sábado, agosto 18, 2007

O "caso" do Shakespeare

Líber Matteucci dispensa apresentações. Mas, para quem é novo no mercado, e já que ele seguiu para a Europa na década de 1980, é bom saber que o Líber é um dos mais premiados, competentes e conscientes profissionais de criação que passaram pela publicidade carioca. É uma honra tê-lo como o mais novo colaborador deste blog com o caso que segue abaixo.

Nos anos 80, a MPM-Rio tinha a conta institucional da Shell, enquanto a parte de produtos era atendida em São Paulo por outra agência. Entre as coisas que a multinacional fazia para tentar parecer brasileira, útil ao País e tal, figurava o patrocínio de peças de teatro.

Um dia passaram um anúncio urgente para a criação, que foi entregue para mim e o João Galhardo, uma das duplas da agência. Junto com o job ou pit ou briefing – ou que nome tenha, – vinha uma foto do Hamlet (já não me lembro do nome do ator) com a caveira na mão, na célebre cena do ‘ser ou não ser’, essa dúvida que todos temos.

Devo confessar, eu tinha mais dúvida que a média, porque além do lado existencial e filosófico da questão, vivia em conflito com a profissão. Sempre achei que a publicidade é coisa do demônio, para propagar uma ideologia espúria, que nos países do terceiro mundo, como o Brasil, atende pelo nome de “capitalismo selvagem”, enganando todo mundo.

Seja como for, mea culpa, a gente precisava do emprego e lá fomos eu e o João tentar fazer o anúncio. O título que me ocorreu foi este: Shellkespeare. Sim, um trocadilho (ou dalho, como queiram), com o nome do bardo. Achamos que ficou bem na foto e fiz um texto explicativo para dizer o óbvio, ou seja, que a Shell patrocinava bom teatro, a exemplo da famosa peça do nosso amigo William Shakespeare.

Enquanto o contato levava a idéia para o cliente, porém, entrei em crise de consciência e comecei a me recriminar por dentro. Logo eu, filho de Henrique Matteucci, um jornalista preso pelas suas idéias de esquerda, escritor que me ensinara a respeitar os artistas, logo eu pronunciar o santo nome do Shakespeare em vão? Usá-lo? Brincar com o nome de um gênio da humanidade, rebaixá-lo, aviltá-lo, transformá-lo em garoto-propaganda de uma multinacional?

Passei maus bocados comigo mesmo, envergonhado e triste, pensando em fazer outro anúncio que substituísse aquele, tentando encontrar uma saída honrosa, quando finalmente o contato chegou de volta. Ele entrou na sala, eu e o João olhamos para o colega, e quando achei que ia pedir para avançarmos com a arte-final, o contato disse:

– Olhem, tem de fazer outro título, este está reprovado.

Feliz com isto, já com alternativas na mão, resolvi perguntar:

– Por quê?

O homem de atendimento foi enfático:

– O cliente disse que a gente está louco, brincar com o nome da Shell...

14 comentários:

saulo.pintura@gmail.com disse...

Boa Liber,gostei do "caso" mas realmente tem razão, não devemos ir com liberdinagem, com o nome do Shakespeare. Conta mais.

Anônimo disse...

Bom este Liber. Este caso tem um final surpreendente. Aliás como alguns seus. Mas piada é isso, a história vai num a direção e no final, acaba em outra.
Otávio

jr disse...

E dizer que eu fui cliente a vida inteira. Que situação!

Jonga Olivieri disse...

Olha só, JR. Eu sempre disse que se um dia eu ganhasse uma "bolada" na loteria, montaria uma agência sem clientes.
Chamaria os melhores profissionais e amigos pra gente ficar criando campanhas, sem aquele negócio de: "aumenta o logotipo".
Seria a agência perfeita...

Anônimo disse...

GRAAANDE LÍBER MATTEUCCI!

Foi com grande prazer que soube de sua estréia neste blog.

Gostei muito do caso que você contou.

CONTA MAIS, CONTA!

cecé disse...

hahahahahahahahaha, cliente é sempre cliente!!!!! essa tá boa...

Aliás queria mandar um abraço para o Saulo, oiê Saulo lembra de mim??? a Cecé irmã do Jonga??? estive aí em Lisboa com eles e conheci vc!!!!

Redatozim disse...

Cada povo, um deus, Dr. Liber. Belo caso.

Anônimo disse...

Sempre fui admiradora do Líber.
Mas, tem alguém que não é?
Acho que ele postando sempre no seu Blog, será muito bom.

Anônimo disse...

Conheço pouco de agências de publicidade, mas a impressão que tenho é que de um bando de doidos reunidos numa só empresa.
E pelo menos os causos que você e seus colaboradors contam no blog me leva a achar que essa impressão não é tão inveridica assim.
Mas, pelo menos, deve ser divertido.
"X"

Jonga Olivieri disse...

Agências já foram mais "loucas" em outros tempos. Hoje, acho que tudo ficou muito mais "careta".
Em tempos de estúdios enormes, viradas louquíssimas, ou você se divertia ou, aí sim, ficava pra lá de doido.

Anônimo disse...

Eu sou é sua ADMIRADORA, Jonguito. Portanto quanto mais puder ter parceiros inteligentes COMO VOCÊ no seu blog, melhor será.
Seja BEM VINDO Líber. E mande mais CASOS.
(Uma leitora ASSÏDUA e anônima)

Luiz disse...

Bela historia, grande Liber. Mas, para voltar a Shakespeare, você está pior que o fantasma do pai de Hamlet: desapareceu de vez.
Uma última pizza com o pessoal, faz uns três anos...e o resto é silêncio. Pô, vê-se se comunica com os amigos d´antanho.
Grande abraço, Luiz Saidenberg.
lssaidenberg@gmail.com

Anônimo disse...

liber, adorei o caso e espero estar falando com a mesma pessoa que conheci em portugal e faz aniversário no mesmo dia que eu 16.11 só o ano muda, mande notícias abaços, dolores mendes

Jonga Olivieri disse...

Sim Dolores, é ele mesmo. Tomara que leia seu comentário...