sexta-feira, agosto 03, 2007

O “caso”do ‘ó’ com o copo

Direto de Lisboa, Saulo Silveira (blog dele aí ao lado nos links) enviou este caso muito curioso e que tanto reflete a sua “mineiridade”.

Anos 70, ditadura militar e o Brasil na "Era do milagre econômico ", os milicos mandavam e desmandavam, como senhores feudais; o ministro da educação Coronel Jarbas Passarinho falava em acabar com o analfabetismo e criava o programa Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, grande projeto do momento; na rádio, tocava sem parar a música de Tom e Ravel, dois cantores populares:
"...Eu tenho as minhas mãos domáveis e uma sede de saber, então me ensina a escrever...",

Para grande comoção pública, e todo mundo ouvia com o coração piedoso, pronto para ensinar o be-a-bá.

A tarde caía, entrando pela boca da noite. Chico Duro, João Preto, Joaquim, Toizinho da Sá Jóve, Manuelão, João Roxo, Miquelino e eu estávamos reunidos na porta da casa do Mané Barrado, matuto curtido pela vida dura do campo, caboclo velho, encurvado, barba grisalha.

A conversa ia ganhando terrenom e eu, de repente, comecei a pensar como seria bom ensinar o pessoal a escrever ou pelo menos a assinar o nome, que dava direito ao título de eleitor, para poder votar (se bem que não para presidente, porque nessa matéria só votavam os militares)

E a conversa prosseguia em toada de boiada, aboiando os assuntos, Mané Barrado agachado pitando o cigarrinho de fumo goiano, coisa boa, coisa de bom gosto, cheirinho bom de fumo queimando no ar. Assentei bem o momento e comecei a conversa, falando pausadamente, explicando. Minha gente, temos que construir uma escola, levantamos uma casinha praquelas bandas, o governo está dando o material, não quer o povo analfabeto, quer o povão todo letrado, eu vou na cidade e falo com o prefeito e ele me dá o material, quadro negro, giz, livros, lápis, cadernos.

Então Mané Barrado se aproxima, olha nos meus olhos com jeito solene, e me fala:

-- Eu sei fazer um “ó” com o copo...

Olhei pro matuto e vi dignidade naqueles olhos, fiquei matutando, sentado no toco de jacarandá, e olhava Mané Barrado agachado na minha frente, esperando pelas minhas palavras. Então mirei o Mané Barrado nos olhos e disse:

-- Então, homem, faz o “ó” com o copo!

Mané Barrado virou a cara na direção da cozinha, espichou os lábios e, soprando forte, gritou pra filha:

-- Maria das Dores, traz o copo, minha filha.

Lá de dentro escuto a vozinha doce e infantil, “já vai pai...”

E lá vem Maria das Dores, linda caboclinha, aos pulinhos, contente, enxugando o copo na barra do vestidinho. Era o único copo daquela casa, copo pra Mané Barrado beber a Januária, pinga boa. Mané Barrado adorava espiar a luz refletida no copo, pegou o copo de vidro e olhou contra o restinho de sol da tarde, depois emborcou no chão, pegou um carvão na fogueira ao lado e, com sacrifício, começou a riscar em volta do copo, as mãos trêmulas, incertas, tateando, tentando segurar o carvão com imensa dificuldade, o seu "ó" tomando forma. A caboclada juntou em volta, espiando admirada. Após algum tempo, Mané Barrado retira o copo do chão, vê a letra "ó" de sua autoria e olha para mim com orgulho e triunfo.

Aquietei as minhas vistas no desenho daquele homem, na mensagem, e fiquei pensando: este caboclo nunca teve um lápis na mão, nunca teve uma folha de papel nem instrução. Levantei-me com solenidade, olhei-o de novo e disse-lhe:

-- Olha, Mané Barrado, tu sabe fazer um "ó" com o copo, é um patrimônio teu, ninguém te tira este direito. Tu quando morrer vai ser enterrado com este patrimônio...

Vi que ficou emocionado , vi o quanto ele se sentiu feliz. E como foi bom eu lhe ter falado dessa forma. O tempo passa, passam as nuvens, o carcará passa, o jaburu, passa a passarada pelas bandas do céu, como a minha vida também passa e assim, cumprindo a sina do destino, fui morar no Rio de Janeiro, depois de uma mão cheia de tempo, trabalhando em agências de publicidade.

Trabalhava duro e cada dia mais, querendo aprender; usava a ilustração da publicidade apenas para desenvolver a minha pintura e pintava com paixão; à medida que evoluía na pintura eu desprezava cada vez mais a ilustração publicitária; ia ganhando os meus cobres e torrava tudo em material de pintura e livros, guardando um pouco na poupança, para os dias de vacas magras.

Mas o novo governo civil do Brasil, em meio a uma crise econômica, tomou uma decisão inesperada e bloqueou a poupança dos cidadãos, na tradição autoritária, deixando-me sem o meu suado dinheirinho. Fiquei com um único patrimônio, eu mesmo, juntei as minhas coisas e vim para Lisboa como pude.

Cheguei trazendo apenas o meu “ó” com o copo, porque este patrimônio, o nosso saber, como disse daquela vez ao Mané Barrado, ninguém nos tira. Nada vale mais do que fazer um “ó” com o copo.

A arte é um eterno aprendizado e aperfeiçoamento espiritual.

33 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Um "quê" de Guimarães Rosa. É a pureza de um povo, é o'"ó" com o copo...
Saulim, meu amigo "mineiro-portugálico" nos brinda com uma narrativa deveras rica -- e porque não dizer, um tanto quanto poética -- em sua mineiridade intínseca.
Parabéns Saulo...

Redatozim disse...

Bacana demais, Saulo. Ainda hoje, quem faz um "ó" com o copo faz muito mais por este país do que imagina.

Saulo Silveira disse...

Obrigado. Grande Redatozim, vi o teu blog e achei muito criativo.

Jonga Olivieri disse...

Grande Saulo. Fique certo, você poderá publicar este "caso" no seu próximo livro de pinturas porque ele é muito sábio, muito observador da vida em seus episódios mais simples e por isso mesmo ricos. Porque o povo é de uma riqueza sem limites, e "a praça é do povo, como o céu é do condor".

Anônimo disse...

Até que para brasileiro não está mal...enfim á falta de melhor..mas continuando a trilhar por estas belas palavras que bem sintetizam o espírito fantástico deste meu grande amigo, Saulo, depressa chegará a um lugar cimeiro igualável ao de um Eça de Queiróz ou outro da mesma estirpe. Gostei muito...

Jonga Olivieri disse...

O Saulo falou-me que um amigo de Lisboa iria enviar um comentário.
É isso aí (como se diz por cá), ó pá. O menino Saulo pode virar, para além de um grande pintor, um escritor de estirpe.
Ele sabe bem a escrever.

Anônimo disse...

Taí, gostei da escrita do pintor.
Parabéns Saulo. Você leva jeito. Para o pincel e para a pena.
O.

jr disse...

Quando você disse Guimarães Rosa, talvez tenha exagerado. Ou será que não? As expressões e a situação da história que o Saulo contou tem mesmo essa 'mineirice' conforme você escreveu na introdução. Acho que ele tem futuro. Continue escrevendo Saulo.

Jonga Olivieri disse...

Recebi alguns e-mails de leitores ocultos (e não anônimos) deste blog reclamando de que o "caso" do Saulo não tinha nada sobre publicidade.
Olha, gente, é um blog com "casos" contados por publicítários, não necessariamente passados dentro de uma agência.
Um dos colaboradores (o Delano), por exemplo, mandou o "caso" do postigo, que não é passado em agência nenhuma. Quer dizer, têm casos e casos. Aliás, o do Saulo ainda cita que ele veio para o Rio e trabalhou em publicidade, etc, etc.
Esper que esteja tudo esclarecido.

Anônimo disse...

Saulo,
Conta mais, conta mais...
Um abraço e um Ó sculo, Marise

Jonga Olivieri disse...

Só assim tua apareces, ó m'nina Merise! Oh deus, ih ué!, como d'iria Gil Vicente.
Brijos saudosos,
Jonga

Juracy disse...

Jonga,
Adorei os "casos", super divertidos. Lembrei dos meus tempos de propaganda, loucos, engraçados, impossíveis. Bom, meu nome é Juracy, e gostaria de pedir um favor a você. Trabalhei com o Luiz Fernando Favilla na Jotaé Propaganda, na década de 70. Gostaria muito de entrar novamente em contato com ele. Tenho inclusive um exemplar autografado do primeiro livro de poesias que ele escreveu. Como posso entrar em contato com o Favilla?

Jonga Olivieri disse...

Juracy, só tem um jeito, já que o seu perfil não está dispon;ivel.
Mande seu e-mail para mim em outro comentário. Eu não o publico, mas que o encaminho para o Favilla.
Prefiro não colocar e-mails pessoais nos comentários do blog.

Anônimo disse...

Esta pintura feita de letras, demonstra quão belo e intenso é o trabalho que o Saulo sabe demonstrar nas mais diversas áreas. Tenho a honra de o conhecer como Pintor, Jardineiro, Cozinheiro, como Amigo e não me surpreende agora como Contador de Histórias. Parabéns, fico aguardando por mais.

Jonga Olivieri disse...

Mais um Anônimo (ou será anónimo?) completamente anônimo.
Anonimatos à parte, também sou fão do Saulo. Por que? Tudo que ele faz é bem feito.
Foi um dos maiores ilustradores de publicidade aqui no Rio.
Depois, em Portugal, continuou sendo um ilustrador fora de série.
No dia em que esta profissão começou a chegar à decadência que chegou, o cara lançou-se como pintor (é importante dizer que já pintava desde os tempos de Brasil). Daí, evoluiu do jeito que a gente pode ver no blog dele.
Mas, não conhecia as suas aptidões para jardineiro e 'chef" de cozinha.
O Saulo é mesmo demais!

Rodrigo disse...

Um texto de respeito. Parebéns.
abraço

Jonga Olivieri disse...

Rodrigão, o Saulo é um espanto! Uma revelação mesmo. Eu também fiquei muito entusiasmado com este texto.
Acho que vale a pena ele investir na coisa.

Anônimo disse...

Este "caso" comove pela simplicidade e pureza que caracteriza parte do nosso povo.Me deu saudades desta nossa Terra que ainda tem tanta coisa boa e bonita! Provoca um misto de emoções,como os quadros deste PINTOR !São lindos!!

Anônimo disse...

Tenho o prazer de conviver com o Saulo e o que mais me espanta nesse bom amigo é que histótias como a do ó com o copo brotam dele a toda hora. Se escrevesse todas,
que belo livro não ia ser. Não só pela forma mas acima de tudo pelo conteúdo. É um artista, e faz quadros bonitos também quando fala, sempre com um ensinamento por trás.
Liber Matteucci (um anônimo com nome de batismo)

Jonga Olivieri disse...

Graaandeee Liber. É isso mesmo. Este é o Saulo...

Neni Glock disse...

Grande Saulo. faz tempo que não o vejo apesar da distância ser pouca,mas estou em sintonia contigo, mais ainda agora que lhe descubro não só o grande pintor que eu conheço, mas o grande poeta que que se revelou.
Um grande abraço do amigo
Neni Glock

Anônimo disse...

Ein Text , der sich aufs Herz legt und so der Einfachheit halber,ergreifend ist.
In der Hoffnung dass sich die Texte vermehren Dania Neumann

Anônimo disse...

Um texto que fica no coração e meio simples, está se movendo. Na esperança em que o próprio texto melhore.

Dania Neumann

Jonga Olivieri disse...

NOTA IMPORTANTE:
O comentário de Dania Neumann, chegou anteontem. Pequeno detalhe: em alemão.
Como não entendo "bulhufas" daquela língua, fiquei apreensivo de transcrevê-lo e ser uma brincadeira qualquer... ou até, quem sabe algo ofensivo.
Daí, tive que esperar o Gustavo (meu filho) ter um tempinho disponível para traduzí-lo. Assim o fiz, e lá está em português; para que todos possamos entender.

artur disse...

O que ressalta do texto é antes de mais a autenticidade...É com esta base que se criam textos verdadeiramente artísticos, porque vivos.
Saulo, penso que é um bom e prometedor começo.

Um abraço e viva o futuro
Artur

Célia Parreira disse...

Saulo: o grande mestre Pessoa nos deixou um mote..."Para ser grande sê inteiro, nada teu exagera ou exclui, pois em todo lago a lua brilha porque alta vive". E esta é uma lição que você tem seguido muito bem! Continue a levar o seu "O" por esse mundo fora!!!! Parabéns!
O abraço amigo da luso-brasileira como você. Célia Parreira

aurea.gustavo disse...

Muito, muito bom e gostoso de ler.

aurea.gustavo disse...

Muito, muito bom! Gostoso de ler.

Jonga Olivieri disse...

Aurea, você realmente leu esta blogue, pois esta caso é antigo! Vou comunicar o Saulo de que ele está fazendo sucesso!

Regina Campos disse...

TENHO ORGULHO DE SER AMIGA DO SAULO...ELE É DEMAIIIISSSS!!! UM GRANDE ARTISTA E UM GRANDE ESCRITOR...BJOOOOSSS!!! DE BELÔ!!!!
REGINA MAGALHÃES-BRAZIL.

Jonga Olivieri disse...

Vou passar o recado para ele regina, pode deixar!

Aline disse...

Muito bom Saulo , devias escrever mais :) uma otima leitura.

Jonga Olivieri disse...

Sim Aline, para além de pintar demais o Saulo revelou-se um gande escritor...