncio instantâneo. Susto de alguns, admiração de outros. Em seguida diversas reações individuais como o tampar os olhos entreabrindo dedos, uma risada nervosa festejando estar sentado e o mais assumidamente sem-vergonha, o Amaury Nicolini, redator, deliciando-se com o ineditismo da coisa e procurando rápido por uma régua.

Tudo isso pode ter durado um minuto se tanto.
Um minutinho de loucura do Traça. A maior loucura que já vi um colega praticar dentro de uma agência de propaganda no quesito cara-de-pau. Cara e pau, para sermos ainda mais explícitos. Mas Alfredo, que em outro lugar menos liberal poderia ser preso por atentado ao pudor, provou à sua maneira que tinha razão. Uma espantosa razão. Tanto que seu adversário sequer esboçou outra atitude a não ser espremer os lábios, arregalar os olhos e balançar a cabeça afirmativamente. Jorge jogou a toalha antes mesmo de entrar no ringue.

Na segunda-feira os divertidos rumores da barbaridade épica (e bota épica nisso) ainda rolavam quando de repente o Cid Pacheco, diretor técnico da agência, brilhante professor e palestrante universitário entra pela tal porta, seguido por um grupo de alunas suas para apresentar o setor de criação e arte da JMM. Amarelamos. Prendemos o riso. O cartaz do duelo felliniano não fôra arrancado da parede. Naquele instante não daria pra fazer nada além de torcer calado para que não fosse visto. Se foi, nunca vou saber.

9 comentários:

Redatozim disse...

O famoso concurso de "pipoca" em níveis profissionais. Impagável.

***Daniel disse...

Redatorzim,

Você foi o solitário comentarista desse meu último "caso". Justo quando imaginava aparecerem vários,
até algumas críticas.
Que será que houve? Falta de tempo?
Ou será que não gostaram do tamanho?
O "caso" é muito grande?

Jonga Olivieri disse...

Muita gente lê e não comenta.
Houve um período em que várias pessoas (entre as quais eu nem sabia quem eram alguns) comentavam com mais freqüência.
Ultimamente tem crescido o número de pessoas, que eu sei que fazem uma leitura do blog, mas que preferem não aparecer.
Estamos vivendo um período assim.

PC disse...

Mexeu com os brios do rapaz, teve que aguentar!!

E o caso está ótimo, eu não ligo para a condensação do texto, para mim, quanto mais detalhes melhor, o meu problema é falta de tempo, principalmente essa semana.

PS: Jonga, eu sou um desses seus leitores que você nem imagina quem seja?

Redatozim disse...

Delano, talvez falar de pau assuste o povo, sei lá. Eu volta e meia tenho dessas situações em que acho que o post vai bombar e ninguém comenta. Ces't la vie.

Jonga Olivieri disse...

E tem o oposto: uma postagem que a gente acha que não vai dar comentário nenhum e repercute demais.
É isso aí...

Raphael disse...

Olá,
Esses dias meu pai (Albano) conheceu o Delano. Assim, cheguei até esse blogger. Por sinal, gostei bastante! Excelentes textos!
Virei mais vezes conferir os "casos" e trocar figurinhas...rs
Estou linkando no meu blogger tb.
Grande abraço!

Skinner disse...

Meu Deus!!!, nunca imaginei que este caso fosse parar na net!! Nem me lembrava mais deste cômico episódio. Foi extremamente bizarro o defecho desta pequena comédia. Juro que nunca tive a mínima intenção de expor meus dotes de masculinidade. Era apenas uma provocação, uma brincadeira com um colega prá lá de exótico. Qual não foi meu espanto e constrangimento ao ver aquela pequena figura enlouquecida, empunhando aquela ferramenta fálica, que afinal, a bem de verdade não era tão colossal assim. Chamava a atenção mais pela desproporcionalide de seu possuidor do que pelo tamanho efetivo do referido membro. O Traça era uma figura. Bons tempos. Bons amigos. Saudades de toda a turma e do meu grande amigo e mestre Delano LaGamba Dávila.
Jorge Luis Skinner.

Skinner disse...

Em tempo: Gostaria de entrar em contato com meu velho e bom amigo Delano. Meu end de e-mail é jorgeluis.skinner@gmail.com.
Grato e um super abraço para todos.