segunda-feira, dezembro 29, 2008

Epílogo

O nosso parceiro Fábio Veiled Buddy enviou uma carta que não posso deixar de publicar neste blogue, por explicar motivos que o levam a deixar de escrever os “casos escabrosos de Narciso Porpeta”.

Caro João Carlos (Jonga) Olivieri
Em vista de alguns acontecimentos em que pessoas praticamente identificaram a identidade de Narciso, achei por bem sustar a publicação dos Casos Escabrosos.
É natural que assim o seja, porque afinal de contas a figura ignóbil e asquerosa é facilmente localizada pois suas atitudes são facilmente identificáveis e poucos prejudicaram tanto a outros como ele.
Portanto, até segunda ordem, vou ficando por aqui. Quem sabe no futuro eu me anime a continuar.
Um forte abraço do
Fábio Buddy

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Espírito de Natal

O Ney Azambuja era um dupla curioso. Com ele faturei (ou melhor, faturamos) muitos prêmios. E com ele me diverti às pamparras. O Ney estava sempre a aprontar. E sua principal vítima era o Victor Kirowsky. Já até contei aqui que ele entupia os cachimbos do dito cujo com cola de borracha, e estava sempre a elaborar a próxima pegadinha para pegar o gringo.

Mas o Ney, quando chegava o fim do mês de novembro, virava pra mim e dizia com um ar sonolento: “Cara, baixou o espírito de Natal”. E daí em diante era um verdadeiro deusnosacuda. Os jobs se acumulavam na mesa. Os contatos ficavam doidos. “Cadê o Ney?”... “O prazo está estourado!”. E por aí adiante. Mas no final, entre mortos e feridos conseguíamos entregar tudo. A duras penas, claro!

Bom, é isso aí. Um bom Natal para todos. E não se esqueçam: o espírito natalino é muito importante. Aproveitem!

sábado, dezembro 20, 2008

O escritor e o capitalista

Conheci Antônio Torres na Salles em 1981, quando ele foi trabalhar naquela agência fazendo uma parceria com o inesquecível diretor de arte Joaquim Pêcego. Bem humorado, logo me apelidou de “capitalista” ao saber que, baiano como ele – que é de Junco (1) – eu era nascido na capital, Salvador. Isso virou uma marca registrada, pois toda vez que lhe telefono vou logo dizendo: “aqui é o seu capitalista”, palavras que me identificam de imediato.

Outra coisa que me surpreendeu foi um de seus primeiros comentários, em que afirmava que a melhor coisa que lhe aconteceu havia sido deixar de ser diretor de criação na Denison para ser redator naquela agência. Afinal, um redator é responsável pelos seus textos e pronto! Ademais, já escritor à época, precisava ter mais tempo para escrever seus livros, nem que na calada da noite.

Nosso convívio na Salles foi excelente. Mas, nossa grande aproximação deu-se anos depois, após a minha volta de Portugal. Torres trabalhava na Publinews, que ficava na rua Dona Mariana, e eu na VS, a poucos passos, na Guilhermina Guinle. Ambos fazendo regime, todas as semanas almoçávamos no restaurante Natural da 19 de Fevereiro. Foi um período agradável, repleto de papos longos e riquíssimos. Entre outras coisas, Antônio Torres também havia trabalhado em terras lusas,e, mais coincidentemente, na cidade do Porto.

Naquela ocasião, também acompanhei todo o desenvolvimento de “O cachorro e o lobo” (2), o livro que ele escrevia no momento. Era emocionante ir almoçar com o escritor e amigo e ouvir dele o passo-a-passo e as peripécias na feitura de um livro. Algo que me deixava fascinado, principalmente porque a simplicidade é uma de suas marcas registradas. Torres sempre contava tudo com muita naturalidade e entusiasmo, emoção e propriedade. Antes mesmo de conhece-lo, já havia lido “Carta ao Bispo”, “Adeus, velho” e “Um táxi para Viena d’Áustria”. Mas depois li mais alguns de seus livros, como “Um cão uivando para a lua”, “Essa terra” e “Balada da infância perdida”.

Durante muitos anos Torres escreveu uma coluna no caderno de livros e cultura do Jornal do Brasil, da qual, aliás, eu era seu leitor assíduo. Deixou a propaganda alguns anos depois para se dedicar apenas à literatura e palestras que realiza em todos os cantos sobre o ofício de escrever. Foi agraciado como “Chevalier des Arts et des Lettres”, pelo governo francês. E também fez parte de vários grupos de escritores e intelectuais em acontecimentos literários no exterior. Recentemente, foi indicado e concorreu a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Após sua saída da publicidade continuamos a nos encontrar quase que todas as semanas, para caminhar no calçadão de Copacabana. O habitual era andarmos até Ipanema e tomarmos um café no bar da livraria Letras & Expressões daquele bairro. Aliás, o seu nome batiza o bar da mesma livraria no Leblon. Ele merece...

(1) Junco, atualmente Sátiro Dias, é uma cidade de 20.000 habitantes próxima a Alagoinhas.

(2) Os outros livros de Antônio Torres são: Um cão uivando para a lua – 1972, Os homens dos pés redondos – 1973, Essa terra – 1976, Carta ao bispo – 1979, Adeus, velho – 1981, Balada da infância perdida – 1986, Um táxi para Viena d’Áustria – 1991, O centro das nossas desatenções – 1996, O cachorro e o lobo – 1997, O circo no Brasil – 1998, Meninos, eu conto – 1999, Meu querido canibal – 2000, O Nobre Sequestrador - 2003, Pelo Fundo da Agulha – 2006, Menu, o gato azul - 2007 (história para crianças), Sobre pessoas - 2007 (crônicas, perfis e memórias). Tem suas obras publicados na Argentina, em Cuba, e mais França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, Espanha e Portugal.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Minhas pinturas

Nos links aí ao lado tem mais um: “Pinturas/desenhos/Jonga”.

Se você quiser conhecer um pouco dos meus trabalhos neste segmento, entre no blogue.

Caso prefira é só clicar em http://pinturas-jonga.blogspot.com/

quarta-feira, dezembro 10, 2008

O “caso” do xingamento

Até certo ponto era um dia mais ou menos normal, naquilo que era uma agência sempre sujeita a chuvas e trovoadas (1). Mas o pior: chuvas e trovoadas que não têm nada a ver com o mundo da publicidade tal e qual o conhecemos, mas as tempestades provocadas por um dos mais patéticos empresários que se aventuraram no mundo da propaganda sem ter nada a ver com ela. É mais ou menos como esses donos de consultório dentário que nunca foram dentistas. Capito? Um sujeitinho prepotente e se achando o dono da verdade. A figura mais ridícula que conheci no meio, em meio aos meus mais de quarenta anos de janela.

Mas o pior é que o cara gostava de chegar ‘endoidecido’ pela manhã criando alguma quizumba com alguém. E o mais pior ainda, com alguém da minha área: criação ou estúdio. Sim, porque, pelo fato de ser o diretor de criação naquela agência, eu não somente era o responsável pela equipe, como assumia isto. O problema é que sendo diretor de criação não se tem como deixar passar alguma coisa batida. Ou fazer vista grossa e fingir que não viu... simplesmente você está no meio do fogo e ponto final.

Estava eu, envolto em minhas preocupações com prazos e outros detalhezinhos, quando toca o telefone e é, nada mais nada menos do que ele me chamando na sala dele com a voz meio que embargada. Quando a voz tinha este tom, eu já previa que vinha chumbo grosso. Ou seja, era algum caso criado, algum problema cultivado pela ‘figurinha’ rara. Bom, transpus a minha porta e encaminhei-me para o seu gabinete. Lá chegando, senti pelo olhar tresloucado que era realmente algo muito grave. A julgar pelas últimas investidas que culminaram nas mais novas atualizações da Inquisição, estava ali começando mais um capítulo.

- O Fabrício mandou a Cristina tomar no cu! Vomitou de uma só golfada no meu ouvido.

Fiquei a olhar para a figura sem entender muito o que se passara e perguntei:

- Quando? Como? Meio que estupefato, atordoado...

Resumo da ópera: havia tido um xingamento na noite anterior. No calor da noite, numa dessas viradas loucas de agência. Sim, porque aquilo, apesar dele querer negar todo o tempo, era uma agência de propaganda. E daquelas em que sempre o atendimento tem a razão. Tentei argumentar que tem vezes que a gente fala uma coisa da boca pra fora. Mas não, para ele só havia uma alternativa: o Fabrício tinha que pedir desculpas formais à garota.

Fui até minha sala e esperei o menino voltar. “Logo meu melhor finalista”, pensei amargamente, prevendo um triste fim para aquilo tudo. E não deu outra. Falei com o Fabrício que se negou terminantemente a tomar tal iniciativa. “Caramba, Olivieri – disse ele –, eu juro que não tinha a intenção de xingar com o fundo de minha alma... foi só um vá tomar banho com palavras mais duras”. Só sei que neste vai-e-vem, ele acabou sendo despedido no final daquele mesmo dia.

Mas o antecedente já estava aberto. “Já sei como vou sair desta agência”, deduzi naquele instante. E dito e feito. Em torno de um ano depois, mandei alto e bom som um contatinho de merda “tomar no cu”. A agência toda escutou. E eu, antes mesmo que me chamassem, entrei na sala do diretor de Pessoal e entreguei uma carta de demissão que já estava pronta, somente sem a data, que coloquei ali e à mão naquele instante. Xinguei e me mandei. Em caráter irrevogável!

(1) O “caso” do Frila http://jongaoliva.blogspot.com/2007/04/o-caso-do-frila.html é um outro caso passado nesta mesma agência e publicado em 24 de abril de 2007.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Noitadas na Lapa

Houve uma época em que gravar VT era sinônimo de virada. Falando sério, era um ‘pegapacapá’, uma disputa de horários e uma falta de disponibilidade dos mesmos. Para quem vive no mercado de hoje é até difícil de entender o porquê disso tudo, mas uma explicaçãozinha não faz mal a ninguém. Naquele tempo (1), a gente fazia este trabalho dentro das emissoras. Simples: somente elas possuiam o equipamento adequado. Produtoras até o tinham, mas eram deficientes.

Na época, também a gente fazia muito filme. As boas produções eram em película. Vídeos começaram como quebra-galho, coisa tocada, varejo de ofertas, lançamentos imobiliários de segundo tope pra baixo, etc, etc. Havia mesmo um puta dum preconceito com VT’s. E pra agravar a situação, as emissoras disponibilizavam seus equipamentos altas horas, ou seja, depois que acabavam todos os seus compromissos com a sua programação, entravam os publicitários. E geralmente isso começava lá pelas duas da matina. Sessão coruja, não é mesmo?

Fiz muitas gravações na TV Globo, na Pacheco Leão, Jardim Botânico. Mas depois veio o tempo da TVE (TV Educativa) ali na avenida Gomes Freire, coração da Lapa. Mas era uma fila danada... gente pra dedéu! O comum mesmo era sair dali quando o sol dava ensaiadas em seus primeiros raios matinais. E o pior é que a Lapa de então era o bas-fond, o submundo. Se fosse hoje, ainda dava pra dar uma circulada, mas então... o melhor era ficar intramuros, livre de certas figurinhas notórias da noite.

(1) Refiro-me às décadas de 1970 e 80.