quinta-feira, outubro 18, 2007

O “caso” do monólogo

Conhecí Manolo Rodriguez quando trabalhava na L&M. Manolo, na época era funcionário da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (é, o Rio já teve dessas coisas!) e era editor da Revista Bolsa. Na ocasião eu atendia aquela conta e fomos, o Carlinhos Chagas (meu dupla) e eu, por várias vezes ao cliente por motivo de um concurso de capas que o Manolo teve a idéia de realizar em comum acordo com o nascente Clube de Criação, ainda sob a direção de Montserrat, seu primeiro presidente. Dele me ficou a impressão de que falava pelos cotovelos no seu “inconfundível” portunhol.

Naquela ocasião, o espanhol promoveu eventos interessantes. Num deles trouxe um dos maiores Type Directors* dos Estados Unidos ao Brasil. No auditório da Bolsa, o tal ianque falou muito e de forma esclarecedora sobre tipologia, capitulares e outros assuntos e macetes em relação a uma melhor aplicação de fontes tipográficas em anúncios, revistas, etc.

Passei muitos anos sem notícias do Manolo. Até que em 1988, voltando para o Rio, após três anos em Beagá, reencontrei o valenciano. Desta feita como diretor de arte na VS Escala, ainda nesta época na rua Maria Eugênia, em Botafogo. E quase não o reconheci. O ex-diretor da revista da Bolsa, que me acostumara a ver de terno e gravata, estava ali, de calça jeans e um vasto bigodão.

Ficava dias a desenvolver embalagens para uma linha de mostardas que iam ser lançadas pela Fleishman Royal. E desenhava que era uma beleza. Fazia dupla com a Irene Meinberg, enquanto eu voltei para reencontar o Bernardo Mariani, redator que formara uma parceria comigo na Contemporânea. Com o Bernardo, havia ganho alguns prêmios nos tempos daquela agência da Urca, principalmente com uma campanha para o Lápis Vermelho do BarraShopping, que, entre outra coisas, virou até notícia de jornal. Simplesmente porque pegamos uma carona no Plano Cruzado e criamos um desenho animado, realizado pelo Takeshi -- mestre nesta arte -- no qual tinha Lápis Vermelho Sarney, Lápis Vermelho Marcos Maciel, em suma toda a trupe de ministros travestidos de Lápis Vermelho, falando sobre a liquidação do shopping.

Além deles, a VS Escala tinha uma equipe dupirú. Fernando Farah, que está na Inglaterra desde 1989, ou Denise Motta, que casou-se com um israelense e mora desde 1990 em Israel, completavam o time de três duplas de criação, que eram assistidos por um excelente estúdio de mais de oito profissionais de primeiro time. Letristas como o Tião, ilustradores, como o Ronaldo Graça, que curiosamente também está em Paris desde 1991. Aliás, eu também fui para Portugal em 1990. Lá, até criei um periódico -- que xerocava e mandava para todo o pessoal da VS no Brasil e no exterior -- chamado “VS World News”, dada a quantidade de ex-veessianos que haviam saído do país.

Mas, voltando ao Manolo. Quando começava a falar, ninguém segurava. Uma tarde, cerca das sete da noite, já pronto para sair, ele me pegou no papo. Foram horas de um monólogo em que o Manolo contou toda a sua vida na Espanha. Falou muito de Gaudi, Miró e de sua vinda para o Brasil. Contou também (com detalhes) a sua visita à URSS, quando estudante. E, nunca me esqueço dele descrevendo o olhar satânico de Béria**, ao visitar o Kremlim. Saí da agência quase dez horas da noite, e não consegui completar uma frase sequer enquanto ele tecia seus intermináveis comentários.

Poucas vezes assisti a um monólogo tão interminável. Nem na excelente performance de Fernanda Montenegro no “Dona Doida” de Adélia Prado, que, aliás assisti num teatro em Portugal, nos tempos em que lá morei.

(*) Era uma função que existia nas agências estadunidenses, que, como diz o nome tratava-se de um especialista na escolha de tipos, combinações tipológicas e outros bichos.

(**) O chefe da KGB nos tempos de Stalin, ditador, a quem o Manolo também jura ter sido apresentado naquela sua visita à União Soviética.

14 comentários:

Redatozim disse...

Pelo menos o tema do monológo pareceu interessante. Imagina se fosse um monólogo sobre a bolsa de valores?

Jonga Olivieri disse...

Ainda bem. O Manolo sabia ser falante em demasia, o que o tornava chato, e o pior: com fama de chato mesmo!
Todavia, sua vivência, viagens, s seu conhecimento de arte, transformavam extensos monólogos em pelo menos, monólogos interessantes.
O pior não era a Bolsa de Valores.
O pior mesmo é quando começava a contar casos do A.A., do qual era membro. Uooops, quando entrava nessa era dose, e, sem direito a bebida... hehehe

maria bonita disse...

Ótimo este caso. O Manolo deve ser uma figura muito tagarela. Ui!

Jonga Olivieri disse...

E põe tagarela nisso...

Anônimo disse...

Cara, o sujeito falou três horas, ou quase isso, sem parar e sem deixar você falar. Uauuu.
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Coisa da vida. E o pior é que a fome começou a apertar.
Quase convidei ele para ir comer uma pizza.
Mas juro que refletí que aí mesmo é que o "monólogo" ia se estender até sei lá que horas.

jr disse...

Quem não conheceu o Manolo Rodrigues? Pelo menso quem tem mais de, digamos 45 anos. Rssssss
Foi o maior beberrão que conheci. E de uma hora para outra entrou para os Alcoolicos Anonimos e virou o maior discurso contra a bebida.

Jonga Olivieri disse...

Graaaande Manolo. Figuuura!
Sumiu...

Anônimo disse...

Também o tal de Manolo não tem simacometro? Um cara que pega o outro de papo das 7 às 10 da noite e nem pergunta se o outro tinha o que fazer?

Jonga Olivieri disse...

E eu bem que podia ter dito alguma coisa, mas, apesar de monólogo, o papo(?) estava bom.

Anônimo disse...

E sumiu mesmo. De repente, não mais que de repente o Manolo deu uma desaparecida que foi meio inexplicável.
Se alguém souber dele e ler este blog, por favor informe.
F

Jonga Olivieri disse...

isso mesmo. Se alguém souber avise. Porque já reviramos o Rio de Janeiro procurando o Manolo, mas que nem o Wally, sumiu na paisagem.
Mas certemente está falando pra caceta em algum lugar por aí.

irene meinberg disse...

Jonga que saudades, quanto ao Manolo, não posso esquecer que EU também fiz dupla com ele. E até ganhamos nossos prêmios. Eu também não sei por onde ele anda verborrando por aí. Mas, graças aquele típico bom humor da manhã, eu irei direto para o céu!
Manolo era feito de monólogos e bordões.
Um dos bordões que me deixava louca: era o famoso - Porque eu me formei na Sourbone!- se acalme Manolo, eu repondia, não é tão ruim assim,em tom irônico e como se não fosse nada, eu me formei na Facha... Ele me olhava com uma cara...
Também haviam temas: Fabinho Fernandes era um dos temas favoritos!Manolo falava coisas horríveis com um veneno quase que viceral e por toda uma manhã sobre aquele publicitário que nada havia feito a ele!
Foram mêses ouvindo o mesmo assunto.... mas aguentei firme.

Outro tema,foi achar que todos os nossos jobs eram ruins ou os piores da agência. Essa eu queria sempre correr para meu analista porque ele cortava a minha emoção e eu ainda tentava, quando ele pegava ar, ver o lado bom da coisa, mas ele só ouve o que ele diz. Quando ele percebia que eu estava a ponto de perder minha máquina de ecrever e jogar em cima dele, ele sempre parava e íamos comer sanuiche na padaria, para eu me acalmar...

Manolo gostava e tinha certo prazer estranho em ver as pessoas perderem a linha por causa dele, É, bem afirmativo, era proposital. O implicante!

A frase chave que eu o calava era: Manolo está pior que um casamento ou a peça Entre quatro paredes, eu quero o divórcio , perdas e danos... E uma vez eu abri a sala do Lula Vieira e pedi mesmo o divorcio do Manolo.
Daí vinha o período da reconciliação que ele manerava, mas sem parar de falar, claro.

Adorei encontrar seu Blog. Tenho diversas situações Manolíticas para contar se alguém quiser ouvir!
Apesar de redatora não escrevo em meu Blog.... é em vídeo, sim.
O motivo é que tudo em nosso meio se torna uma grande tragédia e muitas pessoas ficaram com medo, e me declararam isso, de me rever depois que fiquei doente... Estou mais velha porém minha recuperação foi quase milagrosa. Por isso convido a todos a me verem novamente, sem ter que sair de casa. Um beijo estalado na bochecha do Jonga
da Irene Meinberg.

Jonga Olivieri disse...

Obrigado Irene. Quando quiser, mande casos... este blog está aberto a todos os amigos.