sexta-feira, abril 25, 2008

Teatro Recreio

A L&M era uma agência divertida. Disso já falei tanto, que às vezes fico até com receio de estar sendo repetitivo. Mas vou continuar a dizê-lo, porque poucas vezes trabalhei em uma agência que fosse tão gostosa, solta e maluca como ela. A gente trabalhava demais da conta, mas, em compensação se divertia o tempo inteiro. Aliás, característica das agências de publicidade da época – opostamente às de hoje – , quanto mais trabalho, quanto mais pressão, mais gozação, mais brincadeiras.

Lembro-me das entradas barulhentas do Ramalho, que quando chegava era recebido como numa festa. Risos, piadas, planos mirabolantes para deixar “a próxima vítima” numa saia-justa faziam parte do dia a dia naquela saudosa casa. Eu já contei aqui o “caso” do Porta Press, das armações em cima do Kirowsky, das noitadas intermináveis em uma “agência 24 horas”. O espírito sarcástico e bem humorado do Lindoval, o “pavio curto” do Santos Mello, a hipocondria do Mauro Matos. A questão é que não havia um dia sequer em que não acontecesse alguma coisa de muito engraçado naquela agência.

Paralelamente foi a agência do Rio de Janeiro em que mais ganhei prêmios. Aliás, a L&M era uma fábrica de prêmios. As paredes da sala de reuniões eram repletas de diplomas e as estantes cheias de estatuetas. Do Clio, do Colunistas do Festival de Veneza (Cannes foi posterior). Meus dois Clios foram conquistados lá. O Mauro Matos e sua criatividade arrebatadora fizeram da L&M a agência carioca mais premiada do mercado. Era um motivo de orgulho para qualquer um de nós fazer parte daquela equipe vencedora.

Mas a bagunça começava no elevador. Instalada no 16º andar de um prédio na rua México, a fila do ascensor era parada obrigatória para todos nós. E ali havia o Tião, um ascensorista engraçado, um gozador de mão cheia. Olhava para nós esperando a piada. E tinha uma sempre engatilhada para fazer. O Tião é uma figura da qual nunca me esqueço. Seu bom humor permanente fazia parte do folclore do prédio. Aliás, ele tinha uma muito oportuna. Quando chegava no andar da L&M e a porta se abria, ele anunciava: “Teatro Recreio!” (1)... e dava uma risadinha.

(1) O Teatro Recreio era uma casa de espetáculos que ficava no centro do Rio especializada em teatro de revista “B”, em outras palavras, peças com forte dose de humor xulo...

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Há um novo link aí ao lado. Trata-se do "Contos da loucura ordinária" de André Setaro. Vale a pena conferir.

22 comentários:

Anônimo disse...

Esses casos da L & M são realmente muito bons. Por mim, pode continuar contando que eu não enjôo não.
Otávio

Jonga Olivieri disse...

Mas sem dúvida que sempre que me lembre estarei contando algum caso da L&M. Valem a pena...

Anônimo disse...

Mais um para a colecao de Casos memoraveis da L&M. Tambem acho que nao e repetitivo coisa nenhuma. Quando lembrar de outros, publique por favor.

Mas os melhores sao os do Victor Kirovisky. Isso porque o Victor era muito doidao.

O Caso da batida do carro do Capitao Furacao com o do Capitao Marvel e simplesmente memoravel e digno de estar na memoria da publicidade brasileira.

Anonymous
New York

Anônimo disse...

Aquela Rua México era um point da publicidade. A McCann foi no prédio da esquina. Tinha a L&M e o estúdio do Mello Menezes.
Isso tudo com a Livraria Ler - hoje Galáxia - no térreo e que naquele tempo era boa demais, dos Editores Zahar. Na esquina uma das melhores bancas da cidade.
Dobrando a esquina da Santa Luzia, a CIS, na época uma boa agência, apesar de ser house. E às quintas-feiras o melhor Picadinho da cidade.
Na Rio Branco do outro lado o Paisano e os bons cinemas que a Cinelândia ainda tinha. Bons tempos.
Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

E você esqueceu do estúdio da Odeon, que ficava bem em cima do Paisano.

jr disse...

L&M. Foi uma agência que marcou época. Desde os tempos de Pedrosa, do Pedro Galvão (neste houve algumas controvérsias), mas principalmente com o Mauro Matos, neste período que você trabalhou lá, a agencia foi a mais criativa do Rio, junto com a Genus Zero, lembra?

Jonga Olivieri disse...

Sim a L&M foi marcante no (e para o) mercado carioca, desde o seu anúncio de lançamento em que fazia uma alusão à famosa marca de cigarro (então importado). Pedrosa foi o seu autor e o responsável pela agência neste período.
Depois veio o Pedro Galvão.
Quando você fala que “há controvérsias” (lembrando a frase de Francisco Milani), eu me lembro que uma vez fui almoçar com o saudoso Toninho e ele disse não estar nada satisfeito com o paraense à frente da criação. Conheço o Pedro Galvão e o acho um grande profissional, mas, como nunca trabalhei com ele...
Vivenciei a L&M com o Mauro como diretor de criação, e acho que era simplesmente sensacional. O clima facilitava a criatividade, éramos uma equipe em busca do sucesso. E acho que o alcançamos! Graças ao brilhantismo e perseverança do Mauro.
A Genus Zero?! Como não lembrar da agência dos meus amigos Vilmar Rodrigues e Sergio Gianini? Trabalhei com eles e o Herman na MacCann.
Também foi uma agência criativa demais. E olha, digo mais... é páreo duro dizer quem era mais audaz. Foi um tempo de SGB, de MPM. E também de Artplan, Salles, Esquire... depois, Publicittá (Pedrosa again). E, por falar em Mauro Matos, Contemporânea.
Um mercado carioca que não se sabe onde foi parar.
Pelos deuses, o que sobrou de tudo aquilo???

Jonga Olivieri disse...

"Anonymous", foi uma falah não lhe haver respondido. Mas o Vic era, sem dúvida, a figura mais engraçada da L&M, o alvo da maioria das brincadeiras, a próxima (e eterna) vítima.
Lembro-me que, ainda na McCann, o Flávio Colin (um dos maiores gozadores que jamais conheci) o apelidara de Marquês de Sabugoza.
Agora, justiça seja feita, o Vic foi um dos grandes diretores de arte do Rio de Janeiro -- e à época isso equivalia dizer do Brasil --, um dos maiores professores que tive em minha trajetória profissional.
E também era dotado de uma veia humorística (apesar de estranha) muito forte. O caso da batida do carro com o "capitão Asa" (não o Furacão), contada neste blogue,´vale a pena ser lido.

Anônimo disse...

Já havia lido alguns causos da L&M nesta descoberta de seu blog. Gostei muito do da mão quebrada do Mozart dos Santos Mello. Idem quanto ao citado “Capitão Marvel” do Victor. O causo do Ney Azambuja com a lanterna brincando de táxi também é excelente. Essa do ascensorista é ótima. Teatro Recreio é um bom nome para agências de publicidade, principalmente naqueles tempos dourados da “maluquice beleza" reinante. E viva o Raul Seixas!
Frederico Barbosa

redatozim disse...

Oliva, guardadas as devidas proporções, a Livre era meio assim?

Jonga Olivieri disse...

Bons tempos mesmo: tudo "maluco beleza".

Jonga Olivieri disse...

Sim, Redatozim, a Livre era outra agência inesquecível pelo clima e o humor reinante.
Um paraíso, que além do mais ficava numa casa gostosa com direito a papagaio, cachorro e fogão de lenha.

Fábio Buddy disse...

E o melhor de tudo, Narciso nuna pisou lá. Também se o tivesse feito, seria sido no mínimo "menos melhor".
Fábio Buddy

Jonga Olivieri disse...

Que eu saiba... nunca mesmo. Nem como visita, eu suponho.

maria disse...

Acensorista é quase sempre uma figura engraçada. E que nem servente de café origem de piadas. Aquilo devia ser um jardim de infãncia cheio de criancinhas barbadas.

Jonga Olivieri disse...

Mesmo sem ser publicitária, você chegou na "Zezé, a mulher do café", uma personagem que tinha na revista "Propaganda" e que era muito engraçada.
De fato ali era uma mistura de Maternal com Manicômio. Na criação só tinha criança 'barbada e barbuda', porque naquele tempo o pessoal da área era todo conhecido como os "barbudinhos" da propaganda. 90% tinha barba, inclusive o Mauro Matos.

Anônimo disse...

Foi mesmo uma agência que passou pra e pela história da publicidade carioca.
Trabalharam na criação (olha, alguns já foram citados, mas faço questão de enumerar): Carlos Pedrosa, Antônio Celso, Nilton Ramalho, Edson Braga (sobrinho do Rubem), Victor Kirovisky, Pedro Galvão, Carlos Chagas, Arthur Denegri, Toninho Lima, Antônio Pacot, Claudinho Ortman, Ney Azambuja, Zil Ribas, Marcos Guedes, você. Se mês esqueci de alguém, desculpe.
Abelardo

Jonga Olivieri disse...

Caro Abelardo, gostei muito de "... uma agência que passou pra e pela história da publicidade carioca".
Isto soa muito bonito e verdadeiro.

leonardo disse...

A fama e respeito da L&M passou do Rio de Janeiro. Na época foi uma agência de projeção nacional. Até porque tinha contas nacionais como a Philip Morris. A sua campanha para os cigarros Hawaí daquela empresa era muito criativa eoportuna. Por outro lado, Shelton era o carro-chefe da empresa no Brasil.
Leonardo

Jonga Olivieri disse...

A campanha de "Havaí", toda em cima do seriado "Havaí Cinco Zero", um sucesso na TV de então. Usava a música/tema e sempre acabava com uma cena eletrizante... sensacional, (uma explosão, por exemplo). Coisas de Mauro Matos, o maior criativo que o Rio de Janeiro conheceu em todos os tempos.
Mas tem uma campanha do Mauro, que faço questão de aqui lembrar que foi a dos “Classificados de O Globo” em que ele usou o Telly Savallas no papel de Kojak, com o seu tradicional “pirulito” e cigarro “More” à boca e vendendo o produto (à época muito atrás dos classificados do JB). Mauro foi a uma produtora e passou (sei lá eu quanto tempo) a observar a expressão labial do ator para “dublar” chamadas para os classificados de O Globo. Do tipo: “ Neném, o negócio é anunciar nos Classificados etc...”. Neném, pra quem não sabe era a expressão usada pelo personagem quando falava com o seu assistente. Olha... foi uma das campanhas mais “do caralho”* que eu tive a oportunidade de acompanhar ‘step-by-step’ e ver exibidas.
Obrigado, Mauro Matos, por ter existido em minha vida!

Walter Siqueira disse...

Taí, um outro Causo da agência de que você fala muito e deve ter representado um tempo muito divertido em sua vida.

Jonga Olivieri disse...

Sim, a L&M representou um tempo muito divertido em minha vida, e na de todos os que´passaram por lá.
Agora, ralávamos muito...