sábado, dezembro 20, 2008

O escritor e o capitalista

Conheci Antônio Torres na Salles em 1981, quando ele foi trabalhar naquela agência fazendo uma parceria com o inesquecível diretor de arte Joaquim Pêcego. Bem humorado, logo me apelidou de “capitalista” ao saber que, baiano como ele – que é de Junco (1) – eu era nascido na capital, Salvador. Isso virou uma marca registrada, pois toda vez que lhe telefono vou logo dizendo: “aqui é o seu capitalista”, palavras que me identificam de imediato.

Outra coisa que me surpreendeu foi um de seus primeiros comentários, em que afirmava que a melhor coisa que lhe aconteceu havia sido deixar de ser diretor de criação na Denison para ser redator naquela agência. Afinal, um redator é responsável pelos seus textos e pronto! Ademais, já escritor à época, precisava ter mais tempo para escrever seus livros, nem que na calada da noite.

Nosso convívio na Salles foi excelente. Mas, nossa grande aproximação deu-se anos depois, após a minha volta de Portugal. Torres trabalhava na Publinews, que ficava na rua Dona Mariana, e eu na VS, a poucos passos, na Guilhermina Guinle. Ambos fazendo regime, todas as semanas almoçávamos no restaurante Natural da 19 de Fevereiro. Foi um período agradável, repleto de papos longos e riquíssimos. Entre outras coisas, Antônio Torres também havia trabalhado em terras lusas,e, mais coincidentemente, na cidade do Porto.

Naquela ocasião, também acompanhei todo o desenvolvimento de “O cachorro e o lobo” (2), o livro que ele escrevia no momento. Era emocionante ir almoçar com o escritor e amigo e ouvir dele o passo-a-passo e as peripécias na feitura de um livro. Algo que me deixava fascinado, principalmente porque a simplicidade é uma de suas marcas registradas. Torres sempre contava tudo com muita naturalidade e entusiasmo, emoção e propriedade. Antes mesmo de conhece-lo, já havia lido “Carta ao Bispo”, “Adeus, velho” e “Um táxi para Viena d’Áustria”. Mas depois li mais alguns de seus livros, como “Um cão uivando para a lua”, “Essa terra” e “Balada da infância perdida”.

Durante muitos anos Torres escreveu uma coluna no caderno de livros e cultura do Jornal do Brasil, da qual, aliás, eu era seu leitor assíduo. Deixou a propaganda alguns anos depois para se dedicar apenas à literatura e palestras que realiza em todos os cantos sobre o ofício de escrever. Foi agraciado como “Chevalier des Arts et des Lettres”, pelo governo francês. E também fez parte de vários grupos de escritores e intelectuais em acontecimentos literários no exterior. Recentemente, foi indicado e concorreu a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Após sua saída da publicidade continuamos a nos encontrar quase que todas as semanas, para caminhar no calçadão de Copacabana. O habitual era andarmos até Ipanema e tomarmos um café no bar da livraria Letras & Expressões daquele bairro. Aliás, o seu nome batiza o bar da mesma livraria no Leblon. Ele merece...

(1) Junco, atualmente Sátiro Dias, é uma cidade de 20.000 habitantes próxima a Alagoinhas.

(2) Os outros livros de Antônio Torres são: Um cão uivando para a lua – 1972, Os homens dos pés redondos – 1973, Essa terra – 1976, Carta ao bispo – 1979, Adeus, velho – 1981, Balada da infância perdida – 1986, Um táxi para Viena d’Áustria – 1991, O centro das nossas desatenções – 1996, O cachorro e o lobo – 1997, O circo no Brasil – 1998, Meninos, eu conto – 1999, Meu querido canibal – 2000, O Nobre Sequestrador - 2003, Pelo Fundo da Agulha – 2006, Menu, o gato azul - 2007 (história para crianças), Sobre pessoas - 2007 (crônicas, perfis e memórias). Tem suas obras publicados na Argentina, em Cuba, e mais França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, Espanha e Portugal.

32 comentários:

Anônimo disse...

Antônio Torres está entre os grandes escritores brasileiros da atualidade.
Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Sem dúvida nenhuma. E para comprovar é só ler os seus livros.

amélia disse...

Achei muito interessante o que falou do António Torres. Pelo menos bate com a impressão que eu tinha dele quando fui a um lançamento de livro (não o dele) na Travessa e ele estava lá.

Anônimo disse...

Quem nao conhece o Antonio Torres? Acho que eh um dos profissionais mais queridos do Rio de Janeiro. Merece o sucesso que esta fazendo em literatura.

Anonymous
New York

Anônimo disse...

Seus livros estão fazendo cada vez mais sucesso.
Ernani

Jonga Olivieri disse...

Torres, para além de ser um grande escritor, como disse é de uma humildade como ser humano que é exemplar.

Jonga Olivieri disse...

Sim, amigos, o sucesso do Torres se reflete nas traduções de seus livros ao redor do mundo. E, claro, uma boa vendagem no Brasil.

jr disse...

Como eu já te disse antes:
Torres sempre foi muito respeitado no cenário da publicidade carioca. Mas, além disso se afirmou como um dos grandes escritores e intelectuais brasileiros de hoje.
Lembra?

Jonga Olivieri disse...

Claro que lembro!

redatozim disse...

Vergonha das vergonhas, nunca li o Torres.

Jonga Olivieri disse...

Mas ainda é tempo, Redatozim.
Pode começar pelos mais antigos como “Carta ao Bispo”, “Adeus, velho” ou mais novos como “Um táxi para Viena d’Áustria” e mesmo "O cachorro e o lobo".
Garanto que são todos muito bons e você não vai se arrepender.

Anônimo disse...

Graaaandeeee Antônio Torres.
Ernani

Anônimo disse...

Como j´a disse a você, vou procurar um livro dele pra ler. Fiquei curioso com o seu texto sobre ele.
Otávio

Jonga Olivieri disse...

É isso aí, graaande Antônio Torres. E quanto a voc~e, Tavim, procura logo, lê e me diz o que achou... e 'num' fica nessa lenga-lenga, pô!

leonardo disse...

É o Torres virou escritor internacional. Mas sempre foi um cara persistente.

Jonga Olivieri disse...

A sua meta era essa. E ele a alcançou de forma brilhante.

Armando Maynard disse...

Antônio Torres, um escritor famoso,mas sem pose, simples e humilde como deve ser um homem de sua sabedoria, muito querido na Bahia e no Brasil...É caro Jonga, que privilégio ter o Antônio Torres como amigo.Um 2009repleto de saúde e criatividade. Um abraço, Armando

Jonga Olivieri disse...

Caro Mainardi. Um privilégio mesmo. O Torres é uma das figuras que eu mais respeito e admiro, além de ser um amigo na simplicidade do dia-a-dia.

Obrigado pelos votos e um excelente 2009 procê também!

Julio Negri disse...

Você me estimulou a ler o autor. Baianos são grnades escritores, que o diga Jorge Amado e Adonias Filho.

Jonga Olivieri disse...

Você vai gostar porque o Antônio Torres é um grande escritor.

Celso disse...

jonga, o torres era meu chefe na Publinews. eu trabalhava como d.a. jr. lembro dele comentar o papo entre vcs. bons tempos aqueles de publicitários q não eram apenas publicitários e, até por isso mesmo, acabavam sendo bem mais interessantes que os de hj. abs, celso ( d.c. da publicis rio )

Jonga Olivieri disse...

Sim, Celso. Havia uma diversificação de papos e interesses muito mais interessante.
Os papos com o Torres, os papos com o Benício sobre pintura, desenho... putz.
Agora, o Torres se deu bem. felizmente. Vive da literatura e de palestras. Ele merece!
Eu, por meu turno ainda dependo de uns frilas daqui, outros dali, mas a gente vai levando...

Anônimo disse...

Querido Jonga -- Foi o Celso Batalha, brilhante diretor de arte com quem tive o prazer de trabalhar na Publinews, quem me avisou da sua emocionante matéria e dos comentários em seu blog. Acabo de ler tudo, e digo: Parem com isso, meninos, senão eu choro!
Aproveito para dizer-lhes que tenho uma página na Internet: www.antoniotorres.com.br
Um abraço agradecido para tod@s,
Antônio Torres

Aleilton Fonseca disse...

Antônio Torres é um dos mais importantes escritores de língua portuguea da atualidade. Ele é cada vez mais lido, reconhecido e estudado nas universidades. Merece todas as honras.

Aleilton Fonseca

Jonga Olivieri disse...

Bem vindo Antônio Torres.
O que foi dito a seu respeito é muito pouco do que você, a grande figura humna que é, representa.

Jonga Olivieri disse...

Concordo em gênero, número e grau, Aleilton.

Gerana Damulakis disse...

Antônio Torres é um orgulho para as letras baianas. Já li todos os seus livros e resenhei vários. Tenho a honra de ser sua fã e sua amiga. Um escritor de primeira e uma pessoa de primeira.

Jonga Olivieri disse...

Gemara, acho que o Torres é unanimidade entre os que o conhecem.
E você também é baiana. Como eu, da capital.
Tenho um primo que talvez você conheça aí. É o André Setaro, jornalista, professor e crítico de cinema.

Luiz Eudes disse...

Tote além de de ser um excelente escritor consegue ser melhor ainda como amigo. Generoso e simpático sempre.

Jonga Olivieri disse...

É isso aí...

Gerana disse...

Jonga: outro dia o Carlos Ribeiro me apresentou ao André Sentaro na Livraria Civilização Brasileira. Até então eu não o conhecia, mas tinha ouvido sobre ele, claro.

Jonga Olivieri disse...

Que bom que vocês se conhecem.
Li o seu currículo e conheço o do professor Setaro. Vocês são, sem dúvida, duas personalidades marcantes da intelectualidade baiana.