quinta-feira, dezembro 03, 2009

O "caso" da apresentação à japonesa (Republicação)

Este “caso” foi publicado pela primeira vez em setembro de 2006.

Aconteceu na Salles em São Paulo. Na época eu trabalhava na mesma agência aqui do Rio, mas o fato, de fato correu pelos quatro cantos, e todo o mundo ficou sabendo.

Foi numa apresentação para um prospect. Era um grupo nipônico. E havia um detalhe muito importante: os clientes não falavam bulhufas de português. Então, obviamente era necessária a presença de um intérprete. Um desses nisseis, que não faltam por aquelas bandas de Sampa.

Presente o alto comando da Salles. Naquela época, além do Mauro Salles, seu irmão Luis e o Domingos Logullo, este, diretor nacional de criação da agência.

A apresentação foi toda feita na base do falava alguém em português, e o tal do tradutor repassava tudo em japonês. E assim a campanha foi toda apresentada. E os japas ali, atentos a tudo.

No final, o tal grupo de orientais se retirou e fechou-se numa sala ao lado. Aquele suspense. Suor frio nas mãos, todos se entreolhando. Um puta dum clima de expectativa.

Ao final de alguns minutos – sabe-se lá quantos – os personagens saem da sala, a tal sala ao lado, caem de aplausos em frente à equipe da Salles e do intérprete. E retiram-se abruptamente.

Instantes de alegria e exaltação. Mauro, Domingos, Luis, todos vibrando com os aplausos, com o entusiasmo dos japas. De repente o intérprete toma a palavra e pede um aparte:

- Calma, gente, calma gente, né!?

O grupo, sem compreender exatamente o quê, encara o nissei. E ele continua:

- Não é bem o que vocês estão pensando... Né?

Todos, atônitos, continuam a encarar o intérprete que acrescenta:

- Na verdade, existe um velho hábito japonês que é o de aplaudir, por questão de respeito, aqueles que perdem, mas que pelo esforço e pelo empenho merecem solidariedade e muita consideração.

Ah, esses japoneses!

quarta-feira, novembro 25, 2009

Criativos através dos tempos

Nosso parceiro de blogue, Maurilo Andreas, publicou este texto de Marcelo Pires que fala sobre as mudanças do perfil do criativo publicitário ao longo das décadas desde a de 1960. Achei muito interessante e estou a republicar aqui.

Anos 60
Qual era o perfil do criador publicitário? Um cara talentoso que sonhava em ser poeta, artista plástico, ator – e que caía na propaganda porque precisava sobreviver. Uma pessoa que escrevia pensando nos seus amigos intelectualizados. Não pensava em agradar ao público. Pensava em inovar a linguagem. Ou seja, uma pessoa muitíssimo interessante e pouco envolvida com propaganda.

Anos 70
Quem virava criador publicitário? Um sujeito talentoso que até poderia ser poeta, artista plástico, ator – mas que escolhia propaganda porque gostava desse negócio. Uma pessoa que ensinou aos donos de agência que se escreve publicidade pensando no público, não no gosto pessoal do cliente. Era uma pessoa bem interessante e bem envolvida com a propaganda.

Anos 80
Quem virava criador publicitário? Um indivíduo com preconceito de ser poeta, artista plástico, ator. E que sonhava em ser publicitário. Vinte e quatro horas por dia. Uma pessoa que mostrou ao cliente que agradar ao público é o melhor jeito de agradar ao próprio cliente. Uma pessoa interessante e envolvida com propaganda.

Anos 90
Quem vira criador publicitário? Uma pessoa que não tem talento nem informação suficientes para ser poeta, artista plástico, ator. E que não sonha em ser apenas publicitário: sonha em virar empresário da propaganda, com fotos na Caras e notas na Joyce. Uma pessoa que não escreve pensando no público nem no cliente – escreve para os próprios publicitários. Uma pessoa pouco interessante e totalmente envolvida com propaganda.

Como foi escrito em 96, eu vou cometer a ousadia (ou a burrice) de completar (1) falando de como deveria ser o redator da primeira década do novo milênio, pode ser?

Anos 00
O redator não é mais offline ou online, não é tituleiro e nem pensa apenas em peças. Ele percebe que colaboração, envolvimento e relevância são palavras-chave para tudo o que faz e que anúncios não são um fim, mas uma parte de algo maior. Escrever é apenas um detalhe do seu ofício. Está conectado aos outros e aprende a cada dia que ouvir é o segredo de fazer melhor. É interessante? Sei lá. Mas está envolvido com algo muito maior do que simplesmente propaganda.

Resumidamente, e na minha opinião, é isso.

(1) O complemento é do Maurilo

segunda-feira, novembro 16, 2009

A foto da chapa

Acima, nós na foto (1) da chapa “Se Cria Rio”, em 1989, cujo presidente foi o Mauro Matos. Nesta gestão houve a publicação de um número verdadeiramente histórico do jornal do Clube (2) e as exibições de filmes marcantes da história do cinema realizados nas salas de exibição das agências do Rio organizadas pelo cinéfilo Henrique Meyer.

No ano seguinte – um pouco antes de terminar o nosso mandato –, me transferi para Portugal, devido a uma oferta irrecusável para assumir a direção de criação da Opal Publicidade na cidade do Porto.

(1) A foto era parte de um cartazete de divulgação da chapa espalhado pelas agências e bares frequentados por publicitários.

(2) Sobre este jornal republiquei uma matéria em 7/10/2009 (O “caso” do leão) e a sua capa na postagem seguinte.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Modelo por acaso



Foi na Salles, e corria o ano de 1980. Criamos uma campanha para Agrotex, uma graxa lubrificante especial para tratores agrícolas fabricada pela Texaco. Fizemos dois anúncios e os habituais materiais de ponto de venda, como lâminas, cartazetes e displays.
Aprovada a campanha, era tocar o “pau no burro”. E assim chegou o dia da produção das fotos. Tudo combinado, nós, quer dizer o fotógrafo, Peter Schneider da “Câmera 3”, eu, a equipe do fotógrafo e os dois modelos escolhidos a dedo numa seleção criteriosa de possíveis (e convincentes) “fazendeiros”. O encontro foi marcado em Santa Teresa, onde ficava o estúdio. E como teríamos que ir a uma fazenda em Posse, nos arredores de Petrópolis, o combinado era sair bem cedo.

Cheguei ao local pouco antes das seis da matina. Estacionei o carro bem na porta (ê tempo bão, quando isto ainda era possível) e subi as escadas para ver se estava tudo ok. Um dos modelos já havia chegado. O outro não. Ficamos a esperar, esperar e nada. Passados uns 15 minutos, o Peter já meio impaciente virou-se para mim e sugeriu que fossemos assim mesmo. Tínhamos que aproveitar uma boa luz pela manhã (antes das 10), as boas condições do tempo, etc., etc.
Eu retruquei que, afinal de contas eram dois anúncios e nós precisávamos fazer as duas fotos no mesmo dia. Pensei em adiar, mas... Não dava. O prazo de fotolitos e rotofilmes (1) para as revistas já estava em cima da bucha.

Daí o Peter teve uma idéia e sugeriu que eu fizesse a outra foto. “Mas, ieeeuuu?!” Perguntei-lhe entre espantado e surpreso. E ele respondeu com um sorriso a dizer que eu até tinha “pinta” de fazendeiro, que era só botar o chapéu, pois até a camisa xadrez e o bigode já ajudavam. Convencido pelas circunstâncias, dez minutos após, premidos pelo tempo, seguimos viagem.
Juro que fiquei temeroso do resultado, mas na hora “h”, tirei os óculos, enfiei o chapelão branco na cabeça, e, pela primeira vez na vida passei para o lado de lá da câmera, convencido de que tinha que fazer o papel de um fazendeirão. Bati a foto ao lado da lata do produto, com um trator desfocado ao fundo, tudo emoldurado pela linda vegetação da locação escolhida. Aliás, todos elogiaram muito, tanto a foto como o modelo... Modelo? Por acaso, mas pelo menos um sucesso... E ainda recebi o merecido cachê!

(1) Para a turma nova que circula pelas agências, naquele tempo era assim, não havia nada digitalizado, como hoje. O material tinha que ser feito de forma artesanal, retoques de pincel nas gráficas, e então seguia, via malote ou outro tipo de postagem... Por vezes, um “boy” pegava um avião e ia entregar o fotolito na Editora Abril ou outras mais longe... Dureza, sô!

quinta-feira, outubro 29, 2009

A paixão de Cristo segundo William Wyler


Quando fui incumbido de criar o cartaz, e consequentemente o anúncio, o outdoor e os etceteras da campanha da “Paixão de Cristo” em Nova Jerusalém para o ano de 1989, eu juro que a primeira coisa que me veio à cabeça foi partir do visual gráfico de Ben-Hur de William Wyler (1959). Aquela mesmo... A superprodução com Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawks, Martha Scott e outras estrelas de primeiro time, como Hugh Griffith.
Um filme que faturou 11 Oscars (1) de um total de 12 indicações em 1960. Fora os Globos de Ouro e várias premiações internacionais. E uma obra inserida no mesmo período histórico, tanto que o romance de Lew Wallace (cuja primeira publicação deu-se em 1880), aborda dois encontros do personagem com Cristo.

Chamei na VS o Nilton Ramalho – ao lado do Benício um dos grandes ilustradores do nosso mercado – e pedi a ele que se inspirasse no cartaz daquele filme, trinta anos após, cujo layout ainda tinha uma força extraordinária. Era uma “chupada” intencional. E antes de qualquer coisa a homenagem a um grande cartaz. Foi o que ele fez, naturalmente com uma característica pessoal muito moderna, seguindo a composição e os personagens que estavam marcados no meu rough original. Porem o mais fiel possível ao do filme. É só conferir aí em cima.
O cliente (Souza Cruz) elogiou muito a campanha, considerando-a, na época, uma das mais bonitas feitas para o evento, que a empresa já patrocinava há muitos anos.

Aliás, o DVD de Ben-Hur está à venda. Ou disponível nas locadoras. Quem não assistiu, deve assistir, pois é um filme do tempo em que se fazia cinema como o cinema deve ser feito, no seu timing real e não nesta loucura de “videoclipefilmes” que se veem por aí a destruir a gramática do cinema.

(1) Os 11 Oscars de Ben-Hur foram: melhor filme, melhor diretor (William Wyler), melhor direção de arte a cores, melhor ator principal (Charlton Heston), melhor ator coadjuvante (Hugh Griffith), melhor fotografia, melhor figurino a cores, melhores efeitos especiais, melhor montagem, melhor trilha sonora e melhor som.

domingo, outubro 25, 2009

O "caso" do erro de revisão (Republicação)


Como não tenho mais a prova deste anúncio, a reprodução dele aqui publicada foi escaneada a partir de uma xerox da xerox do jornal em que foi noticiada a sua premiação.
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Prometi para este mês a republicação de mais um “caso”. Este eu considero muito bom e que nos fez rir demais no dia em que aconteceu. Vai lá:

A Embratel era uma conta fantástica. A gente fez coisas memoráveis para ela nos tempos de L&M.

O meu primeiro prêmio no Clio, devo a um anúncio da Embratel. Na ocasião, o Carlinhos Chagas e eu estávamos começando na agência e nos passaram um job de classificados, destes que nenhuma das duplas mais antigas na casa queria fazer.

Nós pegamos o pedido e faturamos o prêmio. Era um anúncio que procurava técnicos em computação. Bom, nos idos de 1976, computação era realmente um bicho-de-sete-cabeças, uma coisa em que pouca gente trabalhava. Uma pequena aldeia mesmo. Daí, nós criamos um anúncio que era o seguinte: "OS, DOS, COBOL, TOTAL, ADABAS. Se você entendeu este anúncio até aqui, você é uma das 16 pessoas que estamos procurando". Aliás, o anúncio foi premiado não somente no Clio, como também na coluna do Jomar, do jornal O Globo, na Janela Publicitária, no Colunistas. Foi prêmio pra dedéu.

Mas, prêmio era uma característica na L&M, e na conta da Embratel em particular, a coisa era rotina.

Algum tempo depois, eu fazia dupla com o Ney Azambuja, e nos chegou o pedido de um anúncio para inauguração do DDI para a Alemanha. E o Neyzinho sacou um título excelente: "Meu mãe mora no Berlim. Eu gosta de falar com ela sempre". O texto era todo escrito assim também, quer dizer, como se fosse um alemão falando português. Hi-lá-rio!

Claro que no layout eu taquei lá o carão de uma alemãozão. Bom, o anúncio foi aprovado, produzido. Tem um detalhe engraçado: o modelo da foto não era uma alemão e sim um belga. Mas qualquer um juraria que o cara era um boche.

Bom, material produzido, tudo em cima, seguiu pra mídia.

Ai é que foi o grande acontecimento do referido anúncio. Alguém pegou o dito cujo e saiu gritando pela agência em alto e bom som que o anúncio tinha passado cheio de erros de revisão.

É mole?

terça-feira, outubro 20, 2009

Carta de um grande amigo

Postei com grande prazer a matéria sobre e do Saulo, pois o texto foi de sua autoria. O número de comentários foi muito grande. Daí ele enviou-me esta bela carta (eletrônica, of course) que eu transcrevo aqui, em que agradece a todos e fala de tempos que os novos não conheceram, pois vivem estes instantes de um capitalismo, bem mais selvagem do que o capitalismo sempre foi!

Meu amigão,
Agradecimentos.

Amigos, estou imensamente grato e emocionado, com o carinho e amizade de todos, tão confuso e abstracto, que ainda nem sei com que cores e agradeço a todos, mas a arte é a busca das coisas simples, feita com o coração, portanto simplesmente... obrigado.
Amigo, a gente sempre sente uma agoniada saudade daqueles bons tempos, passávamos o dia todo em camaradagem e confiança no trabalho, lembramos sempre de todos os amigos, dos almoços, quando fazíamos uma pausa e nos divertíamos com as brincadeiras dos colegas... dizem que este ambiente não existe mais... há pássaros e animais que entram em extinção, também a espiritualidade a camaradagem no trabalho estão entrando em extinção...

Amigão, obrigado, se achar bem poderia publicar o meu comentário.
Abraço grande.

domingo, outubro 18, 2009

Uma pausa para a poesia


O vídeo clipe acima foi criado e executado por minha irmã (veja seu blogue “A arte de viver” nos linques ao lado) e mostra a música “Andança”, de Paulinho Tapajós. Os dois foram colegas na Faculdade de Arquitetura da UFRJ, e, desde então são amigos. E é uma das mais bonitas de toda uma rica musicografia do autor.

Gostei tanto que estou a postá-lo aqui... Aliás, caso tenham interesse em conhecer mais trabalhos dela, além do blogue, acesse http://www.youtube.com/user/MariaCeliaOlivieri#p/c/u seu canal no YouTube.

Conheça todas as músicas de Paulinho Tapajós em:
http://www.paulinhotapajos.com.br/musicas2.php

quarta-feira, outubro 14, 2009

Mensagem a Tavinho

Recebi do parceiro Fernando Simões o “caso” a seguir. Referente a tempos em que trabalhamos juntos na Focus Propaganda.

Sempre que abro o meu e-mail e encontro algo novo que você enviou leio de imediato. Leio inclusive os comentários e um, em particular, chamou minha atenção porque classificava suas postagens como sendo do tipo “olha só quanta gente importante eu conheço”.

É provável que o amigo (Tavinho) se for publicitário, seja ainda um jovem com um brilhante futuro pela frente, futuro esse que lhe dará, a possibilidade de vir a conhecer, quem sabe, muito mais gente importante que você.
As agências de publicidade trabalham para empresas nacionais e internacionais poderosíssimas veiculando suas mensagens em meios de comunicação que custam verdadeiras fortunas e onde rola muito dinheiro e a presença de pessoas importantes é pura decorrência.

Na Focus onde eu e Jonga trabalhamos, era comum a presença de, por exemplo, Fernanda Montenegro e o marido, o saudoso Fernando Torres, Chico Anísio que usava em seu programa o “Volto logo. É VAPT-VUPT” – que surgiu numa brincadeira dentro da agência entre o Chico e o pessoal da Criação –, Sergio Chapelein, Roberto Moricone, Carlos Drumond de Andrade, Ziraldo, Redi, Volpi, Scliar (1). O pintor Manuel Costa com seu talento e maravilhosos quadros a óleo fez parte da equipe de criação da Focus. Para nós ele era o “Amapá” por ser esse seu estado natal.
Muitas das artistas que se tornaram famosas no cinema e na televisão, fizeram suas primeiras fotos como modelos com a nossa equipe.

Publicidade é isso. É riqueza. É beleza. É cor. É luz. É gente bonita. Criativa. É a atividade que comprova, a cada segundo a frase de Leonardo da Vinci. “Criação se resume a 10% de inspiração e 90 de transpiração”. E é, principalmente, competência! Em publicidade quem não a tem não se estabelece. Seja feliz Tavinho.

(1) A nota é minha, mas a Focus, agência de Alfredo Souto de Almeida (que foi ator em filme de Humberto Mauro), era, para além de publicitário, radialista, conhecendo em seu programa de cultura na Rádio Mec muitos dos mais expressivos escritores, pintores, autores, diretores, atores e outras personalidades da inteligentsia brasileira. No caso de Fernando/Fernanda, ele era padrinho da Fernanda Torres, tendo o casal tambem apadrinhado o seu filho Marcelo.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Os leões da VS chutavam o balde


Da esquerda para a direita. Em cima: Eu, Zé Gui, Marcos Silveira, Lula, Rodrigão, Ricardo Saint-Clair e Paulinho Costa. Abaixo: Bruno Prósperi, Silvinho Matos, André Nassar e Sergio de Paula, na foto de um anúncio que divulgava as conquistas da equipe criativa da V&S (1) em Cannes e demais premiações de 1996...
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Tem horas que dá vontade de chutar o balde, não é mesmo? Pois bem, na VS nós resolvemos isto da maneira mais simples. Simplesmente tínhamos um balde de plástico grande, que, de vez em quando alguém chutava. Com toda a raiva que pudesse.

O balde voava pra lá e para cá atingindo as divisórias, passando por cima dos Mac's, tirando fininho das cabeças. Mas a gente convivia muito bem com tudo aquilo por uma razão muito clara. Podia-se chutar o balde de verdade... Sinceramente, tempinho que dá saudade.

(1) Fundada VS Escala, a VS associou-se à Young & Rubicam (Y&R), acrescentando um “&” em sua logomarca, cuja tipologia também tornou-se igual à da multinacional.

sábado, outubro 03, 2009

Veja o quadro, leia o texto


O quadro, vendido na exposição mede 150 x 250 cm

Conheci Saulo Silveira na L&M, agência de publicidade em que trabalhei de 1976 a 1979. Cerca de vinte anos depois, quando morava em Portugal, nos encontramos novamente.
Além de ilustrador publicitário ele pintava desde os tempos de Brasil. Começou a expor e foi crescendo neste segmento. Como os negócios encolheram em publicidade, acabou optando mesmo pela pintura. Acima, reprodução de um quadro seu.
O texto a seguir foi escrito por ele para a exposição na Galeria Alberto Sarmento, publicado no seu blogue (link ao lado e no final da postagem) em 30 de outubro de 2007.

“Tive em tempos um espaçoso atelier em Copacabana, no Rio de Janeiro. Quando terminava de pintar, costumava colocar três telas grandes na parede, para analisá-las de todos os ângulos, confrontando-me com a minha pintura - eu na sala, eu nos quadros, num exercício dialético de auto-conhecimento, na rota de grandes descobertas.
Naquela época, eu tinha uma empregada doméstica chamada Eva, um pouco analfabeta, que gastava o tempo soletrando as palavras da Bíblia, enquanto ia preparando a comida mineira lá da roça, feijão tropeiro, canjiquinha, frango com quiabo, santa cozinheira de mão cheia do interior das Minas Gerais, o meu estado natal.
Depois de muito analisar as telas, eu chamava a Eva para dar a sua opinião de erudita e crítica de arte sobre aquela recente produção. Fazia-lhe duas perguntas, sempre as mesmas:
- Qual o quadro que você acha melhor? Qual o quadro de que você gosta
mais, que lembra a sua terra, dá saudade da família?
Na primeira pergunta, a Eva atrapalhava-se toda, olhava um quadro, o outro, o terceiro, com duas bolas nos olhos, assustada e confusa. Na segunda pergunta, ela iluminava-se com rapidez e ria feliz, indicando logo um dos quadros, num genuíno gesto de sinceridade.
A arte é o que nos emociona, faz brilhar os olhos, toca o coração. A arte não se explica, nem a minha nem a da Eva na cozinha.”

Veja mais quadros do Saulo em http://saulosilveira.blogspot.com/

quarta-feira, setembro 30, 2009

O “caso” do Barão (Republicação)

Para finalizar esta comemoração de aniversário com várias republicações (de agora em diante será uma por mês), vou postar este “caso” (1) de um dos redatores mais criativos e inteligentes que conheci. E, antes de mais nada, um bom copo.

Minas Gerais me abrigou por quatro anos (2). Foram anos em que, sem dúvida, fiz grandes amigos. Amigos como o Luis Márcio Vianna, o Sérgio Torres, o Roberto Quintas (Boca), a Lucinha Lobo, o Newton Silva, o Juninho, a Claudinha, o Cid, o Maurilo, a Katia Becho e tantos, mas tantos outros. Até hoje, quando volto por aquelas montanhas encantadas, tenho que reunir a moçada toda num almoço festivo, geralmente no Minas I, ou no Dona Lucinha (putz, a comida do Dona Lucinha!) para poder matar a saudade de todos eles ao mesmo tempo. Senão, não dá tempo.

Mas tem um redator que eu conhecí nas Gerais, uma figura inesquecível, marcante mesmo, que é o Jackson Drummond Zuim. Ou simplesmente Zuim, como é conhecido.

Zuim tem uma característica ímpar. É extremamente sincero. Claro, além de ser um dos melhores redatores que eu conheci, é tambem, como todo bom mineiro um senhor papo e um puta levantador de copos. Além disso, tem a particularidade de chamar todo mundo de barão. Você está num papo com ele, e ele vira pra você e diz: "ô barão, o negócio é o seguinte..." E vai por aí afora.

Quando fui eleito presidente do Clube de Criação de Minas, dividi a presidência com o Zuim. Criamos a "Zorra da Criação", que eram encontros nas agências, bancados por elas. Detalhe: toda agência mineira que se preze tem que ter uma boa cozinha, algumas com fogão de lenha, outras com churrasqueira ou coisa similar, e muito, muito chope.

As reuniões semanais da diretoria do Clube eram feitas nos bares da vida. Muitas vezes chegava em casa já amanhecendo. Por isso eram quase sempre feitas às sextas.

Mas tinha uma conta em Minas que era dose. Chamava-se Credireal. Porque era dose? Olha, era aquele banco estatal com cara de Ministério da Transilvânia. Tinha até sua "momenklatura" interna. Formalidade, cerimônia. Paúra mesmo. Quando você andava nos corredores sombrios sentia o peso da atmosfera reinante. Dava arrepios. A diretoria tinha uma idade limite: não aceitava membros com menos de 80 anos. E eu sei disso porque atendi a conta. Quando era diretor de criação na ASA tive que apresentar uma campanha lá. O negócio foi todo ensaiado na agência. Quem falava e quando. Mesmo assim eu tremia.

Agora, tem um caso do Zuim que realmente deve passar pra história da propaganda. Não só da mineira, em que ela já está devidamente registrada, mas de toda a nossa propaganda. Vale ressaltar aqui que este caso eu não presenciei, até porque ele aconteceu antes da minha chegada em Minas. Mas é fato corrente. Conversa nos bares.

Conta a lenda que Zuim foi certa vez apresentar junto com a equipe da agência uma campanha no Credireal. Ali, na mesa de reunião (daquelas longas que chegam a ter linha do horizonte) estava reunido todo o estafe da agência e a dita "momenklatura" do politbureau do banco. E, conversa vai, conversa vem, lá pras tantas o presidente do banco pede a palavra. Todos se viram para ele. O ancião começa a tecer comentários sobre a campanha. E a cair de pau, coisa que era, aliás, sempre comum por ali. E o Zuim, autor da ideia, quietinho no seu canto, caladinho, se mordendo. De repente, surge aquela cabeça que se projeta para a frente, levanta o dedo como que pedindo um aparte na sala de aula de uma escola inglesa. O presidente se cala. As atenções voltam-se para o Zuim, e ele pausadamente com seu vozeirão de baixo diz: "ô barão... isso aí não é bem o que você está pensando não, tá!"

Dá para imaginar o reboliço que foi. Bom. Quem conheceu o Credireal sabe. E, sem dúvida, foi uma atitude ousada e memorável dessa personalidade histórica que é o Jackson Drummond Zuim . O "barão".

(1) Publicado em agosto de 2006.

(2) Trabalhei em Minas nos períodos de 1985 a 1988 e 1999 a 2000. Este caso aconteceu no primeiro.

Nota ao pé da página: que eu saiba o Zuim não anda bem de saúde. Operou-se, está sem a sua famosa voz. Em suma, ontem ainda tentei saber notícias novas dele, mas não consegui. Espero que esteja a se recuperar, melhorar mesmo. São os meus votos mais sinceros.

terça-feira, setembro 29, 2009

O "caso" do disco (Republicação)

Até porque nesta semana o Ivan entrou como meu seguidor no twitter, eu achei que valia a pena republicar este “caso” escrito em 1999 e publicado neste blogue em 2 de outubro de 2006.

Foi numa daquelas tantas e incontáveis viradas dos tempos de L&M. Carlinhos Chagas e eu jantando no Paisano (restaurante de massas que já não existe mais), em plena Avenida Rio Branco. Aliás, muitas vezes íamos lá. Era um restaurante bom e barato.

Deviam ser umas nove e meia, mais ou menos. De repente, ao nosso lado, o Ivan Lins e o Mariozinho Rocha. A gente conhecia muito o Ivan por causa da Zurana, uma produtora de jingles que era dele com o Tavito e o Paulo Sérgio Vale. Um dia eu perguntei ao Tavito o porque de Zurana. E ele respondeu que a origem do nome era "um bando de zuretas a fim de grana".

Mas estavam os dois lá, e quando íamos sair, passando pela mesa deles, começamos a conversar. O assunto, claro, a esta altura era trabalho. Nós contando que estávamos numa virada doida, mas que o trabalho já estava alinhavado. Que, se de repente, a gente acabasse na manhã seguinte, tudo bem. Tínhamos adiantado bastante. Daí eles emendaram que também estavam numa virada, mas que era por causa do novo disco do Ivan. E ele, Ivan, se encontrava realmente entusiasmado com a história. O disco era uma guinada na carreira artística dele e por aí afora.

Convidaram a gente para ouvir o disco.

Seguinte: a Odeon, ou melhor o estúdio da Odeon, naquela ocasião era no prédio bem em cima do Paisano. Nós acabamos optando por subir e ouvir o disco, deixando definitivamente o restante que tínhamos da campanha para a manhã seguinte.

Quando chegamos lá em cima, o Ivan ainda confessou para nós, que fora a equipe artística e técnica envolvida com o disco, nós seríamos os primeiros a ouvir a referida obra. E foi realmente do cacete e muito emocionante a gente ter ouvido em primeiríssima mão todas as faixas de "Somos todos iguais esta noite".

Aliás, até hoje quando escuto alguma música daquele disco, lembro-me daquele dia. Parece que foi ontem.

domingo, setembro 27, 2009

O "caso" da modelo estreante (Republicação)

Mais um “caso” interessante. Este foi publicado em setembro de 2006, mas se refere a acontecimentos de dezembro de 1983.

Quando eu trabalhava na Provarejo (leia-se Grupo Mesbla), fui dirigir uma foto para a chamada Linha Branca.

Na verdade, o anúncio ‘Linha Branca’ era um página dupla veiculado todos os anos pelo Magazine Mesbla na primeira contra capa e na página ao lado da revista Veja. Uma senhora colocação. Também um senhor problema, porque a contra capa era impressa em processo diferente da primeira página, além do que em papéis também diferentes. Isso sempre dava uma diferença brutal nas cores, na textura. Detalhes de uma profissão cheia deles.

O anúncio tinha esta denominação porque era composto de várias modelos – quase sempre eram só mulheres – todas vestidas de branco. A veiculação era na última edição do ano da revista, e, portanto as modelos sugeriam um clima de passagem de ano.

O layout que eu apresentara e fora aprovado tinha umas seis modelos, todas com taça de champanhe na mão. As cores ficavam por conta de serpentinas e confetes caindo, compondo um ambiente, cujo fundo de um azulado mais escuro realçava a cor branca das roupas. Essas, o produto. A razão de ser do anúncio.

Cheguei mais cedo no estúdio, que era em Santa Teresa. E, com o fotógrafo, começamos a adiantar o cenário e outros detalhes, como luz, angulação etc. Além de acomodar a maquiadora, a produtora.

Sempre pensei o quanto as pessoas não sabem o trabalho que dá produzir uma foto, por mais simples que possa parecer.

Lá para as tantas, começaram a chegar as modelos. Conhecia algumas, como a Elzinha, que na época era casada com o filho do Clício Barroso, por acaso também Clício, e era então uma super badalada modelo. Havia outras que eu conhecia de fotos ou de catálogos de agências. Porém, algumas nem isso. Era gente nova mesmo.

Uma dessas me chamou uma atenção especial. Era linda. Devia ter uns vinte aninhos, se tanto. Um rostinho vivo. E um corpo que sai da frente. Estava mais para uma ilustração do Benício do que para algo real. Um sonho de menina. Além do mais, a roupa que ‘caiu’ para ela era extremamente sensual.

Durante os preparativos a gente vai conversando, descontraindo, trocando idéias. Normalmente o diretor de arte tem que passar para as modelos o que quer delas, o clima da foto, etc. E tentar deixá-las bem à vontade para poderem render o máximo na hora do clique.

Em determinado momento estava eu conversando com a tal lindézima criatura descrita acima. Perguntei o nome dela. Antes de qualquer coisa ela disse:

- Eu sou irmã da Ísis de Oliveira... Conhece?

Claro que eu conhecia. Naquela época, a Ísis era atriz badalada, e estava na crista da onda.

- Estou começando agora nesta profissão... Acrescentou timidamente, desviando o olhar para os lados. Ai, que coisa mais linda! E continuou:

- ... O meu nome é Luma.

Não sei se foi aquela a sua estréia como modelo, mas, tenho certeza de que foi uma das primeiras vezes que pousou.

terça-feira, setembro 22, 2009

O “caso” da estagiária (Republicação)

Agência grande tem alguns probleminhas. Um deles é a quantidade de estagiários que pintam. Vá lá, quando o dito cujo tem talento, é bom. Quando não tem, é um saco só de ficar imaginando que aquela figura vai ficar pelo menos uma semana na sua sala, e você terá que aturar; porque afinal de contas, geralmente são filhinhos de clientes importantes.

Na Salles era assim. Os mais de dois anos que passei naquela agência, posso contar nos dedos os dias em que ficamos sem um estagiário na sala. Havia aqueles que somavam. O Valois foi um exemplo. Ganhamos até um prêmio com um anúncio para a Souza Cruz. Posteriormente chegamos a formar uma dupla em outra agência.

A Bebel, sobrinha do Mauro Salles, foi outro exemplo de uma estagiária motivada. Tanto que anos depois, tive uma reunião na Mesbla Móveis e ela estava lá, como diretora de marketing.

Mas tinham as garotinhas vazias, que às vezes salvavam-se por serem pelo menos um colírio para os olhos. E pior, os garotinhos mimados, que nem isso eram.

Um dia surgiu a Beth. Uma graça de estagiária. Ao mesmo tempo, revelou-se logo excelente. Participativa, curiosa, produtiva. Tudo na medida certa, sabendo o seu lugar na engrenagem. Ficou uma semana conosco.

Lá pela metade de sua estadia, fiquei sabendo uma coisa sensacional. Ela era filha de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Isso mesmo: filha do Tom Jobim... Vê se pode !?

Num desses dias em que passou na nossa sala, a Beth foi almoçar conosco. Eu não aguentei, virei pra ela e disse:

- Olha Beth... Você está fazendo estágio com a gente... Tudo bem... Mas, na verdade eu vou lhe pedir uma coisa... Será que você se importa?

Fiz uma breve pausa, respirei fundo e continuei:

- Posso colocar isso no meu currículo?

sábado, setembro 19, 2009

Revivendo o "Almoço com as Estrelas"


Este anúncio foi criado pelo Sergio Torres e por mim, como convite para o “Almoço com as Estrelas” realizado em 1999.

A narrativa abaixo (com pequenos retoques) havia anteriormente sido publicada neste blogue em outubro de 2006.

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A coisa começou em 1985, quando toda sexta feira a turma da criação da ASA, e o Luis Márcio Vianna, o diretor de planejamento da agência, fazíamos um "rega bofe" daqueles. Saiamos na hora do almoço, escolhíamos um restaurante em Beagá, e lá íamos nós. Geralmente, voltávamos todos um pouquinho "altos" lá pelas três ou quatro da tarde, nem que isso implicasse em que trabalhássemos um pouquinho mais naqueles dias.

O programa, não só tornou-se um hábito, como também, pelo fato de Belo Horizonte ser uma cidade rica em bons restaurantes, transformou-se numa farra gastro-etílica. Somente para citar alguns, o Dona Lucinha, o Minas I e o Minas II (estes do clube do mesmo nome), o Alpino, o Chez Bastião, o saudoso Germânia, etc, etc.

Mas, o negócio é que a coisa foi se espalhando. No final de um certo tempo ia não somente a turma da ASA, como também da Livre, da Setembro, da DNA, da JMM e muitas outras agências. Tornou-se um encontro semanal de publicitários, um acontecimento. O mais notável é que eu deixei a direção de criação da ASA e assumi a da Livre mas a coisa continuou. Cada vez mais repleta de gente. Até optamos em definitivo pelo Minas I, porque era um restaurante grande, tinha um excelente buffet, e dava para juntar diversas e grandes mesas.

Nessa ocasião, a Gláucia, que havia sido tráfego na ASA, foi para o Jornal de Domingo, um semanário de Belo Horizonte, onde escrevia a coluna publicitária. Ela, então, batizou o encontro (com certa ironia) de “Almoço com as Estrelas”.

Saí de Belô e voltei para o Rio. Mas, acontece que quando ia lá, de férias ou a trabalho, a gente dava um jeito de se encontrar. Rapidamente o Luis Márcio, ou o Sérgio Torres acionavam a turma e lá estávamos nós. Desta feita em jantares.

Voltei para aquela cidade em 1999. Fizemos um primeiro (também um jantar), e foi gente pra dedéu. O Minas ficou repleto de publicitários. Pra mais de 40, com certeza. Já no ano seguinte foram apenas cinco pessoas: Luis Márcio Vianna, Tonico Mercador, Paulo Giordano, Hermínio Naddeo e eu. Pelo menos, bebemos todas, comemos bem pra cacete e nos divertimos. Até ver estrelas.

quinta-feira, setembro 17, 2009

O futuro já é

Da esquerda para a direita: PV (web), Joana Lopes (atendimento), Milla Rodrigues (direção de arte), Carol Carrinho (mídias digitais), Bruno Magalhães (web), Rodrigo Roussoulieres (vídeo-imagens), Flávio Campos (atendimento), Priscila Maia (produção)
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Estava eu na Adega Pérola onde fui tirar umas fotos para o blogue do professor Setaro (link ao lado), quando, ao tomar um chopinho, acabo escutando o papo da mesa à minha frente. Inevitável. Ainda mais porque começaram a tocar em assuntos que me pareciam familiares, do tipo agência, mídia, atendimento, etc.

Bom, meus ouvidos ficaram mais atentos. De repente me passou pela cabeça que aquela turma era de estudantes de comunicação, ou até de publicitários. A segunda hipótese venceu, apesar de todos serem muitos jovens. O que certamente não afastava a outra.

Após tirar as fotos do bar, falei com eles e me apresentei. Em instantes parecia que os conhecia há tempos. Tirei uma foto (1) que publico neste blogue e logo que cheguei em casa acessei o portal da agência em que trabalham (2) onde se encontram notícias, vídeos e uma revista chamada “Comunicação 360º”. Vale a pena conhecer.

Sai feliz daquele encontro. Pois certamente o que me entusiasma é olhar para o novo com olhos novos sabendo que o futuro chegou. Sempre se aprende um pouco mais com isso.

(1) Gente, desculpe se errei alguém, mas de ontem para cá...

(2) O acesso ao site é http://www.nosdacomunicacao.com/

segunda-feira, setembro 14, 2009

O “caso” da bruxa (Republicação)

Continuando a postar “casos” mais antigos, segue este que considero memorável. E é uma homenagem que faço a um dos maiores criativos e empresários de publicidade que conheci. Além de excelente pianista.

Quem me contou esta foi o saudoso Daniel de Freitas, um dos sócios da DNA, durante um jantar em Belo Horizonte, na última vez em que trabalhei naquela cidade entre abril de 1999 e setembro de 2000.

Estava ele uma noite, num bar, quando notou que seus charutos haviam acabado. Daniel que não passava sem um bom cubano, pegou o telefone, e ligou para a agência, que não estava muito longe. Atendeu o vigia. O Daniel pediu a ele que procurasse uma caixa de charutos que estava na gaveta de sua mesa, pegasse uns três ou quatro, e levasse para ele.

Continuou no papo, no uísque, e o tempo foi passando.

Após uma longa e “paciente” espera, voltou a ligar pro cara. Ele atendeu e o Daniel perguntou por que não havia chegado até aquele momento.

“Ih, Seu Daniel! Eu achei os seus charutos... eu peguei os seus charutos... eu desci com os seus charutos... mas acontece, que quando eu cheguei na rua... vinham duas bruxas andando na minha direção, e... eu... bom... eu voltei pra agência... e tô com medo até agora...” disse o zelador com a voz trêmula.

Era noite de Halloween.

terça-feira, setembro 08, 2009

Uma edição histórica... 20 anos depois

Clique na foto para ampliá-la
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Quando republiquei “O ‘caso’ do leão”, deu-me vontade de editar a foto de que falava na narrativa E foi o que fiz. Pois bem, daí em diante fui acometido de um irresistível impulso de publicar a capa daquele número, que é do Cristóvão, juntamente comigo, um dos editores gráficos.
Finalmente, resumir quem escreveu naquela edição que vale a pena lembrar, sem dúvida uma das mais completas que o CCRJ publicou nesses mais de 35 anos de existência.
Podemos começar pelo próprio Mauro Matos, na ocasião o presidente do Clube. Mas seguem (em ordem de publicação por página): Barbara Santusa, Henrique Meyer, Pauline Luise Milek, Antônio Torres, Lula Vireira, Lauro Escorel, Ulisses Tavares, Heloisa Daddario, Cândida Monteiro, Tutty Vasques, Eleonora V. Vorsky (leia-se Alexandre Machado), Adilson Xavier, Fábio Fernandes, Hayle Gadelha, Lucia Rito, Helena Lopes, Wanderley Dóro, Karin Sá Rego, João Bosco, Pamela Jean Croitorou, Toninho Lima, Arnaldo Rozencwaig, Carlos Chagas, Carlos Pedrosa, Cláudio Sendin, Fábio Siqueira, Gustavo Bastos, Paulo Brandão, Ronaldo Conde e Maria Célia Salgado.

segunda-feira, setembro 07, 2009

O “caso” do leão (Republicação)


Página (está virada) que reuniu o pessoal que foi a Cannes em 1989,
e que trouxe apenas um Leão, criação de Eduardo Martins
e Karin Sá Rego (o penúltimo e a última da esquerda para a direita)
Clique na foto para ampliá-la
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Resolvi continuar a republicação de alguns “casos” mais antigos deste blogue neste mês – a comemorar seu aniversário – com este, escrito em abril de 1997, e publicado no Blue Bus (no mesmo ano), no Jornal do CCRJ em 1998 e aqui em agosto de 2006.

Foi quando a gente ia publicar o Jornal do Clube, lá pelos idos de 89. Mauro Mattos era o presidente. O Cristóvão e eu tínhamos peitado a parte gráfica, junto com a Maria Célia. Era um corre-corre danado. Reuniões de pauta. Reuniões para diagramação. Naquele tempo ainda não tinha Macintosh aqui pelas bandas do Rio. Toninho Lima, o Zé Gui, e tantos outros - se eu fosse citar um por um ia encher a página só com eles - todos envolvidos naquele desafio. “Vamos botar o jornal na rua. Ele tem que sair, ele tem que sair!” Bom, ele saiu. Aliás, pra quem não conheceu, um senhor número! Tamanhão tablóide, muita matéria, entrevistas polêmicas. E um trabalho do cão... ou do leão.

Um belo dia, me liga o Henrique Meyer. “Jonga. Pra fechar o jornal... tá quase tudo pronto... só falta fazer uma foto com o pessoal que foi a Cannes.” Resumindo, a foto ia ser no Hamdam na noite daquele mesmo dia.

Lá pelas oito eu cheguei no estúdio do Hamdam. Aquela animação. “O jornal tá quase pronto, - era o comentário geral - vamos ver se na semana que vem a gente está estourando com ele nas agências.” Um puta dum clima.

Começou a chegar o pessoal pra foto. Era a turma carioca que tinha ido a Cannes. Eduardo Martins, João Bosco, Fábio Fernandes. No meio, como figuração, a Luciana Vendramini. De repente o Henrique solta aquela: “Tá faltando o convidado mais importante da foto.” Quem será o convidado mais importante? Pensei eu com meus botões. Mas, papo vai, papo vem a gente esqueceu isso. Comecei a conjecturar com o Hamdam, qual seria a melhor maneira para fazer o Anuário do Clube. Como viabilizar essa tarefa hercúlea e até então inédita. Foi um papo longo.

De repente o Henrique anuncia com um sorriso de um lado ao outro do rosto que o convidado mais importante acabara de chegar. Olhei na direção da porta e eis que vejo surgir um leão. Mas olha gentem, não era aquele leão brocha dos comerciais do Imposto de renda não! Não era aquele leão velho, pulguento, sonolento que a gente estava acostumado a ver por aí. Era um leão de verdade, em carne, osso e mandíbulas. Um leão jovem, cheio de tesão e babante. Olhar fixo, persistente. Um leão de arrepiar.

- Não se apavorem. Tudo bem - disse o Henrique firmemente - o leão tem um domador ao seu lado. Ele é obediente. Fiquem calmos.

A essa altura, sentia minhas pernas bambearem e pensava o que eu, que tinha medo de cachorro estava fazendo por aquelas bandas. É a mesma sensação de quando a gente está subindo na montanha russa, antes daquela primeira queda brusca.

Fiquei atrás do bar. Pelo menos tinha a ilusão de que ali havia uma parede divisória entre mim e aquela fera assassina. E olha que ela, a fera, no seu instinto realmente selvagem chegou a morder a calça de couro da Lúcia Ritto, segundo o seu domador porque ela era de couro de animal africano ou coisa que o valha. Fato que não aconteceu com a Karin que estava com uma de couro artificial.

- E quando começarem os flashes? Fiz esta pergunta ao Hamdam num determinado momento de lucidez. Meu medo era aquele bicho enlouquecer, desbundar numa overdose de luzes pipocantes.

No final da fita, entre mortos e feridos salvaram-se todos, suados, descabelados. Só respirei quando o leão finalmente cruzou a porta e eu ainda esperei um bom tempo pra colocar o pé no elevador e me mandar, para acabar uma história que, literalmente, foi dose pra leão.

Texto na legenda abaixo da foto: “Fotógrafo: Hamdam – Produção do leão: Hyran Guarino – Diretor de Arte: Jonga Olivieri – Criação: Henrique Meyer – Leão: Magno – Domador do Magno: Demétrio – Domadora do Demétrio: Tânia Mara Parra – Nariz de Porco – Adereço de cena: Luciana Vendramini”

terça-feira, setembro 01, 2009

O “caso” do Nelson Rodrigues (Republicação)

“Casos” da Propaganda está não ar desde agosto de 2006. Nada melhor para festejar todos estes anos com este texto, publicado originalmente no Jornal do Clube de Criação do Rio de Janeiro (CCRJ) em 1998 e que foi também o primeiro “caso” postado aqui, no dia 24/08/2006. Um bom momento para relembrá-lo.

A campanha de TV do Banco Nacional naquele ano de 1979 ficou inédita. Quer dizer, na verdade entrou no ar uma colcha de retalhos com cenas – nada inéditas, se bem que inesquecíveis – de filmes que marcaram época na história do banco. Até aí tudo bem. Afinal era uma campanha de aniversário e o que foi pro ar não deixou a gente envergonhado, não. Mas é que a campanha original, a que o Favilla e eu tinhamos bolado era simplesmente do caralho. Tinha depoimentos de pessoas que estiveram de alguma forma envolvidas com um banco que sempre apoiou a cultura, os esportes, etc. Entre elas João Saldanha, Grande Otelo e Nelson Rodrigues. E com um detalhe: a gente produziu parte da campanha em vídeo para mostrar ao cliente.

A gravação do Grande Otelo, por exemplo, foi tão emocionante que deixou gente chorando e arrepiada. Foi desses momentos inesquecíveis. A do Saldanha teve uma característica marcante que foi o seu cronômetro mental. A gente dizia fala aí 10 segundos e ele falava 10 segundos. Depois a gente pedia para ele falar 35 segundos e ele falava os 35 segundos. Cravados. Foi uma coisa fantástica.
Mas o melhor mesmo foi o dia em que nós fomos fazer o vídeo com o Nelson Rodrigues. Foi tudo marcado no apartamento dele lá no Leme. Chegamos pontualmente na hora marcada. Aquele clima de se estar na casa de um gênio era uma coisa emocionante. Entramos e lá estava o dito cujo sentadão numa poltrona, com aquela voz que ninguém igualou até hoje. Aquele falar compassado, aquele tom cavernoso. O pessoal da produtora montando toda a parafernália de som e luz. Um puta dum reboliço no ar.

De repente Nelson, o próprio, o dito cujo, himself, diz que queria ver o texto do comercial. E ele enfiou a cara no texto. Leu, releu, parou, olhou em todas as direções e perguntou: “De quem é esse texto?”. Favilla levantou-se e encaminhou-se à mesa da sala de jantar, onde o mestre estava sentado. Humildemente, tal qual fosse um aluno na sala de aula levantou o dedo e disse que era dele. Ele virou-se lentamente na sua direção e retrucou: “Esse texto tem um problema grave...”. – Todos gelaram, atônitos. – “...Nelson Rodrigues não é um dos maiores autores de teatro do Brasil... Nelson Rodrigues é o maior autor de teatro do Brasil!”. Finalizou, olhando em torno com ar desafiante. Foi um tal de conserta daqui, pigarreia dali, até que o silêncio instalou-se por alguns infindáveis segundos na sala.
O que se seguiu foi um tentar desfazer o que se tinha feito, um jogar panos quentes, uma sucessão de sorrisos amarelos, “não é nada disso” e por aí afora. E a gente vendo a hora do cara falar “não ga-ra-vo” no melhor estilo Alberto Roberto. O que afinal de contas e graças a deus, ou sei lá o quê, acabou não acontecendo. Uf!

Bom, a verdade é que o comercial foi gravado e ficou supimpa. Como aliás ficou toda aquela campanha que acabou não saindo. Well, as a matter of fact eu sei lá quantas campanhas do cacete a gente cria e não vão para o ar. Faz parte da vida da gente. A Y&R tem até uma premiação interna em Nova Iorque para esse tipo de trabalho. Mas a verdade é que dói quando eu me lembro desta inédita na minha vida. E na do Favilla, do Eugênio e sua produtora. Enfim... Coisas da propaganda.

terça-feira, agosto 25, 2009

Como morrem os PITs

Li e gostei tanto do texto a seguir no “Pastelzinho” de Maurilo Andreas (blogue de nosso primeiro parceiro), que pedi a ele para publicá-lo aqui.

Para quem não é publicitário, PIT é uma sigla que, em muitas agências, significa Pedido Interno de Trabalho. Resumindo, nada mais é do que um documento com todas as informações sobre a bagaça que você tem que fazer, como prazo, limitações, obrigatoriedades, etc.

Caso você também não saiba, PITs são criaturinhas frágeis que se assemelham muito a filhotinhos de tartarugas-marinhas. São depositados aos montes nas praias, a grande maioria morre e os poucos que sobrevivem passam por todo tipo de apuros.

A grande diferença entre os supracitados quelônios e os PITs são os predadores e o tipo de morte mais comum para cada um deles. E é justamente para você, que tem um pequeno biólogo (ou um pequeno publicitário) dentro de si, que o pastelzinho apresenta o famoso estudo científico "Como morrem os PITs".

1) Bebê Foca: esse PIT é um inocente. Nasce bonitinho, fofinho e já em seus primeiros momentos longe dos pais é recebido por caçadores sanguinários com paus, pregos e muita porrada na cabeça. Arrancam-lhe a pele e ele morre assim, irreconhecível. É das mortes mais cruéis que podem ocorrer a um PIT.

2) Envenenamento: essa morte acontece aos poucos, quase como se todo dia alguém colocasse mercúrio na sopa do PIT. No começo, ele nem parece doente, mas a cada novo começo ele parece mais fraco e abatido. Quando a gente percebe a gravidade da situação não há mais nada o que fazer, já está morto, o pobre.

3) Mal congênito: esse já nasceu sem chances de sobrevivência, coitadinho. As informações são contraditórias, o prazo é cancerígeno e a o organismo já está plenamente comprometido. Tentar mantê-lo vivo artificialmente só aumenta a dor de todos.

4) Rifle com mira telescópica: nesse caso a morte é rápida e indolor. Basta um tiro certeiro e tá lá um corpo estendido no chão.

5) Epidemia: às vezes basta um desequilíbrio ambiental no departamento de marketing do cliente para que um mal incontrolável e quase imperceptível se espalhe causando uma morte horrível e dolorosa para dezenas de PITs, dizimando quase que inteiramente a população.

6) Fadiga: certos PITs morrem de cansaço. São muitas indas e vindas, um fardo pesado de mudanças e observações inúteis, tudo na correria, tudo sem tempo de respirar. Não tem jeito, a criaturinha se esfalfa e kaput.

7) Mutilação: quase uma arte, esse procedimento (infelizmente) nem sempre resulta em morte. É aqui que o cliente exercita seu lado de cientista louco e enxerta órgãos onde eles não cabem , modifica funções de membros e retira estruturas vitais. É triste demais ver na rua esses verdadeiros monstros, deformados e sem nenhuma utilidade perceptível. Preferível a morte.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Complemento importante

Recebi de um "Anônimo" o comentário abaixo para o “caso” do mendigo, publicado neste blogue em 05/09/2006 (1).
Ao invés de publicá-lo apenas numa postagem antiga, e, por achar que tem algumas informações importantes sobre João Moacyr de Medeiros, uma das figuras mais folclóricas e marcantes da publicidade carioca (e brasileira), segue adiante...

“Não é nada disso, O mendigo chama-se Napoleão, vulgo Nóia e foi colega de turma do Medeiros na Escola Nacional de Direito.
Ficou maluco, abandonou a Universidade e vagava pelas ruas de Copacabana e do Centro.
Podia ser encontrado ouvido música clássica no edifício Piauí, onde fica a sede do PMDB no centro.”

(1) Para ler o caso completo clique no link abaixo:
http://jongaoliva.blogspot.com/2006/09/o-caso-do-mendigo.html

quarta-feira, agosto 12, 2009

Novo blogue

http://mcolivieri.blogspot.com/ é o link para o blogue de minha irmã Cecé, autora de clipes fantásticos, que vocês podem encontrar no YouTube procurando por Maria Célia Olivieri ou em sites como http://vbgaming.org/forum/yt.php?author=MariaCeliaOlivieri

Aproveitem!

sexta-feira, agosto 07, 2009

O “xis” do problema

Fernando Simões foi meu diretor de criação e colega de trabalho na Nova Proudon, em 1970, e posteriormente na Focus Propaganda (1). E é o mais novo parceiro neste blogue com o “caso” abaixo:

A Nova Proudon era uma agência pequena mas muito bem estruturada, contando com bons profissionais em todos os seus setores.
Mas, certa vez, a agência contratou uma recepcionista que em pouco tempo se mostrava um monumento ao despreparo profissional e cultural também.

Além disso a jovem, de nome Otília, era incansável em repetir sistemática e excessivamente que sua irmã namorava o cantor Vanderlei Cardoso (Ou era o Jerri Adriane ? Não me lembro agora).
Volta e meia lá vinha ela com o papo do namoro da irmã. Era um saco!

Profissionalmente não se podia confiar nela em coisa alguma. Trocava nomes, esquecia recados, passava ligações para setores que nada tinham a ver com o assunto das mesmas, levava uma eternidade para fazer as ligações requisitadas...enfim, era um desastre !

Até que, um belo dia, o telefone da recepção tocou. Otília atendeu.
Do outro lado da linha o Nilton Ramalho. E, a Otília ouviu o Nilton pedir que ela procurasse um número telefônico no seguinte enderêço: Praça Pio X , nº tal, sala tal.
Até aí, tudo bem, só que a Praça Pio X do Nilton não era a Praça Pio X da Otília como veremos logo a seguir.

Passado um bom tempo o Nilton liga para recepção e cobra da Otília o número pedido.

Otília, prontamente, respondeu:
"Nilton, eu não achei nenhuma Praça Pio 10, não."
"Eu achei aqui uma Praça Pio Xis.

Pasmem, senhores. Ela desconhecia completamente os algarismos romanos e para ela, a praça que o Nilton queria, era a Praça Pio 10.
A essa altura o Nilton, atônito e sem acreditar no que ouvia, perguntou:
"Você achou o que ?"
E a resposta veio firme e segura: "Achei uma Praça Pio Xis" (Será que esse "Xis" é com x ou com ch ?)

No milionésimo de segundo seguinte Nilton Ramalho, apoplético, esbravejou em altos brados:

"NÃO É PIO XIS, MINHA FILHA!

"É PIÓX".

VÊ SE APRENDE, VIU ? "É PIÓX !!!!!!"

Gente, devemos entender que para a Otília o século XX seria o século "Xis xis" e o Papa Bento XVI, certamente, seria o Papa Bento "Xis Vi" mas não existe Lei alguma obrigando o cidadão a conhecer os algarismos dos outros, existe? Então por que o Nilton Ramalho ficou tão nervoso? Cruzes!

O fato é que de qualquer maneira, no dia seguinte, a pobre Otília foi dispensada.
Sua substituta, felizmente, conhecia algarismos romanos. Que alívio!

(1) Ambas as agências teem vários “casos” publicados aqui...

terça-feira, julho 21, 2009

O “caso” da pizza

Este é engraçado, rapidinho e nunca me saiu da cabeça desde que foi contado.

Um redator que trabalhou comigo em uma agência – nos anos 80 – contou que tinha um tio que morava sozinho em São Paulo.
Quase toda noite o tal do tio passava por uma pizzaria praticamente em frente ao prédio onde morava e tomava um chopinho saboreando uma Margherita a palito.

O proprietário do tal estabelecimento estava a lançar um delivery, coisa ainda pouco conhecida naquele tempo. Talvez algumas farmácias fizessem este tipo de serviço, mas fora essas necessidades emergenciais, a entrega em casa era muito pouco utilizada.

Numa noite daquelas, o tio estava lá “drincando” com seu tira-gosto de pizza, quando o italianão virou-se para ele e disparou naquele português “macarrone”:
– Bambino, porque non encomêndare una pizza a la tua cassa? Nui entregamo la mercadoria quentínia!
O tio, sem entender a razão daquilo, já que morava tão perto, respondeu:
– Mas eu moro aqui em frente... Não há necessidade disso!
A questão era que para agravar a situação, ainda por cima ele não tinha telefone em casa.

Resumo da ópera: o sujeito encheu tanto o saco, que um belo dia ele começou a descer, ir até o orelhão mais próximo, fazer a encomenda e voltar correndo pra casa. Afinal, corria o risco que o entregador chegasse antes dele.

sábado, julho 11, 2009

Um artista inesquecível

Conheci o Flávio Colin (1) quando comecei meu estágio em publicidade – na McCann Erickson – no ano de1965.

Para além de ficar seu fã, um admirador (de carteirinha) do seu trabalho artístico, frequentei durante muito tempo a sua casa, sempre muito bem recebido pela Norma, sua simpática esposa. Na época, ambos morávamos em Botafogo e sua casa ficava a alguns quarteirões da minha.

Ia às noites de sexta-feira, e batia longos papos com ele, que considero um dos melhores contadores de “causos” que tive oportunidade de conhecer. Enquanto contava as suas ricas histórias, cheias de detalhes, ele ficava a desenhar seus projetos de HQ e frilas para agências de publicidade, e era comum eu sair de lá, já o sol nascendo, após muitas e muitas garrafas de cerveja.

Ficava escutando e admirando a sua grande imaginação e poder de descrever os acontecimentos com detalhes preciosos. E, claro, o seu primoroso trabalho artístico em seu estúdio montado num quarto no pátio de sua casa, em uma típica vila carioca. Era um local tão agradável que o tempo passava sem que se notasse. Ali, acompanhei o lançamento de “Vizunga” (2) passo a passo. E era emocionante ver a sua vibração com o personagem. Que, aliás, considero um dos melhores que tivemos aqui por terras tupiniquins.

Flávio faleceu aos 72 anos em 2002. Eu estava a fazer campanha política em Recife e soube de sua morte somente quando voltei para o Rio de Janeiro. O Brasil havia perdido um dos maiores quadrinistas de sua história (3). E eu um amigo inesquecível.

(1) Se quer saber mais sobre a vida e a obra do autor acesse este link:
http://www.bigorna.net/index.php?secao=biografias&id=1148261005

(2) Existem muitos textos sobre “Vizunga” na web, mas o link abaixo é muito esclarecedor:
http://www.universohq.com/quadrinhos/vizunga_intro.cfm

(3) Flávio Colin amava tanto o seu trabalho em HQ, tendo abandonou a publicidade, que lhe proporcionava muito mais dinheiro pelo seu ideal.

quinta-feira, julho 02, 2009

Eleições do barulho

O diretor de criação da ITP (1), Cleber Neves, resolveu candidatar-se às eleições do Clube de Criação do Rio de Janeiro. Na ocasião eu era diretor de arte na casa. Cleber era um profissional sério e competente e entrei numa época em que o Pirralho, o “P” de ITP, (também diretor de arte) estava a deixar a sociedade.

Um pequeno parênteses: havia um novo sócio chegando cujo sobrenome era Peralta. Eu brincava muito com eles, dizendo que aquilo não podia ser uma agência séria, pois tinha um pirralho saindo e um peralta entrando.

Nas raras horas vagas, entre uma criação e outra, Cleber conversava comigo sobre as eleições no Clube. Ele alegava que o CCRJ era dominado pelo Monserrat (2), que era necessária uma mudança, um novo pensamento, outras direções. Em parte eu até concordava. Apesar de sempre ressaltar que José Monserrat havia conseguido ganhos para os publicitários como a lei de nacionalização dos cartazes de cinema (3). Mas ele contrapunha que o Galvão, seu sucessor era dominado por ele, que o considerava um “ditador”, etc, etc...

O Cleber me convenceu em definitivo porque queria transformar o CCRJ num modelo mais aos moldes do bem sucedido Clube de São Paulo, que tinha sede própria e era rentável. Hoje vejo que aquilo, além de meio impossível, era ilusório. O nosso CCRJ era um clube mais politizado e consciente de seu papel político contra a ditadura.

Conversas daqui e dali, acabou que ele conseguiu reunir um grupo de profissionais da criação (inclusive eu) e formou uma chapa concorrente. Pela primeira vez no Clube haveria duas candidaturas. Criativamente, Cleber denominou a chapa de “Reclame”. Um perfeito duplo sentido entre a denominação inicial de anúncio e de reclamar.

Numa tremenda gozação, o outro grupo criou uma chapa cujo nome era “Vem cá meu bem” (4), chamou o Carlos Pedrosa, um dos profissionais mais queridos e competentes do mercado. Então começou a disputa, através de folhetos, cartazetes, e, claro, propaganda boca a boca nas agências e nos bares mais frequentados por publicitários.

No dia das eleições – ao notar que o Cleber estava um tanto quanto alterado –, conversei com ele antes de sair da agência no sentido de, principalmente manter a calma. O local foi a Churrascaria “Brazão da Torre” (no mesmo lugar onde hoje é o “Porcão” de Ipanema). Eu me lembro que bebi pra dedéu. Aliás, numa dessas todos entornaram de verdade.

Momento da votação. Voto secreto, apuração e uma espetacular vitória da “Vem cá meu bem”. O Cleber foi ficando vermelho, vermelho, vermelho e lá pras tantas explodiu, avançou para cima do Monserrat a querer agredi-lo. Foi um vexame... E, moral da história, como naquela época a oferta era bem maior do que a procura, um mês depois eu estava indo da ITP para a Sinal Propaganda, empresa criada para atender o Banco Nacional.

(1) A ITP (Iglesias, Trindade e Pirralho), uma agência de publicidade que não existe mais, que chegou a ter boas contas, como a Lan Chile entre outras, além de uma boa coleção de prêmios. Chegou a ser uma das mais premiadas do Rio.

(2) José Monserrat Filho, na ocasião diretor de criação da Caio, um dos mais premiados redatores do Rio de Janeiro, também passou por agências como Standard e Denison. Há alguns anos deixou a atividade publicitária, sendo desde então diretor da revista “Ciência Hoje” do Instituto do mesmo nome.

(3) Esta lei obrigava as multinacionais a criar cartazes para todo e qualquer filme a ser exibido no Brasil com artistas tupiniquins. Pena que foi esquecida com o passar do tempo, e o dedo dos honestíssimos congressistas deste pais, com todo o apoio dos militares no poder.

(4) Segundo soube depois o Monserrat e o Cleber tiveram algum tipo de desentendimento no início da gestão do primeiro e ficaram com a relação estremecida. Daí a originalidade e ironia do nome da chapa... e, claro, as "vias de fato" no final.

sexta-feira, junho 26, 2009

Antônio Torres na Casa do Saber

Reproduzo abaixo o texto que me foi encaminhado com o programa das oficinas literárias ministradas por Antônio Torres (1) na Casa do Saber do Rio de Janeiro (2), toda terça-feira às 19 horas no mês de julho. Caso tenha interesse, corra para se inscrever. O endereço e os telefones estão no final desta postagem:

“Desde Dom Quixote, cuja primeira parte data de 1605, o romance tornou-se um espaço entre a ficção e a biografia, e um território entre o real e a imaginação, sendo tudo isso ao mesmo tempo e nada disso, levando o leitor ao terreno da dúvida. O gênero cresceu na Inglaterra com a revolução industrial, no século 18, e chegou ao apogeu no século 19, pelo conjunto da obra de um elenco de gigantes (Tolstoi, Dostoievski, Dickens, Flaubert, Balzac, Sthendal, Eça de Queirós, Machado de Assis...) No século 20 teve sua estrutura virada pelo avesso, a partir das inovações formais e estilísticas introduzidas por James Joyce. Depois de todas as experimentações que sofreu daí em diante, e já com sua morte tantas vezes anunciada, afinal, qual o romance que se quer ler (ou escrever) hoje? Apenas uma velha e boa história bem contada? E mais: alguns segredos da criação de um romance, do título ao ponto final.

4 aulas

7 JUL – Breve introdução ao gênero, sua história, desenvolvimento e impasses na contemporaneidade. Títulos, inícios e finais de romances memoráveis. A criação de personagens, dos diálogos, e a relação tempo cronológico-tempo psicológico. O narrador. Leitura em voz alta pelos participantes de um capítulo exemplar de romance. Impressões sobre o texto lido. O romance que cada um gostaria de ter escrito. E o que tem na cabeça – ou na gaveta – e nunca teve coragem de contar.

14 JUL – A estratégia narrativa e a originalidade de Memórias póstumas de Brás Cubas, o romance dentro do romance, exemplo de obra literária do século 19 cujas inovações continuarão causando impacto pelos séculos afora. Leitura de alguns de seus capítulos. Exibição de trechos da adaptação do livro para o cinema, por André Klotzel. Confabulações em torno da construção e do texto machadiano, do Rio e da sociedade brasileira na visão ao mesmo tempo irônica e melancólica do autor.

21 JUL – Outro caso exemplar de estratégia narrativa. Este, do século 20: O Grande Gatsby, no qual Scott Fitzgerald atingiu a quintessência do seu sonho de arte e beleza. Está tudo lá: ritmo, cadência, e a comprovação de uma crença do autor de que “ação é personagem”. E, em vez da ironia machadiana, a prosa melódica da era do jazz; em vez do toque de melancolia por trás do riso de Brás Cubas, que se narra, o olhar de desencanto do narrador diante da misteriosa opulência de Gatsby, e, por extensão, das extravagâncias da sociedade norte-americana do primeiro pós-guerra, como se antevisse o desfecho trágico que deu no crack de 1929 e na depressão dos anos de 1930, de que hoje tanto se fala. Leitura em voz alta de trechos do pequeno grande romance de Scott Fitzgerald. Comentários.

28 JUL – Século 21: a desconstrução das formas canônicas, quando o romance prima pela incorporação de outros gêneros à sua estrutura, como o ensaio, a reportagem, a biografia etc., o que já vinha acontecendo no século anterior, mas agora parece dominar o cenário literário, sobretudo o brasileiro. Caso a ser analisado: O filho eterno, que ganhou praticamente todos os prêmios nacionais, levando o autor, Cristóvão Tezza, a ser distinguido com o Faz a diferença do jornal O Globo, este ano. Em foco: quando o real leva à invenção a atingir o status romanesco. Podem as vivências particulares resultar em histórias de interesse geral? O que faz a diferença entre a realidade e a ficção, ou mesmo entre um romance e outro? - considerando-se este outro o que desperta o interesse da crítica e do público. Comentários finais, envolvendo os participantes do curso.”

(1) Para quem não sabe quem é Antônio Torres (se é que haja), para além de ter exercido funções de Diretor de Criação e Redator em agências de publicidade no Rio e São Paulo, por exemplo: Salles, Denison, Lintas, é autor de livros como Um cão uivando para a lua, Os homens dos pés redondos, Essa terra, Carta ao bispo, Adeus, velho, Balada da infância perdida, Um táxi para Viena d’Áustria, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto, Meu querido canibal, O Nobre Sequestrador, Pelo Fundo da Agulha, Sobre pessoas, entre outros. Tem suas obras publicados na Argentina, além de França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel, Holanda, Espanha e Portugal. Foi agraciado como “Chevalier des Arts et des Lettres” pelo governo francês.

(2) A Casa do Saber fica na Avenida Epitácio Pessoa, 1.164 – Lagoa - Tel. (21) 2227-2237
e-mail: inforio@casadosaber.com.br
site: http://www.casadosaber.com.br/

domingo, junho 21, 2009

O “caso” do fotógrafo chorão

Trabalhava na DM9 em Salvador. Havia um excelente estúdio fotográfico na agência, no qual tirávamos fotos, revelávamos e com um fotógrafo safo dotado de um grande jogo de cintura ótimo para a “pauleira” da agência, e, principalmente a solução para as urgências.

Acontece que este fotógrafo também (e consequentemente) estava quase sempre atolado. Bom, na cidade havia outros profissionais competentes e sérios. E os usávamos quando a verba era maior ou quando o nosso não estava disponível para o trabalho no momento necessário.

Eu tinha que fotografar alguns automóveis na garagem de um cliente, uma revenda Volkswagen. E a foto tinha que ser no local porque deveria mostrar o seu grande tamanho. Não adiantava, portanto utilizar aquelas fotos cedidas pelos fabricantes, sempre de boa qualidade.

Pouco tempo antes, havia visto o portfolio de um fotógrafo estadunidense que muito me impressionou. Peguei o telefone e liguei pro cara. Marquei a foto, o dia e o horário para nos encontrarmos no endereço da garagem do cliente. O que aconteceu, com uma pontualidade britânica.

Realmente era uma área espetacular pelo seu tamanho. Eu havia marcado no layout uma foto em que havia um carro bem na frente e com uma grande angular, via-se o resto da área mostrando sua imensidão. Mas aí surgiram os problemas. O ianque começou a reclamar que fotos de automóvel não podiam ser feitas daquele jeito, que os reflexos incidindo sobre o veículo que estaria na frente seriam tétricos e yada yada yada (1).

Eu expliquei que sabia disto, que o ideal era usarmos um pano branco (no caso de enormes proporções) para evitar aqueles reflexos todos (2), mas o guy não cedia. No final de mais de 40 minutos de conversas e trocas de idéias, ele sentou-se no chão e pôs-se a chorar. Copiosamente.

Acabamos realizando a foto. E não ficou tão ruim. Afinal, o tal carro que estava em primeiro plano tinha alguns reflexos, mas juro que já vi coisas piores. Até porque a foto era uma das que estavam numa composição.

Nunca mais fiz nenhuma foto com o tal “gringo neurótico-depressivo”...

(1) Blá-blá-blá em inglês...

(2) É bom lembrar que não havia Photoshop naquela época. Retocar um slide era caríssimo e ficaria inviável.

segunda-feira, junho 01, 2009

Marcadores, etc

Quando eu comecei em publicidade havia coisas fantásticas a que dávamos muito valor naquela época. Era o caso de marcadores para leiaute. Na McCann tinha um estadunidense chamado Flo-Master. Era prateado e em formato de caneta mesmo. As pontas eram de espessuras diferentes e trocadas de acordo com a necessidade para cada ocasião ou propósito. E para se marcar, dava-se uma apertadinha contra outro papel e a tinta ficava mais intensa. Como era bom. E como soltava o traço.

Naqueles tempos, marcar um leiaute levava um bom tempo e requeria um grande aprendizado. Um diretor de arte investia alguns anos de aprendizado para se formar dentro das técnicas para marcação e de uma linguagem não tão simples, com toda uma série de macetes que identificavam uma boa apresentação. Começava com o rough (leia-se ráfe). Este devia passar com poucos traços tudo o que seria o leiaute final. Na maioria das vezes, marcava-se o ráfe e passava-se para o estúdio, onde vários profissionais aprimoravam com ilustrações e letras bem acabadas aquele esboço inicial. Mas, muitas vezes, um ráfe bem marcado podia ser levado ao cliente, dependendo da pressa na veiculação da peça ou da qualidade deste.

Por isso, tínhamos uma infinidade de marcadores. Muitas das vezes, nossos mesmo. Os importados eram os melhores e mais cobiçados. Quando os tínhamos, guardávamos a sete chaves em armários. Eles facilitavam e embelezavam o ráfe e às vezes um leiaute – que normalmente era marcado a guache ou ecoline – quando bem estruturados com marcadores eram dignos de apresentação. No momento em que acabavam e não os encontrávamos no mercado e não tinha quem os trouxesse dos Estados Unidos ou Europa, a solução era usar mesmo o pincel atômico ou o velho Pilot. Mas... era difícil se chegar a um bom resultado com este material mais simples.

Com o passar do tempo, no entanto começamos a desenvolver técnicas que valorizavam mesmo este material mais vulgar. Eu usava-os muito em papel manteiga, marcando pela frente e pelo verso. A transparência do papel ajudava a criar tons variados e o produto final ficava interessante, atraente e bem marcado. Detalhes que a gente ia aprimorando e desenvolvendo com a experiência e o passar dos anos.

Bem, hoje não existe mais nada disso. Senta-se na frente de um computador, aprende-se o manuseio de alguns softwares e estamos no ponto para desenvolver qualquer trabalho. Mas houve uma fase assim. Houve um tempo em que a perícia era necessária, em que o trabalho era artesanal e o seu aprendizado era uma conquista atrás da outra. E é importante que os profissionais mais novos tenham um conhecimento desta época heróica da propaganda. Não tão longínqua assim, pois se voltássemos apenas uns quinze anos ainda nos encontraríamos nela. Parece que foi ontem!

segunda-feira, maio 11, 2009

Ana quase Dória

Delano D’Ávila, nosso parceiro mais presente manda mais um caso para salvar o mês. A verdade é que meu estoque de historinhas está se esgotando e a participação dos colaboradores pode ajudar bastante este blogue.

Não queria, mas fui. Fui deportado pra São Paulo. Aos vinte e poucos anos.

Chegara um pouquinho antes de mim um novo gerente na JMM de lá. Versátil, Sergio Dória acumulava funções de atendimento e redação. Acumulava também uma birita pesada desde as primeiras horas da manhã. Era no entanto muito culto, inteligente, divertido e quase sempre responsável pelos seus atos. Quase.

Muita coisa aconteceu neste período de ano e pouco na casa da Goitacás. Os tres meses de Hotel Lord na rua das Palmeiras em companhia de jogadores do clube do mesmo nome (parecia merchandising) compartilhando viagens de elevador com um Leão ainda jovem mas já muito vaidoso e arrogante. No restaurante antes do jantar sentir o valor de uma dosezinha de Saint Raphael e em segundos estalar uma idéia que perseguia havia meses.
As partidas de palavras cruzadas emocionantes com o Sergio Munhoz (aquela da femoral foi com ele).
O trambique das sardinhas Hello! quando recebi míseros 10% do combinado, tentei ligar várias vezes sem sucesso para a cidadezinha de Camboriú em Santa Catarina e relaxei e entubei confiando que o projeto havia sido abortado. Deparei tempos depois - já no Rio- com a gôndola do FreeWay lotada de latinhas em molho de tomate e em óleo comestível. Nesta hora senti vontade de atacar as prateleiras e quebrar tudo. Não quebrei. Iriam me ter como louco, me prenderiam e ainda pagaria pelo prejuízo maior que os 10%.
Foi tudo naquele tempo. Mas foi bom. Ganhei experiência profissional, ganhei vivência.

O Sergio me contava todos os perrengues da uma vida conturbada e cada vez mais alcoólica. Numa segunda-feira pela manhã contou que em seu retorno de trem do Rio conheceu no (adivinha) vagão do bar um casal interessante. O noivo, um jovem descendente de árabes, rico, ela uma linda judia, olhos cintilantes muito azuis, cheia de vontade de viver e trabalhar na área de investimentos. Um livro sobre Economia de autoria de alguém de sobrenome Dória teria provocado Ana Storch a visitá-lo já na terça.
Papo daqui, papo de lá, o entendimento com a moça foi instantâneo. Então a coincidência do sobrenome teria sido um mero pretexto feminino ou o desespero de querer largar todo seu cotidiano e mudar a paisagem? Nunca se iria saber. O que sei e testemunhei é que em menos de 15 dias já moravam juntos num apezinho alugado, claro, pago pela agencia e pertinho da casa.
O ex-noivo apelou, contratacou com promessas de mundos e fundos, o céu, as estrelas, lua-de-mel no Canadá, traquilidade financeira, mas não houve jeito. Chifre consumado. Ana Storch trocou a figura e todos seus atributos por um outro duro, bebum, envelhecido, cheio de problemas, mas pelo menos divertido. Quem sabe o Sergio tinha mais talento e jeito para escutar as diferenças dela com o pai, judeu ortodoxo e ditador de um monte de posturas sociais e modus vivendi. Coisa que ela odiava, não escondia. Cuspia fogo e palavrões em série.
Aconteceu então um triângulo de companheirismo. Cada um com seus problemas, diariamente, eu que morava sozinho me juntava a eles para papear. Ora em jantares por conta de clientes fictícios falando de vida e trabalho, trabalho este que Ana, curiosa, curtia saber e palpitar, ora jogar conversa fora no tal apezinho. Nos intervalos a moça de 24 anos deixava escapar os fortes traumas da relação com o pai. Eu só ouvia calado e apreensivo. Já o Sergio ironizava, chamando de fogo de palha, assim menosprezando a ira de Ana sem admitir que ela levasse adiante declarações tão assustadoras.

A cada manhã eu perguntava a ele se já havia rolado o acasalamento carnal, o que ele levemente encabulado negava e tampouco explicava. Coisa mais estranha aquela. Os tempos no quesito virgindade já haviam evoluído e a esquisitice se acentuava por conta do tempo de convivência entre quatro paredes: três meses!
Mas foi assim até o quarto mês quando a água mole furou a pedra dura. Festejamos algo que só fui saber dias depois quando Sergio me contou com o canto da boca. Estava feliz.

As discussões de Ana com o pai pioraram. Ameaças de parte a parte, sei lá quais. Ao mesmo tempo minha noiva pressionava para que eu voltasse, caso contrário iria partir pra gandaia, enjoada que estava de recusar convites para festas e afins na minha ausência. Preparei um belo portfolio misturando tudo. De peças fantasmas a ilustrações fictícias. E colou.
Minha pasta foi parar na Salles e o convite pra voltar pro Rio rapidíssimo. Começaria já na segunda-feira seguinte, cinco dias de quando recebi a notícia. Sergio que era parceirão nem pestanejou, entendeu e decretou que fazia questão de matar dois coelhos: passar no Rio o fim-de-semana e me levar de volta, no seu fusquinha mostarda. Quase matou dois humanos.

Foram cinco as paradas na viagem. Cada uma premiada com doses variáveis de Dreher, ou seja, chegamos vivos por mero acaso. Com uma mãozinha na consciência, Sergio Doria iria se sentir um assassino e, tanto eu como Ana, suicidas requintados. Acertei em parte. Errei a data.

Das nove de segunda às quatro e meia de sexta estava tudo normal quando pintou uma ligação de São Paulo. Era a Lia, mídia de lá. Estranhei. Teria deixado algo incompleto na criação? Mas se fosse isso não seria a Lia a me ligar, enfim... “Alô! É o Delano?” -Sim, sou eu. “O Sergio está indo para o Rio, só fala em você, quer que você faça companhia a ele amanhã, sábado. Vai se hospedar no Hotel Carlos Gomes, na Praça Serzedelo Correa.” -Ok, mas o que houve? perguntei já aflito. “A Ana se matou.”

Quase não dormi. Quando levantei, refleti, e pensei que fosse um pesadelo aquela história.
Combinei ir com Telma depois do almoço. E fomos.
Lá chegando deparamos com nosso figuraço em silhueta sentado em frente a uma mesinha redonda, contra a luz que entrava pela larga porta da varanda. Uma garrafa de líquido dourado brilhava na cena. Sergio nos recebeu em silêncio, me abraçou por mais de dois minutos e continuou calado até chorar convulsivamente. Aí por dez ou quinze. Só então começou a contar a tragédia.

Sentamos os três no sofá, eu e Telma recusamos o álcool oferecido. Nem água quisemos. A história sim precisávamos beber e então tentar ajudar o cara de alguma maneira.

Contou ele que desde a minha volta tudo corria igualzinho. Fim-de-semana no Hotel Gloria, volta pra SP regada a outros conhaques, e, de segunda a quinta nada diferente. Até as brigas com o pai iguaizinhas, tão repetitivas que ele nem prestava mais atenção. Bem, na sexta ele costumava levar marmita para almoçar com ela no quarto e sala do Pacaembu. Levava os especiais rangos da sexta, naquela o filé de peixe com molho de camarão feito pela Dona Lindaura, contratada como cozinheira da agencia. Naquele dia isso não foi exceção.

“Abri a porta, caminhei em diagonal em direção à sala assoviando as 7 notinhas costumeiras para avisar minha chegada. Sem resposta atravessei a cozinha em direção à varanda e assoviei de novo. Nada. Na varanda ninguém. Então girei nos calcanhares para retornar à sala e olhando em frente estremeci soltando a marmita.
A porta do banheiro aberta deixava ver quase por inteiro o corpo de Ana pendurado na torneira do hidrante.
Nervos à flor da pele nem fui ver de perto. Corri para a portaria e pedi para chamarem a polícia.”

No necrotério, Sergio ao encontrar com o pai de Ana –seu inimigo feroz- pela primeira vez, ao lado do corpo e recebendo no ombro a mão pesada do homem, ouviu dele a pergunta que sintetizava aquele drama em 3 segundos: “Viste a última que a Aninha me fez?”

Para completar a bizarrice dos fatos ao sair Sergio pediu a companhia da Lia e foram beber em algum boteco. Lá pelas tantas resolveram ir ao tal apartamento, cenário do terrível episódio. E não é que foram pra cama? Só soube disso alguns anos depois quando ele me convidou para um papo antes de se transferir para uma agência de Vitória.

Nelson Rodrigues e Plínio Marcos ficariam chocados com essa história que custei pra escrever e mais ainda pra mandar pro Jonga
Aconteceu em 82.
Sergio Doria faleceu de cirrose hepática em 86, antes dos 50.

segunda-feira, março 02, 2009

Que computadores!

Em 1984, eu trabalhava na Provarejo, agência, ou melhor house agency da Mesbla. Fui escalado para criar, e consequentemente produzir o Relatório Anual da empresa. Na hora da produção, muitas das fotos seriam realizadas na sede, no Passeio. O prédio, cujo relógio era uma das marcas da cidade existe até hoje, e é atualmente propriedade das Lojas Americanas. Mas, olha, quem conheceu a “velha” Mesbla quase não reconhece o lugar quando se depara com o que lá está.

A principal unidade da rede ocupava vários andares e não os dois que hoje as Americanas utilizam. No último tinha até um bom cinema. E, melhor ainda, um “senhor” restaurante com um belo visual sobre a Baía de Guanabara. Algo indescritível, simplesmente sensacional. Nos andares intermediários havia escritórios. E toda a diretoria estava ali. Uma das fotos mais trabalhosas foi, aliás, a do Board of Directors. Conseguir reunir todos eles numa mesa de reunião no momento de um clique foi uma tarefa que mobilizou vários produtores, muitas agendas e fez me arrepender de ter pensado na idéia. Separados teriam sido bem mais fáceis.

Fora isto, foram tiradas fotos da fachada à noite, pois o relógio aceso era lindo, valorizava e compunha um leiaute de capa. E inúmeras da loja em atividade, de funcionários burocráticos trabalhando, etc, etc...

Mas eu havia pensado em fotografar a sala de computadores. Claro, ponto quente da alta tecnologia de ponta do grupo Mesbla. Ela ocupava quase meio andar. No dia que fomos, tive que levar um casaco, pois naquele tempo, computador era sinônimo de baixas temperaturas. E realmente. Tanto eu quanto o fotógrafo, chegamos cedo no local e nos pusemos a estudar ângulos e pensar nas melhores lentes a serem usadas embaixo de uma temperatura das mais congelantes.

Era tudo uma beleza. Aquelas máquinas todas, gigantescas, uma ao lado da outra com seus rolos, mais lembrando um cruzamento de geladeira com toca-fitas “Akai”, estes, uma coqueluche da época. Um cenário espetacular. A sala, também enorme, tinha mais de trinta daquelas peças. Um colosso! Fizemos as fotos e o relatório saiu. Ficou bonito, e, claro, foi para a pasta de trabalhos. Só tem um pequeno detalhe: a capacidade daqueles computadores todos, provavelmente não chegaria a um décimo desta maquininha em que eu escrevo este caso. É mole?

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Um exemplo de sabedoria

Corria o ano de 1970 e eu havia saído da Nova Proudon, que cerrara as portas devido às loucuras do seu dono, que jogou pela janela uma agência que havia crescido, tinha até filial em Belo Horizonte e, de lambuja, entre outras, a conta da Itambé. Fora as do Rio, como a Servenco (1), que à época já propiciava trabalhos bastante criativos e inovadores, a Chosil, a Crisauto ou a Adocyl, cujo lançamento nacional foi feito naquela agência.

Acabei indo trabalhar numa gráfica em São Paulo, a Sografe, que editava uma revista mensal chamada AB-Alimentos e Bebidas. Foi uma senhora experiência diagramar aquela revista, numa saleta ao lado das máquinas que a imprimiam. Isto porque pude aprender muito do processo gráfico, coisa que me foi muito útil numa época em que tudo era artesanal e o conhecimento dessas particularidades técnicas era dominado por poucos diretores de arte, limitando-se mais ao universo dos produtores gráficos.

Para se ter uma idéia, após criar e aprovar os leiautes de cada número, eu fazia a produção, determinava a fonte e calculava o corpo. Depois vinham tiras de celofane com o texto impresso. As cortava e colava com vasilina em grossas folhas de astralão (2), com um gabarito sobre uma mesa de luz, utilizando pinças para manuseá-las, além de réguas e esquadros para manter o esquadro. Uma tarefa precisa, que requeria uma atenção redobrada. As folhas saiam dali e ia-se fazer o fotolito, etapa que eu acompanhava por inteiro. Em seguida, chapas devidamente gravadas, entrava em máquina. Para mim, era só cruzar uma porta e ver duas Solnas (3) maravilhosas a trabalhar. Era emocionante ver tudo aquilo se transformar na revista impressa e tê-la em mãos.

Meses depois, recebi uma proposta e fui trabalhar numa agência, a De Mello & Leonardo, que funcionava no mesmo prédio e cujos donos eram amigos do pessoal da gráfica. Um dos sócios dela era o Zuza Homem de Mello, dos maiores experts do país em música, especialmente o jazz. Tínhamos ótimos papos sobre isso e muito aprendi sobre um gênero musical que sempre me interessou muito. A agência era pequena, no entanto fiz bons trabalhos ali, pois tinha contas como, por exemplo, a Champion Celulose, fabricante de papéis que propiciava a criação de peças criativas, desde embalagens a anúncios em revistas.

Mas, minha mãe tinha uma grande amiga – que eu até chamava de tia –, e conhecia muito a Teresa, casada com o Mauro Salles. E a Salles Interamericana era na época uma das mais promissoras agências que surgiam no Brasil. Com sede em São Paulo, começara seu vôo num quarto do Hotel Jabaquara, onde os profissionais que a fundaram criaram, na calada da noite e a “sete chaves”, a campanha para o “Modelo M” da Willys Overland do Brasil, o carro que viria a ser o Aero-Willys. Depois, com a conta na mão, Mauro fundou a agência.

Consegui agendar um encontro com ele, que me recebeu com muita atenção e boa vontade, tendo me mostrado todas as instalações da sua agência, inclusive me apresentado a outros profissionais. Ao final, disse que assim que tivesse alguma coisa me avisava. Eu saí dali radiante, mas, passou o tempo e não surgiu nada. Alguns anos depois, trabalhando na Salles, agência para qual fui por outros caminhos, os meus mesmos, a conversar com o Mauro, tocamos no assunto e ele me disse que eu estava ali pelo meu próprio mérito, fato que o deixava muito feliz.

Naquele dia eu compreendi muito da sabedoria de Mauro Salles (4)...

(1) A Imobiliária Servenco foi a conta que originou o surgimento da Estrutural Propaganda, que, sob a direção de Rogério Steinberg, foi uma das agências mais criativas do Rio de Janeiro em todos os tempos.

(2) Astralão é conhecido no Rio como acetato.

(3) Solna é uma marca de impressoras suecas de grande qualidade.

(4) Existem alguns casos em que o Mauro Salles é citado neste blogue, mas outro caso que vale a pena ser lido – até por um exemplo de sabedoria – foi publicado em 5 de março de 2007.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

O “caso” do Nelson Ned

Engarrafamento na Lagoa, principalmente ali na curva do calombo é coisa antiga neste Rio de Janeiro. Houve uma época em que era comum a gente subir a rua Tabatinguera para cortar caminho. Como era em “U”, a rua deixava quem a pegasse depois da curva e isso era uma economia de tempo danada.

Bem, um dia peguei o diabo da rua e quando cheguei do outro lado ela estava fechada. Sim, fechadona com peças de concreto, que aliás estão lá até hoje. Tive que manobrar e voltar atrás... bem atrás. Eu e uma meia dúzia de carros que pegaram aquele atalho-macete para avançar alguns metros, mas, àquela altura preciosos metros.

Quando cheguei na agência no dia seguinte, fiquei sabendo de tudo. O Lindoval de Oliveira, o “L” de L&M conseguira mandar fechar a rua, com o auxílio do presidente da Embratel (conta que atendia), porque a zoeira de veículos passando por ali à noite incomodava a ele e toda a vizinhança. Até uma razão muito justa, porque devia ser mesmo infernal.

Mas o Lindoval, apesar de ter cortado o meu caminho para chegar mais rápido em casa, era um bom patrão, um sujeito dotado de um bom humor quase que constante, espírito irônico e brincadeiras constantes. Uma vez, criei uma logomarca para a Portela e ele me chamou para ir uma noite na quadra daquela escola de samba. Com direito a acompanhante e camarote da diretoria. Levei minha mulher e foi uma noite bastante divertida. Apesar do barulho quase ensurdecedor.

Houve um final de ano que ele convidou toda a criação da agência para ir a uma festa no seu apartamento. Na ocasião, morava na Lagoa, mas numa outra transversal que não me recordo o nome. Eram três duplas, além do diretor de criação, a revisora o RTVC e mais acompanhantes, somando em torno de doze pessoas. Uma festa em petit comité. Logo que chegamos, Lindoval e a esposa armaram um tablado desdobrável na grande sala do apê, formando assim uma pista de dança. Rolaram muito uísque, cerveja, vinho e fosse lá o que se quisesse beber, de campari a gin. Isso acompanhado de muitos canapés. A música começou a distrair os ouvidos e alegrar o ambiente. Primeiro mais calmamente e à medida que o tempo passava elas esquentavam.

Mas o mais inesquecível naquela festa, foi sem dúvida o pileque do Mauro Matos, então o diretor de criação da L&M. O cara entrou numa louquíssima e lá pras tantas, quando tocava um samba, se jogava no chão, e de joelhos continuava a dançar gritando: “Nelson Ned!”. Foi muito engraçada a situação. O pior é que na saída ainda brigou com a Maria Isabel, sua mulher, porque queria ir dirigindo pra casa. Tombou no banco antes de consumar a loucura.

Na segunda-feira, encontrei o Mauro. Talvez ainda de ressaca, dois dias depois, mas, segundo ele com os joelhos em pandarecos.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Um dia na fama, o outro na lama

Nosso parceiro Delano D’Ávila nos envia mais um caso.

Bermudas e sandálias brancas. Estreava uma blusa amarelo gema com fivelas, tiras e cintas dentre outros penduricalhos e bolsos inúteis, óculos Ray Ban. Tudo isso me dava um ar de felicidade primavera-verão. E bota feliz nisso Foi assim que fui naquele sábado pra JMM quando nem precisava ir.
Nem os documentos peguei. Esqueci, sei lá. Peguei o Corcel verde alface rumo a Avenida Almirante Barroso não fazer nada.

Mal chegando ouço gritos em uníssono nos corredores da agencia; “Enfim o nosso homem!!!” Como assim?
Rubinho, nosso gerente faz tudo tomou a frente e disse num tom agoniado de um problema sério no rótulo da cerveja Port numa gráfica em BH. Que o Marcelo Martinez, diretor de arte da peça estando fora só mesmo eu teria condição técnica, possibilidade de viajar e resolver a coisa. A gráfica teria que rodar alguns milhares deles com distribuição de garrafas já comprometida e atrasada.
Mas se nem os documentos estavam comigo, como viajar? perguntei.
“Ora Delano, sou amigo do Coronel Fulano Cicrano da Líder e resolvo essa parada.” disse o professor Cid Pacheco saboreando poder ao lado de Lula Vieira, então diretor de criação e sócio do Medeiros. “Deixa comigo, vamos já pra lá!”

Verdade. Em poucos minutos lá estava eu dentro do nada discreto visual esportivo, nada no bolso ou nas mãos, rumando para BH.
Hora e pouco depois céu 85 por cento de preto, uma água só. No aeroporto, o cicerone ainda sequinho achou graça do meu visual turístico.
O táxi também voou e nos vimos numa pirambeira de barro puro. A rua da gráfica parecia uma mistura de afluente do Tietê com pista de motocross. Chegar na calçada só saltando e aí scataplaaaaaaaassssssshhhhhhhhhhh. Passei de amarelo e branco para marrom. Todo marrom. Uma cor que se em si já era comprometedora, no decorrer da história, de nervoso, fui ficando mais ainda.

A publicidade tem dessas coisas. Num dia você está num festival do Copacabana Palace, perfumado, elegante, cercado de colegas e clientes. Num outro, todo borrado, fedorento, duro, e pior, tendo que, diante de pessoas aborrecidas querendo te engolir, solucionar a falha dos cariocas irresponsáveis, que só pensam naquilo e praia. Que ironia.

Imagine então quando o tal imbroglio a resolver ficava bem no meio daqueles textos legais, em corpo 4, tendo que enfiar no dito cujo (pelo menos era só no dito cujo) uma palavra maior do que a “errada” e junto a ela um número de doze dígitos. Pra quem de geração mais recente e talvez não saiba, essas mexidas se faziam com meia gilete quebrada de modo a ficar bem pontiaguda. Só assim se cortava entre as letrinhas minúsculas de uma cópia do texto impresso em papel couché antes fixado com spray que produzia uma película transparente. Isso para não borrar enquanto fresco. Quem se borrava era eu no terror da pressão e ficava ainda mais marrom.
Resolvi. Precisava agora voltar pois lembrara só então do aniversário da Telma. 4 de março. E já anoitecera. Da turma que ficou nem obrigado. Do cliente muito menos, não olhou na minha cara.
Nem precisaria dizer que me senti péssimo com todo mundo me olhando no avião como a um mendigo. Foda-se! Não conhecia mesmo ninguém e em hora e pouco estaria no colo da noivinha... Caramba! Que horas são?
Se já não havia celular, estar num avião bloqueava qualquer possibilidade de comunicação. 8 da noite, chegaria em casa no mínimo as dez. Xiiii!!! A história estava mais marrom ainda. Quase preto.

O ônibus de transferência para o prédio do aeroporto deveria comportar sentadas umas 28 pessoas. Como fui o vigésimo nono a entrar fiquei totalmente na berlinda. Todos me olhando. Quase berrei geral: Que que é? Nunca viram um milionário excêntrico voltando de um rallye de moto? Não berrei. Me limitei a olhar por baixo dos óculos escuros, ver as horas no relógio e imaginar ter perdido a mulher. Já passava das 10.

Dez dias depois. Só 10 dias depois consegui convencer a noiva que o fato tinha acontecido mesmo. Que o ofício tinha dessas coisas repentinas e urgentes. Cara de pau limpei a barra e o barro.