terça-feira, setembro 04, 2007

O “caso” da frase papada

Luiz Alberto Alves, além de ter sido uma figura de evidência no mundo do jornalismo esportivo, era, antes de mais nada o tio Luiz, pois era irmão da minha mãe. Começou a sua carreira no jornal “A Tarde” em Salvador. Veio para o Rio de Janeiro trabalhar na Rádio Mayrink e Veiga. Aqui, foi cronista no “Diário de Notícias” e, posteriormente fez parte do trio esportivo da Rádio Nacional, tendo como parceiros Antônio Cordeiro e Jorge Cury, no programa “No Mundo da Bola”. Uma turma que acompanhou entre outras coisas a vitoriosa campanha da seleção brasileira de Garrincha e Pelé em campos da Suécia.

Tio Luiz foi o grande responsável por transformar toda a turma lá de casa em cinco ardorosos torcedores do Fluminense. Meus pais, flamenguistas, nunca se conformaram com isso. Tinha uma casa deliciosa em Miguel Pereira. Durante muitos anos eu ia com a família passar feriados lá. Era divertido. Enquanto as mulheres conversavam e as crianças brincavam, degustávamos pingas da melhor qualidade e amarrávamos porres memoráveis. Num deles, fomos parar, não me lembro como, numa deliciosa “birosca” à beira-riacho (também não sei que riacho), saboreando peixinhos à doré e vertendo muitas cervejas. Tudo porque, em determinado momento, ele lembrou-se de um bar que servia jacaré, coisa que me deixou alucinado por experimentar, mas não encontramos. Luiz Alberto, além de tio, era uma agradável companhia.

Foi professor de comunicação na Gama Filho, onde também era o coordenador da cadeira de Jornalismo. Neste período foi chamado para organizar o mesmo curso na Universidade de Lisboa. Com ele, em 1969, fiz uma revista sobre a Copa do Mundo de 1970. Foi uma loucura, e o primeiro trabalho que eu criei, produzi e finalizei todo sozinho. Isso, numa época de títulos em Letraset, composições em linotipo, pastup e cola de borracha.

Luiz Alberto também gostava de criação publicitária. E levava jeito pra coisa, embora, até onde eu saiba, nunca tenha trabalhado em alguma agência, muito embora tenha feito frelances para algumas. Por ocasião da Copa do México de 1986, criou uma frase que ficou famosa: “Mexicoração”. Na época, trabalhava no Sistema Globo de Rádio, onde era produtor de programas e pesquisas*, e não teve o cuidado de registrar a sua autoria. Virou música temática da Copa na TV Globo, e diversas empresas usaram a frase em camisetas e outros materiais promocionais. Foi o maior “perrengue”. Correu atrás, tentando receber direitos autorais, mas, apesar de ainda ter conseguido o registro, este foi tardio, e a maioria dos processos não resultaram em nada. A Globo até lhe pagou alguma coisa, porque afinal ele trabalhava numa das empresas do grupo, e ia pegar mal...

Daí, veio a Copa da Itália em 1990. Luiz Alberto contou-me a frase que havia criado, mas já com a documentação em mãos. Devidamente registrada, tudo conforme os conformes. “Papa essa Brasil”, que também virou jingle na Rede Globo e foi amplamente usada em camisetas, faixas e bandeirolas por lojas e outros comerciantes. Desta feita, com tudo pago direitinho, tendo-lhe gerado uma boa fonte de renda.

Paparam “Mexicoração”, mas a do papa, ninguém conseguiu papar.

(*) Luiz Alberto trabalhou no Sistema Globo de Rádio até pouco tempo antes do seu falecimento, em 1992.

13 comentários:

Redatozim disse...

Aliás, as copas de 82, 86 e 90 (essa um pouco menos) foram as que tiveram mais frases bacanas, personagens interessantes (Arakém, o Show Man, Pacheco camisa 12) e manifestação popular com pintura nas ruas e coisa e tal. Pena que, em termos de título, não deram em nada.

Jonga Olivieri disse...

Arakém, o showman foi um personagem dupirú. Idem o Pacheco... Realmente, você tem toda razão.

Anônimo disse...

Me lembro do Luis Alberto. Ele até trabalhou na TV Globo. Foi comentarista de esporte num jornal que tinha o Sergio Porto, Heron Domingues, etc.
E tanto Mexicoração quanto papa essa Brasil ficaram frases marcantes das copas de 86 e 90/
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Lembro-me dele na Globo, e num jornal à noite. Mas você tem certeza que foi neste? Deve ter sido emtão no "Jornal de Vanguarda". Aquele, cujos comentários políticos eram do Haroldo Holanda, que era anunciado como "aquele que fala de banda", só pra rimar com Holanda.
Foi um telejornal interessante que passou pelas TV Excelsior, TV Tupi, TV Globo, e acho que terminou na TV Bandeirantes (hoje Band) com a Doris Giese, lembra-se dela? A direção era do meu ex-patrão o Fernando Barbosa Lima, pelo menos na sua melhor fase.

Anônimo disse...

Jonga, a do mexicoração eu sabia mas a do papa não; realmente ele era muito criativo, uma pena eu não ter tido mais contato com ele.
Miguel.

Jonga Olivieri disse...

Então, Miguel, ele era uma figura...
Curioso que tio Luiz, quando eu era menor tinha umas tiradas do tipo: "Está fumando na frente do seu tio? Vamos respeitar!". Mas era pura figuração... Do meu ponto de vista, valeu a pena conhece-lo mais do que apenas como tio, mas como amigo.

jr disse...

Não sabia que o Luiz Albereto Alves era seu tio. Claro que me lembro dele. Acho que tem mais de 55 anos neste país e gosta de esporte (futebol principalmente) deve se lembrar dele.

Jonga Olivieri disse...

E do Oduvaldo Cozzi, do Waldyr Amaral, do João Saldanha, e tantos outros.
Já tivemos melhores jornalistas esportivos do que os de hoje, principalmente do que o Galvão Bueno. Não precisa ir longe, o Luciano do Vale dá de 3.000 a zero neste Galvão... o MALA...

Cecé disse...

Jonga, saudades de tio Luis, foi realmente uma pessoa muito boa, que coração!!!! que tio!!!! pena ter ido tão cedo, pois podíamos ter curtido um pouco mais ele....super beijo

Jonga Olivieri disse...

Sim, mas ele deixou sua marca durante os seus 68 anos de vida. Talvez, se tivesse ficado mais velho, não teria a mesma graça. Foi um "bonvivan"... uma grande figura.

Jonga Olivieri disse...

Tio,
Tive muito pouco contato com o “Tio Luiz”. Não tinha idéia da importância dele no jornalismo esportivo.
Muito interessante o texto sobre ele.
Abraços

Recebi o texto acima de meu sobrinho - o único deles que, até onde eu saiba lê este blog - e muito orgulhoso fiquei de meu tio, que antes de mais nada foi um grande profissional da comunicação...

jose antonio barros freire disse...

Mexicoração é inesquecível !

Arakem o show man

Jonga Olivieri disse...

Realmente ficou marcado este slogan!