sábado, maio 03, 2008

Usou, gamou

Antes de mais nada, é necessário que se saiba que houve um tempo em que se usavam fotoletras e fotocomposições* para se montar uma peça publicitária. Quem começou do final dos anos 90 para cá, não tem idéia do que era aquilo, mas foi uma época em que o nosso trabalho era todo realizado de forma artesanal. Havia, pra começo de conversa, a marcação de leiaute e no final de contas, a montagem (pasteup), a cola de borracha e muito, mas muita “ralação” mesmo.

Hoje, joga-se o texto no computador, não coube em corpo 14, reduz-se, amplia-se a fonte até chegar ao ponto que desejamos. Easy, boy! Naqueles tempos, a produção de um texto tinha que ser toda calculada nos catálogos. Tanto nos de fotoletras quanto nos de fotocomposição, o cálculo tinha que ser exato. Em caso de recortes de texto fazia-se um espelho em papel manteiga para determinar como o texto deveria correr. E geralmente este trabalho era realizado pelo produtor gráfico em parceria com o diretor de arte.

Em casos de frilas, a gente tinha que fazer o trabalho inteiro. Desde a marcação do leiaute (mancha), com as canetinhas e os marcadores, os pincéis e as tintas (guache, ecoline, nanquim) até à montagem final (o pasteup). A “mancha” tinha toda uma técnica especial. Eram necessários alguns anos de aprendizagem nas agências para se adquirir uma certa expertise na coisa. O conhecimento de desenho ajudava, e muito, numa boa realização do produto final. Eu mesmo, entrei para o ramo porque gostava de desenhar.

E por falar em produção gráfica, quando eu trabalhei em São Paulo tinha um fornecedor de fotoletras e fotocomposição que se chamava “Alfabeta”. E o seu slogan ficou para sempre gravado em minha memória: “Quem usa Alfabeta, gama”.

(*) A bem da verdade, eu comecei (nos anos 60) e ainda nem tínhamos fotoletra e fotocomposição. Na época, as letras eram desenhadas para os títulos. Na McCann, por exemplo, trabalhava conosco o Humberto (Tatu), um dos melhores letristas que conheci. A gente localizava uma fonte no “Advertising Age”, por exemplo, e ele a copiava. A fotocomposição à época era o linotipo ou ainda muitas vezes a velha composição de caixa, tal e qual Gutemberg havia criado. Pode parecer primitivo, mas era muito romântico...

18 comentários:

jr disse...

Essa "tchurma" nova precisa de algumas aulinhas mesmo. Afinal não conheceram essas coisas.

Jonga Olivieri disse...

Tenho tido alguns comentários de estudantes de comunicação, que realmente precisam ter um 'feedback' da profissão em outros tempos.

leonardo disse...

Exatamente uma boa iniciativa para quem não conheceu o que eram aqueles tempos, aliás, bons tempos da publicidade.
Leonardo

Jonga Olivieri disse...

Concordo. Tempos que deixaram saudades.

redatozim disse...

Eu peguei a fase de mudanças e, mesmo não sendo diretor de arte ou arte-finalista, tive experiências muito esquisitas com fototraços e afins.

Jonga Olivieri disse...

Gostei de "experiências muito esquisitas com fototraços e afins". Mas realmente era outro mundo, né?

Anônimo disse...

Bons tempos em que capacidade e aprendizado eram necessários.
Como você disse, eram precisos muitos meses, até anos para um D. A. se profissionalizar.
Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Havia um aprendizado mais especializado e demororado.
O computador facilitou o acesso ao trabalho. Por outro lado, barateou o custo final, facilitando a "mais-valia".
Os cursos de Comunicação a despejar centenas de formandos à cata (enlouquecida) de novas oportunidades foi um outro fator de vulgarização/sucateamento da mão-de-obra.
Lembro de um tempo em que os novos profissionais respitavam e admiravam os "veteranos", como Eric Nice, Victor Kirowsky, Domingos Logullo e tantos outros.
Nesta época o 'know-how' adquirido pela tarimba valorizava o nível do profissional.
Hoje, publicidade é uma profissão volátil. Das referidas centenas de novos profissonais, um percentual elavadíssimo perece em pouco tempo. Ficam aqueles cujos talentos não são própria e exclusivamente o "talento"...
Capito?

Anônimo disse...

Sem duvida um tempo heroico.

Quem nao viveu nao soube o que foi, e nunca sabera, pois e coisa do passado.

Anonymous
New York

Jonga Olivieri disse...

Não há a menor possibilidade, a não ser através da história, pois as emoções jamais poderão ser captadas por quem não as viveu.

Walter Siqueira disse...

Não faço idéia de como possa ser , mas deve ser muito diferente. Na verdade, porém o computador mudou todas as profissões,
Walter Siqueira

Jonga Olivieri disse...

Sem dúvida o computador facilitou, mas ajudou bastante ao neo-liberalismo e à exploração social.

Anônimo disse...

Este artigo é antes de mais nada uma aula de publicidade. Tenho vagado por este blog à cata de histórias que façam parte da memória deste segmento profissional, e confesso que tenho encontrado resultados.
Frederico Barbosa

Jonga Olivieri disse...

Obrigado Frederico.
Tenho me esforçado para resgatar na memória alguns "casos" que tenham marcado momentos e situações.

Fábio Buddy disse...

Grandes tempos da publicidade. Quem pode vivê-los não se esquece jamais, até porque era tudo mais romântico, mais engraçado, mais curtido, tudo mais.
Fábio Buddy

Jonga Olivieri disse...

Realmente, Fábio, são tempos inesquecíveis e difíceis de serem avaliados por quem não os viveu.

Anônimo disse...

Caro Jonga:
Não acredito que você se lembre quem eu sou mas a última vez que nossos caminhos se cruzaram foi quando trabalhamos juntos na então agência "da hora", a Doctor.
Comecei nesse mercado ainda estudante, lá pelos idos de 1978 (ai meu Deus, estou muiiito velha...)e sei perfeitamente bem como eram as fotoletas, as fotocomposições e como os diretores de arte tinham que calcular tudo direitinho para vir no corpo certo e caber no paste-up.Tudo com ajuda da proução gráfica! Não sei se eram tempos melhores ou piores mas, com certeza, eram muito mais glamurosos.
Bjs.
Anita Linetzky (diretamente de João Pessoa, Paraíba, onde a publicidade só não está mais atrasada porque já temos informática...)

Jonga Olivieri disse...

Sim, a publicidade mudou muito neste período. Mas... é sinal dos tempos e da tecnologia.
Mas que era bom, lá isso era.