sexta-feira, outubro 26, 2007

O “caso” do sonho que foi atropelado

Existem vários tipos de agência de publicidade. As mais comuns são aquelas em que o atendimento tem um predomínio, e, de forma oposta a este modelo aquelas em que a criação dá as cartas. Não que não existam outras. Trabalhei em algumas nas quais havia um equilíbrio civilizado entre as duas partes.

Quando fui para Beagá, em 1985, primeira vez em que assumi a direção de criação de uma agência, fui para a ASA. Uma agência tipicamente inserida no caso daquelas em que o atendimento predomina. Apesar de seu histórico, porque foi fundada nos anos 60 por profissionais de criação que faziam frilas e necessitavam ter um local para trabalhar. ASA são as iniciais de After Six Agency*, e era o local para onde eles iam criar suas campanhas e trocar idéias que balançaram o mercado mineiro de então.

Desde que chegara em Belo Horizonte, uma agência em particular me chamou a atenção. A Livre Propaganda**, uma agência solta, criativa, de extremo bom humor em seus trabalhos. Aos poucos fui sabendo de sua história. Surgira proveniente do Grupo Quilombo – que aliás continuava existindo – e que fizera a campanha (vitoriosa) de Tancredo Neves ao governo do estado de Minas Gerais. O referido grupo resolveu continuar produzindo eventos musicais, principalmente para o pessoal do Clube da Esquina. E, paralelamente criaram a Livre para atender as contas de governo que acabaram vindo para suas mãos.

Por outro lado, seu diretor de criação era o Jackson Drummond Zuim, além de personagem de muitos casos neste blog, um dos profissionais mais criativos que conheci. Realmente, sem exageros, um poço de idéias fervilhantes numa cabeça culta e sensível. Bom, um dia o Zuim saiu de lá para outra agência. E não é que me chamaram? Para mim aquilo foi muito mais do que muitos prêmios que recebi em minha vida profissional. Foi uma honra (e um puta desafio) substituir o Zuim.

Não pensei muito. Apesar de gostar muito do Edgard Mello (Seu Mello para os íntimos), dono e fundador da ASA, de adorar o Carlos Areias, ex-colega da Salles no Rio e que me levara para aquela agência, pedi demissão e topei a empreitada. E não me arrependi. A Livre era de fato uma agência “dupirú”. O ambiente era descontraído. Ficava numa casa gostosíssima, tinha cachorro, papagaio e uma linda mangueira no pátio central. Ali também um fogão de lenha em que, todos os meses havia um rega-bofe com fartura de comida mineira, muita cerveja gelada e pinga de Salinas. Além da presença de alguns clientes amigos, e Milton Nascimento, Lô Borges, Fernando Brant. Pra começo de conversa.

A equipe era ótima. Além do Boca e do Wanderley (diretores de arte que haviam trabalhado comigo na ASA) e o Alvinho, redator, encontrei o Murilo Antunes, um dos sócios e também talentoso redator, que nas noites vagas ia recitar poesias nos bares de Belzonte, realizando performances inesquecíveis. Por intermédio dele, veio o Tonico Mercador, na verdade Antônio Augusto D’Aguiar, maranhense criado em Barbacena, onde por coincidência privou da amizade de Tobias Marcier, também amigo meu, pintor, escultor e filho do grande artista plástico Emeric Marcier. Tonico iniciou suas atividades em criação na Livre, sendo parceiro do Murilo em seus shows madrugada adentro. E como ele, excelente poeta e escritor.

Chegaram as eleições para o governo de Minas. Hélio Garcia, o governador de então, não apoiara inicialmente Newton Cardoso, mas este acabou sendo o escolhido pelo PMDB para ser o candidato. Seu principal oponente, nada mais nada menos do que Itamar Franco. A Livre, a Conexão e a Setembro, indicadas pelo Hélio, formaram o pool de agências para a campanha do Niltão. Fizemos. E ganhamos. Uma ousada estratégia final mudou o quadro geral que até então favorecia o Itamar, possibilitando uma grande virada na reta de chegada.

Bom, aí aconteceu... o “trator Niltão” resolveu atropelar as agências que o elegeram, segundo disseram à época, por divergências pessoais com o Hélio Garcia (o famoso “Dojão”, porque consumia um “combustível” que sai da frente). Simplesmente retirou as contas de governo das três agências que formavam o referido pool. A Livre Propaganda Brasileira (seu nome completo), que tinha 98,8% de contas de governo em sua carteira de clientes, faliu. Isso mesmo, simplesmente fechou as portas em menos de dois meses. Assim como num estalo, foi um sonho que acabou... para sempre.

(*) Ver o “caso” da after six, publicado neste blog em 21/11/2006

(**) Existem vários “casos” da Livre neste blog.

8 comentários:

Redatozim disse...

Eu não cheguei a "conviver" com a Livre, já que ela fechou antes que eu entrasse no mercado, mas os profissionais que saíram de lá foram durante muitos anos (e ainda são) referência fundamental para os profissionais da minha geração. Entre ele3s, é claro, Zuim, Murilo e nosso caríssimo Don Oliva.

Jonga Olivieri disse...

E foi uma agência muito marcante, como tentei - de forma rápida - passar nesta postagem, porque o que a Livre precisava mesmo é de um livro para contar tudo o que acontecia ali.
Fizeamos trabalhos realmente bons. Trabalhos que ficaram gravados em nossas memórias, e, sem dúvida nenhuma na memória da propaganda mineira.

jr disse...

Não conheço muito o mercado mineiro, tendo ouvido falar mais da ASA, da Setembro e da LF. Mas pelo que você falou a Livre era uma agência muito criativa.

Jonga Olivieri disse...

A Livre foi das agências mais criativas do mercado mineiro.
Foi um fenômeno.
Houve outras que certamente foram tão (ou até mais) criativas quanto ela.
Mas, de fato ela transcendeu em seu tempo. Estou a me referir aos anos 80, período em que ela surgiu e sucumbiu (atropelada pelo "trator").

Anônimo disse...

Conheci a Livre, o saudoso Marcinho, o Pardal, o Murilo, o Du (aquele que pirou e se mandou pruma praia no sul da Bahía), os sócios. Marília, aquele paulista doidinho que não me lembro do nome. Mais? Juninho, Boca, Alvinho, você.
E concordo contigo que é uma agência das mais criativas do mercado mineiro em todos os tempos.
Pena que acabou do jeito que foi. Pena mesmo.
Quem sou eu? Adivinha. kkkkkkk!

Jonga Olivieri disse...

Cara, podem ser tantos(as) que não dá nem para dar um tiro no escuro... quanto mais acertar.
O certo é que vocêm seja lá quem for, ou trabalhou ;á ou conheceu a gente. Porque no seu comentário cita nomes e fatos aos quais não me refiro na postagem. Bom, deixa isto pra lá.
Mas o fato é que gostei do KKK. Valeu. Vou adotar porque é mais fácil do que o hehehe. rrrsss!

Anônimo disse...

Sou de São Paulo e nunca trabalhei em Belo Horizonte, mas juro que ouvi falar de poucas agênciasa mineiras.
Entre elas estão a Livre, que foi uma agência que marcou seu tempo, apesar de ter durado pouco.
Já ouvira falar também da Setembro, da DNA e da SMPeB (essas duas últimas, antes dos escândalos).

Jonga Olivieri disse...

E são as mais conhecidas mesmo.
A Setembro, foi uma das primeiras a ser reconhecida em todo o Brasil como criativa. Lembro-me de um portólio dela que tive conhecimento há muito tempo e era excelente.
Mas, justiça seja feita, a ASA foi um a que também marcou época, muito embora tenha sido anterior. A campanha de um magazine mineiro chamado Pep's foi revolucionária à época.