quinta-feira, julho 26, 2007

O “caso” da sangria desatada*

Havia mais de dois meses que não publicava um “caso” neste blog. Durante muito tempo postei os que havia escrito com a intenção de um dia lançar um livro. Com o passar do tempo, fui escrevendo mais alguns. Mas, agora lembrei-me deste que segue abaixo.

Fui quase um fundador da Contemporânea. Entrei naquela agência no início de 1984. Certa vez, cheio de trabalho, fiquei até umas oito da noite. É certo que este horário para aquela agência era mais do que normal. Mas, fato curioso, foi um daqueles raros dias em que quase todos haviam saído lá pelas sete. Como tinha que acabar alguns trabalhos, não me foi possível acompanhar os demais, inclusive o Bernardo, redator que trabalhava comigo.

Terminadas as minhas tarefas, com a consciência tranqüila e a sensação do dever cumprido, reuni meus pincéis, marcadores e outros apetrechos comuns à época, e me arrumei para sair. Como o Mauro Matos não estava na sala, não me despedi dele. Desci as escadas da criação, cansado, e me encaminhei para o portão de saída daquela aprazível casa na Urca. Quando ia chegando no portão, deparei com o Armando Strozemberg de pé, com um ar pensativo na porta principal da agência, um tanto quanto preocupado.

-- Jooongaaa... meu querido... que bom que você está aquí... Exclamou

Pela reação, senti que vinha chumbo grosso. Chamou-me para entrar na sala de reunião que ficava bem ao lado da recepção. Entrando na sala, lá estava o Mauro, cheio de papéis rabiscados. Conclui que estavam em reunião. Rapidamente me colocaram a par da situação. O BarraShopping ia fazer uma expansão (aliás a primeira de uma série delas), e precisava de um folhetaço para divulgar o fato. Pequeno detalhe: o cliente precisava ver a peça na manhã seguinte, sem falta.

Ali mesmo comecei a trocar idéias com o Mauro e o Armando. Nesta altura, num estalo, lembrei-me que precisava de alguém do estúdio para me dar um suporte. Saí correndo e, por sorte, encontrei o Ricardo, ainda bem que um profissional tarimbado. Mas um apenas, num estúdio de muita gente. Expliquei a ele a situação e voltei para a reunião. Esta se prolongou até cerca das dez da noite. O Armando me explicou que eu podia recortar fotos de revistas e colar nas páginas, que não era preciso marcar as ilustrações. Devido à falta de tempo, o importante era passar o espírito da coisa com belas imagens.

Ainda saí dali e fomos, o Mauro e eu para a sala dele tecer alguns ajustes finais do trabalho, como títulos e outros detalhes. Enquanto isso, o Ricardo, coitado, lá em baixo esperando. Quando acabei a reunião, desci e conversei com ele para acertar um esquema de trabalho, já que éramos apenas dois para aquela tarefa hercúlea. Principalmente pelo prazo. A esta altura, já estávamos além das onze, e eu ainda tinha que rafear tudo. Nessas horas, sempre dá um friozinho na barriga. Mas, não resta outra coisa a não ser arregaçar as mangas e mandar pêra. Passei para o Ricardo a medida e o número de páginas (calculado rapidamente) para ele começar a montar o esqueleto do folheto. Noite adentro, fomos selecionando, recortando e colando fotos, marcando letras de títulos, colocando bodytipes nas áreas de texto, refilando as páginas. Enfim, eu também virava profissional de estúdio e letrista. Senão não dava tempo. Naquela época, isto era muito comum em boa parte das vezes.

Resumo da ópera. Varamos a noite nessa lenha. O dia já amanhecia quando terminamos o trabalho, e lá estava prontinho o folhetão** de mais de vinte páginas, bolsa para plantas e os cambáu. Deixei o trabalho na mesa do Mauro, conforme combinado e me mandei. Fui dormir. Acho que merecia.

Voltei na agência às cinco da tarde daquele dia. Meio ressaqueado, mas curioso em saber de resultados. E aí aconteceu o pior. Por questões de horário e disponibilidade do cliente, o trabalho ainda não havia sendo apresentado. Argh! Voltei pra casa na mesma hora. Muito puto da vida.

(*) Termo (muito usado em Minas) para dizer que uma coisa é urgentíssima.

(**) Até hoje, passados cerca de vinte e cinco anos, tenho este folheto guardado. Ele ainda é um belo trabalho,e, importante, na opinião das pessoas que o vêem.

14 comentários:

Redatozim disse...

Você ainda tem a boneca ou o material impresso? Se for a boneca vou te pedir três autógrafos seguidos pela organização.

Jonga Olivieri disse...

Tenho o material impresso.
Aliás, há um fato curioso sobre este folheto.
Qaundo fui ser diretor de criação da ASA, em 1985, ele era um folheto recente.
Quando o BH Shopping foi fazewr sua expanção, levou o folheto como exemplo, dizendo que queria igual, só mudando as informações do shopping.
Quando souberam que eu havia feito o do BarraShopping, virei um deus pros caras...

Jonga Olivieri disse...

Desculpe: corrigindo, "expansão"

Anônimo disse...

Ainda bem que você me avisou que estava postando alguma coisa neste blog. Como ele andava parado, tem muito tempo que não entro nele. Só de vez em quando, claro.
Gostei muito do post. Lembrei daquele em que você ficou na agência (não me lembro qual) e teve que fazer umas transparências e acabou siando pela manhã.
Caramba! Será que você não aprendeu com aquela?
O.

Jonga Olivieri disse...

Avisei a meia dúzia de pessoas que eu sei que lêem meus blogs.
No tocante ao meu post anterior: "o 'caso' do soldado no quartel...", eu estava de bobeira na agência esperando o trânsito melhorar. Foi bobeira.
Neste, eu estava era cheio de trabalho mesmo. E cansado pra cacête...

jr disse...

Sei que ando sumido. Falta de tempo. Falta de saco de computador. Já trabalho o dia inteiro nele. Tem horas que você quer é distância.
Que bom que você voltou a publicar alguma coisa neste blog.
Com que frequencia pretende postar.
Vou ficar atento.

Jonga Olivieri disse...

Eu sabia que a 1/2 dúzia de freqüentadores deste blog iriam responder. Obrigado, JR.
Quanto à freqüência com que vou postar aqui no "Casos" da Propaganda, não quero prometer nada. Vai depender de quando eu vá me lembrando de novos casos. Ou de quando meus colaboradores menviarem algum.
Mas, vou fazer o possível para que seja a maior possível. Vamos ver.

miguel disse...

Jonga,acabei de ler seus "causos" e como de costume me diverti bastante.

Jonga Olivieri disse...

Obrigado Miguel, pela força. E vamos em frente.

Jonga Olivieri disse...

Tavinho. Lembrei que a semelhança entre este caso e o da L&M é que em ambos eu estava sozinho na criação da agência.
A sorte, neste último é que pelo menos tinha alguém no estúdio para me ajudar. Uf! Ainda bem, porque senão teria sido uma loucura!

André Setaro disse...

Ainda bem que você voltou a nos dar novos casos de propaganda. Este do folheto do Barrashopping é muito interessante e mostra como o publicitário trabalha - e o pior é que, de repente, quando já se pensa tudo terminado, aparece um fato novo. Como no que você contou.

Jonga Olivieri disse...

Ih, André, é uma loucura.
Quando eu trabalhei aí na Bahi, na DM9, eu costumava dizer que a gente tinha um horário para entrar e um para fugir. Isto porque o Duda chegava de tarde, cara limpa e gostava de sair mais tarde. Se ele visse vc saindo lhe pegava pelo pé. E aí, para sair era uma lenha.
Mas não é só ele não. Isso é muito comum em publicidade. Um vício, eu diria.

Cecé disse...

Tem que ter muito saco!!!! virar noite trabalhando é dose, eu não aquento não... durmo mesmo!!!! rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrrsrsrs

Jonga Olivieri disse...

É desgastante, quando se começa cedo ter que dar uma virada. Mas, publicidade é assim mesmo. Na minha primeira vez varando a amdrugada eu ainda era estagiário.