quinta-feira, janeiro 01, 2009

Perdas e ganhos

Foi-se 2008. Um ano de grandes perdas, quantitativa e qualitativamente falando. Isto porque foram-se com ele também muitos profissionais da publicidade carioca. Podemos começar pelo Cid Pacheco e João Moacir de Medeiros, os responsáveis por uma grande virada da comunicação brasileira. Sim, a JMM foi uma agência que inovou, mexeu no marketing dos clientes. Sem trocadilhos uma umbrella (1) dos novos tempos que se seguiram.

E o Valdo Melo? Quando fui fazer meu estágio na McCann ele havia acabado de sair de lá para a Denison. Naquele tempo já era um profissional conceituado. Foi um dos grandes diretores de arte do Rio de Janeiro. E de São Paulo, de Barcelona e onde quer que tenha pousado o seu talento e imensa criatividade. Em 2005, quando operou-se pela primeira vez do câncer que o levou três anos depois, trabalhei durante dois meses na sua Punch Propaganda, substituindo-o. Convite que, para mim, foi uma grande honra.

Fernando Barbosa Lima foi outro desaparecimento que doeu. Além de fundador da Esquire, foi o autor de programas inesquecíveis da nossa TV ao longo de toda a sua história, mas principalmente na década de 80. Como o Abertura e o Canal Livre – não este que está aí, mas o primeiro – que escreveram história num momento de transição da política brasileira. Junto com o Medeiros, fundou a Sinal, agência que atendeu o Banco Nacional, na qual tive o prazer de trabalhar.

Lindoval de Oliveira já havia realizado um bom trabalho na McCann do Rio de Janeiro. Mas foi a L&M que marcou o seu nome em definitivo no cenário da publicidade carioca. Contas como Alitalia, Casa Tavares, Embratel, Pantene e Philip Morris (cuja sede era em São Paulo), foram muito bem atendidas sob a sua batuta e do seu sócio Mozart dos Santos Melo. Figura sorridente, o prezado (2) foi também diretor da Portela (3) durante um bom tempo.

Perdi também o bom amigo Carlos Areias, que conheci na Salles, e me levou para a Asa em Belo Horizonte, para assumir pela primeira vez o cargo de diretor de criação. O inesquecível Areias, “portuga” bem humorado, que um dia virou-se para mim e para o Favilla e disse: “... afinal, ninguém é português impunemente”, após ter cometido um pequeno deslize gramatical num pedido de trabalho.

E para mim uma perda irreparável e a mais dolorosa de todas. A do meu ex-dupla e exemplo de profissional criativo, de dignidade, de amizade e de modéstia, o Paulo Cezar Costa, Paulinho para os íntimos. Aquele que criou o famoso jingle de Natal do Banco Nacional (4), a assinatura “Veja, indispensável” usada pela revista até hoje e o slogan “Coca Cola é isso aí”, que rodou o mundo inteirinho traduzido para não sei nem quantas línguas, no tempo em que foi diretor de criação da McCann.

Talvez tenha esquecido alguém. Ou algum com quem não tivesse convivido com tanta intimidade quanto esses. Mas de qualquer maneira, sete que se vão, e que, sem dúvida valiam por 700. Porque trabalharam muito, ajudando a construir um mercado sério, que, se diluiu por razões que estavam além de suas forças, motivo do esvaziamento do Rio de Janeiro à medida que foi perdendo sua força política no cenário nacional.

Todavia foi um ano de ganhos. Conheci a Cínara, sobrinha do Medeiros – que me descobriu através deste blogue –, e está a escrever uma biografia do tio famoso. Tenho colaborado com ela, na medida do possível, enviando alguns fatos e casos. E indicando contatos de publicitários que poderão dar subsídios para o livro que ela começou, quando ele ainda vivia, através de seus próprios depoimentos.

(1) O guarda-chuvas foi o símbolo criado pela JMM para o Banco Nacional e que o diferenciou e colocou à frente dos concorrentes à época, como o banco mais ousado e moderno do Brasil.

(2) Lindoval chamava a todos de “prezado” o que se tornou uma característica.

(3) Quando diretor do G.R.E.S Portela, eu trabalhava na L&M e criei a seu pedido um símbolo (ou logomarca) para a Escola sobre o tema mulher.

(4) Existem muitos “autores” desta obra-prima da publicidade em todos os tempos, mas a autoria mesmo é do Paulinho.

18 comentários:

jr disse...

Foram muitos os que se foram neste ano. Sem piadas, parece até que foi uma epidemis. Mas é sinal que a turma da publicidade está ficando velha. pelo mensoa turma do tempo do pasteup e da moviola.
E lhe desejo bons vôos nesta sua nova empreitada. Você merece.

Jonga Olivieri disse...

Pelos deuses, JR... epidemia é humor negro!
Mas, obrigado pelos votos de um vôo seguro em 2009.

Cinara Medeiros Marinho de Andrade disse...

A vida nos tira pessoas importantes sem aviso brevio, assim como coloca pessoas especiais na nossa vida. Ganhei um amigo bom, VOCE! entre tantas perdas vividas em 2008.
Seu incentivo esta sendo essencial para continuar os escritos. Ate breve.
Um grande abraco.

Jonga Olivieri disse...

Obrigado Cinara.
Você também foi um ganho para mim neste 2008. Tanto que consta na postagem.
E tem sido ótimo ajudar você a escrever este livro.

Professor Texto disse...

"...Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida" (Nascimento e Brand)

Toquemos esse trem avante, meu amigo.

Jonga Olivieri disse...

Pelo menos... enquanto sobrevivemos, meu caro professor Luiz.

leonardo disse...

Perdas de peso para um mercado que já perdeu muito de sua expressão no cenário da publicidade brasileira.

redatozim disse...

e nós ganhamos só coisas boas nestes causos da propaganda

Jonga Olivieri disse...

Leonardo. Agora é tarde e nem adianta lamentar.
O mercado publicitário carioca sifu quando a capital foi definitivamente para Brasília e as agências de Sampa abocanharam as contas de produtos daqui.
Ficamos com serviços e varejo, quer dizer: propaganda "menor"...

Jonga Olivieri disse...

Obrigado Maurilo. palavras assim me estimulam a continuar.

Anita disse...

Triste computar o deapareciemnto de pessoas tão famosas quanto sabidamente competentes.

Jonga Olivieri disse...

E forma muitos, Anita. Como disse o JR, parece mais uma epidemia.

Anônimo disse...

Que coisa! Ainda bem que no final, alvíssaras!
Amélia

Jonga Olivieri disse...

Ainda bem...

Anônimo disse...

O tempo passa
o tempo voa
e a turma da pesada
vai pedindo pra sair...

Cantídio Tarsitano

Jonga Olivieri disse...

Piadinha de mal gosto, hem Cantídio...

Julio Negri disse...

Pelo que você conta trabalhou com todos eles.

Jonga Olivieri disse...

Sim, Júlio, trabalhei com todos os citados na postagem. Com alguns, mais de uma ocasião, como no caso do Areias (Salles e Asa) ou o Paulinho Costa (todas as duas vezes na VS).