quarta-feira, outubro 10, 2007

O “caso” do Homem Minister

Quando atendia a Souza Cruz na Salles, lá pros idos dos anos 80, fazíamos um bom trabalho para as sua marcas. O Eric Nice era o designer exclusivo de todas as embalagens do fabricante. Nos seus quase setenta anos, aquele mestre, em sua salinha na Salles de São Paulo elaborava meticulosamente mockups de novas caras para produtos antigos, ou caras inéditas para produtos idem. Era o bam-bam-bam da história. E, tiro o meu chapéu para reverenciar o seu trabalho e a sua memória.

Mas, voltando à vaca fria. À Salles Rio, que na época atendia produtos da Souza Cruz e Brahma, além claro de outras contas como a Sul América Seguros, a Texaco ou o Banco do Brasil, o DNER e a Embratur, isso somente para enumerar algumas das mais expressivas. Ali, fizemos bons trabalhos para diversas marcas da Souza Cruz. Lembro-me de um filme para Continental usando aquela música “Eu voltei... porque aqui é o meu lugar... e lá, la, la... lá, lá, lá...”, que emocionou o Brasil e decerto marcou presença na história da publicidade neste país.

Mas a Souza Cruz também tinha as suas pedrinhas no sapato. E uma delas era uma marca pioneira em cigarros com filtro, outrora um símbolo de status, e que de repente começava a despencar vertiginosamente em vendas. Lembro-me perfeitamente da primeira reunião que tivemos com o Domingos Logullo (à época o diretor nacional de criação da agência) em que ele falava da necessidade que teríamos de criar uma campanha, para alavancar e reerguer a marca, pois o fabricante não queria desativá-la. Paulistamente falando, uma dupla de criação de Sampa vinha nos “ajudar”. E veio. Prefiro nem citar nomes, pois eram sujeitos do cacête com quem nos demos otimamente, apesar do sentido paternal e intervencionista intrínsecos...

O certo é que de imediato começamos a fazer reuniões atrás de reuniões. Longos brainstorms a portas fechadas para achar uma solução. Foram dias, semanas de um esforço em que saíram as idéias mais estaparfúdias e as mais criativas quase que simultaneamente. Um exercício criativo de causar inveja a qualquer Jerry Della Femina* da vida.

Mas a coisa alongou-se por este período sem uma solução aparente. Examinando números e o mercado, suas novidades como produtos light e otras cositas más, ficava difícil reerguer a condenada e outrora gloriosa marca. Mas, um belo dia, alguém que não me lembro mais saiu com a idéia do “Homem Minister”. Um fator novo que balançou o coreto. Mas, quem seria este homem? Quais as características que fariam alguém ser o homem Minister?

Depois de muitos vais e vens, de se terem rifado “ene” alternativas, chegamos finalmente a um nome: Tarcísio Meira. Bonitão, ator de novela, comprovadamente macho, casado há anos com a Glória Menezes. Por quê não? E ficamos nele. Por unanimidade a agência inteira aplaudiu. Até que um “advogado do diabo”, que também não me lembro o nome, mas que certamente deve estar ardendo nas profundezas do inferno, levantou aquela lebre: “Mas, e se o cara morre? Afinal ele pode ter um acidente, vive na ponte aérea e blá, blá, blá...”

Assim acabou o “Homem Minister”. E algum tempo depois, a própria marca. Quanto ao Tarcísio Meira. Acho que a última vez que foi visto estava fazendo um papel na nova novela das oito, que já é das nove... há muito tempo!

(*) Jerry, considerado nos anos 60/70 dos mais criativos publicitários da época, foi um dos sócios da “Della Femina Travisano & Partners”, também uma das agências mais criativas dos Estados Unidos, e tinha uma característica ‘sui generis’ em sua forma de atuar, chegando uma ocasião a afirmar que sua agência não aprovaria nada com seus clientes. Estes veriam os anúncios publicados, os filmes no ar, etc. Porque ele acreditava que, por saber o que fazia, o cliente tinha que confiar nele e em sua equipe. E fim de papo...

36 comentários:

Redatozim disse...

Tarcísio Meira fumava? E a Glória? Engraçado como o mundo mudou, hoje galã já não pode fumar, só vilão.

Jonga Olivieri disse...

Taí, não me lembro se o cara fumava, mas tenho quase certeza que sim. Naquele tempo todo mundo fumava por causa do James Dean, do Humphrey Bogart e outros ícones da vida.
O fato é que antes a gente passou por uma pá de atore, mas de um diziam que era bicha, do outro diziam que era qualquer outra coisa que o desabonava.
No final, sobrou o "hômi". O Tarcísio mesmo.

maria bonita disse...

Que caso bonito. Que história contida nele. Um documento, um depoimento de um tempo. Taí gostei demais.

Jonga Olivieri disse...

Obrigado, Mary, afinal de contas viví dias, semansa, noites e madrugadas de Minister.
Ainda bem que pude passar um pouco do que foi e do que sentí... e sei que isto faz parte da história da propaganda... quando ela ainda existia...

André Setaro disse...

Fumante inveterado que fui por quarenta anos consecutivos, considerando ter, amanhã, 57, a palavra 'Minister' tem uma carga simbólica e proustiana, pois me faz lembrar tempos idos.A idéia do 'Homem Minister' é muito boa e, ironia do destino, o surgimento do "advogado do diabo" matou uma possível grande criação, pois, como você disse, Tarcísio continua aí na ativa, a esbanjar saúde.
Quem fumava Minister era nossa Tia Stella, que comprova um pacote quando ia ao supermercado. Fumava por todos os poros, assim como Leleca, que começou com o Continental sem filtro, cigarro, aliás, que também me iniciou nas delícias do tabaco. Adorava fumar, sentir a fumaça a adentrar meus pulmões. Viver sem fumar não é a mesma coisa. Larguei o grande companheiro, companheiro de toda uma vida, por causa da saúde. Mas o caso do Homem Minister fez que me lembrasse dos bons tempos do cigarro. E me lembrei do Columbia, delicioso, da Souza Cruz, com uma caravela na carteira, do Luís XV, e do Hollywood sem filtro, talvez a obra-prima da Souza Cruz. Mas não me esqueço do maço amarelo do Astoria, entre outros, dizia-se na época, 'mata-ratos'.

Jonga Olivieri disse...

A idéia do Homem Minister foi um achado. Mas, toda idéia tem um calcanhar de Aquiles, um ponto fraco, fácil de ser derrubado com argumentos lógicos.
Foi o que aconteceu.
Costumo dizer que ter aprovado a idéia do "garoto-meio-sem-jeito" Bom-Bril deve ter sido uma tarefa árdua.
Convencer um cliente de colocar, quase mesmo um conceito de anti-herói no ar, deve ter sido uma tarefa árdua.
E o pior: passar por todos os "pentelhos" de dentro da agência. Sim, porque tem gente que só vive para isso, quer dizer: derrubar boas idéias usando argumentos aparentemente irrefutáveis.
Como o da morte de Tarcísio Meira. hehehe

André Setaro disse...

Pela uniformidade dos casos, específicos da propaganda, publicidade, reveladores dos bastidores de seus incansáveis profissionais, haveria, um dia, de se achar tempo e ocasião para reuni-los em livro.

Jonga Olivieri disse...

Sem dúvida, André.
Historinha da coisa: comecei a escrever de farra na BBS do Blue Bus (que hoje é um site de publicidade) do excelente e brilhante Júlio Hungria.
Daí, acabei pblicando dois "casoa" no Jornal do CCRJ (Clube de Criação do Rio de Janeiro).
Então,,, tchan-tcan-tchan-tcan... surgiu, claro, a idéia de publicar um livro.
Corri, registrei tudo na Biblioteca Nacional (hoje em dia é direto no MinC)para ter os direitos autorais. Coisa que tenho comigo aqui na gaveta.
Conversando com um amigo meu, o Antônio Torres, que é escritor (conterrâneo nosso, por sinal), ele me desanimou dizendo que as editoras não teriam muito interesse dada a exigüidade do "target".
Brochei. Literalmente. Aí a coisa ficou meio que parada no tempo.
Até que um dia, vendo o blog de meu amigo Maurilo (Redatozim) tive a idéia de organizar ew publicar um.
Mas a idéia do livro está aí. Um dia quem sabe... E, nossa amiga Stela está entusiasmada com a idéia.
Cara, tenho um medo da objetividade feminina. Homens são meio parados. Daí aquela expressão popular que diz que "por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher". Pode crer...

Anônimo disse...

Amigo. li este seu material e acho de uma importância vital para a história da publicidade brasileira.
Sou publicitário antigo e leitor deste blog. Nunca deixei u, comentário.
Mas nenhum caso me comoveu tanto quanto este. Eu pssso lhe afirmar que voltei no tempo, Voltei aos tempos em que a publicidade era criativa. Como foi criativa a publicidad en Brasil.
É isso a;i.

Jonga Olivieri disse...

Caro Anônimo que deve ter feito parte de alguma equipe dos anos 70, ou 80 do século que findou. Findando também um pouco daquela aura da humanidade "humana".
O que vemos hoje? Um bando de parvas criaturas sem expressão (e que nunca a alcançarão), sendo engolidas pelo rolo compressor da história. "A história é uma devoradora de homens e caracteres" (Leon Trotsky). Veja bem: o que são caracteres, senão aquilo que escrevemos e deixamox impressoa ao longo de nossas existências.
A volupeidade dos novos tempos nem permite que se formem novos Olivettos, Dualilibis ou Enios Mainardis da vida.
Ela simplesmente os engole e os joga na sarjeta antes mesmo que aconteçam. Coisas da crueza imperdoável da "barbárie" que ora vivemos.
Sinal dos tempos...

esther disse...

Olha, poucas vezes vi uma idéia ser jogada fora desta maneira. Que coisa!

Jonga Olivieri disse...

Calma Esther... eu vi muitas melhores do que esta serem rifadas por causa de invejas, intrigas, fofoquinhas e outras mediocridades d'alma humana.
Essa não foi nada.
Volto a dizer: viva a DPZ (marco da propaganda no Brasil) que conseguiu aprovar o garoto Bom-Bril, o anti-herói, em pleno auge das "garotas -propaganda bunitinhas" da vida.
E o cliente, claro, que topou a ousadia e assinou embaixo.
O resultado está aí. O personagem mais duradouro da história da publicidade em todos os tempos.
Recorde mesmo!

Anônimo disse...

Talvez se tivessem topado e prosseguido estaríamos com a marca minister até hoje nas prateleiras.

Jonga Olivieri disse...

Sim, talvez...

Anônimo disse...

Um causo de uma burrice a toda prova. O homem Minister era perfeito. Conheci a marca, fumei a marca. Quem não fumou naquele tempo? E morreu na praia no furacão dos Galaxys e Frees.
Que nem Columbia. Também fumei e era excelente. Cadê?
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Acontece nas melhores agências de publicidade.
Agora "não adianta chorar o leite derramado".
Coisas do futebol, ora, ora.

Anônimo disse...

Uma prova de burrice. O homem Marlboro morreu, e o pior é que foi de câncer no pulmão, segundo dizem.
E a marca continua no mercado, vendendo e obrigado.
Y.

Jonga Olivieri disse...

E o Homem Minister estari vivo até hoje. heheiii

Anônimo disse...

Sabe Olivieri, alguém que trabalhou na Salles já havia contado-me este caso.
E eu concordo com você que a razão levantada pelo advogado do diabo foi uma bomba.
Como é que laguém pode afirmar se a personalidade escolhida ia morrer de desastre de avião ou seja o que for.
Toda idéia tem sua fragilidade. É fácil derruba-las. Difícil mesmo é consttrui-las.

Jonga Olivieri disse...

Disse tudo, derrubar bosa idéias é fácil.partindo do princípio de que estando criada, fica mais fácil encontrar um ponto vulnerável.
Quer ver uma coisa similar: é muito comum um cliente (meio perdido), sem um briefing definido pedir trabalhos.
Elabora um posicionamento qualquer a partir daí, começar então a elaborar aquilo que ele "acha" que quer.
Uma forma fácil de "acertar" com cobaias humanas a tentar caminhos, às vezes a partir do "porra nenhuma".
Passei por isso muitas vezes. Aliás, passo até hoje nos meus frilas.
É o que eu chamo de "síndrome do cartão de natal". Pecinha chata (geralmente cheia de vis-e-vens, e que me faz detestar o evento pelo qual já não tenho muitos atrativos. Desde que deixei de acreditar em Papai Noel...

antônio disse...

Mas, eu me pergunto. Será que o Tarcísio Meira ia salvar Minister de seu caminho para o desaparecimento?

Jonga Olivieri disse...

Olha, caro Antônio. Só mesmo se tivesse se tornado o "Homem Minister" poderíamos ter uma resposta à sua pergunta.
Existem diversas marcas que sobreviveram ao tempo. Como Marlboro (que foi citada em um comentário). Ou Hollywood que existe até hoje em várias versões.
Minister foi um dos produtos mais vendidas da Souza Cruz durante muitos anos.
Creio que com uma roupagem nova e um "gimmick" de vendas, teria alavancado novamente.
Mas, volto a dizer. Somente se tivessemos testado, poderíamos respoder se o "Homem Minsiter" poderia ou não ter evitado o seu fim.

Anônimo disse...

Jerry della Femina foi um criativo fora de serie , mas a su proposta de fazer vom que o cliente só visse as suas peças publicadas foi uma arma de "dois legumes".
Qual é o cliente que pode ficar satisfeito sem meter o dedo no que é o melhoir da história?
Como alguém já disse aí. O mais fácil é derrubar idéias sejam boas ou ruins. Mas as boas devem ser mais prazerosas para alguns amigos da onça. E como.

Jonga Olivieri disse...

E como, meu caro... e como...

Sumire disse...

É, Oliva... Quem dera os clientes tivessem consciência de que pagam a agência pq a agência entende de algo que eles não entendem... rs...
Eterna utopia... rs...

Anônimo disse...

Tenho quase certeza que vc esta'enganado quanto ao filme de Continental.
Acho que é do Fabio Siqueira e do Studart.

Jonga Olivieri disse...

Su, se alguém vai ao médico, confia no que diz, acredita.
No nosso caso. a coisa funciona de forma diferente.
Todo mundo palpita, e tem o damoso: "gostei" ou "não gostei".
As pessoas esquecem que a publicidade não é feita para se gostar ou não gostar, mas para vender ou não vender.
Quem tem que gostar é o target, não o papagaio do cliente. hehehe

Jonga Olivieri disse...

Então... há controvérsias?

account disse...

Olha. Me lembro disso tudo que você contou. E foi mesmo muito trágico. tenho certeza que Minister estaria até hoje como marca de sucesso. Não fossem as intrigas internas que não levam a nada.
Apesar de atendimento sempre respeitei as boas idéias. Sempre dei força a criação.
É isso aí. Um desabafo.

Jonga Olivieri disse...

Bem, meu caro account (contato em inglês).
Você era contato na Salles, na minha época. Mas eram tantos... fica difícil.
Apesar de que já retiro meia dúzia de filhas da *** que não respeitavm a criação.
Mas, mesmo assim.
Em todo o caso, obrigado, por mim e por toda a criação.

Anônimo disse...

Também discordo da autoria da idéia do filme do cigarro Continetal com a música do Roberto Carlos.
O autor foi o Fred Coutinho.
C.

Jonga Olivieri disse...

Prefiro não me meter mais nessa história.
Eu falei de quem era a autoria: Delamo e Bernardo.
Agora, se não foi, falhou a memória, ou o Tico e o Teco (os dois neurônios que me sobram) estão a sucumbir), definitivamente. hehehe

Anônimo disse...

O Homem Minister acabou existindo. Era aquele que aparecia no comercial como "o homem que sabe o que quer". O modelo era Roberval, que hoje está com cerca de 70 anos de idade, e foi um dos primeiros modelos masculinos do Brasil.

Jonga Olivieri disse...

Caro Anônimo total, acho que este Roberval (que não é o Taylor) já existia antes.
Não era um que ficava apontando para os locais nas obras, nas estradas, etc?
Pois bem este personagem, se é quem estou pensando, realmente já existia.

LICIA disse...

Adorei ler sbre o Homem Minister...Fumei Minister também...não sei se vc lembra tinha até um acróstico para a marca:
Minha (meu)
Inesquecivel
Namorada(o)
Isto
Será
Tua
Eterna
Recordação
e ainda tinha um Morou Coroa? referindo-se ao logotipo.

Jonga Olivieri disse...

Minister era de fato uma marca importante. Acho que cheguei a fumar, mas confesso que sempre gostei mais de cigarros fortes do tipo Hollywood ou Continental...