quinta-feira, agosto 30, 2007

O “caso” do barco de sushi

Trabalhei com Felipe Monsanto na VS. O que posso dizer dele, é que além do grande profissional que é, também é um grande amigo, um grande coração, uma grande companhia e um grande caráter. Aliás, grande é uma característica do Felipão. Como sugere a alcunha, não só um grande cara, mas um cara grande. E por falar em grande, segue aqui um grande “caso” contado por ele. Em grande estilo.

Não lembro bem o ano, devia ser 1993, trabalhava na VS Escala e isso significava trabalhar que nem um corno e, para os novatos como eu, também receber salário de corno.

Além disso, como operador de Mac, sobrava trabalho depois da hora quase todos os dias, onde a gente tinha que pagar o jantar e o táxi do próprio bolso e o caixa da agência levava, às vezes, 15 dias pra reembolsar. Eu vivia bem alimentado, porém duro que nem um coco.

Certo dia conversei com o Neri, diretor financeiro da casa e contei a ele o problema, que passou a me fornecer cheques da agência assinados e em branco pra pagar os jantares da galera. No dia seguinte eu só tinha que entregar a nota fiscal pra ele. Por incrível que pareça esse foi o pior negócio que já fiz na vida. Por ser o cara que conseguia os cheques, nunca mais me deixaram sair cedo, eu era convocado para todas as viradas de noite...

Certa vez fui chamado na sala do Aías, o VP financeiro pra explicar como eu e o Fred (Dabus) tínhamos comido 10 sobremesas em um único jantar. É que, por razões óbvias, não se podia pedir bebidas alcoólicas. Mas a gente sempre pedia e mandava não botar na nota. Dessa vez a moça do restaurante mudou a tática e botou as latinhas de cerveja como sobremesas... E pra explicar? Disse que eram os refrigerantes e as duas sobremesas juntas ou qualquer coisa parecida.

Até hoje não sei se colou, sei que passamos a tomar mais cuidado ao “instruir corretamente nossos fornecedores” no preenchimento de suas notas fiscais a partir desse dia.

Mas a melhor mesmo foi num sábado que fomos trabalhar na agência eu e o Jonga (este mesmo aqui do Blog). De posse do chequinho do Neri ligamos para o Yamamoto (restaurante japonês muito bom e que não cobrava tanto, afinal eram épocas de vacas gordas na propaganda, mas a gente tentava economizar o dinheiro da agência) e pedimos um barcão de sushi no capricho.

Feito o pedido, desci até o primeiro andar, onde ficava a cozinha, pra pegar um copo d'água e dei de cara com o Lula (o patrão).

Assustado com a minha presença na agência num sábado, perguntou: "Tá fazendo o que aqui garoto?"

Eu mais assustado ainda com a presença dele num sábado na agência (se fosse o Waldir era mais sério ainda) respondi: "Telerj." Poderia ter respondido Telergh, Telerda, Telemerda, mas tentei ser sério.

Nem peguei a água e voltei correndo pra sala do Mac e contei pro Jonga: "O Lula tá aí!" E ele me respondeu: “Puta que pariu, caralho, fudeu!!! Vamos morrer de fome, Felipão!”

“Calma Jonga, ele tá tendo dificuldades pra conseguir um táxi, vamos ajudar”, eu disse.

Cada um pegou um telefone e começamos a tentar achar um táxi a qualquer custo. Quando conseguimos, passamos então a rezar pro táxi chegar antes do barco (de sushi), o que, pra nossa sorte, aconteceu.

Dez minutos depois de ele ir embora, chegou nosso belo barco de sushi e algumas cervejas geladinhas, que comemos e bebemos com toda a calma do mundo. O problema é que se o Lula visse o sushi, ia se chegar pra comer, botando logo dois ou três na boca por vez e antes que a gente desse conta ele já teria comido tudo... E, o que é pior, ia deixar o pobre do taxista esperando por ele.

Devem estar pensando como ficou a campanha. Com a inspiração do sushi, acabou ficando ducaraaaaallllhhhhooooo!!

PS: O Neri (aquele que liberava o chequinho em branco) é nosso contador há 12 anos, amigo há 17 e cliente há uns 6.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O "caso" do orçamento

Segue mais um “caso” de Maurilo Andréas, o mais jovem, no entanto, o mais antigo colaborador deste blog.

Lembrei de mais um caso de um certo ex-patrão meu. Apresentávamos uma campanha para um cliente antigo da casa, mas com responsável novo pelo marketing e corria tudo bem. O conceito havia sido aprovado com louvor, o filme foi elogiadíssimo e entrávamos na sempre complicada parte dos orçamentos.

Os custos de mídia geraram algum debate e na hora dos orçamentos de produção os ânimos começaram a se alterar. De repente, bem no meio da apresentação dos orçamentos do filme o novo gerente de marketing do cliente exclama (valores fictícios obviamente):

“Cem mil reais!? Um filme desses eu faço por vinte mil fácil!”

No que o dono da agência responde de bate-pronto:

“Pois então a reunião está encerrada. Senhores, aí está o nosso novo fornecedor. Boa sorte!”.

Até a temperatura baixar foi um custo, mas terminou tudo bem e o filme acabou sendo rodado. Com nosso orçamento, claro.

quarta-feira, agosto 22, 2007

O “caso” da ‘hora do trem’

Tem aquela velha história de que mineiro nunca perde o trem. Bem, não sou mineiro de nascimento, mas o sou por estar casado com uma por mais de três décadas. E, independente de qualquer influência, o baiano aqui nunca foi de chegar atrasado em lugar nenhum. Tenho mesmo uma obsessão por horários. Desde a reunião de trabalho ao compromisso social mais bobinho. Costumo até sofrer com isso, pois chego às vezes tão antes da hora, que tenho que fazer alguma outra coisa para chegar no local somente no horário marcado.

Mas, aconteceu... tudo tem que ter uma primeira vez na vida. A tal que a gente nunca esquece. Fomos a Vitória a trabalho. Lula Vieira, Silvana Gontijo e eu. O vôo estava marcado para 20h10m. Quando cheguei no Aeroporto Tom Jobim, pra variar era muito cedo: cerca das dez para as sete. Dei uma olhadela, e não vi o casal. “Também -- pensei eu com os meus botões --, ainda é cedo demais". Mesmo assim, fiquei nas imediações da área do check-in da Gol. Nada do Lula... De repente toca o celular. Era ele. “Jonga... aonde você está?” Prontamente disse que o estava esperando no local combinado. Qual não foi a minha surpresa quando ele falou que estava na fila, a poucos metros do lugar em que me encontrava.

Olhei em torno. Estava cheio de gente, mas fui checando as filas e encontrei os dois. Verificamos ali mesmo que o vôo estava atrasado em trinta minutos. Atraso este que para o caos geral nos aeroportos é até insignificante. Umas três semanas antes, indo para a mesma cidade, atender o mesmo cliente, madrugamos no aeroporto, e o vôo simplesmente atrasou mais de três horas. O check-in foi rápido. Logo estávamos liberados.

Normalmente, apesar do atraso, o “mineiro” aqui, iria direto para o salão de embarque, compraria um jornal qualquer, e ali, seguro de que não ia “perder o trem”, ficaria mais tranqüilo. Mas o Lula -- filósofo da vida que é -- sugeriu que, em função do atraso do vôo, fossemos jantar. Eu, meio que sem jeito fui com eles. E até pensei que aquela seria a forma mais correta de encarar o contratempo do “apagão” aéreo.

Subimos um andar e fomos ao Demoiselle. Calmamente pedimos os pratos, e pusemo-nos ao sabor do delicioso passatempo. Papo pra lá, papo pra cá, o tempo foi passando mais leve e rapidamente. Tão rapidamente que quando nos lembramos de consultar a hora, faltavam dez minutos para o embarque. Apressadamente pedimos a conta. Também apressadamente descemos as escadas (ainda bem que rolantes) e nos dirigimos ao portão de embarque. Conseguimos furar a fila, alegando verdadeira e convincentemente que o nosso avião já havia anunciado a partida. Corremos pelo salão de embarque, e, lei de Murph, era o último, lá no fundo...

Quando chegamos, o portão já estava fechando. Apresentamos as passagens à recepcionista, que, correu pelo túnel de embarque para voltar logo em seguida, dizendo com uma expressão tristinha, que o avião já havia fechado a porta, e que aí, não tem jeito, não iria mais abrir. “Pronto! Perdemos o trem”, pensei de imediato. Mas logo com dois mineiros? Eu, por osmose e a Silvana, mineira mesmo. Única solução: voltar ao balcão da Gol e remarcar um outro vôo. E foi o que fizemos. Hora do próximo? Dez e trinta. Uma espera de quase duas horas.

Só nos restou esperar calmamente no salão, lendo o Estadão que o Lula, sabiamente trouxe consigo. Resumo da ópera, o embarque somente se efetivou às onze da noite.

sábado, agosto 18, 2007

O "caso" do Shakespeare

Líber Matteucci dispensa apresentações. Mas, para quem é novo no mercado, e já que ele seguiu para a Europa na década de 1980, é bom saber que o Líber é um dos mais premiados, competentes e conscientes profissionais de criação que passaram pela publicidade carioca. É uma honra tê-lo como o mais novo colaborador deste blog com o caso que segue abaixo.

Nos anos 80, a MPM-Rio tinha a conta institucional da Shell, enquanto a parte de produtos era atendida em São Paulo por outra agência. Entre as coisas que a multinacional fazia para tentar parecer brasileira, útil ao País e tal, figurava o patrocínio de peças de teatro.

Um dia passaram um anúncio urgente para a criação, que foi entregue para mim e o João Galhardo, uma das duplas da agência. Junto com o job ou pit ou briefing – ou que nome tenha, – vinha uma foto do Hamlet (já não me lembro do nome do ator) com a caveira na mão, na célebre cena do ‘ser ou não ser’, essa dúvida que todos temos.

Devo confessar, eu tinha mais dúvida que a média, porque além do lado existencial e filosófico da questão, vivia em conflito com a profissão. Sempre achei que a publicidade é coisa do demônio, para propagar uma ideologia espúria, que nos países do terceiro mundo, como o Brasil, atende pelo nome de “capitalismo selvagem”, enganando todo mundo.

Seja como for, mea culpa, a gente precisava do emprego e lá fomos eu e o João tentar fazer o anúncio. O título que me ocorreu foi este: Shellkespeare. Sim, um trocadilho (ou dalho, como queiram), com o nome do bardo. Achamos que ficou bem na foto e fiz um texto explicativo para dizer o óbvio, ou seja, que a Shell patrocinava bom teatro, a exemplo da famosa peça do nosso amigo William Shakespeare.

Enquanto o contato levava a idéia para o cliente, porém, entrei em crise de consciência e comecei a me recriminar por dentro. Logo eu, filho de Henrique Matteucci, um jornalista preso pelas suas idéias de esquerda, escritor que me ensinara a respeitar os artistas, logo eu pronunciar o santo nome do Shakespeare em vão? Usá-lo? Brincar com o nome de um gênio da humanidade, rebaixá-lo, aviltá-lo, transformá-lo em garoto-propaganda de uma multinacional?

Passei maus bocados comigo mesmo, envergonhado e triste, pensando em fazer outro anúncio que substituísse aquele, tentando encontrar uma saída honrosa, quando finalmente o contato chegou de volta. Ele entrou na sala, eu e o João olhamos para o colega, e quando achei que ia pedir para avançarmos com a arte-final, o contato disse:

– Olhem, tem de fazer outro título, este está reprovado.

Feliz com isto, já com alternativas na mão, resolvi perguntar:

– Por quê?

O homem de atendimento foi enfático:

– O cliente disse que a gente está louco, brincar com o nome da Shell...

quarta-feira, agosto 15, 2007

O “caso” do ronco

Criamos um filme para a marca de cigarros Shelton, um dos carros chefe da Philip Morris na época. Existiam duas versões do produto. Um long size em maço e outro em tamanho normal com caixinha Flip top.

A historinha girava em torno de um casal (que novidade!), e ficamos dias e dias discutindo o local para a filmagem. Inclusive, claro, com o cliente também. A Philip Morris, como todo cliente que se preze, era repleta de diretores e assessores cheios de “grandes” idéias próprias. Finalmente, bateu-se o martelo em Paraty. Belo lugar. Eu até a conhecia, pois já havia passado um feriado lá, alguns anos antes. E a encantadora cidade colonial deixou em mim, desde aquela ocasião, uma ótima impressão.

Normalmente o redator costumava acompanhar as filmagens e o diretor de arte as fotos. Era mais ou menos praxe. Mas, nesse caso, eu, o diretor de arte da dupla fui escalado para tal façanha. Nem preciso dizer que adorei o fato, tal a minha paixão por cinema.

Fui no meu fusquinha mesmo. Com toda as despesas pagas, obviamente. Sai numa madrugada, em dia que raiava lindo, e segui estrada afora, sozinho e os deuses, rumo à mágica Paraty, na Costa Verde do estado do Rio de Janeiro*. No início, uma viagem normal. Saindo da Humaitá, atravessei o túnel Rebouças, peguei a avenida Brasil e entrei na recém-inaugurada Rio-Santos. Mas, aos poucos eu ia ficando deslumbrado, maravilhado com aquela estrada, que a cada curva, a cada lombada oferecia visuais de encantamentos indescritíveis. Eu chegava a exclamar um “oooohhh!” em voz alta. Naqueles dias, inclusive, o caminho passava por sítios que nunca alguém (a não ser índios ou piratas) haviam pisado antes. Foi uma viagem que eu jamais vou esquecer. Deslumbrante mesmo.

Depois de muitas horas de viagem, acrescidas de várias paradas (que fiz para admirar as paisagens), cheguei aos limites da cidade. Dali em diante não se podia ir mais de automóvel. Procurei a pousada em que ia ficar com toda a equipe da produtora que filmaria o comercial. Era a pousada da Maria Della Costa. Um encanto de lugar.

No mesmo dia, começamos as locações. Cada local mais bonito do que o outro. Cenários lindos. Fora o casario, as igrejas. O “romance” do casal Shelton ia ser muito bem emoldurado. À noite, íamos para um restaurante que ficava na praça, bem em frente a uma ponte. Comíamos, e, principalmente bebíamos até tarde da noite, trocando idéias sobre cenas e locações para as filmagens. Saíamos meio tontos, mas com as cenas do dia seguinte todas decupadas. E assim foi passando o tempo. O trabalho foi feito em três dias de tomadas. Rodamos muito filme. E os dias se passavam com muito trabalho de dia, muita birita à noite...

Houve uma noite em que, cansado e “tocado” desmaiei na cama. Lá pras tantas, o ator do comercial, um gringo, que dividia o quarto comigo, me acordou balançando loucamente e dizendo:

-- Pour favour, pour favóur... ruonca mienóus... pourque éu nóm consigou dourmier...

(*) A população local, escolheu em plebiscito ficar no estado do Rio de Janeiro, e não no de São Paulo, como era até então.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O “caso” do xará

Nilton Ramalho é uma figura sempre bem humorada e divertida. Quando estou com ele, solto boas risadas das suas narrativas e das situações que ele vive. Tem a veia do contador de piadas, reais ou imaginárias. E isto é um dom. O Lula Vieira o tem. O saudoso Flávio Colin também era assim, capaz de contar uma historinha qualquer em que eu me esbaldava de tanto rir. Quando eu o contava, juro que não tinha a mesma graça.

E o Ramalho sempre tem um comportamento engraçado na própria forma com que se comporta. Eu me lembro de quando entrava na agência para entregar os seus trabalhos de ilustração*, e, chegando na porta adentrava o corredor gritando: “Alôôô Putaaadaaaa!” Era um senhor rebú. Mas, ao mesmo tempo uma alegria geral, porque à sua chegada, quem estivesse triste podia esquecer aquela situação. O Nilton punha-se logo a conversar com todos, abraçar, rir. As pessoas que estavam em outras salas, saíam apressadamente para estar com ele, saudosos dos tempos em que ele trabalhou com elas. Em poucos instantes a agência virava um tumulto. No melhor sentido.

O Nilton conta um caso que eu acho do cacete. Havia um mendigo sempre parado na porta do prédio em que tem o seu estúdio. Todo dia, o Nilton (com o seu grande coração) levava um pão ou qualquer coisinha para abrandar a fome do coitado. O mendigo agradecia e o ele respondia: “Tudo bem, xará, é um presentinho pra você...”

E isto foi acontecendo com o passar do tempo, virando quase que uma rotina. Um belo dia, o mendigo o chamou e perguntou alguma coisa. Quando o Nilton ia saindo o sujeito agradeceu e disse: “Obrigado Antônio**, obrigado...”. O Ramalho parou, cofiou a barba e retrucou: “...mas, meu nome é Nilton...”. Ao que o Antônio repondeu: “Ué... você não me chama de xará?”.

(*) as ilustrações do Ramalho são tão boas que tinham clientes que só aceitavam story-boards marcados por ele.

(**) Não sei se o nome do mendigo era Antônio. Coloquei aqui apenas a título de ilustração.

quarta-feira, agosto 08, 2007

PROTESTO

Com um lacônico “Esta pastelaria fechou. Obrigado a quem a visitou e, para despedir, vai um Denis McHale sem tradução porca. Ciao ciao, amiguinhos”, meu amigo Maurilo Andréas, também conhecido como “Redatozim”, resolveu abruptamente interromper o seu blog “Pastelzinho”.

Meu caro Redatozim, não posso fazer nada para impedir uma decisão pessoal, e, muito embora não a compreenda, dado o sucesso e aceitação da publicação, creio que deve ter as suas razões para tal atitude.

Apesar de já haver publicado alguns comentários no dito blog tentando removê-lo da idéia, para além de ter enviado um e-mail pessoal, publico aqui no meu blog este post.

Ficamos sem pastel, sem o seu sempre rico e variado pensamento.

O “caso” da viagem a Nova Iorque

Outro dia eu contei um caso sobre medo de avião. É tragicômico porque eu já tive, e sei como é que é realmente uma coisa pavorosa. A gente passa vexames de verdade. Em publicidade eu conheci vários. O Paulinho Costa, por exemplo, uma vez caiu das escadas do avião e rasgou as calças, porque tinha que encher a cara para embarcar. O próprio Mauro Matos, me confessou que era freqüentemente acometido dessa neurose. O Vic, nem se fala...

No meu caso, houve ocasiões em que quase pedi demissão da agência em que trabalhava, pelo simples fato de ter que ir a São Paulo acompanhar uma foto. Acabava pegando um Cometa. Muitas vezes fui de carro. Mais tarde, quando trabalhei em Portugal ia freqüentemente a Lisboa para filmagens, pois a cidade do Porto só tinha uma produtora que que não era lá essas coisas. Eu ia de trem. Era realmente uma viagem confortável e rápida – de cerca de três horas – num excelente “comboio” que ironicamente até parecia um avião no serviço de bordo. Mas, via aérea, eram apenas 20 minutos. Tudo isso para não entrar no bendito aeroplano.

Uma ocasião, quando estava na DM9, em Salvador, tive que ir a Sampa para aprovar um fotolito urgente de uma campanha mais urgente ainda. Passei uns dois dias sem dormir direito. E o pior: teria que voltar no dia seguinte, o que me deixava mais endoidecido ainda, porque não teria tempo suficiente para me recuperar da ida e já teria que encarar a volta.

Mas um dos casos mais engraçados que eu ouvi, aconteceu com o Carlos Pedrosa e o Henrique Meyer. Ambos ganharam um prêmio que a McCann-Erickson dava a alguns funcionários, que era, nada mais nada menos do que uma viagem a Nova Iorque para visitar a agência nos Estados Unidos. E, claro aproveitar para passar uns dias em Manhattan. Fazendo compras, ou jantando em bons restaurantes, visitando o MoMA. Ou, quem sabe, até cruzando com o Wood Allen numa esquina qualquer.

Conta o Henrique que o Pedrosa tremia de “aerofobia”. Entrou no avião nervoso, cheio de medo. Na hora que o veículo ia levantar vôo, o Pedrosa agarrou a mão dele e não largou mais. Deve ter sido um escândalo a visão daquele “casal gay”, dois barbudos de mãozinhas dadas a viagem inteira. Numa época em que as "bichas" não costumavam sair do armário.

sexta-feira, agosto 03, 2007

O “caso”do ‘ó’ com o copo

Direto de Lisboa, Saulo Silveira (blog dele aí ao lado nos links) enviou este caso muito curioso e que tanto reflete a sua “mineiridade”.

Anos 70, ditadura militar e o Brasil na "Era do milagre econômico ", os milicos mandavam e desmandavam, como senhores feudais; o ministro da educação Coronel Jarbas Passarinho falava em acabar com o analfabetismo e criava o programa Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, grande projeto do momento; na rádio, tocava sem parar a música de Tom e Ravel, dois cantores populares:
"...Eu tenho as minhas mãos domáveis e uma sede de saber, então me ensina a escrever...",

Para grande comoção pública, e todo mundo ouvia com o coração piedoso, pronto para ensinar o be-a-bá.

A tarde caía, entrando pela boca da noite. Chico Duro, João Preto, Joaquim, Toizinho da Sá Jóve, Manuelão, João Roxo, Miquelino e eu estávamos reunidos na porta da casa do Mané Barrado, matuto curtido pela vida dura do campo, caboclo velho, encurvado, barba grisalha.

A conversa ia ganhando terrenom e eu, de repente, comecei a pensar como seria bom ensinar o pessoal a escrever ou pelo menos a assinar o nome, que dava direito ao título de eleitor, para poder votar (se bem que não para presidente, porque nessa matéria só votavam os militares)

E a conversa prosseguia em toada de boiada, aboiando os assuntos, Mané Barrado agachado pitando o cigarrinho de fumo goiano, coisa boa, coisa de bom gosto, cheirinho bom de fumo queimando no ar. Assentei bem o momento e comecei a conversa, falando pausadamente, explicando. Minha gente, temos que construir uma escola, levantamos uma casinha praquelas bandas, o governo está dando o material, não quer o povo analfabeto, quer o povão todo letrado, eu vou na cidade e falo com o prefeito e ele me dá o material, quadro negro, giz, livros, lápis, cadernos.

Então Mané Barrado se aproxima, olha nos meus olhos com jeito solene, e me fala:

-- Eu sei fazer um “ó” com o copo...

Olhei pro matuto e vi dignidade naqueles olhos, fiquei matutando, sentado no toco de jacarandá, e olhava Mané Barrado agachado na minha frente, esperando pelas minhas palavras. Então mirei o Mané Barrado nos olhos e disse:

-- Então, homem, faz o “ó” com o copo!

Mané Barrado virou a cara na direção da cozinha, espichou os lábios e, soprando forte, gritou pra filha:

-- Maria das Dores, traz o copo, minha filha.

Lá de dentro escuto a vozinha doce e infantil, “já vai pai...”

E lá vem Maria das Dores, linda caboclinha, aos pulinhos, contente, enxugando o copo na barra do vestidinho. Era o único copo daquela casa, copo pra Mané Barrado beber a Januária, pinga boa. Mané Barrado adorava espiar a luz refletida no copo, pegou o copo de vidro e olhou contra o restinho de sol da tarde, depois emborcou no chão, pegou um carvão na fogueira ao lado e, com sacrifício, começou a riscar em volta do copo, as mãos trêmulas, incertas, tateando, tentando segurar o carvão com imensa dificuldade, o seu "ó" tomando forma. A caboclada juntou em volta, espiando admirada. Após algum tempo, Mané Barrado retira o copo do chão, vê a letra "ó" de sua autoria e olha para mim com orgulho e triunfo.

Aquietei as minhas vistas no desenho daquele homem, na mensagem, e fiquei pensando: este caboclo nunca teve um lápis na mão, nunca teve uma folha de papel nem instrução. Levantei-me com solenidade, olhei-o de novo e disse-lhe:

-- Olha, Mané Barrado, tu sabe fazer um "ó" com o copo, é um patrimônio teu, ninguém te tira este direito. Tu quando morrer vai ser enterrado com este patrimônio...

Vi que ficou emocionado , vi o quanto ele se sentiu feliz. E como foi bom eu lhe ter falado dessa forma. O tempo passa, passam as nuvens, o carcará passa, o jaburu, passa a passarada pelas bandas do céu, como a minha vida também passa e assim, cumprindo a sina do destino, fui morar no Rio de Janeiro, depois de uma mão cheia de tempo, trabalhando em agências de publicidade.

Trabalhava duro e cada dia mais, querendo aprender; usava a ilustração da publicidade apenas para desenvolver a minha pintura e pintava com paixão; à medida que evoluía na pintura eu desprezava cada vez mais a ilustração publicitária; ia ganhando os meus cobres e torrava tudo em material de pintura e livros, guardando um pouco na poupança, para os dias de vacas magras.

Mas o novo governo civil do Brasil, em meio a uma crise econômica, tomou uma decisão inesperada e bloqueou a poupança dos cidadãos, na tradição autoritária, deixando-me sem o meu suado dinheirinho. Fiquei com um único patrimônio, eu mesmo, juntei as minhas coisas e vim para Lisboa como pude.

Cheguei trazendo apenas o meu “ó” com o copo, porque este patrimônio, o nosso saber, como disse daquela vez ao Mané Barrado, ninguém nos tira. Nada vale mais do que fazer um “ó” com o copo.

A arte é um eterno aprendizado e aperfeiçoamento espiritual.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Aniversário

Este blog completa um ano de existência neste mês de agosto. Parabéns para ele. E parabéns também para aqueles que tiveram saco de acompanhar essa quantidade toda de “casos” desse mundo mucho loco da publicidade.

Ao longo deste período, postei cerca de oitenta e recebi quinze “casos”, de meus colaboradores. Aproveito esta nota para agradecer imenso a participação deles nesta empreitada. Aquele abraço, Maurilo Andréas, um redator made in Ipatinga para o mundo. Delano D’Ávila, outro diretor de arte que gosta de escrever. Luiz (com zê) Fernando Favilla, meu dupla de tantos e tantos anos de estrada. E Saulo, o Silveira, um mineiro que conquistou Portugal com a explosão criativa de sua pintura*.

E, claro, tenho que deixar aqui o meu muito obrigado à meia dúzia de leitores fiéis e assíduos. Pois vamos em frente... agora em direção ao segundo ano.

(*) O Maurilo e o Saulo têm blogs cujos links estão aí ao lado. O do Saulo, linquei ainda ontem. Vale a pena conferir o trabalho dele.