domingo, novembro 04, 2007

O “caso” do mural

A L&M era mesmo uma agência muito criativa. E a criatividade estava implícita nas brincadeiras e no dia a dia, no próprio desenrolar dos trabalhos. Eu me lembro, por exemplo, de uma brincadeirinha do Bezerra, que era o nosso ilustrador, e que de vez em quando sentia frio, e como sua sala era uma subdivisão da minha, ele me entregava um cartoon muito bem feito, claro, com um bezerrinho tremendo de frio e um balão com a expressão: brrrrr!!! Era uma mensagem nada sutil para desligar o ar condicionado.

Aliás, neste blog, ao longo de seus mais de 15 meses de existência, já contei muitos e muitos “casos” daquela agência. Eu acho que sempre tive a sorte de ter trabalhado em agências divertidas. Pelo menos naquele período das “antigas”, em que o computador não havia aparecido. Curioso, mas de lá para cá a coisa foi reformatando, os ambientes foram ficando mais caretas e... aí danou. Nada contra computadores. Sou um sujeito que vivo pendurado num. Já amanheço manejando a engenhoca, quase sempre anoiteço em cima do mesmo.

Mas, voltando à “bezerra fria”, além do Bezerra, todos naquela agência tinham um senso de humor apurado. A cada momento surgia um apelido. Você tinha que “se lixar” para isso, pois era a melhor maneira dele não pegar. Parecia um jardim de infância, todo mundo brincando, todo mundo querendo bolar alguma forma melhor e mais divertida de passar o dia. E, tudo isso em meio a prazos loucos, campanhas enormes, para uma equipe até reduzida para a proporção de trabalhos existentes. E é óbvio que este ambiente, no fundo no fundo era para amenizar a pressão do trabalho.

Era raro o dia em que se conseguia sair no horário. Cheguei a um ponto em que não marcava mais compromissos do tipo jantar, cinema ou teatro durante a semana, tal era a minha incerteza quanto à hora em que ia sair. Preferia agendá-los para os fins de semana. E mesmo assim, vez por outra tinham viradas que incluíam idas à agência nos sábados e domingos. Coisa muito comum, principalmente naqueles tempos.

Mas, o estúdio era colado à criação. Apenas uma porta nos separava. Ali, um belo dia, alguém inventou o porta-press. Uma brincadeira que começou com um recorte de manchete de jornal em que havia, coincidentemente um nome de alguém da agência estampado. E aí, começou uma verdadeira febre de colocar naquela porta alguma manchete. Às vezes até recortada e montada a partir de várias. Cortava-se o nome de alguém e completava-se com o restante de uma outra. Mas sempre pertinente. E profundamente maldosa. Lembro-me de uma que era uma imagem de daguereótipo e o retratado era muito parecido com o Victor Kirowsky. Arranjaram letras para formar o apelido dele e colocaram: “Vic daguerreotipado em 1875 por...”. O Vic, que era o mais velho da criação ficou fulo da vida. Queria saber quem tinha feito a brincadeira. Queria porque queria vingar-se do autor, e começou a jogar na cega criando manchetes sobre fulano ou beltrano que seriam os seus principais suspeitos.

Mas a coisa rendeu de tal forma que o porta-press, em muito pouco tempo ocupava toda a parede que dividia o estúdio da criação. Uma brincadeira, como dizem os portugueses: “a não esquecer”. Aliás, jamais...

12 comentários:

Redatozim disse...

Algumas agências ainda têm espaço pra coisas assim, mas realmente tudo mudou muito. Genial o porta-press.

Jonga Olivieri disse...

O porta-press era mesmo genial.
Mas que as agências mudaram do vinho pra água, lá isso mudaram.

jr disse...

A L&M foi uma excelente agência e tinha contas muito boas.
Só pela Embratel dá para se ter uma idéia.
O caso é muito engraçado.

Jonga Olivieri disse...

Para a Embratel fizemos trabalhos muito bons.
Lançamos o DDD em quase todo o Brasil e o DDI para diversos países, pois era um serviço que estava começando.
Várias dessas campanhas ou anúncios foram premiados, até com Clio. Eu mesmo tenho um Clio com um anúncio da Embratel.
Mas, a L&M tinha a Philip Morris e outras contas boas, como a Sisal Imobiliária, que naquela época lançava muitos novos empreendimentos aqui no Rio.

Anônimo disse...

Grande agência a L&M.
Deixou uma marca na história da propaganda carioca (e brasileira também) desde que Pedro Galvão foi o seu diretor de criação.

maria bonita disse...

Deve ter sido divertido trabalhar numa empresa tão doida assim.

Jonga Olivieri disse...

Sim, Pedro Galvão foi o primeiro diretor de criação da L&M.
Mas eu fui da fase posterior em que o d.a. era Mauro Matos.
Galvõ, de lá foi para a Thompson, Standard e já há algum tempo voltou para o Pará onde é dono da Galvão, sua própria agência.

Jonga Olivieri disse...

Deve não.
Foi divertido pra dedéu.

André Setaro disse...

O que se deposita aqui é para ser editado em livro, já o disse uma vez e digo, agora, outra vez. Casos especiais, que retratam uma época e uma atitude profissional que se encontra no ocaso.

Jonga Olivieri disse...

A idéia inicial deste projeto era realmente a publicação de um livro. Cheguei a fazer o registro de mais de dois terços dos "casos" aqui existentes.
Mas, mudei meus planos. Talvez por algum tempo. Quem sabe em breve volte aos planos iniciais...

Stela Almeida disse...

Concordo com o André Setaro, os registros de uma época constituem traços de uma memória que marcaram e definem identidades, se vc. quer partilhar com um conjunto mais amplo escolheu um caminho acertado. Sucessos e continue sempre.

Jonga Olivieri disse...

Isso aí Stela. Têm várias formas de divulgação. Mas, pretendo um dia chegar ao livro.