quarta-feira, setembro 12, 2007

O “caso” do sutor

Existe uma grande diferença entre se ouvir uma piada de português, e viver uma delas. Olha, gente, adoro aquele povo d’além mar, mas eles têm coisas deveras engraçadas. Por exemplo: apesar de viverem dizendo que, nós brasileiros, temos o hábito de não traduzir determinados termos se outras línguas (do inglês em particular), eles também caem no mesmo vício. Daí, redator lá ser copywriter, contato ser account... e até em um “caso” que já contei aqui, estoque ser stock. Mas eles pronunciam sitoque.

Os lusos têm expressões muito curiosas, não somente em publicidade, mas em todas as áreas. Chegam a ser engraçadas. E por falar em engraçado, lá, alguém pode de repente falar que sua roupa está engraçada. Não, por favor, não se ofenda. Porque roupa engraçada por aquelas bandas não significa que você esteja vestido de palhaço. Mas, simplesmente ela tem graça... É que nem frescura. Frescura é aquilo que nós chamamos de frescor. “Hoje está tão gostoso, está uma frescura deliciosa!”. Há de dizer um lusitano, macho por sinal, a sorrir em sua direção. Não o confunda!

Registro é registo. Equipe é equipa. Goleiro é guarda-redes, soutien é porta-seios e cardápio é Ementa. Se você pedir um Menu, ou a Carta ao garçon, que lá é respeitosamente chamado de Senhor, o gajo vai ficar a olhar pra você com um ar estupefato. E parada de ônibus que é paragem? Fumante é fumador. Nunca peça por um durex, a não ser numa farmácia, porque é um preservativo. O nosso durex lá é fita-cola. E Isopor que é esferovite? Isso sem contar as mais conhecidas por aqui como a bicha que é simplesmente uma fila. “Peguei uma bicha hoje!”, dizem comumente... Cu não é chulo por lá. Se estiver com o traseiro encostado em algum balcão de loja, a distinta vendedora pode virar-se para você e dizer com a cara mais lavada do mundo: “Ó pá, desencosta o cu daí, se faz favor!”

Um dia, ia a uma reunião com meu patrão português, ele virou-se para mim e disse: “Caraças, hoje vamos nos reunir com o sutor engenheiro Motta, lá na Motta e Companhia.” Que diabos vinha a ser sutor? Não sabia, e, por outro lado não lhe perguntei. Antes de mais nada porque ele o disse com tanta espontaneidade e segurança que até fiquei sem jeito de questionar. Bom, é o sutor... é daí? Um sutor é um sutor e tá acabado...

Fomos, fizemos a reunião, correu tudo bem. Sutor pra lá, sutor pra cá. E eu sem saber. Tive vergonha de perguntar, e, juro fiquei dias sem sabê-lo. Uma noite, em casa, conversando com meu filho ele disse que a sutora diretora tinha falado alguma coisa no colégio. Imediatamente indaguei: “Mas afinal de contas, o quê é sutora? Tem algo a ver com sutor?” Aí caiu a ficha. Sutor, era nada mais nada menos do que Senhor Doutor. Fácil, não?

12 comentários:

Redatozim disse...

Raios que esta anedota é gira, ó pá.

Jonga Olivieri disse...

Sim, é fixe* mesmo! E o melhor é estar dentro da piada. hehehe

(*) Tem "gira" e tem "fixe", que é uma versão mais moderna.
Quando cheguei em Portugal (1990) era ano de eleição e tinha um cartaz dizendo: "Mário Soares é fixe".

Anônimo disse...

Então, o causo é fixe.
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Obrigado "sutor" Otávio, fico satisfeito que o tenha apreciado.
Gosto muito dos lusos, são um povo triste, mas mui leal. E têm bacalhau com "grelos", vinho, belas cachopas também com... deixa pra lá...

Anônimo disse...

Estas coisas de portugueses falando, dão o que falar. Mas o pior é o sotaque.
uando passei por Portugal com 'destino à Europa' (não é gozação, mas eles mesmos falam isto), tinha mesmo uma dificuldade enorme de entender e de me fazer entendida. Foi difícil demais.
Ainda bem que foram poucos dias.

Jonga Olivieri disse...

Imagino tu, gauchinha, em terras d'além "maire", a pedir umas'"iáguas" da Pedras num quefé à beira Tejo. Fostes só a Lisboa?
O mais engraçado é que eles (se) referem à Europa como se fosse outro lugar.
É comum dar a previsão do tempo para Portugal e Espanha. depois o l;ocutor em off diz: "...e na Europa, chuvas com nevoeiros..."
Observadoira iesta gauchinha... hehehe

Saulo Silveira disse...

Temos que ter cuidado com a lingua!!!Imagina convidar uma rapariga pra jantar, comer muqueca....pq aqui relação sexual é "queca". Mas sabe que para elogiar uma bunda, eless dizem: "Que bela peida!!!". Quando quer querem um gajo venha correndo..."venha te a bateres os calcanhares no cu"

Jonga Olivieri disse...

É Saulim, é como bacalhau com "grelos". Para eles é normal. A gente logo pensa em outras coisas.
Agora, "que bela peida" é boa demais...
Quando se lembrar, manda mais.

Mariflor disse...

Na época da evasão brasileira para Portugal dos publicitários, ouvi uma história engraçada de um diretor de arte. Foi acompanhar a edição de um comercial na ilha ao lado do diretor.
De repente, o diretor manda: "Dá um paralítico!" Imediatamente o colega olhou pra porta esperando um aleijado em cadeira de rodas. Só depois entendeu que era pra congelar a imagem...

Jonga Olivieri disse...

Isso, essa eu também ouví lá. É aquilo que eu disse: melhor do que ouvir a piada, é estar dentro dela. hehehe

saulo disse...

Olha, aquele assunto do sutor...aquilo é galão..são criança que chamam os professores, como no Brasil, eles chamam de o professor de "fessor".

Jonga Olivieri disse...

Amigo Saulo. Procede a observação, mas na verdade os “sutores” engenheiros também são chamados assim. Pelo menos o sr. Alfredo Rente (meu ex-patrão) referia-se assim ao “Sutor” Engenheiro Motta... acho que é uma questão de respeito... reverência.