terça-feira, março 18, 2008

O “caso” das galinhas

Estava lembrando outro dia que quando trabalhei em São Paulo, nos anos 1970, corri mercado. Em outras palavras, trabalhava numa agència pequena, a De Mello & Leonardo e resolvi fazer uma visita às agências maiores e mais importantes que haviam na época. E desta forma, conhecer os profissionais que tinham um certo peso no nosso trabalho. Visitei a DPZ (claro!), a Norton, a Almap e a Proeme.

Assim, eu ligava e agendava uma visita. Conheci o Alex Periscinoto, o Francesc Petit, o Ênio Mainardi e a dupla Jarbas e Neil Ferreira. Do Alex, falei recentemente e até contei um pouco de sua trajetória profissional (1). O Petit. Bom, será que a gente precisa falar do Petit? O “P” da DPZ, que considero um dos maiores diretores de arte que já passaram pelas “pranchetas” da vida. Só o que fez para Carlton e outras campanhas memoráveis é inesquecível. Na Proeme foi um papo muito estranho. Até porque o Ênio era tido como um sujeito estranho. E confirmou a versão. Mas é o autor do famoso slogan “Tostines. É melhor porque vende mais. Vende mais porque é melhor”, considerada uma das melhores frases da publicidade brasileira.

E chegou o dia de minha visita à Norton. A dupla Neil e Jarbas era considerada a mais criativa daquele momento, responsável por campanhas e anúncios memoráveis, como a da “Mamãe Fotoptica”, do “Conhaque do papa” e do famoso “Abaixo o dia das mães”, que pregava que mãe não tem dia, porque todo dia é o dia delas. Pouco tempo depois, o Jarbas de Souza fundou a sua própria empresa, a famosa Alltype, fornecedora de fotoletras, uma verdadeira “revolução” na época. Até porque o Jarbas era um dos diretores de arte que mais conhecia tipos no Brasil. A gama de novos desenhos tipográficos que surgiram a partir da Alltype ficaram na história da propaganda.

Fui muito bem recebido. Ainda me lembro da roupa do Neil. Uma calça branca de listras azuis bem grossas. Boca de sino. Ih! Coisas da época! Um vestuário de vanguarda, chamativo e ousado. Conversamos quase que quarenta minutos sobre anúncios, filosofias criativas e coisas do gênero. No final, apresentei meu portfolio e ele anotou o telefone da agência em que eu trabalhava. Pena que menos de duas semanas depois eu estava embarcando para o Rio porque uma agência me chamou e eu não resisti à tentação de voltar.

Mas, foi ali que surgiu o papo. O Neil me falou que de vez em quando tinha vontade de sumir, que a profissão era muito desgastante (na época não se usava a palavra estresse) e que ele muito em breve se retiraria por uns tempos e iria para o interior. Criar galinhas. Uns três meses depois eu li numa coluna publicitária que havia acontecido exatamente isso. Neil Ferreira deixara a Norton e partira para o seu sítio no interior paulista. Para criar galinhas. Um sujeito de palavra.

(1) O "caso" da construção de uma marca, postado em 13 de fevereiro último.

14 comentários:

redatozim disse...

Meu sonho é criar porcos.

Jonga Olivieri disse...

Grande essa...
Mas o Neil voltou algum tempo depois. Foi trabalhar numa agência chamada P.A. Nascimento Acar. Depois voltou para a Norton, a pedido do próprio geraldo Alonso para ser o diretor nacional de criação e andava muito aqui pelo Rio. Nessa época, o velho Alonso tinha mania de aparecer de supetão por terras cariocas e despedir metade da agência. Era um clima de teror. Eu sempre dizia que tinham duas ag~encias daqui que eu nunca trabalharia. Uma era a Artplan e a outra era a Norton.
Fui chamado nas duas, e em ambas pedi salários tão astronômicos que os diretores de criação ficavam olhando pra mim e pensando: "esse cara tá doido!".
Consegui assim o meu intento de nunca ter tido a infelicidade de trabalhar tanto sob o comando de Alonso quanto com o de Medina.

Anônimo disse...

Criar galinhas ou porcos dá na mesma. Eu sempre pensei em criar colehos. Desisti no dia em que soube como m atavam os bichinhos. Amaram-se todos de cabeça pra baixo e vem dando uma pancadinha em cada um. Dá pena, né?
Otávio

jr disse...

Vc lembrou aqui de uma época que me deu saudades. Acho que a publicidade no brasil caiu demais. Não que não hajam boas campanhas, mas mas não são mais como as que houveram no passado.
E Neil, Petit, Enio Mainardi, tanta gente boa.
Falar nisso que fim levou o Neil?

Jonga Olivieri disse...

É isso aí, Tavim, matar coelhinhos é meio cruel mesmo.
Mas houve uma ócasião que também pesnsei niso, porque dava dinheiro.
Talvez até ainda dê. Só que no momento eu não tenho onde cria~los.

Jonga Olivieri disse...

O Neil Ferreira, pelo que eu sei ainda está por aí, JR.
Hoje, se não me engano, ele é free-lancer. Como todos nós os "coroas" da publicidade. Porque os jovenzinhos de hoje acham que "velho" não sabe criar.
Mas esse grande redator (talvez até o maior que tivemos) depois trabalhou na DPZ, com o Zaragoza.
Naquela agência, até hoje um templo da propaganda brasileira, foi ele quem criou o "baixinho" da Kaiser.

Anônimo disse...

Você conheceu uma turma da pesada.
Eu sou de uma geração que já pegou esse pessoal meio fora do circuito. Com excessão dos donos de agência porque são os que sobrevivem.
Outro dia conheci um primo seu que trabalha aqui e é publicitário. Trata-se de Victor. Sabe quem é?

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Caro Anonymous de Nova Iorque.
Era uma turma da pesada mesmo. E só ficaram realmente os donos de agência.
Os outros estão de frila... que nem eu.
Mas vale, a gente trabalha em casa, pega nossos clientes e os vai consolidando.
É difícil porque para tirar férias é meio difícil. Até por ser sozinho, e os clientes não coincidirem nos momentos de necessidades de cada um.

Quanto ao Victor, é filho de minha prima Isaura que mora nos EUA desde a década de 60, quando o marido dela (ele é estadunidense foi para a guerra do Vitnã. Ele nasceu aqui mas foi pequeno para aí. Ela mora em Minesota.
Soube que trabalha em publicidade em Nova Iorque.
Nem o conheço, mas se por acaso estiver com ele diz que um primo do Brasil (Jonga) está mandando um abraço.

redatozim disse...

Pra quem quiser saber, Neil Ferreira faz hoje as campanhas do TSE pelo voto e etc e tal. Um amigo meu, o dieguinho, até trabalhava com ele. Pelo menos até onde eu sei é isso.

Jonga Olivieri disse...

O TSE deve ser uma das contas que ele atende.
Aliás, os "velhos" da propaganda estão todos em campanhas políticas e afins
É uma área em que o que pesa mesmo é a experiência e não a cata de premiozinhos...

Anônimo disse...

Neil Ferreira faz hoje, muitos trabalhos para política, mas também free lances em outra áreas.

Um redator muito politizado, Neil hoje escreve no site Mídia sem Máscara. Segue abaixo o endereço para uma crônica dele:

http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5239&language=pt

No blog Knutz, tem uma entrevista dele intitulada “Neil Ferreira Solta o Verbo”. O link é:

http://kntz.blogspot.com/2007/10/neil-ferreira-solta-o-verbo.html

Vale a pena conferir.

Abelardo S. Cardoso

Jonga Olivieri disse...

Obrigado pelas dicas.
Vou entrar nos links e conferir o que o Neil está fazendo hoje.

Anônimo disse...

Vamos falar um pouco de Jarbas José de Souza. Considero ele tão expert em tipos quanto o foi o Herb Lubalin, um D.A. americano que na minha opinião (aliás não só na minha) foi o maior de todos, tendo desenhado e lançado muitas fontes como a famosa “Avant Garde”.
No Brasil poucos como o paranaense Miran (e sua revista “Gráfica”) chegaram perto dele no domínio desta arte de bom uso da tipologia.
Quem (da antiga) não se lembra do anúncio “Os Subversivos”? Mostrava a equipe da Norton, todos os redatores e D.A., uma turma da pesada vistos em foto pxb ousada (de baixo para cima), alguns segurando suas máquinas de escrever, outros suas réguas “T’s”. Deve ter muito publicitário hoje que nem sabe o que é isso. É expressivo lembrar que este anúncio foi publicado em plena “ditadura” quando subversivo era um palavrão. Mas, naquela época, quase todos os publicitários eram meio subversivos mesmo. Os famosos “barbudinhos de propaganda”.
Além da Alltype, Jarbas foi sócio da “Cosi, Jarbas & Sergino”. Agência que criou peças e campanhas de inestimável valor. Para citar um exemplo: o slogan para a Folha de São Paulo: “De rabo preso com o leitor”. Esse entrou para a história. Quem não se lembra?
Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Muito esclarecedor este seu comentário, Cantídio. O Jarbas foi importante demais no cenário da nossa publicidade, especialmente na década de 70.
Quanto ao Miran, boa lembrança. Aliás, a sua excelente revista “Gráfica” tem um blog que eu tenho marcado e sempre que posso dou uma olhadinha, cujo endereço é: http://miranrevistagrafica.blogspot.com/ a quem interessar possa.