domingo, novembro 09, 2008

O “caso” Tarrim

Mais um “caso” de Delano D’Ávila

O Luciano foi a pessoa mais surpreendente que conheci no meio da propaganda.
Pela sua figura poderia ter um monte de profissões. Trocador de ônibus, feirante, balconista de botequim, jogador de futebol em Feira de Santana, dentre muitas, muitas outras.
Digo isso sem nenhum preconceito racial, apenas com o natural preconceito estético, coisa que a gente sabe muito bem, em qualquer lugar do mundo é assim. Os bonitos, os brancos, os cultos e os informados levam vantagem. Nestes dois últimos quesitos então, o cara era simplesmente péssimo. Falava errado, rapidissimo, meio que gaguejando e a gente quase não entendia nada.
Perguntado sobre como iam as coisas ele respondia sempre sorridente e simpático algo perto do indecifrável, que quando traduzido finalmente para o nosso idioma significava “tá ruim”. O som era apenas parte disso: Tarrim. E assim ficou o seu apelido.
Luciano era fotógrafo e laboratorista da Salles, dos mais competentes artistas técnicos com quem já convivi. Produzia imagens sofisticadíssimas a partir de solicitações subjetivas, misteriosas ou complexas dos diretores de arte da equipe (eu inclusive), e o danadinho invariavelmente encaçapava todas. Tarrim era o chamado aborto da natureza.

Uma outra figuraça da época, que por uma questão de delicadeza vou omitir o nome, era o oposto do nosso herói. Sempre de nariz empinado, elegantérrimo, prepotente, perfumado, cultíssimo e bem falante, esse senhor era desprovido de massa capilar em talvez 80 por cento da sua privilegiada cabecinha. Ele mesmo, tentando disfarçar a complexidade dos próprios sentimentos, contava para nós, a elite criativa da agência, sobre a perícia que precisava utilizar para levar seus cabelos laterais mais crescidos, desde antes da orelha praticamente fio por fio, até estendê-los sobre o luzidio aeroporto de moscas com sucesso. Levava, segundo ele, uns bons 40 minutos só nisso de tornar-se lindíssimo antes de sair de casa.

A festa de fim-de-ano foi marcada numa boate em Copacabana ou Ipanema, não tenho certeza. A certeza é que era um lugar de prestígio, daqueles desejados pela classe intelectual do negócio. Estava na moda.
Encarregado de iluminar e fotografar o evento, Tarrim foi mais cedo para o lugar.
Desenrolando fios, posicionando luzes e câmeras, analisando melhores ângulos Sozinho no ambiente Tarrim foi também enchendo a moringa. Passadas algumas horas de providências e gorós nosso ídolo era só descontração. E bota descontração nisso. Foi aí que apareceu o dono da escultura encefálica. Para averiguar os procedimentos e checar tudinho detalhadamente deu de cara com Tarrim num canto do salão.

Luciano olhou pra ele, cumprimentou-o cerimoniosamente, mas não se conteve.
Massageou freneticamente o cocuruto do diretor ao mesmo tempo em que revelava este seu incontido prazer: “Faz muito tempo que eu esperava por uma chance dessas, seu diretorzinho metido a besta.”

Tarrim era bom mesmo. Não foi demitido.
O outro assumiu a calvície.

4 comentários:

jr disse...

Acho que conheci este sujeito.

Jonga Olivieri disse...

Se você andou pela Salles, com certeza.

redatozim disse...

Festa de fim de ano é perfeita pra esse tipo de coisa rs muito bom o caso

Jonga Olivieri disse...

Já que o Delano não responde, aqui vou eu que no final das contas sou o responsável pelo blogue.
Mas acho que 'festa de fim de ano' é boa pra essa e muitas outras coisas...