quarta-feira, março 12, 2008

Uma idéia na cabeça e uma virada...

A imagem que muitas pessoas fazem de criativos publicitários é que as idéias surgem como num passe de mágica. Geniais. Marcantes. Inesquecíveis. Até pode acontecer, uma vez em mil, que você olhe para o alto e caia aquela idéia maravilhosa na sua testa. Mas, posso garantir que isso é muito raro. Na grande maioria das vezes prevalece aquele raciocínio de que toda grande idéia é formada de 1% de inspiração e 99% de transpiração. Muita transpiração mesmo. Posso garantir.

São longos pedidos de trabalho, pesquisas, reuniões, reuniões e mais reuniões (muitas chatíssimas) brainstormings, revisões de avaliação, e, geralmente, horas e horas de um redator olhando para o diretor de arte e vice-versa. Não que nunca aconteça. Já tive idéias dormindo. Acordava e anotava ou desenhava o que havia sonhado ou sei lá o quê... mas são difíceis esses momentos. Lembro de um período em que atendí a conta da Aracruz Celulose, na Salles. Olha, era um clientezinho difícil. Até porque na época, muito vulnerável por críticas ao desmatamento, eles tinham medo de tudo. Quando pintava a campanha anual deles, dizer alguma coisa criativa era uma “parada”. E eu e o redator que trabalhava comigo, ficávamos tempos, quebrando a cabeça. De repente eu virava para ele e balbuciava: “Aracruz...”. Ele, após alguns momentos de silêncio, me entreolhava e respondia: “...Aracruz.” Era uma verdadeira “inconha”.

Às vezes o óbvio pode resolver muita coisa. Lembro de um filme premiado no Festival de Nova Iorque, que era sobre hambúrgueres. Simplesmente o personagem comia um sanduíche, quando o chão se abria e era tragado para sei lá aonde. E o locutor então entrava em off dizendo que o hambúrguer mais leve era o da lanchonete “Tal”. O óbvio me salvou “ene” vezes ao longo de minha trajetória profissional. A propósito, já até contei um caso neste blog *.

Mas têm momentos que a gente se lembra de coisas que são mais ou menos comuns num processo criativo. E um deles é aquele negócio de não estar a conseguir um caminho, de nada estar dando certo, a solução é dar uma virada. Colocar tudo de cabeça pra baixo, inverter, revolucionar. Há poucos dias estava assistindo um comercial na TV, e me lembrei disso. O filme é todo com pessoas de cabeça pra baixo. Fazendo piruetas, andando, correndo, pulando, mas sempre de ponta-cabeça. E me lembrei deste posicionamento. Pode até não ser, mas tenho quase certeza que em dado momento alguém resolveu virar tudo. Literal e obviamente.

(*) “O ‘caso’ do óbvio ululante” foi publicado em 1 de março de 2007.

18 comentários:

Anônimo disse...

Lembro do Caso do Óbvio Ululante, até porque acho interessante aquele livreto a que você se refere. Olivieri, você definiu muito bem este detalhe de virar as idéias de cabeça para baixo. Quantas vezes ouvi essa expressão em agências (apesar de nunca ter trabalhado em criação).
E o filme da Tim (creio ser ao que você se refere) é isso aí, tudo virado.
JR

Anônimo disse...

Muito bom aquele filme da Oi. Deve ser este que você fala, não?
Assisti e disse comigo mesmo: puxa vida o mundo está de cabeça pra baixo. Sempre disse pra você que vocês publicitários têm cadsa ideia do perú.
Tavinho

Jonga Olivieri disse...

JR, você acertou. Será que o cliente ficou marcado apenas para nós publicitários?
O Otávio, por exemplo (que é antes de mais nada um jogador de poquer inveterado e depois as outras coisas), acha que o comercial é da Oi. Êpa! Tem alguma coisa errada no recall da publicidade.

Anônimo disse...

Não sou publicitaria, mas vou pensar no caso.
De repente a gente está chateada com as coisas da vida, e tem mesmo que virar tudo de cabeça pros ares e mudar tudo. Tai, bom exemplo.
Maria Bonita

Jonga Olivieri disse...

É isso aí Mary. Dar uma virada é sempre importante.
Em qualquer circunstância da vida.
Agora, em criação publicitária é fundamental. A Young & Rubincan, por exemplo tem um lema que é: "Resist the usual".
Deve ser a meta de um criativo em qualquer momento.

Anônimo disse...

Estou cursando Comunicação na Estácio e gostei muito deste seu artigo sobre viradas de idéia.
Posso usar como base para um trabalho? Eu prometo que vou citar a fonte.
Aproveito e divulgo este seu blogue entre colegas, pois pelo que vi tem muita coisa que merece ser lida.
João Luís

Jonga Olivieri disse...

João Luis. Se todos neste mundo tivessem a sua honestidade, certamente ele seria bem melhor.
Claro que pode usar o texto como base.

Anônimo disse...

Aliás, bela atitude a deste João Luis, poucas vezes vi alguém pedir uma coisa assim dessa forma.
Mesmo alguém honesto poderia usar, citar a fonte e não precisaria de licença especial.
Parabéns João Luis. Parabéns mesmo.

Papadopoulos
(você sabe quem é)

Jonga Olivieri disse...

Claro que sei seu "grego fiadazunha". Há quanto tempo, sô.
Por onde anda? E a Regina?
Mande notícias e seu e-mail num comentário. Prometo que não vou publicar. É só para saber, pois não temos mais contato.
Abração

Jonga Olivieri disse...

Em tempo: gostei do Papadopoulos. Essa é muito boa. O Tin Tin que o diga...

Anônimo disse...

Engracado que voce sempre contou Causos (casos) da propaganda. Entao era o "Caso disso", o "Caso daquilo". Ultimamente voce mudou um pouco a formatacao do blog e tem contado casos sem estes titulos. Qual a razao?

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Caro "Anonymous" de Nova Iorque. Fico surpreso com a internet a cada dia que passa. Quer dizer, talvez nem o conheça, mas você me lê aí. Assim como tenho leitores (não anônimos) em Portugal, na França e na Inglaterra.
Quanto à questão por si levantada, a resposta é relativamente simples.
Quando iniciei este blog, tinha um livro escrito e registrado na Bibliotaca Nacional. Pretendia lança-lo. Desisti por não ter o menor saco de procurar editores e iniciar aquela "peregrinação" toda.
E todos os "casos" começavam com a palavra "caso". Mantive esse critério.
Agora resolvi mudar um pouco. Às vezes sinto-me preso em ter que incluir "caso" disso e "caso" daquilo em cada título.
É uma nova formatação. Não que não vão ter mais. Nada é obrigatório. Quando der eu incluo o "caso"..., mas quando não couber, crio outro título.
Acho que fui claro...

Anônimo disse...

Outro dia ia comenta r com você sobre essa mudança nso títulos de uns tempos para cá. Me esqueci, mas acho que sua resposta explica tudo.
Maria Bonita

Anônimo disse...

Obrigado pela explicacao.
Alias, uma coisa que voce precisa saber e que aqui em New York voce tem outros leitores brasileiros e publicitarios.
Eu que sou seu leitor desde 2007 quando ainda morava em Porto Alegre, estou gostando de ver um crescendo em seus posts.
Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Obrigado pela força, "Anonymous" from New York. Fico feliz de saber ter outros leitores brasileiros em Manhattan.
Sempre que quiser(em) participe(m). Será um prazer trocar figurinhas.

Anônimo disse...

Não cheguei a ver o filme do hamburger, mas li numa revista (se não me falha a memória a M&M) sobre ele, já alguns anos atrás.
Queria também observar que você foi muito claro e objetivo nesta matéria sobre criatividade.
Antônio José

redatozim disse...

Oliva, o João é meu aluno na Estácio. Quero até ver qual uso ele vai fazer do seu post risos

Jonga Olivieri disse...

Agora você está ensinando na Estácio? É a da rua do Bispo, a de Niterói ou a da Barra da Tijuca?
Gozação... mas na verdade o João Luis é aluno de uma amiga minha que dá aulas na Estácio há alguns anos.
Agora, claro que com um nome tão comum pode até ter um homônimo aí em Beagá.